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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250049</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Cidades que adoecem: A rela&ccedil;&atilde;o entre urbanismo e sa&uacute;de</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Bianca Bosso<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Especialista em Jornalismo Cient&iacute;fico e   Bacharela em Ci&ecirc;ncias Biol&oacute;gicas (Unicamp). Iniciou sua trajet&oacute;ria na   Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica no ano de 2018. J&aacute; desenvolveu pautas para revistas como   Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, ComCi&ecirc;ncia e Ci&ecirc;ncia Hoje, al&eacute;m de sites como Ag&ecirc;ncia   Bori, Jornal da Unicamp, Portal Campinas Inovadora e blog Ci&ecirc;ncia na Rua.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Em julho de 2014, durante um evento no Instituto de C&acirc;ncer   Dana-Farber, a pesquisadora e bioestat&iacute;stica americana Melody Goodman lan&ccedil;ou   uma provoca&ccedil;&atilde;o que ainda ecoa, mesmo ap&oacute;s uma d&eacute;cada, nos debates sobre sa&uacute;de   p&uacute;blica: o lugar em que voc&ecirc; mora pode dizer mais sobre sua sa&uacute;de do que o seu   pr&oacute;prio c&oacute;digo gen&eacute;tico. Embora sucinta, a afirma&ccedil;&atilde;o carrega reflex&otilde;es   importantes sobre como as condi&ccedil;&otilde;es que cercam o cotidiano s&atilde;o decisivas na   manuten&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de f&iacute;sica e mental. Nesse contexto, o urbanismo e o modo como   planejamos nossas cidades ganham destaque, com potencial de criar e manter   espa&ccedil;os voltados &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de que rompem, aos poucos, com a l&oacute;gica de   crescimento desordenado que transforma as cidades em lugares que adoecem.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">De acordo com o Censo Demogr&aacute;fico de 2022, do Instituto   Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), 87,4% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, ou   mais de 177,5 milh&otilde;es de pessoas, vive em &aacute;reas urbanas. Em rela&ccedil;&atilde;o ao   levantamento de 2010, houve um crescimento de 3% no n&uacute;mero de moradores nas   cidades. A pesquisa evidencia que a migra&ccedil;&atilde;o do campo para os centros urbanos,   acelerada desde os anos 1960, ainda &eacute; uma realidade. Esse movimento imp&otilde;e   desafios crescentes ao planejamento urbano, j&aacute; que &eacute; preciso acolher mais pessoas   e atender suas necessidades com efici&ecirc;ncia. "As grandes aglomera&ccedil;&otilde;es urbanas   gigantes do s&eacute;culo XX n&atilde;o possuem mais nada daquilo que no passado chamava-se   cidade", diz Jean-Louis Harouel em seu livro "Hist&oacute;ria do Urbanismo". O autor   destaca como alguns dos principais desafios o crescimento demogr&aacute;fico, a perda   de espa&ccedil;o individual e o aumento no consumo de bens e servi&ccedil;os. Cabe ao   urbanismo, ent&atilde;o, interpretar essas novas demandas e propor solu&ccedil;&otilde;es que tornem   os espa&ccedil;os mais funcionais, inclusivos e saud&aacute;veis.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>Em alguns   casos, o lucro acaba ganhando destaque em detrimento da sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para alcan&ccedil;ar essa meta, &eacute; preciso, por exemplo, equilibrar   o avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico com o aproveitamento do territ&oacute;rio e com a produtividade,   visando metas econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas. Por&eacute;m, esse processo pode deixar rastros   - como desigualdades ou a prioriza&ccedil;&atilde;o de certos aspectos em detrimento de   outros - que afetam direta ou indiretamente a sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o. "Em alguns   casos, o lucro acaba ganhando destaque em detrimento da sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o",   diz Paulo Saldiva, m&eacute;dico patologista e professor da Faculdade de Medicina da   Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Diante dessa complexidade, Helena Ribeiro e   Heliana Comin Vargas, pesquisadoras da Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica e da   Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, respectivamente, propuseram uma   classifica&ccedil;&atilde;o guiada por quatro aspectos centrais para analisar a qualidade do   ambiente urbano na promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de: biol&oacute;gico, social, econ&ocirc;mico e espacial.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No aspecto biol&oacute;gico, as autoras destacam fatores como   saneamento b&aacute;sico e qualidade do ar. A dimens&atilde;o social envolve a presen&ccedil;a de   espa&ccedil;os de conviv&ecirc;ncia e oportunidades de socializa&ccedil;&atilde;o, entre outros. No campo   econ&ocirc;mico, entram em cena a diversidade de atividades, a oferta de   oportunidades e a produtividade. Por fim, no aspecto espacial, s&atilde;o importantes   elementos como acessibilidade, desenho urbano, espa&ccedil;os abertos e &aacute;reas verdes.   Entender como esses fatores se articulam no meio urbano &eacute; essencial para avaliar   os efeitos da urbaniza&ccedil;&atilde;o na sa&uacute;de das popula&ccedil;&otilde;es e propor caminhos mais   equilibrados e sustent&aacute;veis para o futuro das cidades.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Ar que pesa no cora&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Agrave; medida que as cidades se tornaram mais produtivas e   densas, o ar tamb&eacute;m passou a pesar mais. As atividades industriais e os   ve&iacute;culos automotores, que se popularizaram no s&eacute;culo XX com a concentra&ccedil;&atilde;o   urbana, tornaram-se as principais fontes de contaminantes que poluem o ar e   afetam diretamente a sa&uacute;de. Mais recentemente, estudos revelaram que essa   mistura invis&iacute;vel de part&iacute;culas e gases penetra fundo nos pulm&otilde;es, alcan&ccedil;a a   corrente sangu&iacute;nea e afeta diversos &oacute;rg&atilde;os e sistemas. "A polui&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica   &eacute; como um equivalente ambiental do cigarro", diz Paulo Saldiva. "Ela entra no   corpo, &eacute; distribu&iacute;da pela corrente sangu&iacute;nea e afeta todo o organismo.   Inclusive, pode atravessar a placenta de gestantes e chegar no beb&ecirc;",   complementa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em um de seus estudos, Paulo Saldiva investiga a rela&ccedil;&atilde;o   entre polui&ccedil;&atilde;o e doen&ccedil;as card&iacute;acas. O trabalho, denominado "Associa&ccedil;&atilde;o do   ac&uacute;mulo de carbono negro pulmonar com fibrose card&iacute;aca em residentes de S&atilde;o   Paulo, Brasil", mostra que a exposi&ccedil;&atilde;o prolongada &agrave; polui&ccedil;&atilde;o pode favorecer o   aumento dos riscos card&iacute;acos, especialmente em pessoas hipertensas e fumantes.   De acordo com os dados, quanto maior o tempo de exposi&ccedil;&atilde;o, maiores s&atilde;o as   chances de se desenvolver fibrose card&iacute;aca, um indicador importante de doen&ccedil;as   no cora&ccedil;&atilde;o. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a14fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">No cen&aacute;rio descrito por Helena Ribeiro e Heliana Comin   Vargas, onde a qualidade do ar &eacute; um dos par&acirc;metros para avaliar ambientes   urbanos saud&aacute;veis, o m&eacute;dico ressalta que os efeitos da polui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o iguais   para todos. "O n&iacute;vel de concentra&ccedil;&atilde;o de polui&ccedil;&atilde;o ambiental n&atilde;o significa que a   dose recebida &eacute; a mesma para todos. Se voc&ecirc; est&aacute; em um corredor de tr&aacute;fego por   horas, recebe uma dose maior porque a concentra&ccedil;&atilde;o daquele ambiente &eacute;   particularmente mais elevada", exemplifica, em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia FAPESP. Para   ele, isso refor&ccedil;a como o planejamento urbano e a distribui&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o   impactam a sa&uacute;de. "Muitas vezes, quem tem menos recursos acaba morando em   regi&otilde;es mais afastadas e precisa enfrentar longos deslocamentos di&aacute;rios",   comenta. "Sem mencionar que o preju&iacute;zo ao sono por conta do tempo que se leva   no tr&acirc;nsito, por exemplo, pode prejudicar a sa&uacute;de mental e favorecer   transtornos como ansiedade, depress&atilde;o ou mesmo esquizofrenia, se houver   tend&ecirc;ncia gen&eacute;tica", alerta.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m do cora&ccedil;&atilde;o, o c&eacute;rebro tamb&eacute;m pode ser afetado pela   polui&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica. "Existe uma associa&ccedil;&atilde;o epidemiol&oacute;gica entre a dem&ecirc;ncia, o   Alzheimer e exposi&ccedil;&atilde;o cr&ocirc;nica aos poluentes", destaca Paulo Saldiva em   entrevista ao Instituto Conhecimento Liberta. Ele explica que o c&eacute;rebro pode   ser atingido pelos poluentes por dois canais: a corrente sangu&iacute;nea e o epit&eacute;lio   do nariz - a fina camada de pele que reveste as narinas internamente. "Nunca   nosso c&eacute;rebro esteve t&atilde;o pr&oacute;ximo das ruas; ele est&aacute; separado por uma fina   camada de c&eacute;lulas [...] e nervos (...)", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre as solu&ccedil;&otilde;es defendidas por Paulo Saldiva para   enfrentar os impactos da polui&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o os investimentos em transportes de   baixa emiss&atilde;o. "Um transporte de massa eficiente e de baixa emiss&atilde;o n&atilde;o depende   s&oacute; de tecnologia. &Eacute; preciso planejamento urbano", diz. "O carro el&eacute;trico, por   exemplo, pode parecer uma alternativa sustent&aacute;vel, mas n&atilde;o resolve o problema   estrutural: continua sendo um transporte individual e de alto custo energ&eacute;tico   para produ&ccedil;&atilde;o. Ou seja, mant&eacute;m o mesmo modelo rodovi&aacute;rio, quando o ideal seria   investir em transporte coletivo el&eacute;trico e em solu&ccedil;&otilde;es compartilhadas para os   trajetos curtos", conclui. O adensamento populacional tamb&eacute;m &eacute; uma das   propostas do pesquisador. "Em S&atilde;o Paulo, por exemplo, bairros da Zona Leste   concentram uma grande popula&ccedil;&atilde;o que precisa se deslocar para o centro todos os   dias. O metr&ocirc; vai lotado em um sentido pela manh&atilde;, e vazio no outro. &Agrave; tarde, o   movimento se inverte. Isso mostra que a cidade est&aacute; desequilibrada e que seria   preciso redistribuir empregos, moradia e servi&ccedil;os", aponta.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>A polui&ccedil;&atilde;o   atmosf&eacute;rica &eacute; como um equivalente ambiental do cigarro</i>."</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Natureza ausente e a import&acirc;ncia dos espa&ccedil;os verdes</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O discurso de Paulo Saldiva tamb&eacute;m se alinha &agrave; proposta de   Helena Ribeiro e Heliana Comin Vargas ao defender que uma cidade mais saud&aacute;vel   exige a prioriza&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os verdes nos centros urbanos. "A vegeta&ccedil;&atilde;o ajuda   de v&aacute;rias formas", defende o m&eacute;dico. "Primeiro, porque aumenta a umidade do ar.   As part&iacute;culas poluentes se juntam &agrave;s got&iacute;culas de vapor d'&aacute;gua, condensam e   caem no ch&atilde;o. &Eacute; como se a umidade agisse como um filtro natural", exemplifica.   Ele destaca que as folhas tamb&eacute;m atuam como barreiras f&iacute;sicas. "Elas t&ecirc;m uma   camada de cera que ret&eacute;m part&iacute;culas. Se voc&ecirc; passar um algod&atilde;o branco numa   folha de &aacute;rvore perto de uma avenida, vai ver a quantidade de sujeira que ela   acumulou", ressalta. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a14fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Algumas iniciativas em andamento, como as hortas urbanas,   s&atilde;o importantes nesse contexto. Let&iacute;cia Machado, Ge&oacute;grafa e Mestre em Ci&ecirc;ncias   pela Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica da USP, estudou esse tema em sua pesquisa   "Hortas Urbanas: acesso a alimentos saud&aacute;veis e promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de em uma   metr&oacute;pole". Ela destaca o papel multifuncional das hortas, que al&eacute;m de ampliar   a vegeta&ccedil;&atilde;o urbana e gerar benef&iacute;cios ambientais, promovem o acesso a alimentos   naturais como hortali&ccedil;as, legumes e frutas. "O consumo desses alimentos &eacute;   fundamental para a obten&ccedil;&atilde;o de vitaminas e nutrientes para o organismo e para   combater as tend&ecirc;ncias identificadas pela &uacute;ltima Pesquisa de Or&ccedil;amentos   Familiares (POF), que mostram redu&ccedil;&atilde;o no consumo de hortali&ccedil;as", diz. Segundo   Let&iacute;cia Machado, a agricultura urbana aproxima e descentraliza a produ&ccedil;&atilde;o,   facilitando o acesso e incentivando o consumo. "No meu mestrado, entrevistei   pessoas que disseram ter voltado a consumir hortali&ccedil;as com mais frequ&ecirc;ncia   justamente porque a horta ficava perto de casa. A proximidade permitia visitas   di&aacute;rias e o acesso a alimentos frescos, o que facilitava a inclus&atilde;o desses   itens na alimenta&ccedil;&atilde;o", recorda.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m dos benef&iacute;cios f&iacute;sicos, espa&ccedil;os verdes, como as hortas   urbanas, tamb&eacute;m promovem sa&uacute;de mental. "As hortas urbanas s&atilde;o muito utilizadas   como pr&aacute;tica de sociabilidade para pessoas idosas, ajudando a reduzir quadros   de depress&atilde;o e promovendo bem-estar", diz Let&iacute;cia Machado. "H&aacute; experi&ecirc;ncias que   mostram a import&acirc;ncia das hortas pedag&oacute;gicas na intera&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as com a   natureza. &Eacute; uma forma pr&aacute;tica e l&uacute;dica de aprender, que estimula o cuidado com   o meio ambiente desde cedo", complementa. Ela ainda ressalta o potencial desses   espa&ccedil;os para aliviar o estresse. "Passar um tempo mexendo com a terra e   cultivando plantas ajuda a desconectar das press&otilde;es do dia a dia - algo   especialmente valioso para quem vive nas grandes cidades", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Paulo Saldiva salienta que a inclus&atilde;o de espa&ccedil;os verdes pode   ser adaptada &agrave;s necessidades e &agrave; realidade do local. "A &aacute;rea verde n&atilde;o precisa   estar s&oacute; no ch&atilde;o. Em muitos lugares, simplesmente n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o dispon&iacute;vel para   criar parques ou jardins. Mas h&aacute; tetos. E &eacute; justamente a&iacute; que entram solu&ccedil;&otilde;es   como os telhados verdes, que ajudam a reduzir o calor dentro das casas",   exemplifica. "A arboriza&ccedil;&atilde;o ajuda em quest&otilde;es como a polui&ccedil;&atilde;o, sim, mas, para   isso, &eacute; fundamental usar esp&eacute;cies adequadas ao clima e ao solo da regi&atilde;o. A   dificuldade est&aacute; em colocar tudo isso em pr&aacute;tica", aponta.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>Repensar o   desenho urbano &eacute; reconhecer que a sa&uacute;de est&aacute; na qualidade dos ambientes em que   vivemos</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Agrave;s v&eacute;speras de sediar a Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre   as Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas de 2025 (COP 30), um evento internacional que acontecer&aacute; no Brasil em novembro de 2025, o governo do Par&aacute; parece enfrentar esse dilema. Plantas naturais e   ornamentais, fixadas em vergalh&otilde;es que simulam o formato de &aacute;rvores,   foram instaladas para complementar a arboriza&ccedil;&atilde;o de sua capital, Bel&eacute;m. O projeto foi chamado de "jardins suspensos" e tem previs&atilde;o de somar   180 estruturas at&eacute; novembro. Vivian Blaso, Especialista em Gest&atilde;o Respons&aacute;vel   para Sustentabilidade e coidealizadora do projeto "Cidades Afetivas", considera   essa iniciativa um equ&iacute;voco. "Isso demonstra uma falta de planejamento e de   vis&atilde;o sist&ecirc;mica integrada sobre o papel da natureza nas cidades", argumenta. "O   problema n&atilde;o &eacute; apenas a instala&ccedil;&atilde;o de estruturas artificiais, mas o que elas   representam: um discurso que valoriza a imagem de sustentabilidade em   detrimento de pr&aacute;ticas que regeneram, de fato, os territ&oacute;rios, fortalecem a   sa&uacute;de e a rela&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o com a natureza viva", conclui. Ela aponta que   tais estruturas podem funcionar melhor como elementos est&eacute;ticos do que como   promotores reais de sa&uacute;de, bem-estar e mitiga&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Urbanismo do cuidado: &eacute; poss&iacute;vel sonhar com cidades que   curam?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A provoca&ccedil;&atilde;o de Melody Goodman sobre o impacto do ambiente   na sa&uacute;de ressalta a import&acirc;ncia de colocar a promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de no centro do   planejamento urbano. Segundo Paulo Saldiva, esse era justamente o objetivo   original do urbanismo, mas o crescimento das cidades desviou esse foco. "O   urbanismo nasceu para promover a sa&uacute;de. A cria&ccedil;&atilde;o dos sistemas de esgoto e o   reordenamento urbano, por exemplo, surgiram como resposta direta ao adoecimento   da popula&ccedil;&atilde;o", explica. "Hoje, se visa o lucro. Algo precisa ter valor agregado   para que seja priorizado", aponta o m&eacute;dico, que prop&otilde;e criar incentivos   financeiros para solu&ccedil;&otilde;es que promovam sa&uacute;de e bem-estar.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Quando chove forte em S&atilde;o Paulo, a &aacute;gua n&atilde;o tem mais para   onde escoar. A impermeabiliza&ccedil;&atilde;o do solo faz com que ela v&aacute; direto para as   ruas, causando inunda&ccedil;&otilde;es. Mas, e se, em vez disso, houvesse incentivos para a   coleta de &aacute;gua da chuva nos pr&eacute;dios e casas, como desconto no IPTU, por   exemplo?". Ele defende que a cria&ccedil;&atilde;o de reservat&oacute;rios descentralizados ajudaria   a reduzir o impacto das chuvas no sistema p&uacute;blico de drenagem, aliviando o   estresse h&iacute;drico nas cidades e prevenindo problemas de sa&uacute;de f&iacute;sica e mental   associados a enchentes e desastres ambientais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Vivian Blaso, transformar o desenho urbano &eacute; essencial   para tornar os espa&ccedil;os mais saud&aacute;veis. "O desenho urbano precisa ser   ressignificado a partir de uma perspectiva sist&ecirc;mica, sens&iacute;vel e afetiva, que   considere a cidade como um organismo vivo e interdependente, n&atilde;o apenas como um   conjunto de infraestruturas e fluxos funcionais", diz. Segundo ela, &eacute; preciso   "planejar espa&ccedil;os que acolham as diversidades socioculturais dos corpos, das   culturas e dos modos de vida e que promovam sa&uacute;de e qualidade de vida n&atilde;o   apenas como aus&ecirc;ncia de doen&ccedil;a, mas como bem-estar integral, pertencimento e   capacidade de regenerar os v&iacute;nculos com os outros e com o territ&oacute;rio". Vivian   destaca que os munic&iacute;pios devem priorizar &aacute;reas verdes acess&iacute;veis, espa&ccedil;os de   encontro e contempla&ccedil;&atilde;o, corredores ecol&oacute;gicos e trajetos caminh&aacute;veis que   aproximem as pessoas da natureza cotidiana. "Ao mesmo tempo, precisam garantir   ambientes seguros, inclusivos e esteticamente cuidados, capazes de estimular a   confian&ccedil;a, reduzir a ansiedade clim&aacute;tica e gerar sentido de comunidade,   religando ao esp&iacute;rito comunit&aacute;rio", defende.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em seu discurso no Instituto de C&acirc;ncer Dana-Farber, Melody   Goodman afirmou que o objetivo de seu trabalho com disparidades em sa&uacute;de &eacute; ir   al&eacute;m da identifica&ccedil;&atilde;o dos problemas, buscando solu&ccedil;&otilde;es que construam   comunidades saud&aacute;veis para todos. Essa vis&atilde;o tamb&eacute;m aparece na fala de Vivian   Blaso, que prop&otilde;e uma mudan&ccedil;a profunda na forma de pensar os centros urbanos - n&atilde;o mais como espa&ccedil;os que   adoecem, mas como cidades que curam. "Repensar   o desenho urbano &eacute; reconhecer que a sa&uacute;de   est&aacute; na qualidade dos ambientes em que vivemos, na   possibilidade dos afetos, no reconhecimento das rela&ccedil;&otilde;es com os outros e na   sensa&ccedil;&atilde;o de pertencimento c&oacute;smico da nossa rela&ccedil;&atilde;o com o todo. Esse &eacute; o ponto de partida para   imaginarmos o futuro das cidades e para que os espa&ccedil;os constru&iacute;dos sejam   capazes de sustentar a vida em todas as suas m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es",   conclui.</font></p>      ]]></body>
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