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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250050</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>A arte urbana como voz do meio ambiente</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Chris Bueno<sup>I</sup>; Priscylla Almeida<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista, escritora, divulgadora de ci&ecirc;ncias,   editora-executiva da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, e m&atilde;e apaixonada por   escrever (especialmente sobre ci&ecirc;ncia).    <br>   <sup>II</sup>Jornalista e produtora de conte&uacute;do para &aacute;reas de sa&uacute;de e ci&ecirc;ncia,   marketing e publicidade. Apaixonada por filmes, gatinhos e pela rotina din&acirc;mica   que a comunica&ccedil;&atilde;o traz: o contato com gente, a curiosidade de assuntos   diversos, a troca.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A arte sempre teve o poder de dar visibilidade ao que est&aacute;   escondido e voz ao que n&atilde;o &eacute; ouvido. Por isso, em tempos de mudan&ccedil;as   clim&aacute;ticas, crise ambiental e desigualdade social exacerbadas, em que o planeta   e a sociedade gritam por transforma&ccedil;&otilde;es urgentes, a arte urbana tem se mostrado   um porta-voz tanto do meio ambiente quanto da periferia. Unir arte e ativismo   ambiental tem se revelado uma estrat&eacute;gia poderosa de mobiliza&ccedil;&atilde;o social nas   cidades. Por meio de grafites, murais, instala&ccedil;&otilde;es e performances, artistas   urbanos transformam o espa&ccedil;o p&uacute;blico em plataformas de den&uacute;ncia, reflex&atilde;o e   inspira&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>A vida   saud&aacute;vel no planeta &eacute; incompat&iacute;vel com os interesses de governantes e do   neoliberalismo</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essas interven&ccedil;&otilde;es, acess&iacute;veis e visualmente impactantes,   colocam em pauta temas como polui&ccedil;&atilde;o, desmatamento, mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e   sustentabilidade, levando a mensagem ambiental para al&eacute;m das salas de aula e   institui&ccedil;&otilde;es formais. Ao sensibilizar a popula&ccedil;&atilde;o de forma direta e afetiva, a   arte urbana n&atilde;o apenas denuncia os problemas, mas tamb&eacute;m prop&otilde;e imagin&aacute;rios   coletivos para futuros mais sustent&aacute;veis, tornando-se uma aliada fundamental na   educa&ccedil;&atilde;o ambiental contempor&acirc;nea.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Daniela Mendes Cidade, professora do Departamento de   Arquitetura e pesquisadora na &aacute;rea de Arquitetura e Artes Visuais da   Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o debate sobre   sustentabilidade vem sendo tratado com preocupa&ccedil;&atilde;o no campo da arte, assim como   na arquitetura e no urbanismo, entre outras &aacute;reas do conhecimento. No entanto,   ela ressalta que os desafios continuam imensos: "A vida saud&aacute;vel no planeta &eacute;   incompat&iacute;vel com os interesses de governantes e do neoliberalismo". A arte, nesse   contexto, torna-se um canal potente de express&atilde;o, provoca&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o &#151; mesmo   quando esse vi&eacute;s educativo n&atilde;o &eacute; intencional. "Aproximando arte e vida,   artistas encontram na cidade um meio de atingir o p&uacute;blico em geral de uma   maneira mais direta. Arte urbana &eacute; como um 'trope&ccedil;o' no andar cotidiano. Nos   faz parar, olhar, pensar o presente e imaginar um futuro melhor. Se o que ela   traz &eacute; uma abordagem sobre o meio ambiente, ela vai nos fazer refletir sobre   isso. E refletindo sobre isso, quem sabe possa nos impactar para ter uma   posi&ccedil;&atilde;o mais cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s nossas pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es cotidianas que possam   impactar o meio em que vivemos", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa capacidade de provocar, inspirar e educar tamb&eacute;m &eacute;   destacada por M&aacute;rcia Mariana Bittencourt Brito, professora do Programa de   P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes da Universidade Federal do Par&aacute; (UFPA), que observa como   a crise clim&aacute;tica e a urg&ecirc;ncia da justi&ccedil;a ambiental t&ecirc;m mobilizado artistas,   institui&ccedil;&otilde;es, coletivos e educadores. A arte urbana, segundo ela, &eacute; uma forma   direta de express&atilde;o democr&aacute;tica: "&Eacute; uma express&atilde;o que impulsiona os artistas a   se expressarem livremente e diretamente com as pessoas de forma democr&aacute;tica".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Diego Ricca, professor do curso de Design da Universidade   Federal do Cear&aacute; (UFC), refor&ccedil;a o potencial sens&iacute;vel e comunicativo dessas   interven&ccedil;&otilde;es: "Quando falamos de meio ambiente e sustentabilidade, tratamos de   temas que muitas vezes parecem distantes da experi&ecirc;ncia cotidiana. A arte,   especialmente aquela que ocupa os espa&ccedil;os p&uacute;blicos, tem o poder de traduzir   essas quest&otilde;es em imagens, gestos e formas que tocam afetivamente as pessoas."</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>Quando uma   pra&ccedil;a abriga uma instala&ccedil;&atilde;o que convida &agrave; escuta da natureza ou quando um mural   revela a hist&oacute;ria de um rio enterrado, temos ali um gesto de desestabiliza&ccedil;&atilde;o   do uso normativo do espa&ccedil;o urbano</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse movimento art&iacute;stico ganha ainda mais for&ccedil;a e relev&acirc;ncia   diante dos desafios globais. Com a realiza&ccedil;&atilde;o da 30ª Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es   Unidas sobre Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas (COP30), marcada para ocorrer em 2025 na   cidade de Bel&eacute;m (PA), ser&aacute; a primeira vez que a confer&ecirc;ncia ocorrer&aacute; n&atilde;o apenas   no Brasil, mas tamb&eacute;m no cora&ccedil;&atilde;o da maior floresta tropical do planeta. &Eacute; um   momento simb&oacute;lico e estrat&eacute;gico para reunir governos, cientistas, organiza&ccedil;&otilde;es   e popula&ccedil;&otilde;es tradicionais em torno de a&ccedil;&otilde;es concretas para conter o aquecimento   global. Nesse cen&aacute;rio, a arte urbana aparece como uma aliada vital na   constru&ccedil;&atilde;o de um imagin&aacute;rio coletivo sobre sustentabilidade e justi&ccedil;a clim&aacute;tica   &#151; pintando muros, mas tamb&eacute;m plantando consci&ecirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Arte urbana como ferramenta para discutir o meio ambiente</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A arte urbana tem se consolidado como uma poderosa   ferramenta para levar o debate ambiental a diferentes p&uacute;blicos &#151; especialmente   &agrave;queles historicamente exclu&iacute;dos das grandes decis&otilde;es pol&iacute;ticas. De norte a sul   do Brasil, iniciativas que unem arte, ecologia e cidadania transformam os muros   das cidades em espa&ccedil;os vivos de reflex&atilde;o, den&uacute;ncia e pertencimento. "Como   designer e artista, acredito que sua pot&ecirc;ncia reside justamente na capacidade   de deslocar o olhar, criar estranhamentos e provocar di&aacute;logos onde antes havia   indiferen&ccedil;a", afirma Diego Ricca.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse deslocamento simb&oacute;lico tamb&eacute;m move o trabalho de Liz   Sandoval, arquiteta da Advocacia-Geral da Uni&atilde;o (AGU), pesquisadora do Programa   de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de   Bras&iacute;lia (UnB), e curadora e idealizadora da Mostra Internacional de Cinema de   Arquitetura - Cinema Urbana. Iniciada em Bras&iacute;lia, em 2018, a mostra   rapidamente extrapolou os limites das salas de exibi&ccedil;&atilde;o para ocupar ruas,   escadarias, fachadas e pra&ccedil;as p&uacute;blicas. "Percebi que debater a cidade apenas   dentro da sala escura do cinema era limitador. A cidade precisa ser vivida,   tocada, ocupada", diz Liz Sandoval.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse enraizamento nos territ&oacute;rios tamb&eacute;m &eacute; enfatizado por   M&aacute;rcia Brito. Segundo ela, mesmo com pouca produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica sobre o tema, a   arte urbana n&atilde;o est&aacute; ausente da regi&atilde;o &#151; apenas pulsa fora das universidades.   "A arte revela aquilo que emerge dos desejos e interesses dos artistas. A   forma&ccedil;&atilde;o vem mudando ao longo do tempo, incluindo temas urgentes como   diversidade, racismo e pautas LGBTQIAP+. Tudo isso influencia as linguagens   art&iacute;sticas que encontramos nas ruas", pontua.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A diversidade de linguagens &eacute; imensa: de murais e esculturas   feitas com res&iacute;duos s&oacute;lidos a performances e instala&ccedil;&otilde;es. Daniela Cidade   lembra, por exemplo, do mural "<i>Lutz</i>", realizado por Kelvin Koubik em   Porto Alegre, em homenagem ao ambientalista Jos&eacute; Lutzenberger, vis&iacute;vel de longe   por sua escala e localiza&ccedil;&atilde;o. Ela tamb&eacute;m destaca artistas como Bordalo II, que   cria esculturas de animais com lixo industrial, e a atriz Gabriela Carneiro da   Cunha, cuja performance "<i>Altamira 2042</i>" denuncia os impactos da barragem   de Belo Monte. "A arte do MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens - tamb&eacute;m   merece destaque, sobretudo pelo trabalho do Coletivo de Mulheres Atingidas por   Barragens, que cria obras inspiradas nas <i>Arpilleras</i> chilenas para   denunciar viola&ccedil;&otilde;es ambientais e sociais", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No Brasil, muitos artistas se dedicam a esse tipo de   produ&ccedil;&atilde;o. Diego Ricca lembra do paulistano Mundano, que transformou 250 quilos   da lama de Brumadinho em tinta para criar um mural com 22 rostos das v&iacute;timas.   Seu projeto <i>Pimp My Carro&ccedil;a</i> revitaliza carro&ccedil;as de catadores com   grafites e itens de seguran&ccedil;a, trazendo visibilidade a esses trabalhadores.   "Levei meu trabalho para al&eacute;m dos muros e para as carro&ccedil;as, como um novo   suporte urbano para minha mensagem… os catadores est&atilde;o saindo da invisibilidade   e se tornando cada vez mais respeitados e valorizados", disse o artista durante   o TED Brasil. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a15fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Outros nomes e coletivos tamb&eacute;m se destacam. No Cear&aacute;, o   artista Narc&eacute;lio Grud combina som, paisagem e intera&ccedil;&atilde;o em obras que dialogam   com o meio ambiente. Em Fortaleza, o Festival Concreto, organizado por ele,   convida artistas de diversos pa&iacute;ses a repensarem o espa&ccedil;o urbano. J&aacute; o Coletivo   Ra&iacute;zes do Gri&ocirc; atua na cidade com m&uacute;sica, arte-educa&ccedil;&atilde;o e cultura ancestral,   promovendo encontros entre crian&ccedil;as, jovens e os saberes ind&iacute;genas e africanos.   Rodrigo Cordeiro e o artista Gam&atilde;o, por sua vez, criaram o projeto Grafite   contra enchente, em Tabo&atilde;o da Serra (SP), que alerta para a preserva&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua   com uma gigantesca pintura em uma ponte &#151; a primeira da regi&atilde;o totalmente   grafitada. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a15fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">A s&eacute;rie de iniciativas &eacute; extensa. Em Minas Gerais, o projeto   Arte nas &Aacute;guas de Minas, viabilizado pela Lei Rouanet, leva murais com a   tem&aacute;tica da &aacute;gua a cidades do estado, propondo uma nova forma de pensar o uso   sustent&aacute;vel dos recursos h&iacute;dricos. Em Picos (PI), o projeto <i>Ser Junco</i> transforma lixo em mobili&aacute;rio urbano e arte p&uacute;blica, combinando interven&ccedil;&otilde;es   visuais com a&ccedil;&otilde;es de reflorestamento em bairros perif&eacute;ricos. Em Campinas (SP),   a artista S. Urbana revitalizou a fachada de uma escola p&uacute;blica com um mural   que integra arte e natureza, em parceria com a comunidade local.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">E em Bel&eacute;m do Par&aacute;, cidade que sediar&aacute; a COP30, a   efervesc&ecirc;ncia art&iacute;stica &eacute; vis&iacute;vel nas periferias. M&aacute;rcia Mariana Bittencourt   Brito cita os bairros da Terra Firme, Guam&aacute;, Bengu&iacute;, Jurunas e as ilhas do   Comb&uacute; como territ&oacute;rios vivos de arte e resist&ecirc;ncia. O Museu de Arte Urbana de   Bel&eacute;m e a Bienal das Amaz&ocirc;nias, criada por L&iacute;via Condur&uacute;, re&uacute;nem obras de   artistas como Lenu Art, Daniel Ops, &Eacute;der Oliveira, Drika Chagas, entre outros,   com forte sensibilidade para as quest&otilde;es ambientais e sociais da regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O projeto Favela Galeria, em S&atilde;o Paulo, &eacute; outro exemplo   marcante: criado pelo grupo OPNI, transforma bairros perif&eacute;ricos em verdadeiras   galerias a c&eacute;u aberto, com obras que celebram a cultura local e provocam   reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre o espa&ccedil;o urbano. (<a href="#fig03">Figura 3</a>)</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a15fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Como resume Diego Ricca: "O impacto dessas obras reside na   fus&atilde;o entre est&eacute;tica e &eacute;tica, entre o sens&iacute;vel e o pol&iacute;tico." Ao ocupar as   cidades com arte, essas iniciativas constroem caminhos poss&iacute;veis para uma   educa&ccedil;&atilde;o ambiental mais inclusiva, afetiva e transformadora &#151; uma educa&ccedil;&atilde;o que   fala por imagens, sons, gestos e cores, mas tamb&eacute;m por e com os territ&oacute;rios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Interven&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e transforma&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As interven&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas em espa&ccedil;os urbanos t&ecirc;m o poder de   transformar n&atilde;o apenas a paisagem, mas tamb&eacute;m o modo como nos relacionamos com   a cidade. Mais do que alterar fachadas ou revitalizar muros, essas a&ccedil;&otilde;es   provocam deslocamentos simb&oacute;licos, afetivos e pol&iacute;ticos, despertando novas   percep&ccedil;&otilde;es sobre o territ&oacute;rio, o meio ambiente e as possibilidades de futuro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Daniela Cidade, a arte urbana confere singularidade ao   espa&ccedil;o p&uacute;blico e o ressignifica para al&eacute;m de sua fun&ccedil;&atilde;o utilit&aacute;ria. "A arte   p&uacute;blica d&aacute; sentido ao lugar. O espa&ccedil;o deixa de ser apenas de passagem, moradia   ou trocas de mercadorias, constitu&iacute;do de elementos concretos, e se torna   singular, atuando desde a frui&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica at&eacute; a possibilidade de despertar   para o sens&iacute;vel e provocar afetivamente os transeuntes comuns que muitas vezes   n&atilde;o frequentam espa&ccedil;os de arte institucionais." Em sua vis&atilde;o, a presen&ccedil;a   po&eacute;tica de imagens no cotidiano urbano nos transporta para fora da cidade   concreta, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; natureza ou a um futuro sustent&aacute;vel. "A imagem po&eacute;tica   no cotidiano urbano provoca sim outras narrativas ativadas pela mem&oacute;ria e pelo   invis&iacute;vel &#151; o sentimento e a imagina&ccedil;&atilde;o &#151; que se estabelecem entre imagens   internas e externas: o contexto urbano e o 'fora da cidade'", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">J&aacute; para Diego Ricca, essas interven&ccedil;&otilde;es operam como uma   reconfigura&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e pol&iacute;tica dos territ&oacute;rios urbanos. "Quando uma pra&ccedil;a   abriga uma instala&ccedil;&atilde;o que convida &agrave; escuta da natureza ou quando um mural   revela a hist&oacute;ria de um rio enterrado, temos ali um gesto de desestabiliza&ccedil;&atilde;o   do uso normativo do espa&ccedil;o urbano." Ele destaca a import&acirc;ncia de permitir que   outras vozes &#151; como as da mem&oacute;ria ancestral ou dos futuros poss&iacute;veis &#151; ocupem a   cidade: "Criar novas narrativas n&atilde;o &eacute; apenas contar novas hist&oacute;rias, mas   permitir que outros sujeitos e temporalidades tenham voz. A cidade passa a ser   pensada n&atilde;o como m&aacute;quina de produtividade, mas como ecossistema vivo."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Liz Sandoval tamb&eacute;m defende que a arte urbana contribui para   deslocar o olhar habitual sobre os espa&ccedil;os cotidianos. "Queremos despertar nas   pessoas a consci&ecirc;ncia de que os espa&ccedil;os urbanos n&atilde;o s&atilde;o neutros &#151; eles s&atilde;o   constru&iacute;dos por decis&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e culturais, e carregam marcas   de exclus&atilde;o, resist&ecirc;ncia e mem&oacute;ria." Para ela, ao intervir artisticamente em   escadarias, fachadas, pra&ccedil;as e vias p&uacute;blicas, &eacute; poss&iacute;vel criar momentos de   encontro, cuidado e reflex&atilde;o. "A mensagem central &eacute;: a cidade nos pertence, e   podemos (re)imagin&aacute;-la coletivamente", afirma.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>A for&ccedil;a das periferias: arte, desigualdade e imagina&ccedil;&atilde;o   ecol&oacute;gica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As periferias urbanas concentram algumas das maiores   contradi&ccedil;&otilde;es socioambientais do pa&iacute;s. S&atilde;o territ&oacute;rios onde o racismo ambiental,   a aus&ecirc;ncia de infraestrutura e o descaso hist&oacute;rico do poder p&uacute;blico se tornam   evidentes no cotidiano &#151; e, ao mesmo tempo, onde emergem potentes formas de   resist&ecirc;ncia, cria&ccedil;&atilde;o e reexist&ecirc;ncia. &Eacute; nesse contexto que a arte urbana se   fortalece n&atilde;o apenas como express&atilde;o est&eacute;tica, mas como pr&aacute;tica pol&iacute;tica,   educativa e transformadora.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>A arte tem   papel essencial na mobiliza&ccedil;&atilde;o e sensibiliza&ccedil;&atilde;o. Em alguns casos, ela precede e   impulsiona a&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Sim, acreditamos que a arte que nasce nas periferias &#151;   tanto urbanas quanto geopol&iacute;ticas &#151; tem um papel fundamental e, muitas vezes,   mais potente na mobiliza&ccedil;&atilde;o para causas ambientais", afirma Liz Sandoval. Para   ela, &eacute; justamente por emergir da experi&ecirc;ncia direta de desigualdade ambiental   que essa arte mobiliza com tanta for&ccedil;a. "A arte perif&eacute;rica tem o poder de   traduzir complexidades com linguagem acess&iacute;vel, sens&iacute;vel e conectada ao   territ&oacute;rio, criando v&iacute;nculos afetivos e pol&iacute;ticos com o p&uacute;blico." A partir de   viv&ecirc;ncias concretas com a crise clim&aacute;tica, a polui&ccedil;&atilde;o, o extrativismo e o   abandono, a arte perif&eacute;rica se torna uma forma de den&uacute;ncia, cuidado e   constru&ccedil;&atilde;o coletiva de novos imagin&aacute;rios ecol&oacute;gicos. "Ela amplia o repert&oacute;rio   do que entendemos como crise ambiental e nos faz refletir sobre a diversidade   das respostas poss&iacute;veis", completa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Diego Ricca, a pot&ecirc;ncia da arte perif&eacute;rica est&aacute; ligada   &agrave; sua capacidade de ouvir o territ&oacute;rio e criar com os recursos dispon&iacute;veis, o   que ele chama de "design insurgente". "Muitas vezes, &eacute; nas bordas que nascem as   pr&aacute;ticas mais potentes de regenera&ccedil;&atilde;o urbana e ecol&oacute;gica, pois partem da   experi&ecirc;ncia vivida, n&atilde;o de teorias abstratas." Nessas regi&otilde;es, a arte urbana   incorpora fun&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o al&eacute;m da est&eacute;tica: torna-se mem&oacute;ria, den&uacute;ncia, cuidado   e resist&ecirc;ncia. "A arte tem papel essencial na mobiliza&ccedil;&atilde;o e sensibiliza&ccedil;&atilde;o. Em   alguns casos, ela precede e impulsiona a&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. A&ccedil;&otilde;es coletivas criam   v&iacute;nculos, redes de cuidado e press&atilde;o social. Como artista e pesquisador,   acredito que a arte pode ser, ao mesmo tempo, poesia e projeto &#151; um gesto   simb&oacute;lico que antecipa futuros poss&iacute;veis."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa articula&ccedil;&atilde;o entre arte, territ&oacute;rio e viv&ecirc;ncia cotidiana   se evidencia tamb&eacute;m no reconhecimento crescente de artistas que nasceram e   vivem nas margens das cidades. "H&eacute;lio Oiticica trouxe para a arte a sua   experi&ecirc;ncia na favela, aproximando arte e vida e provocando a intera&ccedil;&atilde;o do   p&uacute;blico diretamente com a sua obra. Mas ele n&atilde;o nasceu na periferia", lembra   Daniela Cidade. Hoje, destaca ela, nomes como Anderson Valentin, oriundo da   favela do Borel (RJ), contribuem para desconstruir estigmas e denunciar viol&ecirc;ncias   &#151; n&atilde;o a viol&ecirc;ncia de dentro da favela, mas aquela imposta de fora, pela   neglig&ecirc;ncia estrutural. "Acredito que o que impulsionou a arte da periferia foi   o Hip Hop, onde o grafite &eacute; um dos elementos. Em Porto Alegre temos o Museu do   Hip Hop, que reconhece e divulga essa arte com forte papel educativo", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Apesar de sua pot&ecirc;ncia simb&oacute;lica, afetiva e pedag&oacute;gica, os   entrevistados reconhecem os limites da arte frente a estruturas de poder mais   amplas. "As manifesta&ccedil;&otilde;es coletivas no campo da arte, isoladamente ou   associadas a outras &aacute;reas, podem sim, sensibilizar a popula&ccedil;&atilde;o e at&eacute; alguns   setores p&uacute;blicos. Mas impactar diretamente pol&iacute;ticas ambientais &eacute; mais dif&iacute;cil.   Temos presenciado uma grande omiss&atilde;o do poder p&uacute;blico em rela&ccedil;&atilde;o ao meio   ambiente", aponta Daniela Cidade. Incentivos ao setor imobili&aacute;rio, &agrave; flexibiliza&ccedil;&atilde;o   das leis ambientais e &agrave; nega&ccedil;&atilde;o da crise clim&aacute;tica ainda s&atilde;o obst&aacute;culos   recorrentes.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mesmo assim, a arte segue abrindo caminhos. "Embora essas   mudan&ccedil;as muitas vezes n&atilde;o sejam vis&iacute;veis de forma imediata ou mensur&aacute;vel, elas   acontecem de modo sutil, afetivo e acumulativo", diz Liz Sandoval. Ela destaca   o impacto emocional de imagens, filmes e obras que permanecem na mem&oacute;ria do   p&uacute;blico. "N&atilde;o acredito que a arte, sozinha, transforme estruturas. Mas ela cria   condi&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas e emocionais para que as mudan&ccedil;as aconte&ccedil;am: abre brechas   no cotidiano, tensiona certezas, prop&otilde;e outros modos de ver, de sentir e de   estar no mundo. E, para mim, isso j&aacute; &eacute; um ato profundamente pol&iacute;tico e   transformador."</font></p>      ]]></body>
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