<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252025000300017</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20250052</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sustentabilidade no prato]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bueno]]></surname>
<given-names><![CDATA[Chris]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Almeida]]></surname>
<given-names><![CDATA[Priscylla]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,revista Ciência & Cultura  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Jornalista  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2025</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2025</year>
</pub-date>
<volume>77</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>100</fpage>
<lpage>104</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252025000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252025000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252025000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250052</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Sustentabilidade no prato</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Chris Bueno<sup>I</sup>; Priscylla Almeida<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista, escritora, divulgadora de ci&ecirc;ncias,   editora-executiva da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, e m&atilde;e apaixonada por   escrever (especialmente sobre ci&ecirc;ncia).    <br>   <sup>II</sup>Jornalista e produtora de conte&uacute;do para &aacute;reas de sa&uacute;de e ci&ecirc;ncia,   marketing e publicidade. Apaixonada por filmes, gatinhos e pela rotina din&acirc;mica   que a comunica&ccedil;&atilde;o traz: o contato com gente, a curiosidade de assuntos   diversos, a troca.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">No Brasil, a urbaniza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma realidade consolidada:   segundo o Censo de 2022 do IBGE, 177,5 milh&otilde;es de pessoas &#151; 87,4% da popula&ccedil;&atilde;o   &#151; vivem em &aacute;reas urbanas, enquanto apenas 25,6 milh&otilde;es permanecem em zonas   rurais. Esse dado acompanha uma tend&ecirc;ncia global. A Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es   Unidas (ONU) estima que mais de quatro bilh&otilde;es de pessoas residam hoje em   cidades, marca que ultrapassou metade da popula&ccedil;&atilde;o mundial em 2007. Essa   concentra&ccedil;&atilde;o urbana pressiona os sistemas alimentares e evidencia a necessidade   de pensar em modelos mais justos e sustent&aacute;veis de produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e   consumo de alimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao mesmo tempo, o desafio da fome continua central. O   relat&oacute;rio O Estado da Seguran&ccedil;a Alimentar e Nutri&ccedil;&atilde;o no Mundo (SOFI) 2025,   lan&ccedil;ado em julho por cinco ag&ecirc;ncias da ONU, estima que 8,2% da popula&ccedil;&atilde;o   mundial &#151; cerca de 673 milh&otilde;es de pessoas &#151; enfrentaram a fome em 2024. No   Brasil, o mesmo relat&oacute;rio trouxe uma conquista simb&oacute;lica: o pa&iacute;s saiu do "Mapa   da Fome" ap&oacute;s reduzir a subnutri&ccedil;&atilde;o para menos de 2,5% entre 2022 e 2024,   limite estabelecido pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura   (FAO). Ainda assim, 28,5 milh&otilde;es de brasileiros permaneciam em situa&ccedil;&atilde;o de   inseguran&ccedil;a alimentar nesse per&iacute;odo, dos quais 7,1 milh&otilde;es em estado grave e   21,4 milh&otilde;es em moderado. Al&eacute;m disso, cerca de 50 milh&otilde;es n&atilde;o tinham acesso a   alimentos saud&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esses n&uacute;meros refletem as contradi&ccedil;&otilde;es de um sistema   alimentar que, apesar de ter ampliado a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos desde a segunda   metade do s&eacute;culo XX, segue marcado por desigualdades sociais e ambientais. De   um lado, houve diversifica&ccedil;&atilde;o da oferta e avan&ccedil;os no combate &agrave; fome; de outro,   aumentou a press&atilde;o sobre os recursos naturais e a dissemina&ccedil;&atilde;o de dietas   baseadas em ultraprocessados ricos em a&ccedil;&uacute;car, s&oacute;dio e gorduras prejudiciais &agrave;   sa&uacute;de. A Carga Global de Morbidade aponta a m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o como um dos principais   fatores de risco para mortalidade e doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas, resultado direto de   escolhas alimentares moldadas pelo sistema.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>""<i>Na medida em   que voc&ecirc; tem sustentabilidade, consegue ter maior justi&ccedil;a social e justi&ccedil;a   alimentar tamb&eacute;m</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Do ponto de vista ambiental, os impactos mais cr&iacute;ticos est&atilde;o   associados ao desperd&iacute;cio, ao uso intensivo de &aacute;gua e solo, &agrave; energia consumida   no transporte e processamento e &agrave;s emiss&otilde;es de gases de efeito estufa,   sobretudo da produ&ccedil;&atilde;o de carnes e latic&iacute;nios. &Eacute; nesse contexto que ganha for&ccedil;a   o conceito de alimenta&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel, que une sa&uacute;de humana, justi&ccedil;a social e   preserva&ccedil;&atilde;o ambiental. Como define Nathalia Sernizon Guimar&atilde;es, professora do   Departamento de Nutri&ccedil;&atilde;o e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Nutri&ccedil;&atilde;o e Sa&uacute;de da   Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trata-se de "uma alimenta&ccedil;&atilde;o que   faz bem tanto para a sa&uacute;de das pessoas quanto para o planeta". No Brasil,   experi&ecirc;ncias como restaurantes populares, o Programa Nacional de Alimenta&ccedil;&atilde;o   Escolar (PNAE) e iniciativas de bancos de alimentos, como o Mesa Brasil (SESC),   mostram como pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e sociedade civil podem avan&ccedil;ar na   democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso a refei&ccedil;&otilde;es nutritivas e de baixo impacto ambiental.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O sistema alimentar sustent&aacute;vel impacta positivamente as   dimens&otilde;es econ&ocirc;mica, social e ambiental. Na dimens&atilde;o econ&ocirc;mica, deve beneficiar   ou agregar valor &agrave; renda dos trabalhadores, gerar lucros para empresas e   melhorar a cadeia de fornecimento para os consumidores. No &acirc;mbito social,   precisa garantir equidade na distribui&ccedil;&atilde;o do valor econ&ocirc;mico agregado,   contribuindo para a sa&uacute;de e nutri&ccedil;&atilde;o, preserva&ccedil;&atilde;o de tradi&ccedil;&otilde;es culturais, boas   condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e bem-estar animal. Quanto ao aspecto ambiental, o sistema   deve assegurar que os impactos de suas atividades sejam neutros ou positivos,   considerando a biodiversidade, a sa&uacute;de da &aacute;gua e do solo, a fauna e a flora, a   pegada de carbono, a pegada h&iacute;drica, o desperd&iacute;cio de alimentos e a toxicidade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Na medida em que voc&ecirc; tem sustentabilidade, consegue ter   maior justi&ccedil;a social e justi&ccedil;a alimentar tamb&eacute;m. Mas &eacute; importante salientar que   &eacute; uma quest&atilde;o de acesso", explica Cl&aacute;udia Maria B&oacute;gus, professora da Faculdade   de Sa&uacute;de P&uacute;blica e membro do Grupo de Pesquisa Nutri&ccedil;&atilde;o e Pobreza do Instituto   de Estudos Avan&ccedil;ados (IEA), ambos da USP. A pesquisadora destaca que o acesso   n&atilde;o se limita ao alimento, mas inclui informa&ccedil;&atilde;o, para que as pessoas possam   fazer escolhas adequadas. "Acredito que a horta em diferentes espa&ccedil;os p&uacute;blicos   aproxima a popula&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o, despertando aten&ccedil;&atilde;o sobre como se alimentar,   o que escolher e o que privilegiar. De alguma forma, isso gera seguran&ccedil;a   alimentar, ao colocar a quest&atilde;o na pauta", afirma Cl&aacute;udia Maria B&oacute;gus.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Cidades que plantam, comunidades que cozinham</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">O avan&ccedil;o da urbaniza&ccedil;&atilde;o, as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e a redu&ccedil;&atilde;o   das terras ar&aacute;veis imp&otilde;em enormes desafios &agrave; agricultura. Nesse cen&aacute;rio,   valorizar pr&aacute;ticas sustent&aacute;veis &eacute; essencial para garantir a seguran&ccedil;a alimentar   da popula&ccedil;&atilde;o e manter o equil&iacute;brio ambiental. A agricultura urbana surge como   uma estrat&eacute;gia cada vez mais relevante para ampliar a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos e   contribuir para o desenvolvimento sustent&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As hortas urbanas, assim como outros modelos de produ&ccedil;&atilde;o   sustent&aacute;vel, como os sistemas agroflorestais (SAFs), s&atilde;o estrat&eacute;gicas para a   promo&ccedil;&atilde;o da soberania e da seguran&ccedil;a alimentar e nutricional (SSAN) nos centros   urbanos. Esses espa&ccedil;os de cultivo dentro das cidades reduzem a dist&acirc;ncia entre   produtor e consumidor, diminuem desperd&iacute;cios e emiss&otilde;es de carbono associadas   ao transporte, al&eacute;m de oferecer acesso a alimentos frescos e saud&aacute;veis. Para a   Embrapa, a agricultura urbana envolve n&atilde;o apenas o cultivo de alimentos, mas   tamb&eacute;m a&ccedil;&otilde;es de conserva&ccedil;&atilde;o de recursos naturais em &aacute;reas centrais e   perif&eacute;ricas das cidades, estimulando emprego, renda e seguran&ccedil;a alimentar.   Segundo Nathalia Guimar&atilde;es, essas hortas "funcionam como uma forma de dar vida   a lugares esquecidos da cidade, aproximando as comunidades da natureza e da   pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o de alimentos".</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>O cuidado   cotidiano com a terra e o manejo dos espa&ccedil;os ociosos convertem &aacute;reas antes   abandonadas em territ&oacute;rios de produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, encontros, afetos e sa&uacute;de</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os benef&iacute;cios v&atilde;o al&eacute;m do prato: hortas comunit&aacute;rias   contribuem para a preserva&ccedil;&atilde;o da biodiversidade, o escoamento da &aacute;gua das   chuvas, a melhoria do microclima e a ocupa&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os ociosos, muitas vezes   localizados em &aacute;reas vulnerabilizadas. Tamb&eacute;m ajudam a reduzir desigualdades no   acesso a alimentos frescos, enfrentando o racismo ambiental e outros fatores   estruturais ligados a renda, g&ecirc;nero ou territ&oacute;rio. Al&eacute;m de cultivar verduras,   frutas e ervas, esses espa&ccedil;os funcionam como plataformas de integra&ccedil;&atilde;o social,   educa&ccedil;&atilde;o alimentar e engajamento pol&iacute;tico, envolvendo mutir&otilde;es, assembleias   comunit&aacute;rias e di&aacute;logos com o poder p&uacute;blico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Essa transforma&ccedil;&atilde;o acontece por meio da mobiliza&ccedil;&atilde;o   comunit&aacute;ria e da atua&ccedil;&atilde;o de movimentos sociais, que organizam e fortalecem   iniciativas coletivas. O cuidado cotidiano com a terra e o manejo dos espa&ccedil;os   ociosos convertem &aacute;reas antes abandonadas em territ&oacute;rios de produ&ccedil;&atilde;o de   alimentos, encontros, afetos e sa&uacute;de", afirma Adriana Adell, mestra em Sa&uacute;de   P&uacute;blica pela Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica da USP e coordenadora do Grupo de   Trabalho de Sa&uacute;de da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Agroecologia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">De forma complementar, cozinhas comunit&aacute;rias e solid&aacute;rias   garantem o acesso a refei&ccedil;&otilde;es nutritivas em territ&oacute;rios vulner&aacute;veis,   fortalecendo a dignidade e a inclus&atilde;o social. Essas iniciativas incentivam o   aproveitamento integral dos alimentos, o uso de ingredientes locais e sazonais,   a redu&ccedil;&atilde;o do desperd&iacute;cio e a efici&ecirc;ncia energ&eacute;tica. Hoje, mais de duas mil   cozinhas solid&aacute;rias funcionam no Brasil, apoiadas pelo Programa Cozinha   Solid&aacute;ria, institu&iacute;do pela Lei nº 14.628/2023. "Atualmente, essa proposta foi   incorporada como pol&iacute;tica p&uacute;blica federal, denominada Cozinhas Solid&aacute;rias. Elas   s&atilde;o consideradas tecnologias sociais, com o objetivo de produzir e ofertar   refei&ccedil;&otilde;es gratuitas para grupos em situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade e inseguran&ccedil;a   alimentar e nutricional. Para seu funcionamento, &eacute; fundamental a participa&ccedil;&atilde;o   da sociedade civil organizada, uma vez que essas cozinhas s&atilde;o operadas por   volunt&aacute;rios", explica Adriana Adell. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a17fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">O abastecimento das cozinhas ocorre principalmente por meio   do Programa de Aquisi&ccedil;&atilde;o de Alimentos (PAA). O aproveitamento integral dos   alimentos atua como estrat&eacute;gia complementar, refor&ccedil;ando a sustentabilidade do   programa. Al&eacute;m disso, a inclus&atilde;o de Plantas Aliment&iacute;cias N&atilde;o Convencionais   (PANCs), que contribuem para a biodiversidade e n&atilde;o est&atilde;o presentes nas rotas   tradicionais de com&eacute;rcio e consumo, pode potencializar ainda mais os benef&iacute;cios   socioambientais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Organizadas por movimentos sociais e pelo poder p&uacute;blico,   essas cozinhas n&atilde;o apenas oferecem refei&ccedil;&otilde;es gratuitas, mas tamb&eacute;m promovem   oficinas de forma&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o alimentar e a&ccedil;&otilde;es coletivas. Como lembra Cl&aacute;udia   Maria B&oacute;gus, cozinhas e hortas "t&ecirc;m um papel de socializa&ccedil;&atilde;o e inclus&atilde;o,   gerando empoderamento e valoriza&ccedil;&atilde;o do contato humano, algo essencial para a   sa&uacute;de e para a vida em comunidade".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m disso, hortas e sistemas agroflorestais urbanos   contribuem para o enfrentamento da crise clim&aacute;tica, para a cria&ccedil;&atilde;o de cidades   mais resilientes, a preven&ccedil;&atilde;o de enchentes e a recupera&ccedil;&atilde;o ambiental. Tamb&eacute;m   favorecem a gera&ccedil;&atilde;o de renda e a oferta de alimentos sazonais, saud&aacute;veis e   culturalmente adequados. Todo esse conjunto de benef&iacute;cios torna essas   iniciativas um poderoso instrumento de promo&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a alimentar e   nutricional.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>O paradoxo do desperd&iacute;cio: fome e abund&acirc;ncia lado a lado</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A alimenta&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel prop&otilde;e equilibrar produ&ccedil;&atilde;o,   consumo e meio ambiente. A ideia &eacute; simples: reduzir o desperd&iacute;cio e adotar   pr&aacute;ticas conscientes &#151; do planejamento das refei&ccedil;&otilde;es ao reaproveitamento de   sobras, passando pela doa&ccedil;&atilde;o de excedentes. Mas seu impacto vai muito al&eacute;m da   cozinha: envolve seguran&ccedil;a alimentar, economia de recursos e diminui&ccedil;&atilde;o das   emiss&otilde;es de gases de efeito estufa.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>O   enfrentamento do desperd&iacute;cio de alimentos torna-se uma estrat&eacute;gia decisiva para   a promo&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a alimentar</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No Brasil, os n&uacute;meros exp&otilde;em um paradoxo dif&iacute;cil de ignorar.   Segundo o IBGE, mais de 64 milh&otilde;es de pessoas convivem com restri&ccedil;&otilde;es no acesso   &agrave; comida. Ao mesmo tempo, o pa&iacute;s desperdi&ccedil;a mais de 55 milh&otilde;es de toneladas de   alimentos por ano ao longo de toda a cadeia produtiva. Ou seja, um dos maiores   produtores de comida do mundo tamb&eacute;m est&aacute; entre os dez pa&iacute;ses que mais   desperdi&ccedil;am, segundo a FAO. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a17fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">No cen&aacute;rio brasileiro, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas voltadas &agrave;   seguran&ccedil;a alimentar e nutricional t&ecirc;m demonstrado resultados concretos. Em 2025, o Brasil saiu   novamente do Mapa da Fome da ONU. Entre as iniciativas recentes, destaca-se o   Programa Alimenta Cidades (2023), que amplia a produ&ccedil;&atilde;o, a disponibilidade e o   acesso a alimentos saud&aacute;veis, priorizando territ&oacute;rios perif&eacute;ricos urbanos e   popula&ccedil;&otilde;es em situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade. Essa pol&iacute;tica fortalece sistemas   alimentares locais e sustent&aacute;veis, contribui para reduzir desigualdades e   reafirma o direito humano &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o adequada, alinhando as pol&iacute;ticas   nacionais aos princ&iacute;pios de seguran&ccedil;a, justi&ccedil;a alimentar e justi&ccedil;a clim&aacute;tica.   "A justi&ccedil;a alimentar, por sua vez, refere-se ao direito de todas as pessoas de   se alimentarem adequadamente. A fome e a m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o afetam de maneira   desproporcional mulheres, popula&ccedil;&otilde;es negras, ind&iacute;genas e pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de   pobreza. Essa desigualdade se apoia em estruturas hist&oacute;ricas de racismo,   patriarcado e desigualdade de classe, sendo necess&aacute;rio enfrentar essas quest&otilde;es   em sua raiz para garantir a justi&ccedil;a alimentar", afirma Adriana Adell.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O problema, no entanto, n&atilde;o &eacute; exclusivo do Brasil. Em escala   global, o Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que   1,05 bilh&atilde;o de toneladas de alimentos foram descartados em 2022 &#151; perda   equivalente a quase um quinto de toda a produ&ccedil;&atilde;o mundial. Quando um alimento   vai para o lixo, n&atilde;o &eacute; apenas ele que se perde: toda a &aacute;gua, energia e insumos   utilizados em sua produ&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m s&atilde;o desperdi&ccedil;ados. Segundo a PNUMA, o custo   econ&ocirc;mico global da perda e do desperd&iacute;cio chega a US$ 1 trilh&atilde;o por ano. As   consequ&ecirc;ncias ambientais tamb&eacute;m s&atilde;o expressivas. O desperd&iacute;cio de alimentos   responde por 8% a 10% das emiss&otilde;es globais de gases de efeito estufa, al&eacute;m de   contribuir para a degrada&ccedil;&atilde;o do solo, o consumo excessivo de &aacute;gua e a queima de   combust&iacute;veis f&oacute;sseis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Nathalia Guimar&atilde;es, enfrentar o problema &eacute; uma quest&atilde;o   de justi&ccedil;a social e ambiental: "O enfrentamento do desperd&iacute;cio de alimentos   torna-se uma estrat&eacute;gia decisiva para a promo&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a alimentar, ao   transformar o que seria descartado em fonte de nutri&ccedil;&atilde;o para quem mais precisa,   ao mesmo tempo, em que diminui os impactos ambientais associados &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e   ao descarte de res&iacute;duos org&acirc;nicos".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A legisla&ccedil;&atilde;o brasileira j&aacute; prev&ecirc; medidas para reduzir o   desperd&iacute;cio. A Lei nº 14.016/2020 regulamenta a doa&ccedil;&atilde;o de excedentes de   supermercados e restaurantes. Al&eacute;m disso, iniciativas como bancos de alimentos,   cozinhas comunit&aacute;rias e programas de redistribui&ccedil;&atilde;o regulada t&ecirc;m ampliado o   acesso de popula&ccedil;&otilde;es vulner&aacute;veis a refei&ccedil;&otilde;es de qualidade. Segundo Cl&aacute;udia Maria B&oacute;gus, &eacute; preciso ir al&eacute;m: "A pol&iacute;tica tamb&eacute;m deve   induzir a&ccedil;&otilde;es e programas importantes, mas sem deixar de fortalecer iniciativas   j&aacute; existentes nas comunidades, garantindo recursos e continuidade".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Organismos internacionais, como a FAO, apontam as pol&iacute;ticas   p&uacute;blicas como a principal for&ccedil;a motriz para a transforma&ccedil;&atilde;o dos sistemas   alimentares", afirma Adriana Adell. Isso inclui incentivos &agrave; compostagem,   campanhas de educa&ccedil;&atilde;o alimentar e capacita&ccedil;&atilde;o para trabalhadores de   restaurantes e servi&ccedil;os de alimenta&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o a&ccedil;&otilde;es que podem transformar h&aacute;bitos   e reduzir perdas desde a produ&ccedil;&atilde;o at&eacute; o consumo final.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m &eacute; aliada no combate ao desperd&iacute;cio.   Tecnologias como embalagens que prolongam a vida &uacute;til, sensores de   monitoramento de qualidade, sistemas de rastreamento (<i>blockchain</i>) e   aplicativos para doa&ccedil;&atilde;o de excedentes j&aacute; est&atilde;o em pr&aacute;tica em diferentes pa&iacute;ses.   Al&eacute;m disso, o aproveitamento de res&iacute;duos para compostagem e produ&ccedil;&atilde;o de biog&aacute;s   abre caminhos para sistemas alimentares mais circulares e sustent&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No campo social, cozinhas comunit&aacute;rias desempenham papel   fundamental. Elas reaproveitam alimentos que seriam descartados, oferecem   refei&ccedil;&otilde;es acess&iacute;veis ou gratuitas e criam espa&ccedil;os de aprendizado e conviv&ecirc;ncia.   Para Nathalia Guimar&atilde;es, esses equipamentos p&uacute;blicos cumprem dupla fun&ccedil;&atilde;o:   "Eles reduzem o impacto ambiental do lixo org&acirc;nico e, ao mesmo tempo,   fortalecem a inclus&atilde;o social, garantindo que pessoas de diferentes condi&ccedil;&otilde;es   financeiras possam se alimentar bem".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Evitar o desperd&iacute;cio dentro de casa &eacute; parte da solu&ccedil;&atilde;o, mas   n&atilde;o suficiente. O relat&oacute;rio do Pacto contra o Desperd&iacute;cio estima que o Brasil   tem potencial de aproveitar 38,6 milh&otilde;es de toneladas de alimentos &#151; mais do   que o necess&aacute;rio para acabar com a fome no pa&iacute;s. Para isso, ser&aacute; preciso   combinar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas eficazes, ci&ecirc;ncia, iniciativas comunit&aacute;rias e   mudan&ccedil;as nos h&aacute;bitos de consumo. Como resume Cl&aacute;udia Maria B&oacute;gus: "A ci&ecirc;ncia   produz conhecimento, mas precisa dialogar com a comunidade. Muitas vezes, s&atilde;o   as experi&ecirc;ncias locais que apontam caminhos para solu&ccedil;&otilde;es mais duradouras".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
