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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Um direito à moradia escorrendo pelo ralo]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250054</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Um direito &agrave; moradia escorrendo pelo ralo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Rafael Revadam<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista da Sociedade Brasileira para o   Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), mestre em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural e   doutorando em Pol&iacute;tica Cient&iacute;fica e Tecnol&oacute;gica pela Universidade Estadual de   Campinas (Unicamp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">No dia 3 de fevereiro, a regi&atilde;o do Jardim Pantanal, distrito   localizado na zona leste de S&atilde;o Paulo, enfrentou um cen&aacute;rio de inunda&ccedil;&otilde;es. A   &aacute;gua na altura dos joelhos tem se tornado cada vez mais comum para quem vive h&aacute;   30 anos nas v&aacute;rzeas do Rio Tiet&ecirc;. Entretanto, segundo moradores, o territ&oacute;rio   est&aacute; enchendo com mais rapidez e o poder de destrui&ccedil;&atilde;o das chuvas tamb&eacute;m cresce   exponencialmente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em 2010, a regi&atilde;o ficou alagada por mais de 40 dias. Agora,   em 2025, as estimativas variam entre uma semana e dez dias. Na for&ccedil;a da chuva,   moradores viram de m&oacute;veis a casas escorrerem pelo ralo. Parte da popula&ccedil;&atilde;o   desabrigada recorreu a parentes e vizinhos, escolas ou abrigos constru&iacute;dos pela   Defesa Civil. Ao retornarem, encontraram lixo, destrui&ccedil;&atilde;o e at&eacute; multas   ambientais no valor de R$ 5 mil.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"No Jardim Pantanal existe um conflito entre a forma de   produ&ccedil;&atilde;o da cidade e a quest&atilde;o ambiental. As solu&ccedil;&otilde;es empregadas mais   recentemente pelo Estado e pela Prefeitura de S&atilde;o Paulo invisibilizam esse   conflito e tratam a quest&atilde;o como algo meramente t&eacute;cnico. Ali, a gente tem uma   hist&oacute;rica ocupa&ccedil;&atilde;o da v&aacute;rzea do Rio Tiet&ecirc;, mas ningu&eacute;m faz a correla&ccedil;&atilde;o, por   exemplo, de que essa ocupa&ccedil;&atilde;o deriva de uma aus&ecirc;ncia de pol&iacute;tica habitacional,   seja municipal ou estadual. Ent&atilde;o, o direito &agrave; moradia n&atilde;o &eacute; aplicado, n&atilde;o &eacute; garantido,   e isso empurra a popula&ccedil;&atilde;o para uma &aacute;rea que, em geral, &eacute; mais prec&aacute;ria ou   inapta &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o, porque est&aacute; fora do mercado imobili&aacute;rio, portanto, &eacute; barata,   de f&aacute;cil ocupa&ccedil;&atilde;o, e a&iacute; essa popula&ccedil;&atilde;o vai para l&aacute;. Esses elementos precisam   ser cruzados", pondera Jeferson Tavares, professor do Instituto de Arquitetura   e Urbanismo da Universidade de S&atilde;o Paulo (IAU/USP).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Jeferson Tavares ressalta que o Jardim Pantanal &eacute; palco de   uma incongru&ecirc;ncia das pol&iacute;ticas setoriais, ou seja, quando se tem uma s&eacute;rie de   pol&iacute;ticas urbanas que n&atilde;o atuam conjuntamente, como pol&iacute;ticas de drenagem, de   saneamento e at&eacute; de transporte e moradia. "S&atilde;o diferentes setores da pol&iacute;tica   p&uacute;blica que v&atilde;o se acumulando no territ&oacute;rio e n&atilde;o conversam entre si, e a&iacute; uma   vira barreira para a outra. Isso vai intensificando esses conflitos que eram   potenciais e que emergem principalmente para quem est&aacute; na ponta mais fraca, que   s&atilde;o os moradores. Os moradores foram empurrados para l&aacute;, n&atilde;o &eacute; uma escolha:   'ah, eu vou morar na v&aacute;rzea do Tiet&ecirc;, onde alaga a cada chuva mais intensa'.   Isso &eacute; uma falta de op&ccedil;&atilde;o, na verdade. &Eacute; uma falta de op&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o h&aacute;   pol&iacute;tica p&uacute;blica para isso, n&atilde;o h&aacute; pol&iacute;tica p&uacute;blica habitacional. As aus&ecirc;ncias   e presen&ccedil;as de pol&iacute;ticas setoriais levam a essa condi&ccedil;&atilde;o."</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>No Jardim   Pantanal existe um conflito entre a forma de produ&ccedil;&atilde;o da cidade e a quest&atilde;o   ambiental</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">De fato, existe uma s&eacute;rie de pol&iacute;ticas e de aus&ecirc;ncias que   ajudam a dimensionar a realidade do Jardim Pantanal. O trecho do Tiet&ecirc; que   passa pelo territ&oacute;rio, por exemplo, ficou dez anos sem limpeza. Quando o   Governo do Estado de S&atilde;o Paulo retomou essas atividades, em mar&ccedil;o deste ano,   foram retiradas mais de 150 carca&ccedil;as de carros, que estavam criando uma   barragem subaqu&aacute;tica e intensificavam as inunda&ccedil;&otilde;es. Outra quest&atilde;o &eacute; que a obra   de drenagem do Rio Tiet&ecirc; na zona leste de S&atilde;o Paulo, sob responsabilidade da gest&atilde;o   municipal, deveria ter sido finalizada em setembro de 2023, mas houve um atraso   de cerca de um ano e meio. A constru&ccedil;&atilde;o do p&ocirc;lder, que &eacute; um recurso usado para   evitar inunda&ccedil;&otilde;es em &aacute;reas pr&oacute;ximas a beiras de rios, come&ccedil;ou somente em   fevereiro deste ano.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Jeferson Tavares comenta que um grande problema &eacute; que   projetos pol&iacute;ticos tendem a olhar somente para o per&iacute;odo de cada gest&atilde;o. Por   exemplo, uma pol&iacute;tica p&uacute;blica tende a ser pensada para ser executada no tempo   de mandato daquele prefeito ou governador. S&oacute; que pol&iacute;ticas habitacionais e   ambientais precisam ser pol&iacute;ticas estruturantes, pensadas a longo prazo.   Inclusive, o professor ressalta que projetos de drenagem do Tiet&ecirc; j&aacute; existiram   aos montes no decorrer da hist&oacute;ria de S&atilde;o Paulo. "J&aacute; existem v&aacute;rios projetos   estruturantes de drenagem para evitar esse problema, e esses projetos t&ecirc;m   d&eacute;cadas j&aacute;, n&atilde;o s&atilde;o de hoje. Eles deveriam ter sido constru&iacute;dos, mas n&atilde;o foram   priorizados. Ent&atilde;o, &eacute; o primeiro ponto: colocar esses projetos na ordem   priorit&aacute;ria. Por que eles n&atilde;o s&atilde;o constru&iacute;dos? Porque, talvez, eles impe&ccedil;am o   tr&aacute;fego da marginal Tiet&ecirc;, porque eles n&atilde;o afetam outras classes sociais. Os   seus impactos est&atilde;o sob uma camada [da popula&ccedil;&atilde;o] que aparece pouco, do ponto   de vista da import&acirc;ncia que o Estado d&aacute;." (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a19fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>O Jardim   Pantanal se mostra um estudo de caso interessante, porque ele apreende esse   risco ambiental e parece ser entendido como uma quest&atilde;o t&eacute;cnica</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Pressionada a lidar com a realidade de inunda&ccedil;&otilde;es do Jardim   Pantanal, a Prefeitura de S&atilde;o Paulo apresentou uma solu&ccedil;&atilde;o cerca de tr&ecirc;s meses   ap&oacute;s a cheia do Tiet&ecirc; em fevereiro. Em conjunto com o Governo do Estado de S&atilde;o   Paulo, o prefeito Ricardo Nunes anunciou em maio o projeto <i>Renova Pantanal</i>,   que visa demolir mais de 4.300 im&oacute;veis irregulares e conter os impactos das   chuvas. Para a popula&ccedil;&atilde;o local e especialistas, uma medida que carece de   transpar&ecirc;ncia, estudos e di&aacute;logo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na primeira fase do <i>Renova Pantanal</i>, prevista para   in&iacute;cio em julho &#151; o que n&atilde;o ocorreu &#151; a Prefeitura iria come&ccedil;ar com o   isolamento de uma &aacute;rea e a retirada de mil im&oacute;veis para a constru&ccedil;&atilde;o&nbsp;de um   gabi&atilde;o, um tipo de muro de conten&ccedil;&atilde;o feito com malha de a&ccedil;o e pedras. A   previs&atilde;o &eacute; que este muro tenha um metro de altura e 4,2 km de extens&atilde;o. J&aacute; na   segunda fase, prevista para iniciar em novembro de 2026, mais mil im&oacute;veis   seriam demolidos at&eacute; maio de 2028. Por fim, na terceira e &uacute;ltima fase, a   previs&atilde;o &eacute; a retirada de 2.344 im&oacute;veis da regi&atilde;o entre o per&iacute;odo de julho de   2028 a dezembro de 2029. O or&ccedil;amento previsto para o <i>Renova Pantanal</i> &eacute; de R$ 700 milh&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"As remo&ccedil;&otilde;es ou   aluguel social s&atilde;o solu&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o colocadas como algo definitivo. Mas houve   uma consulta local a respeito delas? Isso &eacute; urgente. &Eacute; necess&aacute;rio tal n&iacute;vel de   remo&ccedil;&atilde;o desse conjunto de pessoas sem consulta? Sem perspectiva de outras solu&ccedil;&otilde;es?   Acredito que h&aacute; outras alternativas j&aacute; consolidadas no campo do planejamento   urbano e regional h&aacute; d&eacute;cadas, mais de 40 anos, que mostram outros caminhos   poss&iacute;veis e muito mais adequados", pondera Jeferson Tavares.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a gest&atilde;o do   prefeito Ricardo Nunes estudou outras alternativas antes de desenhar o projeto   do <i>Renova Pantanal</i>. A primeira era a cria&ccedil;&atilde;o de uma obra de   macrodrenagem envolvendo um dique, sete reservat&oacute;rios, um parque e um canal de   5,5 km para desviar a &aacute;gua da chuva. Este conjunto de a&ccedil;&otilde;es custaria R$ 1,02   bilh&atilde;o e precisaria remover 484 fam&iacute;lias. J&aacute; outra alternativa envolveria a   constru&ccedil;&atilde;o de um canal e a abertura de lagoas para a acumula&ccedil;&atilde;o de &aacute;guas, al&eacute;m   de medidas para revers&atilde;o do fluxo do Rio Tiet&ecirc;. Este projeto era chamado de   "a&ccedil;&otilde;es intermunicipais integradas para o controle de inunda&ccedil;&otilde;es Cidade-Esponja   Pantanal", custaria aproximadamente R$ 1 bilh&atilde;o, mas seu or&ccedil;amento seria   dividido com a cidade de Guarulhos. Nele, n&atilde;o haveria a necessidade de   desapropria&ccedil;&otilde;es. Ricardo Nunes, inclusive, afirma que retirar as fam&iacute;lias &eacute; a   melhor solu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica tamb&eacute;m. Mas existem estudos da pr&oacute;pria Prefeitura,   realizados pela Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb),   que mostram que retirar fam&iacute;lias de &aacute;reas alagadas &eacute; op&ccedil;&atilde;o mais cara. (<a href="#fig02">Figura   2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n3/a19fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Pol&iacute;ticas de se ouvir e pol&iacute;ticas para participar</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Caique Bodine &eacute; mestrando em Planejamento Urbano pela   Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de S&atilde;o Paulo,   a FAU-USP. Ele integra o LabCidade, um laborat&oacute;rio que estuda a conflu&ecirc;ncia   entre crise clim&aacute;tica, crise habitacional e a ideia de risco, como o risco   passa dentro desses diversos campos. Nesse sentido, a pesquisa de Bodine olha   essencialmente para o Jardim Pantanal. "O Jardim Pantanal se mostra um estudo   de caso interessante, porque ele apreende esse risco ambiental e parece ser   entendido como uma quest&atilde;o t&eacute;cnica. A gente est&aacute; estudando um pouco mais a   fundo para entender se &eacute; realmente isso, se &eacute; s&oacute; uma quest&atilde;o da ocupa&ccedil;&atilde;o do   solo, de infraestrutura, ou se tem uma quest&atilde;o urbana tamb&eacute;m, uma quest&atilde;o das   din&acirc;micas da pr&oacute;pria economia da cidade."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim como Jeferson Tavares, Caique Bodine tamb&eacute;m questiona   a pol&iacute;tica cont&iacute;nua de remo&ccedil;&otilde;es na &aacute;rea. "&Agrave;s vezes, o poder p&uacute;blico, e at&eacute; a   opini&atilde;o p&uacute;blica, acaba indo para o lado de que a simples remo&ccedil;&atilde;o das pessoas   por si s&oacute; seria a solu&ccedil;&atilde;o desse problema. S&oacute; que s&atilde;o pessoas que est&atilde;o em um   processo muito vulner&aacute;vel, fam&iacute;lias que t&ecirc;m muita fragilidade econ&ocirc;mica,   fragilidade social e, por conta disso, acabam sendo obrigadas a se deslocar   para outros locais que tamb&eacute;m s&atilde;o na beira do rio, tamb&eacute;m s&atilde;o &aacute;reas de produ&ccedil;&atilde;o   ambiental, &aacute;reas sujeitas a enchentes. No pr&oacute;prio Jardim Pantanal, j&aacute; houve   tentativas de remo&ccedil;&atilde;o anteriores, mas as pessoas n&atilde;o foram encaminhadas para   algum atendimento habitacional definitivo, n&atilde;o houve nenhum processo de   acolhimento por parte do poder p&uacute;blico. Consequentemente, essas pessoas mudaram   de novo para o Pantanal, retornaram para a &aacute;rea de risco, ou acabaram se   deslocando para outros locais da cidade que tamb&eacute;m t&ecirc;m problemas de   infraestrutura."</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"<i>Ao inv&eacute;s de se   pensar em solu&ccedil;&otilde;es para os eventos extremos de forma isolada, por munic&iacute;pios,   precisa-se pensar coletivamente</i>."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O LabCidade mant&eacute;m um projeto chamado Observat&oacute;rio de   Remo&ccedil;&otilde;es, que h&aacute; mais de 10 anos identifica, cartografa e analisa amea&ccedil;as,   remo&ccedil;&otilde;es e despejos for&ccedil;ados de indiv&iacute;duos e grupos na Regi&atilde;o Metropolitana de   S&atilde;o Paulo. No caso da pesquisa de Caique Bodine, ele e demais pesquisadores v&ecirc;m   acompanhando a realidade do Jardim Pantanal e, inclusive, acompanharam de perto   quando a prefeitura anunciou o <i>Recupera Pantanal</i>. "O Recupera Pantanal   prop&otilde;e a remo&ccedil;&atilde;o dessas fam&iacute;lias, mas de uma maneira muito vaga, uma maneira   que n&atilde;o explica ainda com precis&atilde;o o que vai ser feito na &aacute;rea depois e quais   s&atilde;o os processos de infraestrutura que v&atilde;o ser levados. Porque existem diversos   projetos anteriores que j&aacute; previam obras naquela regi&atilde;o para mitigar enchentes   e alagamentos, seja a constru&ccedil;&atilde;o de parques lineares, de p&ocirc;lderes ou piscin&otilde;es.   Mas a prefeitura n&atilde;o justificou porque ela n&atilde;o escolheu nenhuma das   alternativas e acabou escolhendo a remo&ccedil;&atilde;o."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outra quest&atilde;o apontada pelo pesquisador &eacute; a aus&ecirc;ncia de   di&aacute;logo com a popula&ccedil;&atilde;o local. Ap&oacute;s o an&uacute;ncio oficial do <i>Renova Pantanal</i> feito em um evento aberto &agrave; imprensa, a comunidade foi chamada para uma   audi&ecirc;ncia p&uacute;blica, mas esta comunica&ccedil;&atilde;o se deu quando todas as decis&otilde;es da   Prefeitura e do Governo do Estado j&aacute; estavam tomadas. "A audi&ecirc;ncia p&uacute;blica tem   uma estrutura muito diferente. Ela tem um car&aacute;ter expositivo, eu mostro um   projeto j&aacute; feito e a comunidade pode tirar d&uacute;vidas sobre esse projeto. Difere   de um projeto elaborado de fato em conjunto com as pessoas, entendendo quais   s&atilde;o as particularidades daquele territ&oacute;rio, quais s&atilde;o as vulnerabilidades a que   essas pessoas est&atilde;o expostas, quais s&atilde;o os v&iacute;nculos que elas t&ecirc;m com aquele   espa&ccedil;o e quais s&atilde;o as alternativas que se tem na mesa. Acho que quando o poder   p&uacute;blico s&oacute; apresenta [uma pol&iacute;tica] de cima para baixo, sem consultar as   pessoas que de fato moram ali, torna-se um projeto um pouco problem&aacute;tico",   explica Caique Bodine.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A aus&ecirc;ncia de di&aacute;logo com os &oacute;rg&atilde;os pol&iacute;ticos,   principalmente com a Prefeitura de S&atilde;o Paulo, &eacute; a principal reclama&ccedil;&atilde;o de   Vagner Moura, um dos moradores do Jardim Pantanal. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o obtusa que   os pr&oacute;prios moradores est&atilde;o se organizando para acionar judicialmente o poder   p&uacute;blico. "Eles est&atilde;o oferecendo duas propostas, aux&iacute;lio e indeniza&ccedil;&atilde;o ou   atendimento definitivo de moradias. Aux&iacute;lio &eacute; uma indeniza&ccedil;&atilde;o regida pela lei   n.º 17.777, que foi sancionada pelo pr&oacute;prio prefeito Ricardo Nunes e limita indeniza&ccedil;&otilde;es   de at&eacute; R$ 60 mil. J&aacute; esse atendimento definitivo de moradia, eles n&atilde;o falam,   mas as condi&ccedil;&otilde;es para a entrega s&atilde;o via financiamento. S&oacute; que n&atilde;o sabemos quais   as condi&ccedil;&otilde;es desse financiamento, se &eacute; baseado no programa [habitacional] <i>Pode   entrar</i>, da prefeitura, ou no <i>Casa Paulista</i>, do Governo do Estado."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Vagner Moura tamb&eacute;m denuncia que o poder p&uacute;blico n&atilde;o fala o   prazo para entrega dessas novas resid&ecirc;ncias e nem em quais locais elas se   encontrar&atilde;o. Tamb&eacute;m aponta o baixo valor oferecido &agrave;s fam&iacute;lias removidas &#151;   entre R$ 400 e R$ 600 por m&ecirc;s &#151; que n&atilde;o custeia um novo aluguel. "Na verdade,   as alternativas que se t&ecirc;m s&atilde;o a indeniza&ccedil;&atilde;o ou voc&ecirc; ficar em um eterno aux&iacute;lio   aluguel sem saber se vai receber e como vai receber essa moradia."</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Imbr&oacute;glios pol&iacute;ticos</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m da quest&atilde;o ambiental e habitacional por si s&oacute;, o Jardim   Pantanal tamb&eacute;m &eacute; cen&aacute;rio de diversas articula&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, afetando   diretamente os moradores. Na primeira semana de abril, a C&acirc;mara Municipal de   S&atilde;o Paulo aprovou a abertura de uma CPI (Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito)   visando investigar as causas dos alagamentos no Pantanal. Segundo a proposta,   encabe&ccedil;ada pelo vereador Alessandro Guedes (PT), a CPI tem dois focos de   investiga&ccedil;&atilde;o: O primeiro &eacute; o fechamento da barragem da Penha durante as cheias   do Rio Tiet&ecirc;, uma decis&atilde;o realizada pela atual gest&atilde;o estadual, comandada por   Tarc&iacute;sio de Freitas. A barragem &eacute; administrada pela SP &Aacute;guas, ag&ecirc;ncia   subordinada ao Governo do Estado, e que tem, entre as suas fun&ccedil;&otilde;es, o objetivo   de regular a vaz&atilde;o do Tiet&ecirc;. O governo, inclusive, alega que tal medida n&atilde;o tem   rela&ccedil;&atilde;o com as inunda&ccedil;&otilde;es na regi&atilde;o. J&aacute; a segunda medida para investiga&ccedil;&atilde;o &eacute;   uma inten&ccedil;&atilde;o apresentada pelo prefeito de S&atilde;o Paulo, Ricardo Nunes, de remover   moradias e multar constru&ccedil;&otilde;es consideradas irregulares, o que corrobora com   den&uacute;ncias realizadas por moradores da regi&atilde;o. Apesar da aprova&ccedil;&atilde;o da CPI, o que   se viu em seguida foram movimenta&ccedil;&otilde;es para que ela n&atilde;o sa&iacute;sse do papel. Autor   da proposta, o vereador Alessandro Guedes chegou a denunciar uma poss&iacute;vel   articula&ccedil;&atilde;o do prefeito Ricardo Nunes com os vereadores de sua base aliada para   que eles n&atilde;o indicassem representantes que pudessem compor esta CPI. A   Prefeitura de S&atilde;o Paulo negou tal articula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uma semana depois da aprova&ccedil;&atilde;o da CPI, vereadores do PT e do   PSOL, partidos de oposi&ccedil;&atilde;o a Nunes, acionaram a Justi&ccedil;a para que a CPI fosse   implementada. Ap&oacute;s a a&ccedil;&atilde;o, o Tribunal de Justi&ccedil;a de S&atilde;o Paulo concedeu um prazo   at&eacute; 30 de abril para que a C&acirc;mara Municipal a instaurasse &#151; ela deveria ter   sido instaurada at&eacute; o dia 17 daquele m&ecirc;s.  Apesar da interfer&ecirc;ncia do Tribunal   de Justi&ccedil;a de S&atilde;o Paulo, a C&acirc;mara n&atilde;o cumpriu o novo prazo. A CPI para   investigar as causas de alagamento do Jardim Pantanal foi aberta somente no dia   4 de setembro. Com a sua abertura, tamb&eacute;m foram aprovados 10 requerimentos que   convidam autoridades pol&iacute;ticas, entidades da sociedade civil e &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos   a participarem de suas reuni&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">At&eacute; o fechamento desta reportagem, a CPI realizou uma   segunda reuni&atilde;o, no dia 11 de setembro. Nela, foram aprovados mais 55   requerimentos, entre convites a representantes e pedidos de informa&ccedil;&otilde;es ao   Poder Executivo e ao Tribunal de Contas de S&atilde;o Paulo. A CPI tamb&eacute;m prev&ecirc;   conversas com o prefeito Ricardo Nunes, o governador Tarc&iacute;sio de Freitas e com   o presidente da Rep&uacute;blica, Luiz In&aacute;cio Lula da Silva.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Segundo a vice-presidente da CPI, a vereadora Marina   Bragante (REDE), a Comiss&atilde;o est&aacute; recolhendo informa&ccedil;&otilde;es para entender quais s&atilde;o   as melhores tratativas cab&iacute;veis aos moradores e alinhadas &agrave; natureza. "A gente   est&aacute; tentando levantar com a Prefeitura, com o Estado e com diferentes &oacute;rg&atilde;os,   o que j&aacute; foi feito para o Jardim Pantanal, quanto j&aacute; foi investido, quais   projetos foram destinados para a regi&atilde;o e quantas fam&iacute;lias j&aacute; est&atilde;o no Cadastro   &Uacute;nico [para Programas Sociais]", disse em nota da C&acirc;mara de S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outra quest&atilde;o pol&iacute;tica envolve diretamente a realoca&ccedil;&atilde;o da   popula&ccedil;&atilde;o do Jardim Pantanal. Com o in&iacute;cio dos debates or&ccedil;ament&aacute;rios para 2026,   via Lei de Diretrizes Or&ccedil;ament&aacute;rias, o prefeito Ricardo Nunes recusou 127   propostas encabe&ccedil;adas por vereadores &#151; entre elas, uma que destinava verbas   para a constru&ccedil;&atilde;o de 5 mil moradias destinadas &agrave;s fam&iacute;lias que residem em &aacute;reas   de alagamento no Pantanal. Para Jeferson Tavares, o caso do Jardim Pantanal   impulsiona a reflex&atilde;o de alternativas. Uma delas &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o de uma autoridade   nacional voltada &agrave; habita&ccedil;&atilde;o e com articula&ccedil;&atilde;o nos 27 estados e nos mais de 6   mil munic&iacute;pios do Pa&iacute;s, para integrar os debates sobre. Outra sugest&atilde;o &eacute; o   est&iacute;mulo a cons&oacute;rcios clim&aacute;ticos, que tamb&eacute;m olhem para as pol&iacute;ticas usando os   conhecimentos cient&iacute;ficos e, principalmente, de forma integrada entre regi&otilde;es.   "Ao inv&eacute;s de se pensar em solu&ccedil;&otilde;es para os eventos extremos de forma isolada,   por munic&iacute;pios, precisa-se pensar coletivamente. Por exemplo, olhando o Estado   de S&atilde;o Paulo: o que a cidade de S&atilde;o Caetano faz, a cidade de Santo Andr&eacute; recebe   as consequ&ecirc;ncias; o que S&atilde;o Paulo faz, S&atilde;o Caetano recebe as consequ&ecirc;ncias. No   n&iacute;vel em que estamos de urbaniza&ccedil;&atilde;o no Pa&iacute;s, n&atilde;o d&aacute; mais para pensar em   pol&iacute;ticas municipalistas isoladas", conclui.</font></p>      ]]></body>
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