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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciência na linha de frente: crise climática, Amazônia e COP 30]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250067</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Ci&ecirc;ncia na linha de frente: crise   clim&aacute;tica, Amaz&ocirc;nia e COP 30</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Bianca Bosso<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Especialista em Jornalismo   Cient&iacute;fico e Bacharela em Ci&ecirc;ncias   Biol&oacute;gicas (Unicamp). Iniciou   sua trajet&oacute;ria na Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica   no ano de 2018. J&aacute; desenvolveu pautas   para revistas como Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura,   ComCi&ecirc;ncia e Ci&ecirc;ncia Hoje, al&eacute;m   de sites como Ag&ecirc;ncia Bori, Jornal da   Unicamp, Portal Campinas Inovadora e blog Ci&ecirc;ncia na Rua.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Domingo, 12 de outubro   de 2025. Enquanto o rel&oacute;gio   clim&aacute;tico corre em ritmo acelerado,   um estudo divulgado   por cientistas da Universidade   de Exeter, no Reino Unido, revela   que o planeta acaba de ultrapassar   o primeiro ponto de   n&atilde;o-retorno com o colapso dos   recifes de corais &#150; ou seja, mesmo   que a&ccedil;&otilde;es imediatas sejam   tomadas, as mudan&ccedil;as j&aacute; ocorridas   nesse sistema s&atilde;o potencialmente   irrevers&iacute;veis. O aviso   deixa um lembrete inc&ocirc;modo:   embora as transforma&ccedil;&otilde;es estejam   acontecendo diante dos   nossos olhos, a crise clim&aacute;tica   est&aacute; avan&ccedil;ando mais depressa   do que as medidas para   cont&ecirc;-la. Nesse contexto, a   Confer&ecirc;ncia do Clima da ONU   (COP30) &#150; realizada em novembro,   no cora&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia   brasileira chega como um chamado   para que a ci&ecirc;ncia n&atilde;o   somente alerte, mas tamb&eacute;m   permeie, com mais for&ccedil;a, os   discursos pol&iacute;ticos e as a&ccedil;&otilde;es   efetivas na prote&ccedil;&atilde;o do planeta.   Como dito por Luiz In&aacute;cio   Lula da Silva, presidente do   Brasil, em evento preparat&oacute;rio   para a Confer&ecirc;ncia, "&eacute; o momento   de levar a s&eacute;rio os alertas da ci&ecirc;ncia".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A pesquisa da   Universidade de Exeter, realizada   com a colabora&ccedil;&atilde;o de 160   cientistas de 23 pa&iacute;ses, mostra   que o aquecimento sem precedentes   dos oceanos intensifica   o branqueamento dos corais.   De acordo com as conclus&otilde;es   de um relat&oacute;rio publicado no   final de outubro pela The Earth   League, cons&oacute;rcio internacional   de especialistas em clima,   em 2024, a temperatura m&eacute;dia   da superf&iacute;cie oce&acirc;nica ficou   quase 1 grau acima dos n&iacute;veis   pr&eacute;-industriais. O estresse causado   pelo calor excessivo faz   com que os recifes expulsem   as algas que lhes fornecem nutrientes   e cores vibrantes e fiquem   mais vulner&aacute;veis &agrave; morte   por inani&ccedil;&atilde;o. A partir de dados   coletados por sat&eacute;lites e boias   de monitoramento, constatou-se que, desde 2023, 84%   dos recifes em mais de 80 pa&iacute;ses   sofreram branqueamento,   configurando o pior evento do   tipo j&aacute; registrado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O colapso dos corais &eacute;  apenas um entre v&aacute;rios pontos   de n&atilde;o-retorno &#150; ou pontos de   inflex&atilde;o &#150; acompanhados h&aacute;  d&eacute;cadas em todo o planeta.   Al&eacute;m das &aacute;guas, o aquecimento   tamb&eacute;m afeta os ecossistemas   terrestres, acentuando o   derretimento das camadas de   gelo e a destrui&ccedil;&atilde;o das florestas   tropicais, por exemplo. Em   2024, a m&eacute;dia global de temperatura   ficou cerca de 1,55   grau acima dos n&iacute;veis pr&eacute;-industriais,   favorecendo eventos   extremos, como secas e ondas   de calor, e prejudicando o equil&iacute;brio   de diversos biomas. "A   gente poderia traduzir o momento   atual como a tripla crise   planet&aacute;ria que a ONU tem destacado   bastante: clima, biodiversidade   e polui&ccedil;&atilde;o", explica   Gabriela Di Giulio, professora   do Departamento de Sa&uacute;de   Ambiental da Faculdade de   Sa&uacute;de P&uacute;blica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A ci&ecirc;ncia sabe qual   ser&aacute; o pr&oacute;ximo   ponto de inflex&atilde;o?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A Floresta Amaz&ocirc;nica   se v&ecirc; no centro dos monitoramentos   sobre pontos de inflex&atilde;o   clim&aacute;tica. O estudo da   Universidade de Exeter menciona   que a maior floresta tropical   do mundo est&aacute; se aproximando   do seu pr&oacute;prio ponto   de n&atilde;o-retorno, o que significa   que, no ritmo atual, o ecossistema   pode perder a capacidade   de responder &agrave;s press&otilde;es   e se regenerar. "Essas altera&ccedil;&otilde;es   podem transformar &aacute;reas   florestais em ecossistemas   modificados, enfraquecendo   a regula&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica global,   alterando o clima regional e acelerando a perda de biodiversidade",   afirma a pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"Na Amaz&ocirc;nia, tudo est&aacute;  conectado: as &aacute;reas agropecu&aacute;rias,   a floresta, os rios, as   pessoas, o rural, o urbano...&Eacute;  uma regi&atilde;o onde a natureza   funciona em rede", diz Ane   Alencar, diretora de Ci&ecirc;ncia do   Instituto de Pesquisa Ambiental   da Amaz&ocirc;nia (IPAM). Com esse   funcionamento integrado, mudan&ccedil;as   em pontos espec&iacute;ficos,   como a cobertura vegetal ou os   n&iacute;veis de precipita&ccedil;&atilde;o, poderiam   causar efeitos em cascata.   Segundo uma pesquisa da   Universidade de Cambridge,   ainda neste s&eacute;culo, o desmatamento   cont&iacute;nuo pode desencadear   uma transi&ccedil;&atilde;o para um    estado semelhante &agrave; savana   em toda a Amaz&ocirc;nia. Os resultados   s&atilde;o correspondentes a   proje&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas que simulam   uma redu&ccedil;&atilde;o da cobertura   florestal para 35% ou uma diminui&ccedil;&atilde;o   de apenas cerca de   6% na precipita&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Al&eacute;m de colocar em risco   a rica biodiversidade desse   ecossistema e mais de 23 milh&otilde;es   de pessoas que habitam   a regi&atilde;o, a ultrapassagem do   ponto de inflex&atilde;o amaz&ocirc;nico   tem o potencial de causar danos   em escala planet&aacute;ria. "A   Amaz&ocirc;nia recicla cerca de 20   bilh&otilde;es de toneladas de umidade   por dia, influencia o regime   de chuvas em grande parte   da Am&eacute;rica do Sul e armazena   mais de 150 bilh&otilde;es de toneladas   de carbono", explica Ane   Alencar. Ainda que o papel   desse ecossistema seja consenso   na literatura cient&iacute;fica e   que os efeitos da crise clim&aacute;tica   possam atingir um n&iacute;vel global,   as medidas para conter os   danos no bioma t&ecirc;m sido insuficientes."N&atilde;o se trata de uma lacuna de conhecimento t&eacute;cnico-cient&iacute;fico que justifique   o atraso ou a neglig&ecirc;ncia nas   respostas. J&aacute; temos o conhecimento   necess&aacute;rio e seria esperado   que as a&ccedil;&otilde;es adequadas    fossem acordadas e implementadas   nos espa&ccedil;os de negocia&ccedil;&atilde;o",   defende Gabriela   Di Giulio, que ressalta que essa   l&oacute;gica pode ser aplicada n&atilde;o   apenas &agrave; Amaz&ocirc;nia, mas tamb&eacute;m   aos demais biomas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Das florestas  &agrave;s mesas de   negocia&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A fala da pesquisadora   aponta que h&aacute; uma falta de linearidade   entre o que a ci&ecirc;ncia   j&aacute; sabe e o que, de fato,   orienta a formula&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias   e pol&iacute;ticas clim&aacute;ticas. "A   produ&ccedil;&atilde;o de mais informa&ccedil;&otilde;es   em conhecimento t&eacute;cnico--cient&iacute;fico, e mesmo a disponibiliza&ccedil;&atilde;o   desse conhecimento   atrav&eacute;s de uma boa divulga&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica para os tomadores de   decis&atilde;o, n&atilde;o significa, necessariamente,   que esse conhecimento   vai ser mobilizado no   processo de tomada de decis&atilde;o",   alega Gabriela Di Giulio.   Ela enfatiza que a rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica &eacute; atravessada    por m&uacute;ltiplos fatores, como   interesses econ&ocirc;micos e disputas   de poder. "Se partirmos   do pressuposto de que a falta   de a&ccedil;&atilde;o para o enfrentamento   das crises socioecol&oacute;gicas&eacute; apenas uma quest&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o,   se dissermos que   aqueles que est&atilde;o tomando as   decis&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o bem-informados,   acho que ser&iacute;amos ing&ecirc;nuos",   pontua.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Na Amaz&ocirc;nia, tudo   est&aacute; conectado: as  &aacute;reas agropecu&aacute;rias,   a floresta, os rios,   as pessoas, o rural,   o urbano... &Eacute; uma   regi&atilde;o onde a   natureza funciona   em rede."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em seu discurso na abertura   da C&uacute;pula dos L&iacute;deres,   evento que antecede a COP30,   Luiz In&aacute;cio Lula da Silva endossa   o argumento: "a humanidade   est&aacute; ciente dos impactos   das mudan&ccedil;as do clima h&aacute;  mais de 35 anos, desde a publica&ccedil;&atilde;o   do primeiro relat&oacute;rio   do Painel Intergovernamental   sobre Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas, o   IPCC (...)". Ane Alencar concorda.  "O que falta n&atilde;o &eacute; conhecimento,  &eacute; espa&ccedil;o pol&iacute;tico   e valoriza&ccedil;&atilde;o do olhar local",   diz. Para ela, embora a produ&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica seja robusta, nem   sempre est&aacute; vinculada &agrave;s perspectivas   locais. "O Brasil tem   um time de pesquisadores de   peso que estuda a Amaz&ocirc;nia   h&aacute; d&eacute;cadas e sistemas de monitoramento   de qualidade,   como os do Instituto Nacional   de Pesquisas Espaciais (INPE) e   do MapBiomas. Mesmo assim,   o debate global ainda &eacute; dominado   pela ci&ecirc;ncia do Norte",   exemplifica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesse sentido, Gabriela   di Giulio defende que um fator   relevante para a produ&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica ser mobilizada de   forma mais efetiva &eacute; repensar   o modo de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento,   tornando-o mais   coprodutivo. "Assim, quando   uma determinada pergunta for   formulada, a resposta para ela n&atilde;o vir&aacute; apenas da comunidade   cient&iacute;fica, dos pesquisadores   ou dos acad&ecirc;micos", afirma."A&iacute;, a gente pode pensar   quem s&atilde;o os outros atores que   v&atilde;o participar desse processo   de coprodu&ccedil;&atilde;o, como representantes   da sociedade civil,&oacute;rg&atilde;os governamentais e n&atilde;o   governamentais, por exemplo",   acrescenta.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"O que falta n&atilde;o  &eacute; conhecimento, &eacute;  espa&ccedil;o pol&iacute;tico e   valoriza&ccedil;&atilde;o do olhar   local."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As falas das pesquisadoras   est&atilde;o alinhadas com as   recomenda&ccedil;&otilde;es publicadas   no estudo da Universidade de   Exeter para evitar o ponto de   n&atilde;o-retorno amaz&ocirc;nico. Os   autores do trabalho argumentam   que governan&ccedil;as inclusivas   e descentralizadas, com   apoio de sistemas de conhecimento   tradicionais, aos Povos   Ind&iacute;genas e &agrave;s comunidades   em seus territ&oacute;rios e modos de   vida, s&atilde;o centrais para reverter   o ciclo de degrada&ccedil;&atilde;o instaurado   na regi&atilde;o. "A COP30,   sendo na Amaz&ocirc;nia, &eacute; uma   chance hist&oacute;rica de mostrar   que ci&ecirc;ncia e governan&ccedil;a clim&aacute;tica    s&oacute; fazem sentido quando   v&ecirc;m com justi&ccedil;a territorial e   o protagonismo de quem vive   e pesquisa aqui", pontua Ane   Alencar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Entre n&uacute;meros   e narrativas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora a mitiga&ccedil;&atilde;o da   crise clim&aacute;tica seja o enfoque   central da Confer&ecirc;ncia do Clima   da ONU, e ainda que a ci&ecirc;ncia chegue aos tomadores de decis&atilde;o   para atuar na linha de frente,   o embate entre as necessidades   e os objetivos dos 191   pa&iacute;ses participantes pode gerar   conflitos. "Precisamos considerar   que h&aacute; narrativas cient&iacute;ficas   em disputa e a tomada de decis&atilde;o,   muitas vezes, se alinha &agrave;quela narrativa cient&iacute;fica mais   coincidente com a decis&atilde;o que   est&aacute; sendo proposta naquele   projeto pol&iacute;tico", explica   Gabriela di Giulio. Segundo ela,   a pr&oacute;pria natureza da produ&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica favorece esse cen&aacute;rio."A ci&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; homog&ecirc;nea,   a comunidade cient&iacute;fica n&atilde;o &eacute; homog&ecirc;nea. Trabalhamos com   diferentes aproxima&ccedil;&otilde;es, perspectivas,   entendimentos e at&eacute; diferentes metodologias", destaca,   ressaltando que esse embate   n&atilde;o &eacute;, necessariamente,    algo negativo, mas parte essencial   do processo democr&aacute;tico   de constru&ccedil;&atilde;o de consensos e   caminhos frente &agrave; complexidade   do cen&aacute;rio atual.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre as m&uacute;ltiplas narrativas   e metodologias, a   pesquisadora aponta que h&aacute;  dificuldade de rastrear a origem   dos dados utilizados na   formula&ccedil;&atilde;o de cada pol&iacute;tica   em debate &#150; ou mesmo daquelas   que j&aacute; est&atilde;o em vigor.  "Embora muitas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas,   em particular na &aacute;rea   ambiental, bebam bastante de   evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas, ou seja,   do conhecimento t&eacute;cnico-cient&iacute;fico   produzido, em geral, n&atilde;o   mencionam nas suas elabora&ccedil;&otilde;es   de onde as informa&ccedil;&otilde;es   que subsidiam aquilo vieram.   N&atilde;o temos essa tradi&ccedil;&atilde;o", explica.   Ela comenta que encontrar   ferramentas para esse rastreio  &eacute; uma das propostas do   projeto Biota S&iacute;ntese, do qual   participa. "Com isso, tentamos correlacionar e mensurar, de   certa forma, os impactos socioambientais   do conhecimento que a gente produz", diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A COP em   Bel&eacute;m vai ser uma   oportunidade   de mostrar   que aqui existe   conhecimento,   ci&ecirc;ncia, inova&ccedil;&atilde;o   e, tamb&eacute;m, povos   e territ&oacute;rios que j&aacute;  v&ecirc;m enfrentando   a crise clim&aacute;tica na   pr&aacute;tica."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Somada a essa dificuldade,   Ane Alencar pontua   que, quando se trata da produ&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica brasileira sobre   o clima e a Amaz&ocirc;nia, h&aacute;  tamb&eacute;m outros desafios. "A   ci&ecirc;ncia brasileira sobre esses   temas, apesar de estar cada   vez mais presente nos artigos   cient&iacute;ficos, ainda n&atilde;o tem o reconhecimento   que merece nas   negocia&ccedil;&otilde;es internacionais de   clima", ressalta. "Por exemplo,   temos pesquisadores medindo   os impactos do fogo na degrada&ccedil;&atilde;o   florestal para a emiss&atilde;o   de gases do efeito estufa pelo   ar, com sat&eacute;lites, no ch&atilde;o, e   alguns dos achados apontam    que, por conta da degrada&ccedil;&atilde;o,   florestas da Amaz&ocirc;nia   passaram a emitir mais do que   absorver carbono", afirma.  "Apesar desses alertas, os inc&ecirc;ndios   ainda n&atilde;o t&ecirc;m sido   muito discutidos no &acirc;mbito da   Conven&ccedil;&atilde;o de Clima, pois, de   acordo com as regras do IPCC,   n&atilde;o s&atilde;o contabilizados como fontes de emiss&atilde;o de gases do   efeito estufa. Isso tem que mudar",   defende. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a13fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Expectativas   para a COP30 e para o futuro</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para a pesquisadora, sediar   a COP30 pode favorecer   o posicionamento da ci&ecirc;ncia   brasileira em um local de maior   destaque nas discuss&otilde;es sobre   clima. "A COP em Bel&eacute;m vai ser   uma oportunidade de mostrar   que aqui existe conhecimento,   ci&ecirc;ncia, inova&ccedil;&atilde;o e, tamb&eacute;m,    povos e territ&oacute;rios que j&aacute; v&ecirc;m   enfrentando a crise clim&aacute;tica   na pr&aacute;tica", pontua. De acordo   com Gabriela di Giulio, as   pesquisas nacionais j&aacute; t&ecirc;m   esse potencial. "Vivenciei um   ano sab&aacute;tico na Universidade   de York, na Inglaterra, e voltei   muito convencida de que o   que a gente discute e faz aqui  &eacute; <i>mainstream</i>", diz. "A COP30  &eacute; a chance de o Brasil mostrar   que pode liderar uma agenda   clim&aacute;tica baseada em ci&ecirc;ncia e   justi&ccedil;a pelos mais vulner&aacute;veis. Proteger a Amaz&ocirc;nia &eacute; proteger   o clima e fazer isso com   equidade &eacute; o que confere legitimidade &agrave; lideran&ccedil;a brasileira    no cen&aacute;rio global", prev&ecirc; Ane   Alencar.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A trig&eacute;sima edi&ccedil;&atilde;o da   Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas   sobre as Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas   acontece um ano ap&oacute;s a realiza&ccedil;&atilde;o   de seu evento irm&atilde;o, a   COP da Biodiversidade &#150; que   passou por sua d&eacute;cima sexta   edi&ccedil;&atilde;o. Para Gabriela di Giulio,   no entanto, essa divis&atilde;o n&atilde;o   favorece a cria&ccedil;&atilde;o de solu&ccedil;&otilde;es   integradas. "A biodiversidade  &eacute; parte da solu&ccedil;&atilde;o das mudan&ccedil;as   clim&aacute;ticas e est&aacute; sendo   diretamente afetada por elas",   refor&ccedil;a, advogando a necessidade   de que, no futuro, as   agendas desses dois eventos sejam integradas. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a13fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Enquanto as Confer&ecirc;ncias   permanecem separadas, Ane   Alencar espera que a edi&ccedil;&atilde;o   de 2025 traga um novo olhar   global para as discuss&otilde;es sobre   clima, com uma perspectiva   hol&iacute;stica e &ecirc;nfase no papel   do bioma em que est&aacute; sendo   realizada. "Quero que essa COP seja o momento em que   o mundo reconhece que n&atilde;o   existe estabilidade clim&aacute;tica   global sem uma Amaz&ocirc;nia viva e bem governada. Isso significa   olhar para a floresta como   um sistema diverso, ecol&oacute;gico,   social e econ&ocirc;mico e investir em solu&ccedil;&otilde;es que nascem dessa   diversidade: bioeconomia,   restaura&ccedil;&atilde;o, manejo do fogo,   regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, gest&atilde;o   territorial e valoriza&ccedil;&atilde;o do conhecimento   local", diz. "Se a   COP30 conseguir traduzir isso   em compromissos concretos,   com financiamento, governan&ccedil;a   e voz para quem vive aqui,   ela vai marcar o in&iacute;cio de uma   nova fase da pol&iacute;tica clim&aacute;tica   mundial, onde a floresta &eacute; vista tamb&eacute;m como solu&ccedil;&atilde;o",   conclui.</font></p>      ]]></body>
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