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<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20250069</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre dados e afetos: o papel da arte na era das emergências climáticas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250069</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Entre dados e afetos: o papel da arte   na era das emerg&ecirc;ncias clim&aacute;ticas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Carolina Medeiros<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista pela   PUCC, Especialista em Jornalismo   Cient&iacute;fico pelo Labjor/Unicamp, Mestre   em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural   pelo Labjor/Unicamp e Doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de pela FSP/ USP.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Em meio a negocia&ccedil;&otilde;es   t&eacute;cnicas e relat&oacute;rios extensos,   express&otilde;es art&iacute;sticas ganham   protagonismo no caminho para   a COP30, revelando dimens&otilde;es   sens&iacute;veis da crise clim&aacute;tica   e abrindo novos espa&ccedil;os de   di&aacute;logo entre ci&ecirc;ncia e arte. Em   meio a negocia&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas,   relat&oacute;rios extensos e gr&aacute;ficos   projetados em tel&otilde;es, um   outro tipo de discurso come&ccedil;a   a ocupar espa&ccedil;o no caminho   at&eacute; a COP30, marcada para   acontecer em Bel&eacute;m, a partir   de 10 de novembro de 2025.   S&atilde;o vozes que n&atilde;o ecoam   nas plen&aacute;rias oficiais, mas   em palcos improvisados, nas   ruas, nas aldeias e nos centros   culturais. Performances,   instala&ccedil;&otilde;es e interven&ccedil;&otilde;es   urbanas d&atilde;o corpo a emo&ccedil;&otilde;es   e vis&otilde;es de mundo que   dificilmente cabem em tabelas   de emiss&otilde;es ou metas de   descarboniza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">"A arte possui o poder de   revelar o que a ci&ecirc;ncia, por mais   precisa que seja, n&atilde;o alcan&ccedil;a:   a dimens&atilde;o afetiva, simb&oacute;lica   e &eacute;tica da crise clim&aacute;tica",   afirma Suzete Venturelli, artista   e professora do programa de   p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Design   da Universidade Anhembi   Morumbi. Para ela, a arte &eacute; uma   pr&aacute;tica est&eacute;tica comprometida   com a transforma&ccedil;&atilde;o social e   ambiental, capaz de propor   novas formas de habitar o   mundo e criar zonas de di&aacute;logo   entre humanos e n&atilde;o humanos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Enquanto cientistas   apresentam dados sobre o   aumento da temperatura   global ou a perda da   biodiversidade amaz&ocirc;nica,   coletivos art&iacute;sticos encenam a   resist&ecirc;ncia em performances   que misturam rituais ind&iacute;genas,   dan&ccedil;a contempor&acirc;nea e sons   da floresta. O gesto art&iacute;stico   transforma o dado cient&iacute;fico   em cor, som e movimento.  "Nesse territ&oacute;rio da viv&ecirc;ncia,   as emo&ccedil;&otilde;es e percep&ccedil;&otilde;es se tornam linguagem. &Eacute; um   ativismo sens&iacute;vel, que convoca   o p&uacute;blico &agrave; participa&ccedil;&atilde;o",   explica Suzete Venturelli.   (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a15fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A arte possui o   poder de revelar o   que a ci&ecirc;ncia, por   mais precisa que   seja, n&atilde;o alcan&ccedil;a: a   dimens&atilde;o afetiva,   simb&oacute;lica e &eacute;tica da   crise clim&aacute;tica."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essas interven&ccedil;&otilde;es   n&atilde;o costumam aparecer nas   atas oficiais, mas marcam   profundamente quem as   presencia. Se em confer&ecirc;ncias anteriores as imagens ic&ocirc;nicas   foram as marchas de jovens   com cartazes ou o discurso de   Greta Thunberg, em Bel&eacute;m &eacute; prov&aacute;vel que a mem&oacute;ria    mais duradoura venha das   express&otilde;es amaz&ocirc;nicas."As manifesta&ccedil;&otilde;es mais   significativas da COP30 n&atilde;o   constar&atilde;o nos relat&oacute;rios, mas   nos encontros ef&ecirc;meros entre   humanos e n&atilde;o humanos, &agrave; beira dos rios, nas florestas   e nas margens da cidade",   diz a pesquisadora. Mesmo   invis&iacute;veis aos documentos,   essas a&ccedil;&otilde;es se tornam rituais   de reconex&atilde;o, lembrando   que o planeta tamb&eacute;m cria,   responde e grita.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana"><b>Arte, floresta,   povos, vida</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A arte amaz&ocirc;nica carrega   uma for&ccedil;a singular. Nascida de   territ&oacute;rios onde vida, corpo,   floresta e esp&iacute;rito n&atilde;o se   separam, ela resiste &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o   em linguagens institucionais.  "H&aacute; algo de intraduz&iacute;vel nessa   arte", afirma Suzete Venturelli.  "A arte dos povos origin&aacute;rios   da Amaz&ocirc;nia n&atilde;o fala sobre   o mundo; fala com o mundo.   Sua presen&ccedil;a na COP30   pode lembrar-nos de que o   verdadeiro di&aacute;logo clim&aacute;tico   come&ccedil;a quando aprendemos   a ouvir as vozes da floresta."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nas ruas e aldeias, em   rituais e grafites, pulsa uma   intelig&ecirc;ncia coletiva que   desafia as fronteiras entre   arte, ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica."&Eacute;  nesses espa&ccedil;os n&atilde;o oficiais   que se tecem novas formas de   imaginar o futuro &#150; n&atilde;o como   promessa tecnol&oacute;gica, mas   como continuidade da vida   em comum", observa. Citando Ailton Krenak, ela lembra que"adiar o fim do mundo" exige   reencantar nossa rela&ccedil;&atilde;o com a   Terra e romper com a ideia de   que o humano est&aacute; separado do planeta. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a15fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Nos &uacute;ltimos anos,   esse reencantamento vem   ganhando for&ccedil;a por meio de   colabora&ccedil;&otilde;es entre artistas   e cientistas. Para o di&aacute;logo   ser aut&ecirc;ntico, no entanto,  &eacute; preciso que nenhuma   linguagem se sobreponha  &agrave; outra. "Concordo com   Bruno Latour: a ci&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute;  somente produ&ccedil;&atilde;o de fatos,   mas uma pr&aacute;tica que negocia   mundos e atores, humanos   e n&atilde;o humanos. O mesmo   se aplica &agrave; arte, que projeta   mundos poss&iacute;veis", explica.   O desafio &eacute; criar zonas de copresen&ccedil;a   e co-experimento,   onde arte e ci&ecirc;ncia se cruzem   como iguais, preservando suas   complexidades.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A arte como   tecnologia do afeto</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A arte tem uma   peculiaridade: promove uma   sensibiliza&ccedil;&atilde;o, uma conex&atilde;o.   Ela &eacute; uma tecnologia &#150; uma   tecnologia do afeto &#150; que   gera identifica&ccedil;&atilde;o e convida  &agrave; empatia, &eacute; o que defende   Naomi Silman, integrante do   LUME (N&uacute;cleo Interdisciplinar   de Pesquisas Teatrais da   Unicamp). "A arte pode ser   vista como uma forma de repensar as pr&oacute;prias atitudes.   Em um mundo saturado de   informa&ccedil;&otilde;es, a arte se torna   o espa&ccedil;o onde processamos   e ressignificamos tudo o que recebemos", afirma.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A arte dos povos   origin&aacute;rios da   Amaz&ocirc;nia n&atilde;o fala   sobre o mundo; ela   fala com o mundo".</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para a artista, &eacute; urgente   criar mais espa&ccedil;os de trocas   entre diferentes &aacute;reas do   conhecimento; e ir al&eacute;m: "&eacute;  preciso que artistas n&atilde;o falem   somente para artistas e que   cientistas n&atilde;o conversem   apenas entre si", defende   Naomi Silman. A pesquisadora   acredita que a arte deve ser   reconhecida como necess&aacute;ria   n&atilde;o apenas para informar, mas   tamb&eacute;m para sensibilizar. "Ela   precisa estar nas escolas, nas   universidades e nos espa&ccedil;os   p&uacute;blicos &#150; s&oacute; assim a arte   ganhar&aacute; for&ccedil;a e ser&aacute; vista   como um caminho poss&iacute;vel   de comunica&ccedil;&atilde;o de um tema   t&atilde;o enraizado na ci&ecirc;ncia e na pol&iacute;tica".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essas perspectivas   refor&ccedil;am a ideia de que, diante da crise clim&aacute;tica, arte   e ci&ecirc;ncia n&atilde;o s&atilde;o campos   separados, mas linguagens   complementares. "Logo,   ambas buscam compreender   e transformar o mundo &#150; uma   pela raz&atilde;o e a outra pela   sensibilidade e juntas, podem   inspirar modos de exist&ecirc;ncia   mais &eacute;ticos, po&eacute;ticos e   sustent&aacute;veis", conclui Naomi Silman.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um exemplo dessa   converg&ecirc;ncia &eacute; a obra <i>Cyber   Marinum</i>, instala&ccedil;&atilde;o coletiva   que integra arte generativa,   ci&ecirc;ncia e ativismo ambiental.   Nela, um tanque de &aacute;gua   com plantas aqu&aacute;ticas reais &eacute;  monitorado por sensores que   captam dados ambientais,   como varia&ccedil;&atilde;o das mar&eacute;s e   velocidade dos ventos. Essas   informa&ccedil;&otilde;es controlam a   ilumina&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o em tempo   real, criando uma experi&ecirc;ncia   imersiva. "Ao observar as   mudan&ccedil;as visuais, o p&uacute;blico se   torna parte ativa do sistema, refletindo sobre seu papel na   preserva&ccedil;&atilde;o dos oceanos",   comenta a professora Suzete    Venturelli. A obra demonstra   como tecnologias criativas   podem sensibilizar o p&uacute;blico   e aproximar a ci&ecirc;ncia da   experi&ecirc;ncia sens&iacute;vel. (<a href="#fig03">Figura 3</a>)</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a15fig03.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Para a professora,   enfrentar a emerg&ecirc;ncia   clim&aacute;tica tamb&eacute;m passa pela   forma&ccedil;&atilde;o de novas gera&ccedil;&otilde;es   de artistas. Inspirada em   Paulo Freire, ela defende uma   pedagogia cr&iacute;tica, dial&oacute;gica e   situada. "A forma&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica   deve ir al&eacute;m do dom&iacute;nio   t&eacute;cnico. &Eacute; preciso cultivar a   capacidade de problematizar   o mundo, compreender as   interdepend&ecirc;ncias e atuar de   modo &eacute;tico e transformador.   E isso implica em estimular   estudantes a dialogar   com saberes tradicionais   e cient&iacute;ficos, al&eacute;m de   experimentar linguagens que   conectem arte, tecnologia e   natureza", explica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Vivemos numa   sociedade   de excesso,   onde o olhar &eacute;  continuamente   disperso e o contato   com a experi&ecirc;ncia   sens&iacute;vel se esgota."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em um mundo saturado   de imagens, dados e   informa&ccedil;&otilde;es, a arte surge   como for&ccedil;a de desacelera&ccedil;&atilde;o e   reconex&atilde;o. "Vivemos em uma   sociedade de excesso, em que   o olhar se dispersa e o contato   com a experi&ecirc;ncia sens&iacute;vel   se esgota, a arte desacelera,   concentra e reencanta o olhar, convidando &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o, &agrave; presen&ccedil;a e &agrave; escuta", observa   Venturelli, evocando Byung-Chul Han.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Agrave;s v&eacute;speras da COP30,   talvez a for&ccedil;a da arte esteja   justamente no que n&atilde;o se   pode medir. Relat&oacute;rios e   negocia&ccedil;&otilde;es continuar&atilde;o   indispens&aacute;veis, mas &eacute; nas   ruas, nos rios e nas vozes   amaz&ocirc;nicas que poder&atilde;o surgir   as mem&oacute;rias mais duradouras   do encontro. A hist&oacute;ria das   mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas n&atilde;o se   escrever&aacute; apenas com gr&aacute;ficos   e metas &#150; mas tamb&eacute;m com   as imagens, sons e corpos que   falaram ao cora&ccedil;&atilde;o quando a ci&ecirc;ncia j&aacute; n&atilde;o bastava.</font></p>      ]]></body>
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