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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317-6660.20250070</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Financiamento clim&aacute;tico na COP 30</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Priscylla Almeida<sup>I</sup>; Jo&atilde;o F. F. Nogueira<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Jornalista e produtora   de conte&uacute;do para &aacute;reas de   sa&uacute;de e ci&ecirc;ncia, marketing e publicidade.   Apaixonada por filmes, gatinhos   e pela rotina din&acirc;mica que a comunica&ccedil;&atilde;o   traz: o contato com gente, a   curiosidade de assuntos diversos, a troca.    <br> <sup>II</sup>Desenvolvedor   de software, professor e pesquisador.   Transita por diversos temas, das   ci&ecirc;ncias humanas &agrave;s exatas, sempre   estudando algo novo. Adora jogar videogame quando n&atilde;o est&aacute; viajando.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Desde a Confer&ecirc;ncia de   Copenhagen (COP15, 2009),   os pa&iacute;ses desenvolvidos assumiram   o compromisso de mobilizar   US $ 100 bi anuais at&eacute;  2020 para apoiar a mitiga&ccedil;&atilde;o   e adapta&ccedil;&atilde;o nos pa&iacute;ses em   desenvolvimento. A meta foi   reafirmada no Acordo de Paris   (COP21, 2015) e novamente   no "<i>book of rules</i>" (livro de regras)   da COP26, em Glasgow.   Um relat&oacute;rio da OCDE apontou   que o aporte efetivo foi de   US$ 115,9 bilh&otilde;es, atingindo   finalmente a meta, somente   em 2022. No entanto, quase   70% desse montante chegou   na forma de empr&eacute;stimos onerosos,    n&atilde;o de doa&ccedil;&otilde;es, agravando   a d&iacute;vida externa dos   pa&iacute;ses mais vulner&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Pedro Luiz C&ocirc;rtes, professor   do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade   de S&atilde;o Paulo (USP) e revisor   de relat&oacute;rios do Painel   Intergovernamental sobre   Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas (IPCC),   destaca: "h&aacute; um impedimento   para os pa&iacute;ses pobres, pa&iacute;ses   insulares, sendo a necessidade    de equipes t&eacute;cnicas para   fazer uma formata&ccedil;&atilde;o adequada   dos projetos e evidenciar   para quem vai ceder os recursos,   seja a fundo perdido, juros   subsidiados, ou mesmo como   investimento, que aqueles recursos   ser&atilde;o aplicados adequadamente." Ele acrescenta que,   al&eacute;m da prepara&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, "&eacute; necess&aacute;ria uma estrutura de   governan&ccedil;a e <i>compliance</i> para   fazer a auditoria da aplica&ccedil;&atilde;o   desses recursos". Essa dupla   falha &#150; aus&ecirc;ncia de mecanismo   vinculativo e prefer&ecirc;ncia por cr&eacute;dito &#150; impede que as promessas   se traduzam em recursos reais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A burocracia dos   fundos multilaterais</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mesmo quando o dinheiro   existe, ele costuma   ficar "preso" em processos   burocr&aacute;ticos. O Fundo Verde   para o Clima (GCF) j&aacute; aprovou   US$ 15,9 bilh&otilde;es em projetos,   mas a maioria dos recursos   segue um modelo "<i>top   down</i>", atravessando m&uacute;ltiplas   camadas institucionais antes   de chegar &agrave;s comunidades   locais. Gustavo Luedemann,   t&eacute;cnico de Planejamento e   Pesquisa na Coordena&ccedil;&atilde;o de   Sustentabilidade Ambiental   (COSAM) do Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada   (IPEA) e membro da Rede   Clima, explica: "a maior parte   do recurso dispon&iacute;vel &eacute; onerosa,   precisa ser restitu&iacute;da, ao   menos em parte, aos fundos.   Todavia, temos situa&ccedil;&otilde;es em   que empr&eacute;stimos s&atilde;o fornecidos   com dez anos de car&ecirc;ncia,   sem juros e d&eacute;cadas para pagar,   taxas de servi&ccedil;os baix&iacute;ssimas   e risco assumido pelo   doador." Ele ressalta ainda que "h&aacute; muita burocracia e custo   de transa&ccedil;&atilde;o na opera&ccedil;&atilde;o dos   bancos multilaterais e ag&ecirc;ncias   de coopera&ccedil;&atilde;o", o que cria   gargalos que atrasam a entrega   efetiva dos recursos.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"H&aacute; muita burocracia   e custo de transa&ccedil;&atilde;o   na opera&ccedil;&atilde;o dos   bancos multilaterais   e ag&ecirc;ncias de   coopera&ccedil;&atilde;o."</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Quanto chega   realmente &agrave;s   comunidades?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora povos ind&iacute;genas   e comunidades tradicionais   protejam cerca de 82% da biodiversidade   planet&aacute;ria, segundo   Ane Alencar, diretora de   ci&ecirc;ncia no Instituto de Pesquisa   Ambiental da Amaz&ocirc;nia (IPAM),  "menos de 10% dos recursos   clim&aacute;ticos alcan&ccedil;am as comunidades   que est&atilde;o protegendo   florestas e territ&oacute;rios, e isso &eacute;  um contrassenso. Mecanismos   como fundos descentralizados,   gest&atilde;o comunit&aacute;ria e repasses   diretos mostram ser   poss&iacute;vel garantir esse repasse   localmente". A "evapora&ccedil;&atilde;o" de recursos acontece porque   os fundos s&atilde;o distribu&iacute;dos por   governos nacionais que, muitas   vezes, carecem de capacidade   operacional ou de incentivos   para repassar o dinheiro   eficientemente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A Amaz&ocirc;nia: risco   e oportunidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A floresta amaz&ocirc;nica representa   um ativo clim&aacute;tico   global: sua degrada&ccedil;&atilde;o poderia   liberar 300 bilh&otilde;es de toneladas   de carbono, inviabilizando   os objetivos do Acordo de   Paris. Falta de financiamento   coloca a regi&atilde;o &agrave; beira de um   ponto de n&atilde;o retorno, onde   a perda da cobertura florestal   desencadearia efeitos clim&aacute;ticos   catastr&oacute;ficos. Entretanto,   a pr&oacute;pria Amaz&ocirc;nia pode gerar   receita. O <i>Tropical Forest   Forever Facility</i> (TFFF) prop&otilde;e   um financiamento misto de US$   125 bi, combinando capital soberano,   filantr&oacute;pico e privado,   remunerando as na&ccedil;&otilde;es tropicais    com US$ 4 por hectare de   floresta mantida. Como afirma Pedro Luiz C&ocirc;rtes: "Fundos ou   a&ccedil;&otilde;es como <i>Tropical Forest   Forever Facility</i> s&atilde;o &oacute;timos,   porque t&ecirc;m a oportunidade de   captar recursos, sejam recursos   p&uacute;blicos, recursos privados,   sobre diversas formas, e dar a   garantia de uma aplica&ccedil;&atilde;o correta,   de auditoria sobre a execu&ccedil;&atilde;o." (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a16fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Menos de 10% dos   recursos clim&aacute;ticos   alcan&ccedil;am as   comunidades que   est&atilde;o protegendo   florestas e   territ&oacute;rios."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Paralelamente, o mercado   de carbono jurisdicional   (REDD+ Jurisdicional) estima   que os estados da Amaz&ocirc;nia   Legal poderiam gerar entre   US$ 10,8 bilh&otilde;es e US$ 21,6   bilh&otilde;es em receitas de cr&eacute;ditos   de carbono entre 2023&#150;2030, com potencial de US$   1,4 bilh&atilde;o anuais por estado, considerando um pre&ccedil;o m&iacute;nimo de US$ 10 por cr&eacute;dito.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"N&atilde;o se trata de   criar mecanismos   novos para que o   recurso chegue a   povos ind&iacute;genas,   mas sim de cumprir   as obriga&ccedil;&otilde;es   assumidas e fazer   com que todos os   agentes tenham   voz &#150; informada  &#150; na aplica&ccedil;&atilde;o   dos recursos do   financiamento   clim&aacute;tico internacional."</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Por que as   promessas   permanecem   obstru&iacute;das?</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os recursos globais s&atilde;o   finitos, mas a aloca&ccedil;&atilde;o atual favorece   setores que perpetuam   a depend&ecirc;ncia de combust&iacute;veis   f&oacute;sseis. Em 2024, os gastos   militares globais somaram   US$ 2,7 tri, quase o dobro da   meta de financiamento clim&aacute;tico   (US$ 1,3 tri). Al&eacute;m disso,   subs&iacute;dios a combust&iacute;veis f&oacute;sseis   chegam a US$ 1,3 tri, valor   compar&aacute;vel ao alvo clim&aacute;tico.   Essa competi&ccedil;&atilde;o de prioridades   evidencia que o obst&aacute;culo   n&atilde;o &eacute; a disponibilidade de   capital, mas a vontade pol&iacute;tica   de redirecion&aacute;-lo. Al&eacute;m disso, h&aacute; falta de presta&ccedil;&atilde;o de contas.   Sem indicadores claros de   desembolso e monitoramento   independente, os pa&iacute;ses   do Norte podem alegar cumprimento   parcial enquanto a   maior parte dos recursos permanece "no papel". Gustavo   Luedemann refor&ccedil;a que: "N&atilde;o   se trata de criar mecanismos   novos para o recurso chegar a   povos ind&iacute;genas. Mas, sim, de   cumprir as obriga&ccedil;&otilde;es assumidas   e fazer com que todos os   agentes tenham voz &#150; informada &#150; na aplica&ccedil;&atilde;o dos recursos   do financiamento clim&aacute;tico internacional".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Lucas Ferrante, pesquisador   da USP e da Universidade   Federal do Amazonas (UFAM),   traz uma perspectiva nacional:  "O problema do financiamento   clim&aacute;tico n&atilde;o &eacute; apenas a   falta de vontade pol&iacute;tica dos   pa&iacute;ses ricos, mas a aus&ecirc;ncia de   coer&ecirc;ncia interna nas pol&iacute;ticas   ambientais do pr&oacute;prio Brasil.   Enquanto o governo federal   continuar investindo em infraestrutura   destrutiva e explora&ccedil;&atilde;o   de combust&iacute;veis f&oacute;sseis,   qualquer aporte financeiro externo   se tornar&aacute; irrelevante ou at&eacute; contradit&oacute;rio." Ele ainda   argumenta que "comunidades   tradicionais j&aacute; possuem economias    pr&oacute;prias e que o dinheiro   precisa chegar sem condicionalidades   e sem impor modelos   externos que desrespeitam   o modo de vida tradicional".   Ane Alencar aponta a dimens&atilde;o   social da burocracia: "A   burocracia e a predomin&acirc;ncia   de empr&eacute;stimos agravam as   desigualdades, porque imp&otilde;em   novas d&iacute;vidas aos pa&iacute;ses   que menos contribu&iacute;ram para a   crise clim&aacute;tica." (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v77n4/a16fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>O papel da COP30 em Bel&eacute;m</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como anfitri&atilde;o, o Brasil   tem a oportunidade &uacute;nica de   transformar promessas em   acordos execut&aacute;veis. O financiamento   clim&aacute;tico est&aacute; preso   a um ciclo de promessas n&atilde;o   cumpridas, burocracia excessiva   e prioridades de gasto desalinhadas.   Enquanto isso, a   Amaz&ocirc;nia, guardi&atilde; de bilh&otilde;es    de toneladas de carbono, arrisca-   se a se tornar um dos maiores"d&eacute;bitos" da humanidade. Entretanto, a pr&oacute;pria crise abre   espa&ccedil;o para inova&ccedil;&atilde;o: financiamento   misto, pagamentos   por servi&ccedil;os ambientais, mercados   regulados de carbono e   financiamento direto a comunidades   oferecem caminhos para   romper a depend&ecirc;ncia da boa   vontade dos pa&iacute;ses ricos. Se a   comunidade internacional conseguir   transformar essas ideias   em pol&iacute;ticas concretas, o futuro   da floresta e, por extens&atilde;o, do   planeta, ser&aacute; muito mais seguro.   Caso contr&aacute;rio, continuaremos   a assistir ao esgotamento   de um recurso que, ao mesmo   tempo, sustenta a vida e gera   riqueza para poucos.</font></p>     ]]></body>
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