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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a29f1.gif"></P>     
<P>&nbsp;</P>     <P><font size="4">Document&aacute;rio</font></P>     <p><font size=5>N<small>OT&Aacute;VEIS DA F&Iacute;SICA</small></font></p>     <P>&nbsp; </P>     <P><FONT COLOR=black>Dois dos maiores físicos da história brasileira e com projeção    nacional estão no documentário <I>Cientistas brasileiros</I>, do cineasta e    professor da PUC do Rio, José Mariani. César Lattes e José Leite Lopes são os    protagonistas da história de uma geração de notáveis, que hoje beira os 80 anos,    e que participaram das grandes descobertas da Física do século 20.</font></P>     <P><font color="black"> O filme estreou no Rio e em São Paulo em abril, no festival    <I>É Tudo Verdade</I>, e tenta agora uma carreira em vídeo nas televisões abertas,    como a TVE e TV Cultura, além de canais pagos. Enquanto isto, entusiasma platéias    de estudantes pelo Brasil afora, onde Mariani participa de debates após a exibição    de seu documentário. O cineasta disse que a idéia da série iniciada enfocando    Lattes e Leite Lopes foi retratar uma geração de físicos, responsável pela criação    das bases dos institutos de ensino e pesquisa no Brasil, surgidos no pós-guerra    e no calor do nascimento da Física nuclear.</font></P>     <P><font color="black"> O filme é narrado por Arnaldo Antunes, reunindo depoimentos    de grandes nomes de cientistas brasileiros, imagens históricas e recursos de    computação gráfica para abordagem das noções teóricas, como a da seqüência de    raios cósmicos. Mas o segundo narrador do filme é Leite Lopes, companheiro de    César Lattes, autor do grande feito internacional: a descoberta do méson pi,    uma subpartícula do núcleo do átomo. O diretor José Mariani conta a história    pelo olhar de companheiros como Marcelo Damy de Souza, professor da USP, e do    historiador Simon Schwartzman, lançando mão de um extenso material de pesquisa    obtido em institutos nacionais e estrangeiros além de filmes da época do anúncio    da descoberta, no ano de 1947. “Foram mais de 200 fotos de época, além dos acervos    pessoais e públicos.” Mariani acrescenta que fez a opção de contextualizar a    vida dos cientistas dentro da História, pois o filme tem um foco bastante aberto    de público e acaba por cumprir, de certa forma, um papel pedagógico sobre a    Ciência.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a29f2.jpg"></P>     
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<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="4">César Lattes</font></b></P>     <P><font color="black"> O físico César Lattes tinha 22 anos no ano de 1947 quando    se projetou no cenário internacional da Física com a descoberta do méson pi,    uma subpartícula do núcleo do átomo. “Descobri por acaso; mas é assim que as    coisas acontecem na ciência.” É como relata, modestamente, o feito que incluiu    incorporar o Bórax, um fixador químico que ninguém tinha usado até então, para    registrar a imagem dos raios cósmicos recolhidos nos Andes bolivianos. Segundo    seu assistente, o físico Alfredo Marques do Centro Brasileiro de Pesquisa Físicas    (CBPF), “esta foi uma das descobertas mais sensacionais da Física do século    20. Ela teve um caráter novo, a partir dela foram descobertas novas partículas    e começou no mundo todo uma corrida aos aceleradores de partículas”.</font></P>     <P><font color="black"> César Lattes tem hoje 77 anos e em seu currículo estão    a UFRJ, o CBPF e a Unicamp, onde atuou sempre como professor titular.</font></P>     <P> <font color="black"><B><I>O senhor fez a pesquisa que descobriu o méson pi    em 1947. Hoje ainda tem muita coisa para ser descoberta?</I></B></font></P>     <P><font color="black">Nem começamos ainda. O conhecimento que temos do Universo    é mínimo. Tem seis palavras que existem em vários idiomas: cabeça, cérebro,    razão, mente, espírito e alma. Por enquanto a ciência tem olhado mais para as    primeiras três; falta olhar melhor para mente, espírito e alma.</font></P>     <P> <font color="black"><B><I>Quando descobriu o méson pi, o senhor era bem jovem.    A juventude de hoje pode fazer novas descobertas importantes no Brasil?</I></B></font></P>     <P><font color="black"> Não, não dá. Com essa graduação que ninguém cuidou? Antes    as grandes descobertas eram feitas aos 20 e poucos anos. Agora o sujeito chega    aos 40 e ainda é estudante, ainda estão formando a cabeça dele. Tem muita coisa    errada nos livros, tem muita coisa errada que os professores ensinam. Então    fica difícil progredir nas descobertas das leis da natureza, se vem tudo mastigado    pelo professor e pelo livro.</font></P>     <P> <font color="black"><B><I>E antigamente, o preparo na graduação era melhor?</I></B></font></P>     <P><font color="black"> Antigamente não existia essa história de graduação, tinha    o bacharelado. Eu só sou bacharel. Eu nunca fiz pós-graduação. Comecei a trabalhar    com 19 anos, fiz o último exame em Física em 43 e, em 44, já era professor da    USP.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P> <font color="black"><B><I>Como conheceu o físico Leite Lopes?</I></B></font></P>     <P><font color="black"> Eu conheci o Leite quando ele veio para São Paulo, em    1942, por aí, com a bolsa de estudo. Depois, juntos, fizemos o CBPF. Porque    São Paulo estava saturado. Criaram uma cadeira para mim em 48, mas não tinha    sala, não tinha verba, não tinha livro. Eu preferi ir para o Rio criar o Centro    como sociedade civil sem fins lucrativos. Quando o Getúlio (Vargas) foi eleito,    ele me disse: “Mantenha particular senão o DASP (Departamento Administrativo    do Serviço Público) vai meter o bedelho e vocês não vão poder trabalhar”. Aquilo    era uma burocracia que o Getúlio fez para pôr em ordem a administração, mas    não para cuidar de ciência. Para cuidar da ciência ele criou o Conselho Nacional    de Pesquisas. Mas mesmo assim ele disse: “Eu vou dar posse, vou dizer a eles    para te darem uma verba, quanto é que precisa por ano (era mais ou menos US$    100 mil), pode ficar sossegado, agora mantenha como sociedade civil sem fins    lucrativos, para poder ter liberdade de comprar material, trazer gente de fora,    pagar salários, com livros”. </font></P>     <P><font color="black"> Agora vocês esqueceram o Getúlio, para vocês o importante    é o Juscelino, que enriqueceu fazendo Brasília. Hoje em dia só se fala em Juscelino,    mas quem foi que fez a Constituinte? Getúlio. Antes disso, era a República Velha,    era entre São Paulo e Minas, era café com leite. Quem foi que fez Volta Redonda?    Foi o Getúlio. E a Petrobrás? Foi o Getúlio. E por que que vocês não falam do    Getúlio, por que só falam do Juscelino?</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a29f3.jpg"></P>     
<P>&nbsp; </P>     <P><b><font size="4">José Leite Lopes</font></b></P>     <P> <font color="black">O professor José Leite Lopes nasceu em 1918 em Recife,    onde se formou em Química. Descobriu a Física como aluno de Luiz Freire, ainda    na capital pernambucana, ganhou uma bolsa de estudos e, aos 21 anos, desembarcou    no Rio de Janeiro para estudar na Faculdade Nacional de Filosofia, onde, em    1946, tornou-se professor de Física Teórica. Em 1945 estava em Princeton, num    momento privilegiado do debate sobre o desenvolvimento da energia nuclear, que    culminou com a fabricação da bomba atômica. Foi membro da Comissão de Energia    Atômica, criada como programa estratégico em 1955, e diretor entre 1960 e 1964    do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que ajudou a criar em 1950    e do qual se demitiu por conta das imposições do golpe militar. </font></P>     <P><font color="black"> Parte novamente para o exílio, em 1969, com o endurecimento    do regime e vive no exílio por 20 anos na França, após um curto período em Pittsburg,    nos Estados Unidos, onde não quis ficar. Voltou com a abertura política no Brasil,    em 1986. Autor de vários livros e trabalhos originais, como a existência do    bóson Zº, acaba de sair do prelo “um livrinho sobre a unificação das forças    da natureza”, pela Unesp, conforme ele conta. </font></P>     <P> <font color="black"><B><I>O senhor participou da instalação dos institutos    de pesquisa no País. Qual o papel que cumpriram? Como avalia a atuação das agências    de fomento hoje?</I></B></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font color="black"> Prefiro não avaliar as agências hoje, pois não trabalho    mais com elas. Posso falar do período de que participei, como da fundação do    CBPF, que teve um papel fundamental no desenvolvimento da pesquisa científica.    O que eu vejo hoje é que o Ministério da Ciência e Tecnologia, administrado    por um economista que não entende a importância da pesquisa pura, quer simplesmente    acabar com a pós-graduação do Centro. Não se pode matar um trabalho de 40 anos    de contribuições fundamentais para a Física e de bons resultados assim, numa    penada de final de gestão.</font></P>     <P> <font color="black"><B><I>Como o senhor avalia a formação de cientistas hoje?    Quais as debilidades e as facilidades que existem?</I></B></font></P>     <P><font color="black"> Eu creio que para melhorar a formação dos cientistas é    preciso haver uma reforma nas universidades. É preciso atualizar os programas    e abrir-se mais para a sociedade. Acho fundamental que o conhecimento acadêmico    seja repassado aos professores do ensino secundário para melhorá-lo, através    de iniciativas como cursos de aperfeiçoamento.</font></P>     <P> <font color="black"><B><I>Quais os atributos que nos fazem identificar um    verdadeiro cientista?</i></b></font></P>     <P><font color="black">Não sei. Acho que o ambiente de estímulo ao cientista hoje    é bastante propício; o estudante trabalha com maior facilidade, o que é muito    bom.</font></P>      ]]></body>
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