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</front><body><![CDATA[ <P><FONT SIZE=4><b>Biografia</b></FONT></P>     <P><FONT SIZE=5><b>A <small>HIST&Oacute;RIA ESCREVE-SE DO PRESENTE</small></b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3>Oriundo de fam&iacute;lia judia, Eric Hobsbawn nasceu em 1917    no Egito, passou boa parte da sua inf&acirc;ncia entre a &Aacute;ustria e Alemanha,    de onde fugiu para a Inglaterra devido ao in&iacute;cio da persegui&ccedil;&atilde;o    nazista. Reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da segunda metade    do s&eacute;culo XX, Hobsbawn foi co-fundador da revista <i>Past and Present</i>    e autor de uma vasta e abrangente produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, escrevendo    sobre variados temas, desde revoltas e rebeli&otilde;es de camponeses e trabalhadores    ingleses no s&eacute;culo XVIII at&eacute; uma obra sobre hist&oacute;ria social    do jazz. Apesar da variedade de assuntos que tratou, o intelectual manteve-se    coerente com uma linha de interpreta&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica marxista    durante toda sua vida. Sua atua&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m ultrapassou as    fronteiras da academia, tendo sido militante do partido comunista ingl&ecirc;s    durante d&eacute;cadas e permanecido ligado &agrave; ele mesmo ap&oacute;s a    dissid&ecirc;ncia de uma s&eacute;rie de historiadores ingleses em 1956, devido    a discord&acirc;ncias com a pol&iacute;tica stalinista. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Durante os primeiros dias de agosto, Hobsbawn esteve no Brasil    para participar da Festa Liter&aacute;ria Internacional de Paraty (Flip), que    reuniu v&aacute;rios escritores brasileiros e estrangeiros durante quatro dias    de confer&ecirc;ncias e debates. O historiador ingl&ecirc;s foi a grande estrela    da festa, com a confer&ecirc;ncia mais concorrida. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>O conte&uacute;do de sua confer&ecirc;ncia centrou-se, principalmente,    em temas relacionados com seu &uacute;ltimo livro, a autobiografia intitulada    <i> Tempos interessantes, uma vida no s&eacute;culo XX</i>. A riqueza de sua    fala e a acuidade de sua exposi&ccedil;&atilde;o permitem reflex&otilde;es n&atilde;o    apenas sobre os assuntos tratados nesse livro mas, tamb&eacute;m e principalmente,    sobre a rela&ccedil;&atilde;o do historiador com seu trabalho.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a30fig01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3>Este tema, j&aacute; interessante por si s&oacute;, torna-se ainda    mais rico quando se trata de uma personalidade como Hobsbawn, que revelou em    sua trajet&oacute;ria uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica bastante determinada    e uma verdadeira passionalidade, n&atilde;o despida de profunda erudi&ccedil;&atilde;o    e precis&atilde;o metodol&oacute;gica, na constru&ccedil;&atilde;o de suas interpreta&ccedil;&otilde;es.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=3>De fato, talvez uma das principais preocupa&ccedil;&otilde;es    do autor ao escrever sua autobiografia, e ao falar sobre ela, tenha sido explicitar    a id&eacute;ia de que o historiador constr&oacute;i o passado a partir do presente.    Sua concep&ccedil;&atilde;o &eacute; que todo estudioso de hist&oacute;ria,    qualquer que seja seu assunto, , ao mesmo tempo que investiga o passado, est&aacute;    "<i>pensando e expressando opini&otilde;es a respeito do presente e suas    quest&otilde;es e falando a respeito delas</i>".(1)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>&Eacute; bastante claro tamb&eacute;m que Hobsbawn concebe a possibilidade    de diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas sobre o mesmo evento,    origin&aacute;rias de diferentes op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de seus    autores, o que revela, de certa forma, como as condi&ccedil;&otilde;es presentes    da produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento hist&oacute;rico interferem em seu    conte&uacute;do. Mas, mais do que isto, considera leg&iacute;timos todos esses    embates ideol&oacute;gicos interpretativos e defende suas posi&ccedil;&otilde;es    de maneira bastante convincente.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Cabe aqui lembrar, a t&iacute;tulo de exemplo do comprometimento    da obra de Hobsbawn com sua posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, seu livro    <i>Ecos da Marselhesa</i>, escrito a prop&oacute;sito da comemora&ccedil;&atilde;o    do bicenten&aacute;rio da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa. No texto quase panflet&aacute;rio,    o autor revela textualmente que sua principal motiva&ccedil;&atilde;o era, nada    mais nada menos, a sua irrita&ccedil;&atilde;o com o revisionismo hist&oacute;rico    que retirava grande parte do conte&uacute;do social da revolu&ccedil;&atilde;o.    Dialogando especificamente com o historiador franc&ecirc;s Fran&ccedil;ois Furet    e seu livro <i>Pensando a Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa</i> (2), sugere que    h&aacute; duas correntes interpretativas da revolu&ccedil;&atilde;o, e que "as    vers&otilde;es revisionistas n&atilde;o s&atilde;o os melhores guias para compreender    o papel hist&oacute;rico da revolu&ccedil;&atilde;o e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias.    Somente alguns revisionistas acham que s&atilde;o".(3)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Entre outras raz&otilde;es, &eacute; devido ao fato de que o historiador    est&aacute; intrinsecamente ligado ao presente, que a hist&oacute;ria n&atilde;o    permite, ou n&atilde;o perdoa, posi&ccedil;&otilde;es monol&iacute;ticas. Novas    conjunturas presentes est&atilde;o sempre propondo novas interpreta&ccedil;&otilde;es    para eventos passados, o que torna ainda mais importante a autobiografia de    um autor t&atilde;o importante e longevo como Hobsbawn. Ele presenciou conjunturas    pol&iacute;ticas bastante diferentes ao longo de sua vida, tais como a ascens&atilde;o    do nazismo, a Segunda Guerra Mundial e a reorganiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    mundial ap&oacute;s seu t&eacute;rmino, bem como a destrui&ccedil;&atilde;o    da polaridade estabelecida como seu resultado e finalmente a hegemonia militar    norte-americana ainda presente.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Durante a entrevista coletiva ap&oacute;s sua confer&ecirc;ncia,    Hobsbawn foi questionado se ainda achava o comunismo uma "boa id&eacute;ia".    Sua resposta procurou demonstrar a possibilidade pr&aacute;tica de manter a    coer&ecirc;ncia essencial de posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas ao longo    do tempo, da mesma forma que &eacute; poss&iacute;vel refletir criticamente    sobre o passado e compreender transforma&ccedil;&otilde;es conjunturais. Em    sua fala, confere grande import&acirc;ncia a movimentos socialistas e comunistas    dos s&eacute;culos XIX e XX, "<i>n&atilde;o apenas pelos seus ideais, mas    tamb&eacute;m por sua capacidade de mobilizar os pobres para conquistar seus    direitos e for&ccedil;ar concess&otilde;es dos ricos</i>". Nota, entretanto,    que o comunismo da forma como foi implantado na antiga Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica    e na China, o qual defendeu, como mostra sua perman&ecirc;ncia no partido comunista    em 1956, falhou. Mas, segundo ele, a id&eacute;ia de uma sociedade melhor permanece    em seu trabalho e a cr&iacute;tica do capitalismo, que era o cora&ccedil;&atilde;o    da an&aacute;lise de Karl Marx, &eacute; mais necess&aacute;ria do que nunca    porque os problemas criados pela atual fase do capitalismo s&atilde;o muito    s&eacute;rios para o futuro da humanidade </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Cada uma das obras do historiador j&aacute; se coloca como uma    verdadeira aula de hist&oacute;ria, mas a confer&ecirc;ncia em Paraty e sua    autobiografia permitem, para al&eacute;m disso, recuperar as experi&ecirc;ncias    da constru&ccedil;&atilde;o desta grande personalidade do s&eacute;culo XX e    perceber na pr&aacute;tica como a hist&oacute;ria escreve-se do presente. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>&Eacute; certamente imposs&iacute;vel resumir em poucas palavras    as in&uacute;meras li&ccedil;&otilde;es presentes no &uacute;ltimo livro de    Hobsbawn, um historiador que mant&eacute;m, viva e sempre renovada, a tradi&ccedil;&atilde;o    interpretativa marxista, mas talvez uma das mais importantes esteja contida    justamente em uma passagem que o intelectual cita Marx, ainda no pref&aacute;cio    de sua autobiografia: "os homens fazem &#91;suas vidas&#93;, mas n&atilde;o &#91;as&#93;    fazem como desejam, n&atilde;o &#91;as&#93; fazem nas circunst&acirc;ncias escolhidas    por eles, e sim nas circunst&acirc;ncias diretamente encontradas, proporcionadas    e transmitidas pelo passado e pelo mundo &agrave; volta delas".</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><FONT SIZE=3><i>Alexsander Gebara &eacute; historiador,     <br>   doutorando em hist&oacute;ria social pela USP.</i></FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3><b>OBRAS CITADAS</b></FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>1. Hobsbawn, E. <i>Tempos interessantes, uma vida no s&eacute;culo    XX</i>, S&atilde;o Paulo, Cia. das Letras, 2002. p. 311.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>2. Furet, F. <i>Pensando a Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa</i>.    Paz e Terra, S&atilde;o Paulo, 1989.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>3. Hobsbawn, E. <i>Echoes of the Marseillaise</i>. Verso, London,    New York, 1990.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a30fig02.gif"></P>      ]]></body>

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