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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a29img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>ENREDO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <table width="50%" border="0" align="center" cellpadding="0" cellspacing="0">   <tr>      <td>    <p align="center"><font size="3">I</font></p>           <p><font size="3">N&atilde;o crescemos como era preciso, mas algu&eacute;m          deve aparar as unhas da hist&oacute;ria. Os navios continuam chegando,          n&atilde;o os vemos, nem a col&ocirc;nia que fundam al&eacute;m da primeira          p&aacute;gina.    <br>         Os navios, como n&oacute;s, t&ecirc;m muitos alarmes. Nos confundimos          at&eacute; saber quem decifrar&aacute; os icebergs. Nos punimos nas linhas          que nos separam e os c&atilde;es n&atilde;o farejam amizade em n&oacute;s.    <br>         Se um filho nascesse, o chamar&iacute;amos de urg&ecirc;ncia, sua fome          mastigaria sete peda&ccedil;os do mundo. E s&oacute; depois que ele cuspisse,          nos entregar&iacute;amos ao nosso pr&oacute;prio nome.</font></p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="3">II</font></p>           <p><font size="3">A varanda incendeia sua orfandade. In&uacute;til o mar          que transformou os ossos em corais e a fisga que os recupera para os livros.    <br>         Uma vez perdido, como esperar o corpo? As rixas deixam nele um rastro          por onde o escorbuto avan&ccedil;a.    <br>         Est&atilde;o recolhendo gripes na areia e a p&aacute; mec&acirc;nica ruge          como um navio pirata, sua carga exposta enoja o mercado.    <br>         O que foi comido pelo mar se debru&ccedil;a na garagem, anda descal&ccedil;o          para que sejamos iludidos de seu perfume.</font></p>           <p align="center"><font size="3">III</font></p>           <p><font size="3">O nervo do lagarto &eacute; um irm&atilde;o, pouco importa          se o arrancaram de suas costas e haja mais curvas numa h&eacute;lice que          em sua raiva.    <br>         Enfia um c&oacute;digo nessa lacuna e a fa&ccedil;a assoviar.</font></p>           <p align="center"><font size="3">IV</font></p>           <p><font size="3">Uma salva de tiros me acorda, se est&atilde;o celebrando          n&atilde;o &eacute; pelo esqueleto a quem pertenci. A c&aacute;rie no          dente de um morto &eacute; amea&ccedil;adora.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>         N&atilde;o diz nada sem a cumplicidade da l&iacute;ngua, n&atilde;o expele          nada, n&atilde;o perfura a carne que raptaram antes. A c&aacute;rie envergonha          o morto.    <br>         Que dizer de seus h&aacute;bitos se medidos pela sa&uacute;de da boca.          A salva de tiros &eacute; para imp&ocirc;r na praia um aviso.    <br>         A c&aacute;rie sabendo dele mais que a festa r&oacute;i a si mesma.</font></p>           <p align="center"><font size="3">V</font></p>           <p><font size="3">Na fotografia que Verger n&atilde;o fez, os carros apodrecem.          Plantas lan&ccedil;am seu cateter e antes de atingir o cora&ccedil;&atilde;o          da m&aacute;quina, a escondem. Os coletores de ferro velho assaltaram          essa ermida, o deus carca&ccedil;a os aben&ccedil;oa.    <br>         H&aacute; que abri-lo e tirar o peixe de seu ventre. Ele se oferece sem          chorar o sangue, mas n&atilde;o &eacute; justa a balan&ccedil;a que transforma          os seus restos em centavos.    <br>         A m&atilde;o &eacute; o ma&ccedil;arico ante o decalque de uma flor no          p&aacute;ra-brisas. Para essa fotografia a que Verger se antecipou, o          esquecimento &eacute; a moldura pior. </font></p>           <p align="center"><font size="3">VI</font></p>           <p><font size="3">O esp&iacute;rito da floresta aluga um quarto na cidade.          Sufoca de n&atilde;o poder. De hora em hora os trens disparam e a morte          compra cedo na padaria. O gato se desprendeu da rede el&eacute;trica e          &agrave;s escuras vemos os dentes em marcha.    <br>         O esp&iacute;rito da floresta trouxe um alguidar e uma faca, com eles          esfola o medo. Quando se atirou do &ocirc;nibus, gritaram – valei-nos,          por tudo que &eacute;. O esp&iacute;rito caiu em si, soprou sobre a ferida          e o dia amanheceu em paz.</font></p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="3">VII</font></p>           <p><font size="3">A varanda desceu a escada de inc&ecirc;ndio e deparou          com o servi&ccedil;o da vida nas ruas. O lagarto, a c&aacute;rie, os coletores          de ferro velho e o esp&iacute;rito da floresta rabiscam a geografia da          cidade.    <br>         O que era amendoim na inf&acirc;ncia, dizem ser passatempo natural. Por          um real se vende, com mil esperan&ccedil;as se compra. Ao bra&ccedil;o          que falta, uma camisa. Ao cego o acordeon com que nos enxerga.    <br>         O lagarto, a c&aacute;rie, os coletores de ferro velho e o esp&iacute;rito          da floresta est&atilde;o infernos. Vamos com eles salvar a a pluma do          lixo. </font></p></td>   </tr> </table>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3">(Primeira parte do livro <i>O mestressala</i>)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Edimilson de Almeida Pereira</b> nasceu em Juiz de Fora (MG)    em 1963. Poeta, ensa&iacute;sta, professor no Departamento de Letras da Universidade    Federal de Juiz de Fora. Em co-autoria publicou, dentre outros, <i>Ardis da    imagem: exclus&atilde;o &eacute;tnica e viol&ecirc;ncia nos discursos da cultura    brasileira</i> (2001), <i>Flor do n&atilde;o esquecimento: cultura popular e    processos de transforma&ccedil;&atilde;o</i> (2002). Sua obra po&eacute;tica    se encontra reunida nos volumes <i>Zeos&oacute;rio blues</i> (2002), <i>Lugares    ares</i> (2003), <i>Casa da palavra</i> (2003) e <i>As coisas arcas</i> (2003).    Em literatura infanto-juvenil editou, entre outros, <i>O menino de carac&oacute;is    na cabe&ccedil;a</i> (2001) e <i>Os reizinhos de Congo</i> (2004).</font></p>      ]]></body>
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