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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O PAPEL DA EDUCA&Ccedil;&Atilde;O EM CI&Ecirc;NCIAS E TECNOLOGIA    NO BRASIL: UM DEBATE</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Cristina Araripe Ferreira</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size=5>A</font></b>pontada por muitos especialistas    de reconhecido m&eacute;rito cient&iacute;fico como uma das &uacute;nicas sa&iacute;das    para o Brasil do s&eacute;culo XXI (1), a educa&ccedil;&atilde;o atravessa atualmente    uma crise sem precedentes, tanto no que concerne a suas formas de organiza&ccedil;&atilde;o    institucional, quanto no tocante aos conte&uacute;dos curriculares apresentados    aos alunos (2). Portanto, n&atilde;o ser&aacute; um exagero come&ccedil;armos    o presente artigo afirmando que a situa&ccedil;&atilde;o brasileira, vista sob    o prisma dos indicadores socioeducacionais da Organiza&ccedil;&atilde;o das    Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e    a Cultura (Unesco), da Organiza&ccedil;&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o    e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico da Europa (OCDE) e do pr&oacute;prio Instituto    Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), &eacute; extremamente grave    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; qualidade do ensino oferecido pelas escolas,    bem como em termos das pr&oacute;prias pr&aacute;ticas pedag&oacute;gicas que    ainda vigoram nas salas de aula. Se, por um lado, avan&ccedil;amos ao estender    efetivamente, em pouco mais de 20 anos, a cobertura, em todo o territ&oacute;rio    nacional, no ensino fundamental, por outro lado, n&atilde;o podemos deixar de    reconhecer que as desigualdades econ&ocirc;micas e sociais existentes continuaram    marcando de forma irremediavelmente negativa a escola b&aacute;sica e o ensino    superior no Brasil.</font></P>     <P><font size="3">A na&ccedil;&atilde;o dos amea&ccedil;adores e tristes contrastes    n&atilde;o poderia, pois, ser outra sen&atilde;o essa que amplia durante todo    o s&eacute;culo XX a sua rede de ensino e o tempo de perman&ecirc;ncia de seus    jovens na escola, mas, ao mesmo tempo, o faz de maneira discriminat&oacute;ria    e excludente, por meio de pol&iacute;ticas educacionais que n&atilde;o favorecem    a escolariza&ccedil;&atilde;o de todos pelo sistema regular. De fato, o que    se p&ocirc;de constatar, a partir do aumento cont&iacute;nuo da popula&ccedil;&atilde;o    que ingressa na escola b&aacute;sica e no ensino superior, &eacute; que essa    situa&ccedil;&atilde;o levou n&atilde;o s&oacute; o sistema educacional brasileiro    a crescer consideravelmente, do ponto de vista quantitativo, tornando-se mesmo    massificado, mas tamb&eacute;m o conduziu a um r&aacute;pido processo de deteriora&ccedil;&atilde;o    na qualidade do ensino.</font></P>     <P><font size="3">Embora j&aacute; fosse previsto, o processo de elitiza&ccedil;&atilde;o    do ensino de qualidade no Brasil acabou redundando em um grande e inc&ocirc;modo    problema para os governos que se sucederam durante a ditadura militar. Vale    lembrar que a expans&atilde;o do n&uacute;mero de alunos em todos os n&iacute;veis    de ensino, com expressivo crescimento do setor privado, n&atilde;o foi acompanhada    de investimentos significativos na &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o escolar    p&uacute;blica, assim como n&atilde;o houve uma efetiva preocupa&ccedil;&atilde;o    com a democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso a esse bem, definido pela Constitui&ccedil;&atilde;o    Federal de 1988 como dever do Estado. N&atilde;o nos esque&ccedil;amos, afinal    de contas, que o pa&iacute;s carrega consigo uma longa hist&oacute;ria de domina&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica das elites, que n&atilde;o se baseia apenas na repress&atilde;o    de movimentos sociais, mas tamb&eacute;m, e principalmente, na imposi&ccedil;&atilde;o    dos interesses das elites como sendo interesses de toda uma sociedade.</font></P>     <P><font size="3">Sem entrar nos meandros de um tal debate, vamos simplesmente    indicar aqui que, durante muito tempo, as elites seguiram implacavelmente acreditando    que o mais importante era que o pa&iacute;s chegasse ao terceiro mil&ecirc;nio    apresentando &iacute;ndices de desenvolvimento (econ&ocirc;mico, social, pol&iacute;tico-institucional,    industrial, cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico, e assim por diante) compat&iacute;veis    com suas ambi&ccedil;&otilde;es nos mais diversos campos da economia e da pol&iacute;tica    internacionais ou, para usarmos um termo mais atual, da economia e pol&iacute;tica    globalizadas. Com efeito, o tratamento dispensado ao tema da educa&ccedil;&atilde;o    foi, por muitas d&eacute;cadas, indigno de um pa&iacute;s com tantos interesses    e pretens&otilde;es <i>vis-&agrave;-vis</i> do mercado. Talvez possamos situar    melhor essa quest&atilde;o lembrando que nunca houve no Brasil um projeto de    Estado para a educa&ccedil;&atilde;o ou mesmo de escola que levasse em conta    uma mudan&ccedil;a imperiosa de paradigma, simultaneamente, econ&ocirc;mico    e educacional. Independente de ideologias, a maioria de nossos governantes e    homens p&uacute;blicos em geral insistiu tanto no tal do crescimento econ&ocirc;mico    do pa&iacute;s, fosse ele qual fosse, que acabamos desviando-nos do objetivo    maior de transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade a partir daquilo que a educa&ccedil;&atilde;o    oferece de mais fundamental e precioso: a forma&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento    f&iacute;sico, intelectual e moral do ser humano.</font></P>     <P><font size="3">Com a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei de Diretrizes e Bases da    Educa&ccedil;&atilde;o Nacional, sancionada pela Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica    em 20 de dezembro de 1996, esperava-se, contudo, que "<i>a educa&ccedil;&atilde;o,    dever da fam&iacute;lia e do Estado</i>" (Art. 2º) fosse finalmente tratada    como pol&iacute;tica social da mais alta prioridade. Infelizmente, n&atilde;o    &eacute; isso o que se observou. Passados mais de sete anos, n&oacute;s ainda    n&atilde;o conseguimos implementar em toda a sua extens&atilde;o os princ&iacute;pios    que se constituiriam em marco inaugural de uma nova fase da democratiza&ccedil;&atilde;o    do pa&iacute;s, em especial no que diz respeito &agrave;s concep&ccedil;&otilde;es,    diretrizes e proposi&ccedil;&otilde;es para a &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Remetendo-nos &agrave; discuss&atilde;o sobre o papel da educa&ccedil;&atilde;o    nas sociedades contempor&acirc;neas, destacar&iacute;amos, neste contexto espec&iacute;fico    de introdu&ccedil;&atilde;o e balizamento de um projeto de educa&ccedil;&atilde;o    e escola para o pa&iacute;s, que "<i>o preparo (do educando) para o exerc&iacute;cio    da cidadania e sua qualifica&ccedil;&atilde;o para o trabalho</i>" (LDB,    Art. 2º) n&atilde;o poderia nunca se dar, segundo as palavras do pr&oacute;prio    Paulo Freire, sem a experi&ecirc;ncia ou "<i>esfor&ccedil;o da compreens&atilde;o    que caracteriza a leitura do mundo</i>" (3). Pelo menos, sem esse sentido    maior, n&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Para muitos pensadores contempor&acirc;neos n&atilde;o h&aacute;,    enfim, como deixar de considerar que as inter-rela&ccedil;&otilde;es do sistema    educativo com outros sistemas v&ecirc;m sendo dominadas pelo econ&ocirc;mico,    quando a quest&atilde;o seria, na verdade, pol&iacute;tica. O que, em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; cren&ccedil;a na escola libertadora, nos coloca um problema de monta,    a saber: como romper com a dicotomia existente entre escola-m&aacute;quina de    reprodu&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais e escola-lugar por excel&ecirc;ncia    do combate a essas mesmas desigualdades. Com esse argumento, queremos chamar    a aten&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m, para o fato de que no plano pol&iacute;tico    da a&ccedil;&atilde;o os interesses e os avan&ccedil;os, em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; discuss&atilde;o sobre um projeto de educa&ccedil;&atilde;o para o    pa&iacute;s, ainda n&atilde;o nos levaram a obter grandes conquistas que, h&aacute;    tanto tempo, se deve &agrave; sociedade. Al&eacute;m dos princ&iacute;pios,    acima referidos, lembrar&iacute;amos que o nosso compromisso com a forma&ccedil;&atilde;o    do aluno deve, necessariamente, passar por um processo que lhes d&ecirc; acesso    &agrave; palavra, pois, mais do que isso, n&oacute;s precisamos garantir a cada    um o acesso ao conhecimento. Em nossa complac&ecirc;ncia pol&iacute;tica cotidiana,    muitas vezes n&atilde;o priorizamos a educa&ccedil;&atilde;o como um processo    formativo, intrinsecamente ligado ao exerc&iacute;cio da cidadania (4), deixando    de lado o que Paulo Freire disse sobre a pr&oacute;pria transforma&ccedil;&atilde;o    necess&aacute;ria e cr&iacute;tica das pr&aacute;ticas educativas que t&ecirc;m    como objetivo, entre outros, levar o aluno a ler o mundo: "<i>entendendo-se    aqui como ‘leitura do mundo’ a ‘leitura’ que precede a leitura da palavra e    que perseguindo igualmente a compreens&atilde;o do objeto se faz no dom&iacute;nio    da cotidianeidade</i>" (5).</font></P>     <P><font size="3">A apresenta&ccedil;&atilde;o desse quadro sum&aacute;rio e introdut&oacute;rio    de quest&otilde;es sobre o papel que a educa&ccedil;&atilde;o e a escola podem    e devem desempenhar no Brasil do s&eacute;culo XXI n&atilde;o se reduz, por    sua vez, a uma mera discuss&atilde;o sobre os aspectos filos&oacute;ficos e    pol&iacute;ticos, propriamente ditos, da economia da educa&ccedil;&atilde;o.    Como veremos, um dos problemas cruciais e recorrentes em mat&eacute;ria de contemporaneidade    do debate sobre a educa&ccedil;&atilde;o no mundo "cientificista"    e "tecnologizado" de hoje &eacute;, justamente, o que se refere &agrave;    necessidade da leitura do mundo, sem o que n&atilde;o podemos compreend&ecirc;-lo    ou aprender nada sobre ele. Assim como Paulo Freire t&atilde;o bem escreveu,    n&oacute;s n&atilde;o poder&iacute;amos deixar de enfatizar o fato de que "<i>ningu&eacute;m    l&ecirc; ou estuda autenticamente se n&atilde;o assume, diante do texto ou do    objeto da curiosidade, a forma cr&iacute;tica de ser ou de estar sendo sujeito    da curiosidade, sujeito da leitura, sujeito do processo de conhecer em que se    acha</i>" (6). Esta id&eacute;ia simples, e ao mesmo tempo bastante atraente    sobre a experi&ecirc;ncia da compreens&atilde;o, &eacute; vital para entendermos    que o papel da educa&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias e tecnologia nas sociedades    contempor&acirc;neas n&atilde;o pode estar atrelado a nenhuma de suas dimens&otilde;es    econ&ocirc;mico-sociais, como querem alguns tecnocratas, nem tampouco ser subsumido    atrav&eacute;s de esquemas explicativos gen&eacute;ricos, que n&atilde;o d&atilde;o    conta do intrincado processo de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento em um    mundo cada vez mais complexo e complicado. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/a17fig01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Do mesmo modo, consideramos fundamental para a reflex&atilde;o    sobre a finalidade da educa&ccedil;&atilde;o no Brasil (ref. Art. 2º da LDB)    que se rompa com os pressupostos, que n&atilde;o nos permitem tornar efetivos    os avan&ccedil;os educacionais em mat&eacute;ria de teorias, metodologias e    inova&ccedil;&otilde;es no ensino em geral. Assumimos, com efeito, que as quest&otilde;es    de dom&iacute;nio t&eacute;cnico ou operacional da educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    s&atilde;o as mais importantes. Elas devem, ao contr&aacute;rio, estar subordinadas    a uma l&oacute;gica diferente daquela que presidiu algumas de nossas pr&aacute;ticas    mais importantes no campo do ensino das ci&ecirc;ncias e tecnologia, tal como    a transmiss&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas    por meio de aulas expositivas. Referimo-nos, enfim, ao desenvolvimento de uma    certa vis&atilde;o instrumental e tecnicista do ensino, que serviu para deslocar    o sentido maior do conhecimento e do aprendizado das ci&ecirc;ncias e tecnologia,    transformando-as em discurso desencarnado, perene e imut&aacute;vel que nada    tem a ver com a realidade do aluno ou da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos    em nosso mundo. </font></P>     <P><font size="3">Restringir o sentido da escola e da educa&ccedil;&atilde;o &agrave;    sua fun&ccedil;&atilde;o instrumental seria um equ&iacute;voco t&atilde;o grande    quanto a pr&oacute;pria id&eacute;ia de que, por meio da educa&ccedil;&atilde;o    em ci&ecirc;ncias e tecnologia, resolver&iacute;amos o problema do acesso a    uma cidadania plena, &agrave; cultura, ao saber, ao trabalho. Sob pena de estarmos    traindo alguns dos pensamentos e te&oacute;ricos mais importantes nessa &aacute;rea,    dir&iacute;amos ainda que a educa&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias e tecnologia    no Brasil n&atilde;o pode se dar sem a incorpora&ccedil;&atilde;o de amplos    valores humanos, que nada t&ecirc;m a ver com o tema dos fundamentos cient&iacute;ficos-tecnol&oacute;gicos    dos processos produtivos tratados pela LDB ou ainda explorados pela m&iacute;dia    atrav&eacute;s da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.</font></P>     <P><font size="3">Contrapondo-se a um certo estado de coisas, queremos mostrar    aqui que existe hoje no Brasil uma enorme expectativa em rela&ccedil;&atilde;o    ao fato de que profissionais da &aacute;rea de educa&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias    e tecnologia possam responder prontamente, de modo competente e eficaz, &agrave;s    in&uacute;meras e diversificadas demandas por m&eacute;todos, materiais e projetos    pedag&oacute;gicos inovadores. N&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o que governantes,    pol&iacute;ticos e gestores de C&amp;T e da &aacute;rea do ensino t&ecirc;m    demonstrado grande interesse pelo assunto, muitos vinculando estreitamente o    prest&iacute;gio pol&iacute;tico e o &ecirc;xito econ&ocirc;mico de muitos pa&iacute;ses    ricos do mundo desenvolvido aos investimentos duradouros e nada desprez&iacute;veis    em educa&ccedil;&atilde;o, ci&ecirc;ncia e tecnologia. &Agrave; import&acirc;ncia    pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica do assunto para o desenvolvimento da sociedade    soma-se, ainda, um aumento consider&aacute;vel de interesse (cultural) pela    ci&ecirc;ncia e tecnologia de ponta produzidas nos mais distantes laborat&oacute;rios    dos Estados Unidos, da Europa e do Jap&atilde;o, todos refor&ccedil;ando no    imagin&aacute;rio coletivo a id&eacute;ia de que, por meio de suas "aplica&ccedil;&otilde;es"    a C&amp;T, mudar&atilde;o para sempre nossas vidas.</font></P>     <P><font size="3">Desafios para os cientistas, engenheiros, m&eacute;dicos, desafios    para os educadores, n&oacute;s n&atilde;o poder&iacute;amos mais ignorar o quanto    estamos impregnados por essa imagem de uma ci&ecirc;ncia que triunfa sem cessar    e que, por isso mesmo, j&aacute; n&atilde;o pode parar mais de produzir sentidos    para a vida humana. Se hoje tratamos de transg&ecirc;nicos e biopirataria nas    p&aacute;ginas de economia e pol&iacute;tica dos jornais, &eacute; porque estamos    de tal forma imersos em uma cultura cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica que    n&atilde;o separamos mais os discursos pelo o que eles trazem de conte&uacute;do    espec&iacute;fico de uma &aacute;rea do conhecimento. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Aos que se interrogam assim sobre a import&acirc;ncia de ensinar    bem ci&ecirc;ncias e tecnologia, tanto quanto a leitura e a matem&aacute;tica,    n&oacute;s dir&iacute;amos que a&iacute; est&aacute; o grande desafio do s&eacute;culo    XXI. Afinal, n&atilde;o nos parece muito descabido mencionar, no atual contexto    econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico, o fato de que o papel da educa&ccedil;&atilde;o    em ci&ecirc;ncias e tecnologia nas sociedades contempor&acirc;neas transcende,    de forma muito clara, os objetivos tradicionais do ensino. Ao introduzir o tema    da educa&ccedil;&atilde;o em geral quer&iacute;amos, na verdade, faz&ecirc;-lo    para que se compreendesse a irreversibilidade de dois fen&ocirc;menos atuais.    De um lado, n&atilde;o se pode mais, felizmente, p&ocirc;r em quest&atilde;o    a fundamentabilidade dos princ&iacute;pios que regem os processos formativos    em nossa sociedade: igualdade de condi&ccedil;&otilde;es, respeito &agrave;    liberdade, pluralismo de id&eacute;ias e concep&ccedil;&otilde;es, universaliza&ccedil;&atilde;o    do ensino fundamental e m&eacute;dio, valoriza&ccedil;&atilde;o da escola e    do professor, gest&atilde;o democr&aacute;tica, garantia de qualidade e vincula&ccedil;&atilde;o    da escola ao mundo do trabalho e da vida social. De outro, a ci&ecirc;ncia e    tecnologia como um bin&ocirc;mio indissoci&aacute;vel e, ao mesmo tempo, como    pr&aacute;ticas enraizadas culturalmente em nossa sociedade. J&aacute; n&atilde;o    basta fazermos as antigas distin&ccedil;&otilde;es entre ci&ecirc;ncia pura,    b&aacute;sica e aplicada, entre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade    e pluridisciplinaridade. Trata-se, enfim, de assumirmos um papel diferente em    rela&ccedil;&atilde;o ao conhecimento e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o do educando.    Formar pessoas, produzir bens e servi&ccedil;os, criar empregos s&atilde;o objetivos    que est&atilde;o muito al&eacute;m de um discurso neoliberal pouco sens&iacute;vel    aos apelos humanistas de um vasto grupo de atores preocupados com a educa&ccedil;&atilde;o    como forma&ccedil;&atilde;o de valores e comportamentos.</font></P>     <P><font size="3">N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que, em uma certa medida, a    pr&oacute;pria discuss&atilde;o e adequa&ccedil;&atilde;o, pela for&ccedil;a    da lei, de propostas curriculares (ref. Par&acirc;metros Curriculares Nacionais-PCNs),    tornou-se alvo de intensas disputas no interior do campo educacional e acad&ecirc;mico.    De modo geral, deixamos de pensar e falar em melhoria da qualidade do ensino    como um simples processo de aperfei&ccedil;oamento da nossa escola e de nossos    mestres, para adotarmos como diretriz pol&iacute;tica um conjunto de planos    e a&ccedil;&otilde;es educacionais extremamente complicados e complexos, pouco    ou quase nada assimil&aacute;veis pelos principais interessados, a saber: professores,    alunos, pais, gestores, pol&iacute;ticos. </font></P>     <P><font size="3">Por fim, queremos ressaltar que a educa&ccedil;&atilde;o em    ci&ecirc;ncias e tecnologia do nosso povo n&atilde;o se far&aacute; sem a participa&ccedil;&atilde;o,    lado a lado, de cientistas e educadores. Todas as reflex&otilde;es e estrat&eacute;gias    para alcan&ccedil;ar tal objetivo devem ser encaradas como uma tarefa coletiva.    Com a experi&ecirc;ncia acumulada, por&eacute;m, queremos acreditar que se formar&atilde;o    n&uacute;cleos duros da educa&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias e tecnologia    capazes de pensar sa&iacute;das para os muitos impasses vividos, em nossos dias,    pela educa&ccedil;&atilde;o e pela escola. Laborat&oacute;rios did&aacute;ticos,    associa&ccedil;&otilde;es, clubes, museus, centros de ci&ecirc;ncia, centros    de ci&ecirc;ncia e arte, no centro e na periferia, ser&atilde;o apenas espa&ccedil;os    para a cria&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o de novas, diferentes,    inovadoras pr&aacute;ticas sociais. Certamente os dilemas e clivagens que dividem    hoje nossos cientistas e educadores n&atilde;o desaparecer&atilde;o, mas, desde    j&aacute;, queremos acreditar que o fim da ideologia utilitarista em educa&ccedil;&atilde;o    &eacute; uma evid&ecirc;ncia, <i>de per si</i>, cujo sentido est&aacute; nos    pr&oacute;prios termos em que foi proposta: afirmar que a escola tem por finalidade    preparar o educando para o exerc&iacute;cio da cidadania e sua qualifica&ccedil;&atilde;o    para o trabalho n&atilde;o &eacute; ruim; o problema est&aacute; na constru&ccedil;&atilde;o    de sentido do que nela se aprende (7). E aprender ci&ecirc;ncias e tecnologia    n&atilde;o &eacute; algo que possa ser feito independente de sentido.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Cristina Araripe Ferreira</b> &eacute; assistente de pesquisa    e coordenadora do Programa de Voca&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica, Escola    Polit&eacute;cnica de Sa&uacute;de Joaquim Ven&acirc;ncio / Funda&ccedil;&atilde;o    Oswaldo Cruz.</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">1 Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados da USP, <i>Estudos Avan&ccedil;ados,    Dossi&ecirc; Educa&ccedil;&atilde;o</i>, Ed. Especial, volume 15, nº 42, agosto.    2001.</font><!-- ref --><P><font size="3">2 Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais do MEC, PISA    2000, Relat&oacute;rio Nacional, pag. 7. 2001.</font><!-- ref --><P><font size="3">3 Freire, P. "Carta de Paulo Freire aos professores",    in <i>Estudos Avan&ccedil;ados, Dossi&ecirc; Educa&ccedil;&atilde;o</i>, Ed.    Especial, volume 15, nº 42, pag. 261. 2001.</font><!-- ref --><P><font size="3">4 A prop&oacute;sito desse assunto, ver o livro de Apap, G.    (org.), <i>A constru&ccedil;&atilde;o dos saberes e da cidadania: da escola    &agrave; cidade</i>. Porto Alegre, Artmed. 2002.</font><P><font size="3">5 Freire, P. op. cit. 261.</font></P>     <P><font size="3">6 Idem.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">7 Rochex, J.-P. <i>Le sens de l’experience scolaire</i>, Paris,    PUF. 1995.</font> ]]></body><back>
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