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</front><body><![CDATA[ <P><FONT size="4"><b>EST&Eacute;TICA</b></FONT> </P>     <p><font size=5><b> C<SMALL>OMO DEFINIR A PRESEN&Ccedil;A DO OLHAR FEMININO    NAS ARTES</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O filme <i>Vinho de rosas</i>, de Elza Cataldo, &eacute; protagonizado    por uma personagem feminina e dirigido por uma mulher. &Eacute; o suficiente    para definir um olhar feminino sobre a hist&oacute;ria? A obra pode ser considerada    "feminina"? Nos &uacute;ltimos anos, no Brasil e no mundo, t&ecirc;m    sido realizadas mostras de cinema – II Festival Internacional de Cinema Feminino    (Femina), realizado em julho, e o I Festival de Cinema Feminino da Chapada dos    Guimar&atilde;es (<i>Tudo sobre mulheres</i>) – com esse foco. Exposi&ccedil;&otilde;es    de artes visuais, debates, semin&aacute;rios e confer&ecirc;ncias tamb&eacute;m    debatem a exist&ecirc;ncia de um olhar feminino nas artes, como uma express&atilde;o    art&iacute;stica diferenciada da masculina. O tema &eacute; controverso. Maria    Tortajada, do Departamento de Hist&oacute;ria e Est&eacute;tica do Cinema da    Faculdade de Letras da Universidade de Lausanne, Su&iacute;&ccedil;a, questiona    a concep&ccedil;&atilde;o que se tem de est&eacute;tica feminina. "Est&eacute;tica    das mulheres, atribu&iacute;da &agrave;s mulheres, ou constru&iacute;da por    mulheres?". Para ela, o conceito &eacute; dif&iacute;cil de caracterizar    ou isolar.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/a34fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p> <font size="3">"N&atilde;o h&aacute; necessariamente uma distin&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica entre as produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas de mulheres    e homens", afirma Luciana Grupelli Loponte, doutora em arte, g&ecirc;nero    e educa&ccedil;&atilde;o do Departamento de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade    de Santa Cruz do Sul. No lugar de uma sensibilidade inerente, haveria um conjunto    de experi&ecirc;ncias vividas pelas mulheres que podem – ou n&atilde;o – aparecer    em suas obras. Luciana assinala que os nus femininos aparecem, por exemplo,    nas obras de Camille Claudel (1864-1943) e Susanne Valadon (1867-1938), de uma    maneira muito diferente daquela como o olhar forjado num regime de visualidade    masculino est&aacute; habituado a ver. Mas n&atilde;o manifestam o feminino    obrigatoriamente. Susanne, em especial, era considerada pelos cr&iacute;ticos    como "a mais viril de todas as mulheres pintoras" e n&atilde;o endere&ccedil;ava    a um suposto olhar controlador masculino suas representa&ccedil;&otilde;es de    corpos femininos, que destacam gestos nada garbosos de mulheres comuns. </font></P>     <p><font size="3">Para Luciana, uma quest&atilde;o importante &eacute; a visibilidade    das obras, relegadas a um segundo plano pelo discurso oficial sobre a arte,    pelo menos at&eacute; meados do s&eacute;culo XX. Ela especula se obras como    o <i>Almo&ccedil;o na relva, Les demoiselles d’Avignon</i> e <i>O beijo</i>,    para citar algumas, seriam t&atilde;o famosas se os autores, ao inv&eacute;s    de homens – respectivamente Manet, Picasso e Rodin, fossem mulheres.</font></P>     <p><font size="3"><b>NA PSICAN&Aacute;LISE</b> Para M&aacute;rcia Ar&aacute;n,    psicanalista do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio    de Janeiro, a forma tradicional como a psican&aacute;lise aborda a diferen&ccedil;a    sexual &eacute; herdeira do modelo constru&iacute;do nos s&eacute;culos XVIII    e XIX. Fundamental para o desenvolvimento das no&ccedil;&otilde;es de simb&oacute;lico    e de subjetividade, &eacute; tamb&eacute;m uma vers&atilde;o masculina da diferen&ccedil;a,    cuja l&oacute;gica gira em torno da quest&atilde;o de ter ou n&atilde;o falo.    Usando o termo vers&atilde;o, M&aacute;rcia chama aten&ccedil;&atilde;o para    um car&aacute;ter importante do "feminino" definido como tal: trata-se    de uma constru&ccedil;&atilde;o social. Nela, uma divis&atilde;o fundamental,    segundo Pierre Bourdieu (<i>A domina&ccedil;&atilde;o masculina</i>), identifica    o feminino ao passivo e coloca o homem no papel do que cria, organiza, expressa    e dirige o desejo. Meninos se tornam viris, n&atilde;o nascem assim. S&atilde;o    educados para tal e sofrem cobran&ccedil;as e press&otilde;es nesse sentido.    Do mesmo modo, diz Simone de Beauvoir em <i>O segundo sexo</i>, n&atilde;o se    nasce mulher: torna-se mulher. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>NO CINEMA</b> Novas express&otilde;es do feminino na cultura    se tornaram poss&iacute;veis, como tamb&eacute;m uma subvers&atilde;o no pensamento    bin&aacute;rio da diferen&ccedil;a. Para M&aacute;rcia Ar&aacute;n, efeitos    dessa mudan&ccedil;a podem ser observados em alguns filmes: <i>Desde que Otar    partiu</i>, de Julie Bertucelli; <i>Quest&atilde;o de imagem</i>, de Agn&egrave;s    Jaoui; <i>Coisas que voc&ecirc; pode dizer s&oacute; de olhar para elas</i>,    de Rodrigo Garcia. Neste filme, protagonizado por mulheres, solid&atilde;o,    ang&uacute;stia, ansiedade, desejos reprimidos e solidariedade se manifestam    em pequenas hist&oacute;rias que se entrecruzam. O diretor &eacute; homem, mas    a tem&aacute;tica, claramente, &eacute; feminina, como tamb&eacute;m se d&aacute;    com <i>As horas</i>, dirigido por Michael Cunningham, que tem como uma das personagens    a escritora Virg&iacute;nia Wolf.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/a34fig02.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NA LITERATURA</b> <i>A hora da estrela</i>, filme dirigido    por Suzana Amaral a partir do livro hom&ocirc;nimo de Clarice Lispector, costuma    ser citado como exemplo do feminino no cinema e na literatura. Haveria, ent&atilde;o,    uma pulsa&ccedil;&atilde;o peculiar nos textos de Clarice ou de Virg&iacute;nia    Wolf, Ad&eacute;lia Prado, Lygia Fagundes Telles? "Ou: o que uma certa    ‘experi&ecirc;ncia coletiva’ do &iacute;ntimo, do privado, do dom&eacute;stico    teria produzido na escrita de mulheres?", indaga Loponte. Para L&eacute;lia    Almeida, escritora e especialista em literatura hispano-americana da Universidade    de Santa Cruz do Sul, h&aacute; temas que se fazem mais ou menos femininos,    mais ou menos feministas. Romances, contos, dramas teatrais, folhetins que tratam    do aborto, da op&ccedil;&atilde;o por ter ou n&atilde;o filhos, da sexualidade    da mulher. E h&aacute; tentativas, por parte de escritoras contempor&acirc;neas,    de estabelecer uma tradi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria, inserindo suas produ&ccedil;&otilde;es    em "linhagens" que remontam a escritoras consagradas. </font></P>     <p><font size="3">Procurar por uma "ess&ecirc;ncia" feminina nas escritas    ou uma suposta delicadeza e sensibilidade feminina em contraposi&ccedil;&atilde;o    a uma racionalidade e objetividade masculinas faz cair num binarismo dicot&ocirc;mico    perigoso, adverte Luciana Loponte. "Se segu&iacute;ssemos essa busca, o    que explicaria a autoria feminina de Mary Shelley do primeiro romance de horror    de que se tem not&iacute;cia, o famoso <i>Frankenstein</i>, de 1817?",    questiona. </font></P>     <p><font size="3">Yara Frateschi e Berta Waldman, do Departamento de Teoria Liter&aacute;ria    da Universidade Estadual de Campinas, afirmam ter dificuldade em precisar o    que seria uma escrita feminina. "Notamos, por&eacute;m, que, em geral,    quando se usa essa express&atilde;o, ela aplica-se a uma mistura entre tema,    ambi&ecirc;ncia feminina, comportamento feminino etc., justamente porque essa    modalidade da escrita n&atilde;o est&aacute; definida", afirmam. Segundo    elas, caso a defini&ccedil;&atilde;o de uma escrita feminina requeira marcas    discursivas como l&eacute;xico ou sintaxe que seriam pr&oacute;prios das mulheres,    ou usadas preferencialmente por elas, essas marcas, se existem, n&atilde;o foram    at&eacute; o momento detectadas nem estudadas. </font></P>     <p><font size="3"><b>AUTORIA</b> Caso o crit&eacute;rio recaia sobre a autoria,    ele a princ&iacute;pio &eacute; falho. Afinal, como o compositor Chico Buarque    em diversas can&ccedil;&otilde;es, o autor de uma hist&oacute;ria pode ser homem    e adotar um ponto de vista feminino. "&Eacute; o que ocorre, por exemplo,    nos romances de Manuel Puig; em Nelson Rodrigues, que assina Susana Flag em    v&aacute;rios romances folhetins; em <i>Menina e mo&ccedil;a</i>", de Bernardim    Ribeiro; nas ‘cantigas de amigo’, compostas por trovadores da Idade M&eacute;dia,    com o ponto de vista da mulher. Dessa perspectiva, poder&iacute;amos dizer que    ‘escrita feminina’ &eacute; aquela cujo ponto de vista ‘pretende’ corresponder    ao ponto de vista feminino – independentemente do fato de o autor ser um homem    ou uma mulher", concluem as pesquisadoras da Unicamp.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Fl&aacute;via Nat&eacute;rcia</i></font></p>     ]]></body>
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