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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n4/prosa.gif"></P>     <P>&nbsp; </P>     <P align="center"><font size="3">ADRIANA LISBOA</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size=5><b>ARRUMAR AS MALAS</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">L&aacute; est&atilde;o elas, abertas, no ch&atilde;o do quarto.    Com toda a do&ccedil;ura e a obstina&ccedil;&atilde;o de p&aacute;ginas em branco    para as quais &eacute; preciso escolher a cor, a palavra. As malas s&atilde;o    coisinhas rec&eacute;m-nascidas, perguntando: Para onde? Como? Quando? Com quem?</FONT></P>     <p><font size="3">Arrumar as malas &eacute; sempre uma dobradi&ccedil;a entre    dois instantes m&aacute;gicos (e perigosos): partir, chegar. Sem partir, n&atilde;o    se chega. Para se chegar, foi necess&aacute;rio um dia o gesto e o gosto de    partir. Nem sempre simples. Nem sempre festivos. Necessariamente: voc&ecirc;    parte de algum lugar e chega a algum outro. </FONT></P>     <p><font size="3">Podem ser casas distintas dentro de uma mesma cidade. Um mesmo    bairro, at&eacute;: a porta da primeira se tranca, voc&ecirc; entrega a chave,    n&atilde;o est&aacute; em absoluto fazendo turismo. Precisa pisar firme no ch&atilde;o    onde chega, como o bicho que ganha territ&oacute;rio. Olhe-se no espelho, se    houver um espelho. Tem um sorriso ali? Guarde, d&aacute; sorte.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ou talvez seja uma noite de briga e chuva e voc&ecirc; arrume    as malas com a pele tr&ecirc;mula, com id&eacute;ias de granizo debaixo dos    cabelos desalinhados (os cabelos sempre est&atilde;o desalinhados nessas horas,    &eacute; claro, o que n&atilde;o tem a menor import&acirc;ncia). Pense numa    piada. Pode ser de humor negro – provavelmente vai ser. Guarde, d&aacute; sorte.    </FONT></P>     <p><font size="3">Talvez voc&ecirc; esteja indo para uma outra cidade, um outro    pa&iacute;s. Nesse caso, precisa saber como est&aacute; o clima desse lugar.    Se tiver amigos por l&aacute;, escreva, telefone, pergunte. Leve um guarda-chuva,    pelo sim, pelo n&atilde;o. O mundo &eacute; trai&ccedil;oeiro de formas distintas:    como &eacute; que &eacute; o ver&atilde;o de l&aacute;? O inverno &eacute; seco.    Te queima. O ver&atilde;o chove. Te decepciona. As sand&aacute;lias deviam ser    botas. O agasalho, o cachecol que se esqueceu. Mas no meio de tudo – olha s&oacute;!    – est&aacute; a candura solar de uma praia imprevista. Areia entre os seus dedos,    vento passeando no seu corpo, em segredo.</FONT></P>     <p><font size="3">Voc&ecirc; precisa identificar suas malas, caso elas optem por    se perder e ganhar o mundo. Mesmo para quem vai apenas dobrar a esquina e, na    prote&ccedil;&atilde;o do primeiro hotel, come&ccedil;ar a se fazer perguntas    j&aacute; velhas de tanto esperar. Uma esquina &eacute; suficiente para ficar    sem suas malas, para perder aqueles peda&ccedil;os mais preciosos de voc&ecirc;    que v&ecirc;m sendo colecionados desde – lembra-se desde quando? </FONT></P>     <p><font size="3">Tudo depende tamb&eacute;m do tempo de que voc&ecirc; disp&otilde;e    para arrumar as malas. Talvez o processo tenha de ser muito r&aacute;pido, e    s&oacute; haja os poucos minutos em que o inimigo est&aacute; rosnando ao telefone,    no c&ocirc;modo ao lado, ou ressonando na cama/na rede/no sof&aacute;. Se esse    for o caso, &eacute; preciso ser &aacute;gil e eficaz. Controle seus movimentos.    A mala &eacute; um pouco uma toca. Ou uma janelinha onde colocar a cabe&ccedil;a    e respirar. O que vai nela nem &eacute; t&atilde;o relevante. Basta saber que    ela vai. </FONT></P>     <p><font size="3">Mas pode ser que o tempo seja uma esteira comprida, e as malas,    quase-desertos na travessia por vir. Longas malas, de dias e noites se ultrapassando    sem pressa. Neste caso, &eacute; poss&iacute;vel travar um outro tipo de amizade    – uma coisa mais maturada. Mais decantada. Com todas as miragens sutis dos desertos.    </FONT></P>     <p><font size="3">As malas surgem, ent&atilde;o, com subdivis&otilde;es, como    se fossem quartos: aqui cabem os presentes escolhidos com cuidado, pequenos    nichos de saudade. Para a menina que ainda n&atilde;o l&ecirc;. Para a irm&atilde;    que se separou. Para o amigo que gosta de m&uacute;sica. Para o que engordou,    para o que cresceu, para o que envelheceu. Para a pessoa que te aguarda com    mais expectativa do que as outras. Cabem as pe&ccedil;as de roupa escolhidas    a dedo, lavadas antes, e passadas, perfumadas. O verde que cai bem com o branco.    Um azul que convida o outro. O terno que n&atilde;o se usa desde o casamento.    O salto que lembra aquela noite de festa. O chap&eacute;u (n&atilde;o acredito    que voc&ecirc; ainda tenha esse chap&eacute;u).</FONT></P>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m conta: se voc&ecirc; vai ou se volta. &Agrave;s    vezes isso se mistura na cabe&ccedil;a da gente. A tal da dobradi&ccedil;a oscila    para um lado e para o outro porque um vento suspeito soprou. Vou, pode ser que    volte, pode ser que n&atilde;o. Estou, na verdade, voltando. Vou, e isso equivale    a voltar (para o lugar de onde nunca deveria ter sa&iacute;do). Vou, e isso    equivale a ir mesmo (oxal&aacute; para sempre). Vou, mas me espere que eu volto    j&aacute; – n&atilde;o me confunda com o cara que saiu para comprar cigarros    e nunca mais apareceu.</FONT></P>     <p><font size="3">As malas podem ser duas, tr&ecirc;s. Ou uma s&oacute;. Pequenina.    Minimalista. Os olhos te espiam de dentro do fundo escuro e vazio. Repetem as    perguntas: Para onde? Como? Quando? Com quem? Depois acrescentam, baixinho:    se voc&ecirc; n&atilde;o souber as respostas, deixa estar. Tamb&eacute;m &eacute;    uma viagem n&atilde;o saber em que viagem se vai.</FONT></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>Adriana Lisboa</b> nasceu em 1970 no Rio de Janeiro. Escritora    e tradutora, &eacute; graduada em m&uacute;sica e p&oacute;s-graduada em letras.    Publicou, sempre pela Editora Rocco, os romances <i>Os fios da mem&oacute;ria</i>    (1999), <i>Sinfonia em branco</i> (2001) e <i>Um beijo de colombina</i> (2003),    os minicontos de <i>Caligrafias</i> (2003) e, para crian&ccedil;as, <i>L&iacute;ngua    de trapos</i> (2005). &Eacute; co-autora do roteiro do filme <i>Bodas de papel</i>,    de Andr&eacute; Sturm, a ser lan&ccedil;ado em 2006. Por <i>Sinfonia em branco</i>    recebeu, em Portugal, o Pr&ecirc;mio Jos&eacute; Saramago. Em 2005 foi contemplada    com o Pr&ecirc;mio Funda&ccedil;&atilde;o Bunge / Romance (categoria juventude).    Seus livros foram publicados em Portugal e na Su&eacute;cia. </FONT></P>      ]]></body>
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