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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a02img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b><a name="tx"></a>A inven&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica segundo o modelo da sociologia dos cientistas e os <i>Social    Studies of Science</i><a href="#nt">*</a></b></font>    <br>   <font size="3"><i><b>Carlos Jos&eacute; Saldanha Machado<a href="#nt">*</a></b></i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font size=5>A</font></b>o formular perguntas sobre o meio    e as formas de organiza&ccedil;&atilde;o social da pesquisa que permitem e favorecem    a produ&ccedil;&atilde;o de novos conhecimentos, e sobre o porque da pr&aacute;tica    cient&iacute;fica ter se tornado um fen&ocirc;meno de grande import&acirc;ncia,    os autores que no s&eacute;culo passado criaram, praticaram ou ajudaram a desenvolver    a sociologia dos cientistas como Bernard Barber, Bernice Eiduson, Gerard Lemaine,    Joseph Ben-David, Norman Storer, Pierre Bourdieu, Robert Merton e Warren Hagstr&ouml;m,    ofereceram uma tr&iacute;plice perspectiva sobre a quest&atilde;o da inven&ccedil;&atilde;o.    A primeira, tentou definir o funcionamento ideal e atemporal do mecanismo individual    dos cientistas. A segunda, prop&ocirc;s uma focaliza&ccedil;&atilde;o normativa    baseada na quest&atilde;o de quais s&atilde;o as boas condi&ccedil;&otilde;es    para inventar. A terceira, d&aacute; &ecirc;nfase no contexto sociocultural,    isto &eacute;, nas conjun&ccedil;&otilde;es temporais favor&aacute;veis &agrave;    emerg&ecirc;ncia das descobertas. Nesse sentido, o modelo da sociologia dos    cientistas abriu um campo inexplorado, constitutivo da inven&ccedil;&atilde;o,    que s&atilde;o os tipos de recompensa proposta ao pesquisador, as maneiras pelas    quais eles obt&ecirc;m retribui&ccedil;&atilde;o, as maneiras de redigir as    publica&ccedil;&otilde;es, as rela&ccedil;&otilde;es sociais de um laborat&oacute;rio    e sua motiva&ccedil;&atilde;o. Essa sociologia fez da descoberta o produto de    um processo sociocultural. Contudo, ao descrever o comportamento do cientista    como sendo o fruto de um sistema de concorr&ecirc;ncia, do qual ele &eacute;    parte integrante, a sociologia dos cientistas juntou-se &agrave; filosofia cl&aacute;ssica    da ci&ecirc;ncia sobre uma das defini&ccedil;&otilde;es que ela d&aacute; do    indiv&iacute;duo: se ele n&atilde;o &eacute; genial, ent&atilde;o, ele passa    a ser totalmente absorvido no social. Ambos os modelos definiram as descobertas    como acontecimentos surgidos naturalmente, que podiam ser identificadas sem    nenhum problema e, uma vez identificadas, podiam ser explicadas ao serem relacionadas    a acontecimentos anteriores. Em outras palavras, a inven&ccedil;&atilde;o –    e, com muita freq&uuml;&ecirc;ncia, inven&ccedil;&atilde;o e descoberta n&atilde;o    s&atilde;o diferenciadas, – consiste em revelar no&ccedil;&otilde;es j&aacute;    objetivamente presentes onde um corpo de conhecimento cient&iacute;fico e t&eacute;cnico,    relativamente estruturado, num dado momento, permitiu a emerg&ecirc;ncia das    mesmas. </font></p>     <p><font size="3">Mas, essa sociologia n&atilde;o nos permite compreender a singularidade    da inven&ccedil;&atilde;o e de um inventor no processo de inova&ccedil;&atilde;o.    Na realidade, a categoria da descoberta como acontecimento poss&iacute;vel nunca    foi questionada por ser considerada da jurisdi&ccedil;&atilde;o da atividade    cient&iacute;fica, permanecendo um ponto cego no processo de observa&ccedil;&atilde;o    sociol&oacute;gica da inova&ccedil;&atilde;o. A interpreta&ccedil;&atilde;o    do conte&uacute;do cient&iacute;fico nunca foi abordada. Ficava-se, ent&atilde;o,    sem compreender como os cientistas trabalham e como eles decidem sobre se o    que t&ecirc;m sob os olhos &eacute; novo ou aut&ecirc;ntico, em resumo, se &eacute;    uma descoberta.</font></p>     <p><font size="3"><b>COMO SE CONSTR&Oacute;I O SABER </b>Tal problem&aacute;tica    ser&aacute; abordada, ent&atilde;o, no vasto campo multidisciplinar de pesquisa    conhecido, no mundo anglo-sax&atilde;o e europeu, como <i>Social Studies of    Science</i> ou <i>Studies of Science</i>. Trata-se de um campo formado por perspectivas    novas sobre a maneira como se constr&oacute;i o saber, perspectivas que come&ccedil;aram    a emergir &agrave; partir de meados dos anos 70 do s&eacute;culo passado quando    historiadores, fil&oacute;sofos, antrop&oacute;logos e soci&oacute;logos passaram    a abordar novos problemas, tanto disciplinares quanto interdisciplinares.</font></p>     <p><font size="3">Ao contr&aacute;rio da filosofia cl&aacute;ssica da ci&ecirc;ncia,    que se interessava pelo contexto de justificativa por acreditar que o contexto    de descoberta tinha uma natureza impura, autores como, por exemplo, Andrew Pickering,    August Brannigan, Bruno Latour, Harry Collins, John Law, Karin Knorr-Cetina,    Martin Rudwick, Michael Lynch, Michel Callon, Sharon Traweek, Simon Schaffer    e Trevor Pinch se voltar&atilde;o para o contexto de descoberta posto que ele    define a natureza da racionalidade cient&iacute;fica, isto &eacute;, a objetividade,    a prova e a verdade. A descoberta passa, ent&atilde;o, a ser investigada n&atilde;o    mais como um fato estabelecido por fil&oacute;sofos, psic&oacute;logos e soci&oacute;logos    dos cientistas, mas como o fruto de um processo social. A palavra "social"    deixa de ser somente sin&ocirc;nimo de organiza&ccedil;&atilde;o social da ci&ecirc;ncia    e passa a ocupar um lugar no cora&ccedil;&atilde;o das interpreta&ccedil;&otilde;es    e da constru&ccedil;&atilde;o dos fatos cient&iacute;ficos. Esse novo campo    de pesquisa, pouqu&iacute;ssimo explorado teoricamente por pesquisadores brasileiros,    se interessa pelo conte&uacute;do do saber cient&iacute;fico, pelas pr&aacute;ticas    concretas das ci&ecirc;ncias geograficamente situadas, pela natureza de suas    inter-rela&ccedil;&otilde;es e a liga&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias com    o resto do coletivo. Alguns soci&oacute;logos n&atilde;o se perguntar&atilde;o    mais sobre o que faz surgir uma descoberta, mas sobre o que faz com que certos    acontecimentos sejam considerados descobertas, isto &eacute;, <b>n&atilde;o    mais como a id&eacute;ia vem ao esp&iacute;rito mas como a id&eacute;ia vem    &agrave; sociedade</b>. Outros, se apegando &agrave;s pr&aacute;ticas e &agrave;s    suas din&acirc;micas, mostrar&atilde;o como a atividade cient&iacute;fica produz    fatos cient&iacute;ficos e cria uma realidade que se torna uma descoberta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>SOCIOLOGIA DA TRADU&Ccedil;&Atilde;O </b>Dentro do campo    dos <i>Social Studies of Science</i> merece destaque a sociologia da tradu&ccedil;&atilde;o    de Michel Callon e Bruno Latour. Trata de uma abordagem que rompe com as cl&aacute;ssicas    polariza&ccedil;&otilde;es entre natureza e sociedade, contexto de descoberta    e contexto da justifica&ccedil;&atilde;o, interno e externo, contexto e conte&uacute;do,    centro e periferia, compreendendo os conhecimentos tecnocient&iacute;ficos como    efeitos de uma multiplicidade de intera&ccedil;&otilde;es sociais e t&eacute;cnicas    desenvolvendo um novo modelo sobre a descoberta e a inven&ccedil;&atilde;o.    O modelo da tradu&ccedil;&atilde;o se posiciona contra uma concep&ccedil;&atilde;o    amplamente difundida que faz da ci&ecirc;ncia uma entidade est&aacute;vel no    curso do qual emergem ilhas de novidade sob a forma de id&eacute;ias. G&ecirc;nios,    pela for&ccedil;a de suas id&eacute;ias, s&atilde;o capazes de revolucionar    nossa vis&atilde;o do mundo, desvendando uma natureza escondida. Uma id&eacute;ia    se difundiria somente atrav&eacute;s da for&ccedil;a de sua l&oacute;gica, numa    sociedade que s&oacute; tem a possibilidade de aceit&aacute;-la ou recus&aacute;-la.    A sociologia da tradu&ccedil;&atilde;o ir&aacute; mostrar, ao contr&aacute;rio,    como da desordem nasce a estabilidade, como a natureza torna-se o fato socialmente    constru&iacute;do, como a cria&ccedil;&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno coletivo    e material e n&atilde;o o fruto de id&eacute;ias geniais ou de processos cognitivos    espec&iacute;ficos, enfim, como a novidade &eacute; um resultado e n&atilde;o    uma qualidade inscrita nos dados de partida. Revertendo a maneira de colocar    os problemas, a quest&atilde;o do motor da descoberta torna-se obsoleto. Ele    n&atilde;o est&aacute; nem na cabe&ccedil;a dos indiv&iacute;duos, nem nos crit&eacute;rios    sociais estabelecidos. Ele est&aacute; distribu&iacute;do num coletivo.</font></p>     <p><font size="3">A sociologia da tradu&ccedil;&atilde;o contrap&otilde;em-se,    portanto, &agrave; id&eacute;ia de uma origem da inova&ccedil;&atilde;o, &agrave;    separa&ccedil;&atilde;o entre social, tecnologia e ci&ecirc;ncia, al&eacute;m    da improvisa&ccedil;&atilde;o rom&acirc;ntica. E, neste sentido, a sociologia    da tradu&ccedil;&atilde;o oferece um novo modelo sobre a descoberta e a inven&ccedil;&atilde;o.    A investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica se ap&oacute;ia no acompanhamento    das controv&eacute;rsias e das pr&aacute;ticas de laborat&oacute;rio conduzindo    &agrave; constata&ccedil;&atilde;o de que a natureza n&atilde;o &eacute; mais    a causa do encerramento das controv&eacute;rsias e, sim, conseq&uuml;&ecirc;ncia.    O termo inven&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o, desaparece em proveito de um novo    voc&aacute;bulo, a inova&ccedil;&atilde;o. Concluindo, com a sociologia da tradu&ccedil;&atilde;o,    somos convidados a repensar o papel do ator da inven&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"> <b><i>Carlos Jos&eacute; Saldanha Machado</i></b><i> &eacute;    antrop&oacute;logo do Departamento de Estudos em Ci&ecirc;ncia e Tecnologia    - Centro de Informa&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncia e Tecnologia/ da Funda&ccedil;&atilde;o    Oswaldo Cruz. &nbsp; </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><a name="nt"></a><a href="#tx">*</a> <i>Este artigo &eacute;    fruto da pesquisa explorat&oacute;ria que resultou no projeto "Redes cooperativas    e inova&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de p&uacute;blica – estudo de caso do    processo de constru&ccedil;&atilde;o social, coletivo e local da Rede Vacinas    Recombinantes e DNA da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz", de autoria de Carlos    Jos&eacute; Saldanha Machado e M&aacute;rcia de Oliveira Teixeira, numa parceria    entre o Centro de Informa&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Tecnol&oacute;gica    e a Escola Polit&eacute;cnica de Sa&uacute;de Joaquim Ven&acirc;ncio da Funda&ccedil;&atilde;o    Oswaldo Cruz, a ser realizado entre 2006 e 2008.</i></font></p>      ]]></body>
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