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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/mundo.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a11img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">LAN&Ccedil;AMENTO    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v58n3/linha_bk.gif"> </font></p>     <p><font size="4"><b>Livro faz relato autobiogr&aacute;fico de um "assassino"    econ&ocirc;mico </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">John Perkins foi por bastante tempo uma figura respeitada dentro    da iniciativa privada estadunidense. Funcion&aacute;rio de influente empresa    de log&iacute;stica especializada em c&aacute;lculos e proje&ccedil;&otilde;es    de infra-estrutura, ele viajou o mundo prestando assessoria a governos diversos,    vendendo as maravilhas que gastos com estradas, sistemas el&eacute;tricos e    barragens poderiam fazer para o desenvolvimento de na&ccedil;&otilde;es pobres.    Um tipo de executivo que muitos veriam como comum nesse tipo de neg&oacute;cio.    Perkins, por&eacute;m, discorda – para ele, sua qualifica&ccedil;&atilde;o mais    exata seria "assassino econ&ocirc;mico".</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">John Perkins &eacute; autor de <i>Confiss&otilde;es de um assassino    econ&ocirc;mico</i> (Cultrix, 272 p&aacute;ginas), livro autobiogr&aacute;fico    que exp&otilde;e, de maneira assustadoramente crua, os esquemas subterr&acirc;neos    atrav&eacute;s dos quais se entrela&ccedil;am os interesses e m&eacute;todos    do governo dos EUA, das grandes corpora&ccedil;&otilde;es e de institui&ccedil;&otilde;es    financeiras multilaterais.</FONT></p>     <p><font size="3"><b>ENDIVIDAR, MAIS E MAIS </b>Economista de forma&ccedil;&atilde;o,    Perkins teve uma carreira mete&oacute;rica. Ex-aspirante ao servi&ccedil;o secreto    dos EUA e veterano de uma temporada na Amaz&ocirc;nia junto ao Corpo de Paz    do ex&eacute;rcito, ele foi contratado, em fins dos anos 1960, pela Chas T.    Main Inc. (MAIN), empresa especializada em log&iacute;stica e infra-estrutura    – ramo de companhias como a Halliburton ou a Bechtel, que atuam hoje na reconstru&ccedil;&atilde;o    do Iraque. Seu trabalho, por&eacute;m, ia al&eacute;m da simples busca por lucros.    Perkins era o que, no mundo da espionagem, costuma-se designar "assassino    econ&ocirc;mico" (AE). Seu objetivo era garantir, atrav&eacute;s da manipula&ccedil;&atilde;o    de dados macroecon&ocirc;micos, o endividamento deliberado de na&ccedil;&otilde;es    subdesenvolvidas.</font></p>     <p><font size="3">O jogo funcionaria assim: a MAIN ofereceria a certo pa&iacute;s    um plano para a moderniza&ccedil;&atilde;o de sua infra-estrutura. Os t&eacute;cnicos    da companhia manipulariam suas proje&ccedil;&otilde;es (inflando estat&iacute;sticas    de crescimento no setor el&eacute;trico e outros), e garantiriam que a empresa    contratada fosse norte-americana. Para bancar o investimento, facilitariam linhas    de cr&eacute;dito com institui&ccedil;&otilde;es financeiras multilaterais sob    forte influ&ecirc;ncia dos EUA, como o Banco Mundial.</FONT></p>     <p><font size="3">Inflando as necessidades de investimento em infra-estrutura,    e condicionando sua realiza&ccedil;&atilde;o a empresas estadunidenses, a MAIN    mataria dois coelhos com uma s&oacute; cajadada – o dinheiro nunca chegaria    a sair dos EUA, e o pa&iacute;s contratante se veria enredado num d&eacute;bito    alto demais para ser pago. Uma vez que a div&iacute;da chegasse ao insustent&aacute;vel    o credor poderia, ent&atilde;o, reclamar, como contrapartida, a instala&ccedil;&atilde;o    de bases militares no territ&oacute;rio do devedor, seus recursos naturais ou    seus votos em processos decis&oacute;rios de organismos multilaterais. Ou ainda,    mais recentemente, a aceita&ccedil;&atilde;o de acordos de livre-com&eacute;rcio    e privatiza&ccedil;&atilde;o de empresas p&uacute;blicas.</FONT></p>     <p><font size="3"><b>CORPORATOCRACIA</b> Essa correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as    entre corpora&ccedil;&otilde;es, governo dos EUA e organismos financeiros internacionais    – batizada "Corporatocracia" por Perkins – n&atilde;o seria, defende    o livro, fruto de mero acaso. Para o autor, tratar-se-ia de uma azeitada m&aacute;quina,    um sistema que abrangeria universidades, grupos econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos,    organismos multilaterais, militares e a comunidade de espionagem/informa&ccedil;&atilde;o.</FONT></p>     <p><font size="3">Corpora&ccedil;&otilde;es como a MAIN, garante o autor, teriam    v&iacute;nculos estreitos com as ag&ecirc;ncias de espionagem e o alto escal&atilde;o    do governo dos EUA, servindo, em muitos casos, como testas-de-ferro da pol&iacute;tica    estadunidense junto a pa&iacute;ses em desenvolvimento – condicionando servi&ccedil;os    ou projetos de infra-estrutura a certo alinhamento pol&iacute;tico, por exemplo.</FONT></p>     <p><font size="3">Para Perkins, sua contrata&ccedil;&atilde;o pela MAIN e r&aacute;pida    ascens&atilde;o na empresa – ele chegou a ser ser o mais jovem s&oacute;cio    da hist&oacute;ria da companhia – seriam o resultado de sua experi&ecirc;ncia    no ex&eacute;rcito e de seu flerte junto &agrave; comunidade de intelig&ecirc;ncia    – seu nome teria sido, ele acredita, indicado por ag&ecirc;ncias governamentais.    Para al&eacute;m disso, ele garante, no livro, que seu treinamento na corpora&ccedil;&atilde;o    foi bancado pelo servi&ccedil;o secreto estadunidense, que teria designado uma    misteriosa agente, Claudine, como respons&aacute;vel por sua forma&ccedil;&atilde;o    como AE. </FONT></p>     <p><font size="3">Por conta disso tudo, um AE funcionaria como uma esp&eacute;cie    de linha de frente da pol&iacute;tica externa estadunidense. Eles trabalham    em corpora&ccedil;&otilde;es influentes, circulam pelo mundo acad&ecirc;mico,    escrevem livros, t&ecirc;m espa&ccedil;o garantido na imprensa. Sua miss&atilde;o    seria a de, infiltrados em c&iacute;rculos de influ&ecirc;ncia diversos, alinhar    a pol&iacute;tica e a economia dos pa&iacute;ses em desenvolvimento aos interesses    do governo dos EUA e de grandes grupos econ&ocirc;micos.</FONT></p>     <p> <font size="3"><b>CHACAIS E SOLDADOS</b> Os AEs n&atilde;o estariam, por&eacute;m,    sozinhos em sua miss&atilde;o. Se mal-sucedidos em seu trabalho, entrariam em    cena outros protagonistas: os chacais. Estes s&atilde;o os assassinos do servi&ccedil;o    secreto, gente que, garante Perkins, seria respons&aacute;vel pela morte de    pol&iacute;ticos como Salvador Allende (presidente do Chile), Jaime Rold&oacute;s    (presidente do Equador), Jacobo Arbenz Guzm&aacute;n (presidente deposto da    Guatemala), do general Omar Torrijos (ex-chefe de estado do Panam&aacute;).</font></p>     <p><font size="3">Subornando guarda-costas e promovendo atentados, os m&eacute;todos    dos chacais s&atilde;o um tanto menos sutis que os dos AEs. E, como estes, os    chacais tamb&eacute;m falham &agrave;s vezes. Neste caso, uma &uacute;ltima    e truculenta medida &eacute; tomada: &eacute; hora de chamar o ex&eacute;rcito.    O Iraque, velho alvo da pol&iacute;tica externa dos EUA, aponta o autor, seria    um caso cl&aacute;ssico dessa din&acirc;mica intervencionista: apesar dos AEs,    Saddam nunca foi seduzido pelas propostas das corpora&ccedil;&otilde;es norte-americana.    Seus guarda-costas, dos mais bem treinados do mundo, teriam debelado n&atilde;o    poucos atentados contra sua vida. Restaria o ex&eacute;rcito, terceira op&ccedil;&atilde;o.    E todos sabemos o que aconteceu por l&aacute;...</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>JUNTANDO PONTAS SOLTAS</b> Apesar de narrado em primeira    pessoa, cheio de passagens amarradas apenas pela mem&oacute;ria do autor, com    fatos pol&ecirc;micos desfiados sem nomes dados aos bois, <i>Confiss&otilde;es    de um assassino econ&ocirc;mico</i> impressiona. Afinal, ainda que o leitor    possa ficar com a pulga atr&aacute;s da orelha em uma ou outra passagem mais    pol&ecirc;mica, o curr&iacute;culo de Perkins o gabarita como profundo conhecedor    da zona cinzenta onde governos, corpora&ccedil;&otilde;es e organismos financeiros    se encontram.</font></p>     <p><font size="3">O livro n&atilde;o faz muito mais que colocar sob outra perspectiva    eventos que, hoje, s&atilde;o tratados como a ordem natural das coisas. A cren&ccedil;a    no crescimento econ&ocirc;mico puro e simples como panac&eacute;ia, prestidigita&ccedil;&otilde;es    macroecon&ocirc;micas, a rela&ccedil;&atilde;o prom&iacute;scua entre iniciativa    privada, organismos multilaterais e governos, a press&atilde;o de grupos econ&ocirc;micos    e governos de pa&iacute;ses ricos sobre na&ccedil;&otilde;es endividadas pela    privatiza&ccedil;&atilde;o de bens p&uacute;blicos e a assinatura de acordos    de livre-com&eacute;rcio – Perkins amarra as pontas de fatos que sempre estiveram    &agrave; vista. N&atilde;o &agrave; toa, ele comenta que a obra maior dos AEs    da velha guarda, como ele, foi justamente a transforma&ccedil;&atilde;o de suas    diretrizes econ&ocirc;micas macetadas em fundamentos acad&ecirc;micos.</FONT></p>     <p><font size="3"><b>ENTRE IDAS E VINDAS</b> <i>Confiss&otilde;es de um assassino    econ&ocirc;mico</i> levou mais de uma d&eacute;cada para ser gestado. Perkins    admite ter aceitado suborno para abandonar o livro em meados da d&eacute;cada    de 1980. Ap&oacute;s os atentados de 11 de setembro de 2001, resolveu terminar    a obra e procurar uma editora. Ap&oacute;s negativas de v&aacute;rios grupos    editoriais, o livro foi finalmente lan&ccedil;ado, em 2004, pela independente    Berrett-Koehler Publishers.</font></p>     <p ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i><b>Tiago Soares</b></i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a11img02.jpg"></p>      ]]></body>
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