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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v58n3/a12img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p align="center"><font size=5> <b>A AMAZ&Ocirc;NIA N&Atilde;O &Eacute; S&Oacute;    PAISAGEM!</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"> <b>Vera Maria Fonseca de Almeida-Val</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>H</b></font>&aacute; duas d&eacute;cadas,    ao pensar Amaz&ocirc;nia, acudia-nos a figura da floresta exuberante, infinitamente    verde, a cobrir mais da metade do territ&oacute;rio brasileiro. Como a maioria    dos brasileiros, sequer pens&aacute;vamos na terra; o que nos vinha &agrave;    mente era um mapa desenhado em uma folha de papel ostentando grande parte pintada    de verde: esta era a floresta amaz&ocirc;nica. </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Far&aacute; pouco mais de 20 anos que essa antiga imagem mudou.    A sociedade, em geral, e os governos passaram a preocupar-se com a quest&atilde;o    ambiental e a floresta vem tornando-se dia a dia mais colorida, menos verde    e mais tang&iacute;vel. A m&iacute;dia, em particular, vem nos alertando para    a realidade ambiental no pa&iacute;s e no mundo e, em raz&atilde;o do avan&ccedil;o    do desmatamento, dos conflitos de terra e da explora&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rios,    a Amaz&ocirc;nia vai sendo evocada de forma negativa, como um problema em busca    de solu&ccedil;&atilde;o.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Por outro lado, a floresta majestosa representa de igual modo,    uma figura ut&oacute;pica, um "tesouro intoc&aacute;vel" a ser "preservado"    a qualquer custo. Esse fato est&aacute; a demandar muita preocupa&ccedil;&atilde;o    da parte dos pa&iacute;ses que a det&ecirc;m e tamb&eacute;m do mundo todo.    A press&atilde;o internacional, no que se refere &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o    de um ambiente que possui uma das maiores biodiversidades existentes no planeta,    &eacute; grande, o que tem provocado a cobi&ccedil;a de muitos que, por ignorarem    a realidade da regi&atilde;o, v&ecirc;em nela o eldorado do mundo. Este &eacute;    o pensamento que vem, ainda hoje, permeando a mente de muitos aventureiros.    Considere-se que essa miragem nasce nas primeiras expedi&ccedil;&otilde;es explorat&oacute;rias    realizadas pelos europeus por &eacute;poca do descobrimento do continente americano.    </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">A hist&oacute;ria &eacute; rica e bem conhecida. Muitas expedi&ccedil;&otilde;es    foram realizadas em busca da terra prometida, das riquezas minerais e naturais,    as quais nunca se concretizaram, ou se transformaram em algo palp&aacute;vel,    que se p&ocirc;de extrair, colocar no bolso e transportar para o local de origem,    vale dizer, levar para casa. Por essa raz&atilde;o, tantas expedi&ccedil;&otilde;es    fracassaram e tanto h&aacute; por ser descoberto! N&atilde;o &eacute; nossa    inten&ccedil;&atilde;o negar a exist&ecirc;ncia dessas riquezas, ou negar que    a Amaz&ocirc;nia contenha o t&atilde;o sonhado eldorado. Nosso objetivo &eacute;    ressaltar que o entendimento dessas riquezas e desse eldorado se diferencia    &agrave; medida que se penetra na regi&atilde;o e nela se descobrem suas marcas,    sua alma, a alma dos que a habitam.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"> A vis&atilde;o de quem observa a floresta de dentro, a vis&atilde;o    daquele que nela vive, revela e traduz um olhar minucioso, capaz de descobrir    suas principais riquezas e seu principal potencial como verdadeiro eldorado,    ao menos no que se refere ao seu pr&oacute;prio desenvolvimento e &agrave; sua    popula&ccedil;&atilde;o humana. Foi essa raz&atilde;o por que, ao idealizarmos    este N&uacute;cleo Tem&aacute;tico sobre a Amaz&ocirc;nia, fomos levados a reunir    assuntos diversos que t&ecirc;m tanta ou maior import&acirc;ncia que temas reconhecidamente    relevantes sobre a regi&atilde;o amaz&ocirc;nica. Quisemos trazer tais assuntos    ao mesmo patamar dos grandes debates sobre a preserva&ccedil;&atilde;o e a conserva&ccedil;&atilde;o    da biodiversidade. Quisemos trazer esses assuntos que se revelam hoje t&atilde;o    importantes quanto a fragmenta&ccedil;&atilde;o da floresta, causada pela explora&ccedil;&atilde;o    da terra por grileiros, ou o desmatamento causado pelo avan&ccedil;o da agropecu&aacute;ria.    Eles tratam de uma realidade amaz&ocirc;nica pouco conhecida e muito menos lembrada    que a explora&ccedil;&atilde;o rudimentar de seus min&eacute;rios (como o garimpo    do ouro), que o plano de expans&atilde;o de estradas, e tantos outros assuntos,    nos quais a Amaz&ocirc;nia &eacute; vista como um bioma, e se negligencia o    ser humano que a habita. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Os assuntos que aqui reunimos deveriam ser sempre lembrados    quando tratamos da Amaz&ocirc;nia, quando discutimos seq&uuml;estro de carbono,    protocolo de Kyoto, e aquecimento global. Estes temas s&atilde;o sempre debatidos    por pesquisadores sob a perspectiva de quem estuda a Amaz&ocirc;nia por fora,    como um todo e n&atilde;o reconhecem em seus meandros, os aspectos sociais,    econ&ocirc;micos e ambientais voltados para o desenvolvimento da regi&atilde;o.    A vis&atilde;o do sistema como uma "caixa preta", no que tange a estudos    sobre ciclos biogeoqu&iacute;micos e energ&eacute;ticos, n&atilde;o contempla    o olhar mais atento, microsc&oacute;pico, que pode nos oferecer o que a floresta    tem de melhor e mais promissor em rela&ccedil;&atilde;o ao seu futuro e ao futuro    de sua gente. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">O Brasil n&atilde;o conhece essa Amaz&ocirc;nia real, porque    sua realidade n&atilde;o &eacute; avaliada, tampouco divulgada. O Brasil, todavia,    precisa perceber a Amaz&ocirc;nia hoje, n&atilde;o s&oacute; como uma paisagem,    n&atilde;o como um bioma somente, n&atilde;o s&oacute; como uma fronteira...    A Amaz&ocirc;nia &eacute; uma regi&atilde;o geogr&aacute;fica deste pa&iacute;s    comportando as caracter&iacute;sticas vitais de qualquer ambiente ocupado pelo    ser humano, quer em sua vertente urbana, quer em sua vertente rural. Tem vida    pol&iacute;tica, religiosa, comercial, industrial. Por isso tamb&eacute;m polui,    tamb&eacute;m invade, tamb&eacute;m cresce desordenadamente e sua popula&ccedil;&atilde;o    sobrevive em favelas nas periferias das cidades. Nela tamb&eacute;m h&aacute;    viol&ecirc;ncia como em qualquer outra regi&atilde;o do pa&iacute;s. H&aacute;,    por&eacute;m, um aspecto que a torna diferente das demais regi&otilde;es. Essa    diferen&ccedil;a resulta tanto de sua configura&ccedil;&atilde;o geof&iacute;sica    como da hist&oacute;ria de sua coloniza&ccedil;&atilde;o. Nela, s&atilde;o os    rios que imperam e s&atilde;o esses rios os detentores do ritmo de vida do homem,    dos bichos e da pr&oacute;pria floresta. Nesse mesmo rio est&aacute; o principal    meio de comunica&ccedil;&atilde;o, de locomo&ccedil;&atilde;o e de subsist&ecirc;ncia    do amaz&ocirc;nida. &Eacute; nesse rio que est&aacute; a delimita&ccedil;&atilde;o    do mapa de habita&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento da regi&atilde;o. Lembre-se    que a rela&ccedil;&atilde;o do homem com o rio &eacute; t&atilde;o intensa que    chega a ser po&eacute;tica. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Iniciamos, ent&atilde;o, nosso N&uacute;cleo Tem&aacute;tico    com um artigo, quase um poema, da autoria de Jos&eacute; Aldemir de Oliveira,    intitulado "A cultura, as cidades e os rios na Amaz&ocirc;nia". Nesse    ensaio, o autor mostra por que as cidades pequenas, ao longo dos rios, "...pulsam    modos de vida que diferem significativamente do padr&atilde;o caracterizado    como urbano e predominante em outras regi&otilde;es do pa&iacute;s". Nele,    o leitor entender&aacute; que a an&aacute;lise dessas pequenas cidades "...    deve levar em considera&ccedil;&atilde;o a floresta e a &aacute;gua como ponto    de partida e n&atilde;o de chegada". Vai entender tamb&eacute;m como no    momento, essas cidades est&atilde;o sendo transformadas pela cria&ccedil;&atilde;o    de "... espa&ccedil;os artificiais, desprovidos de mem&oacute;ria,..."    em raz&atilde;o do engajamento e da nova articula&ccedil;&atilde;o com atores    externos que imprimem uma nova dinamicidade ligada ao discurso da sustentabilidade    e da biotecnologia, quase sempre originado pela presen&ccedil;a de ONG’s. Enfim,    ser&aacute; levado a perceber que a regi&atilde;o amaz&ocirc;nica n&atilde;o    pode ser encarada como um local a ser "descoberto", mas, sim, como    um local que j&aacute; se conhece e do qual se pode obter conhecimento. Com    este pensamento &eacute; que trouxemos os dois artigos seguintes, os quais versam    sobre as principais riquezas naturais, economicamente vi&aacute;veis: os recursos    pesqueiros. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">O primeiro artigo, de autoria de Carlos Edwar de Carvalho Freitas    e Alexandre Almir Ferreira Rivas, intitulado "A pesca e os recursos pesqueiros    na Amaz&ocirc;nia ocidental" trata do ambiente de &aacute;gua doce na Amaz&ocirc;nia    ocidental, na calha dos principais rios. O outro artigo, da autora Victoria    Judith Issac-Nahum, intitulado "Explota&ccedil;&atilde;o e manejo dos recursos    pesqueiros do litoral amaz&ocirc;nico: um desafio para o futuro", trata    de outra Amaz&ocirc;nia, a Amaz&ocirc;nia costeira, estuarina, quase sempre    esquecida, revelada pela pesquisadora como um ambiente riqu&iacute;ssimo e de    transi&ccedil;&atilde;o, important&iacute;ssimo para a floresta e para o oceano,    os dois biomas com os quais se relaciona. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Dos rios da Amaz&ocirc;nia ocidental, o artigo mostra que s&atilde;o    extra&iacute;das, anualmente, toneladas de peixes com diversos prop&oacute;sitos    e a qualidade e quantidade resultantes da pesca dependem de seu prop&oacute;sito.    Segundo os autores h&aacute; diversos tipos de pescas e pode haver conflito    entre um tipo e outro, lembrando sempre que o pescador, a figura central dessa    atividade, &eacute; o detentor do conhecimento e tem, por origem cultural, os    conceitos de sustentabilidade e biodiversidade bem delineados, praticando-os    com maestria. Embora seja essa uma atividade social, econ&ocirc;mica e ambientalmente    vi&aacute;vel, a pesca no rio &eacute; rudimentar, carece de investimentos e    de tecnologias. Essa pesca se d&aacute;, ainda, com embarca&ccedil;&otilde;es    locais, conserva&ccedil;&atilde;o do peixe em gelo e sem entrepostos frigor&iacute;ficos.    A organiza&ccedil;&atilde;o dessa atividade ainda &eacute; incipiente e demanda    uma forte aten&ccedil;&atilde;o. Tem potencial para gerar riquezas e levar conforto,    sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o aos atores que dela vivem, melhorando    o &iacute;ndice de desenvolvimento humano das popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas.    Permanece, entretanto, aguardando um olhar mais atento da sociedade e das organiza&ccedil;&otilde;es    governamentais. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; regi&atilde;o costeira, muito    mais est&aacute; por se fazer. A autora mostra um quadro de conflitos num cen&aacute;rio    complexo que envolve problemas institucionais (pol&iacute;ticos) e socioecon&ocirc;micos.    H&aacute;, nesses ecossistemas complexos, uma not&aacute;vel incapacidade de    aplica&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o sobre o setor e, em raz&atilde;o    disso, a maior parte das categorias ligadas &agrave; pesca j&aacute; percebe    um decr&eacute;scimo na abund&acirc;ncia dos recursos pesqueiros, de modo lento,    mas cont&iacute;nuo, afetando o rendimento efetivo e "...marginalizando    os pescadores socialmente, diminuindo suas perspectivas de crescimento social".    Tanto a pesca costeira, como a pesca estuarina, e a pesca continental sofrem    com atravessadores, os detentores da verba que custeia as expedi&ccedil;&otilde;es,    o que torna o pescador detentor da atividade de menor rentabilidade nessa cadeia    produtiva. Ambos os artigos trazem sugest&otilde;es finais para a organiza&ccedil;&atilde;o    do setor e melhoria da sustentabilidade dessa atividade, que j&aacute; representa    uma grande divisa para o pa&iacute;s, mas &eacute; pouco reconhecida como tal.    </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">A pesca est&aacute; bastante desenvolvida em outras regi&otilde;es    do planeta e o monitoramento de cardumes pode ser realizado via sat&eacute;lite.    No Brasil, equipamentos e tecnologias para tal n&atilde;o faltam. &Eacute; o    que fica claro no artigo seguinte sobre sensoriamento remoto na Amaz&ocirc;nia,    de autoria de Pedro Walfir M. S. de Souza-Filho e colaboradores, intitulado    "O sensoriamento remoto e os recursos naturais da Amaz&ocirc;nia".    As possibilidades de monitoramento de recursos renov&aacute;veis e n&atilde;o    renov&aacute;veis s&atilde;o infinitas. Todos os equipamentos, j&aacute; h&aacute;    algum tempo dispon&iacute;veis em outras regi&otilde;es do pa&iacute;s, s&atilde;o    capazes de gerar imagens para o estudo da Amaz&ocirc;nia. Os centros de observa&ccedil;&atilde;o    localizados na Amaz&ocirc;nia podem, hoje, obter informa&ccedil;&otilde;es de    sensores de &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o sat&eacute;lites    orbitais (CBERS); sensores aerotransportados (SAR-R99 do Sipam/Censipam); sensores    orbitais &oacute;pticos (Landsat, Spot, Modis, etc.); e em microondas (ERS,    Jers, Radarsat-1, Envisat Asar), gerando imagens que permitem a vigil&acirc;ncia,    a observa&ccedil;&atilde;o de queimadas, a observa&ccedil;&atilde;o de processos    de minera&ccedil;&atilde;o e o estudo da din&acirc;mica de alaga&ccedil;&atilde;o    anual que pode revelar aspectos importantes dos ecossistemas aqu&aacute;ticos    e terrestres. O leitor vai entender a import&acirc;ncia da rela&ccedil;&atilde;o    do rio com o oceano quando aprender que a foz do rio Amazonas forma uma extensa    zona costeira, a Zona Costeira Amaz&ocirc;nica (ZCA), que faz parte das regi&otilde;es    tropicais &uacute;midas. Nessa ZCA, o rio Amazonas despeja um volume de &aacute;gua    m&eacute;dio de 6,3 trilh&otilde;es m<SUP>3</SUP>/ano, aproximadamente 16% de    toda a &aacute;gua doce descarregada nos oceanos do planeta. Mais especificamente,    ocorre uma descarga l&iacute;quida m&aacute;xima de 220 mil m<SUP>3</SUP>/s    e de sedimentos estimada em 1,2 bilh&atilde;o de toneladas/ano. Essa descarga    l&iacute;quida e de sedimentos &eacute; respons&aacute;vel pela forma&ccedil;&atilde;o    de uma &aacute;rea de manguezal de 8.386 km<SUP>2</SUP>, o que representa 83%    dos manguezais do Brasil. A Zona Econ&ocirc;mica Exclusiva (ZEE) &eacute; a    &aacute;rea cont&iacute;gua &agrave; ZCA, formando o mar territorial e acrescentando    territ&oacute;rio ao pa&iacute;s, aumentando substancialmente as responsabilidades    do Brasil em us&aacute;-lo, fiscaliz&aacute;-lo e proteg&ecirc;-lo. Toda essa    tecnologia est&aacute; dispon&iacute;vel e pode ser mais bem explorada, se mais    recursos humanos estiverem aptos a oper&aacute;-la. </font></p>     <p><FONT SIZE="3">Ap&oacute;s os ciclos hist&oacute;ricos que se basearam na explora&ccedil;&atilde;o    de m&atilde;o-de-obra escrava, em feudos, na agricultura, e na ind&uacute;stria,    o desenvolvimento tecnol&oacute;gico trouxe uma nova ordem econ&ocirc;mica e    social, cujo capital humano destaca-se no desenvolvimento das novas tecnologias    e no seu uso. A maioria dos pa&iacute;ses desenvolvidos e em franco desenvolvimento    j&aacute; atentou para o fato de que deve investir no capital humano e, para    tanto, deve elevar qualidade e quantidade das a&ccedil;&otilde;es educacionais    em todos os n&iacute;veis. Para "entrar" nessa nova ordem, a educa&ccedil;&atilde;o    tem de estar em primeiro plano nos investimentos dos setores p&uacute;blico    e privado. O estado atual da ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o    no pa&iacute;s impele para a forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos capazes    de atender as necessidades dessa nova sociedade e atuar num mercado cada vez    mais exigente do ponto de vista tecnol&oacute;gico tanto no setor privado como    no governamental. A melhoria da ind&uacute;stria pesqueira na Amaz&ocirc;nia,    por exemplo, n&atilde;o requer somente novas frotas, mas a organiza&ccedil;&atilde;o    de todo o setor. Requer a forma&ccedil;&atilde;o de grupos cooperativos, a instala&ccedil;&atilde;o    de bases em locais remotos e sistemas de acompanhamento e vigil&acirc;ncia,    o que permitiria uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o melhor dos ambientes ber&ccedil;&aacute;rios    (cabeceira de rios e v&aacute;rzeas) bem como na regi&atilde;o fronteiri&ccedil;a,    que j&aacute; come&ccedil;a a apresentar problemas (vide artigo de Freitas &amp;    Rivas neste NT). </FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3">O grande desafio est&aacute; na dimens&atilde;o desses investimentos    e nas a&ccedil;&otilde;es, que devem ter a mesma imensid&atilde;o da floresta    e que esbarram sempre na capacidade humana instalada na regi&atilde;o. N&atilde;o    se pode esquecer que o desenvolvimento de uma regi&atilde;o deve estar atrelado    &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de jovens que poder&atilde;o constituir m&atilde;o-de-obra    altamente especializada tecnicamente, e capaz de operacionalizar novas tecnologias.    A melhoria da capacidade do indiv&iacute;duo e da sociedade na opera&ccedil;&atilde;o    de novos produtos e processos tecnol&oacute;gicos resultar&aacute; de imediato    em melhores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e na inser&ccedil;&atilde;o    social de uma camada jovem que, muitas vezes, n&atilde;o encontra esperan&ccedil;a    no futuro por faltar-lhe a expectativa de estudo superior e de uma atividade    produtiva e rent&aacute;vel. N&atilde;o somente o n&iacute;vel m&eacute;dio,    mas tamb&eacute;m o n&iacute;vel superior carece de cursos profissionalizantes,    voltados para as necessidades da regi&atilde;o e que representem um diferencial    no entendimento da Amaz&ocirc;nia, a qual poder&aacute; ser conservada e se    desenvolver na mesma medida em que for entendida e respeitada. Entretanto, quanto    mais se aumenta o n&iacute;vel de capacita&ccedil;&atilde;o, mais se observa    o gargalo na forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos. Sobre isso, o artigo    de autoria de Adalberto Val, intitulado "Forma&ccedil;&atilde;o e fixa&ccedil;&atilde;o    de recursos humanos – a&ccedil;&otilde;es essenciais para a Amaz&ocirc;nia"    traz um quadro revelador e demonstra a nossa dificuldade num&eacute;rica em    rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s demais regi&otilde;es do pa&iacute;s. Fica clara    nossa incapacidade, ao longo dos anos, de inverter esse quadro, por mais que    se tenha tentado por meio de projetos e a&ccedil;&otilde;es de fomento. Em seu    artigo, o autor revela que h&aacute;, na Amaz&ocirc;nia, pouco mais de mil doutores    contratados, atuando no desenvolvimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico    da regi&atilde;o. Pode-se contar com um pouco mais de 500 doutores que atuam    por meio de bolsas, as quais n&atilde;o garantem a sua perman&ecirc;ncia na    regi&atilde;o por longo prazo. &Eacute; preocupante a falta de instrumentos    legais para fixar os pr&oacute;prios recursos humanos formados pelos cursos    de PG existentes na Amaz&ocirc;nia. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Muitos programas j&aacute; foram implantados na expectativa    de acelerar a forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos na regi&atilde;o Norte.    H&aacute; muitos empecilhos, no entanto, dos quais o principal deles &eacute;    a falta de vagas nas universidades p&uacute;blicas e privadas para fixar doutores    com um sal&aacute;rio digno e compat&iacute;vel com a dist&acirc;ncia da Amaz&ocirc;nia    de outros centros do pa&iacute;s. A pequena luz no fim do t&uacute;nel vem,    hoje, com o programa Acelera, uma a&ccedil;&atilde;o conjunta de &oacute;rg&atilde;os    de fomento, minist&eacute;rios e secretarias estaduais, que se unem para estimular    a forma&ccedil;&atilde;o de novos cursos, a integra&ccedil;&atilde;o com outras    regi&otilde;es e a fixa&ccedil;&atilde;o de doutores em grupos de pesquisas    consolidados, ou a forma&ccedil;&atilde;o de novos grupos de pesquisas e de    desenvolvimento tecnol&oacute;gico. &Eacute; importante que estejamos atentos    para a forma&ccedil;&atilde;o de p&oacute;s-graduados, pois, como se ver&aacute;    no artigo, o PIB de um pa&iacute;s e de uma regi&atilde;o &eacute; diretamente    proporcional ao n&uacute;mero de doutores que nela habitam. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Est&aacute; na m&atilde;o da nova gera&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicos,    tecn&oacute;logos e cientistas dar continuidade a um projeto de desenvolvimento    sustent&aacute;vel do ponto de vista social, econ&ocirc;mico e ambiental de    dimens&otilde;es continentais. Esse desenvolvimento &eacute; totalmente dependente    de um forte di&aacute;logo entre a sociedade e a academia e entre a academia    e os setores governamentais (federal e estadual). A tarefa &eacute; &aacute;rdua    e s&oacute; poder&aacute; ter sucesso na medida em que os pr&oacute;ximos governos    acordarem que &eacute; preciso sair da fase de diagn&oacute;stico e planejamento    e passar a execu&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">N&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para erros na Amaz&ocirc;nia,    mas h&aacute; lugar para a&ccedil;&otilde;es ousadas. &Eacute; preciso transformar    o sonho em realidade e fazer da ousadia esfor&ccedil;o conjunto. O &uacute;ltimo    artigo trata disso. Com o t&iacute;tulo "A floresta amaz&ocirc;nica e o    futuro do Brasil", Charles Clement e Niro Higuchi d&atilde;o uma demonstra&ccedil;&atilde;o    de ousadia, diagnosticando os principais problemas, ressaltando o valor est&eacute;tico    da floresta, mostrando a import&acirc;ncia do papel ecol&oacute;gico por ela    fornecido ao resto do pa&iacute;s, e ressaltando o trato &eacute;tico de seus    recursos naturais. Nele, os autores prop&otilde;em o aproveitamento econ&ocirc;mico    da madeira, o que pode parecer uma a&ccedil;&atilde;o ousada, mas a proposta    &eacute; o uso da madeira de maneira sustentada e legalizada. Em seu artigo,    os autores mostram o que pode ser uma "janela de oportunidades" (termo    alcunhado por Adalberto L. Val), propondo uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es    que poder&atilde;o transformar a explora&ccedil;&atilde;o da floresta em uma    <i>commodity</i> do mais alto valor internacional.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Por fim, &eacute; importante esclarecer que outros assuntos    s&atilde;o igualmente dignos de aten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; claro que o    desenvolvimento de mecanismos de conserva&ccedil;&atilde;o da biodiversidade    e de bioprospec&ccedil;&atilde;o s&atilde;o de igual modo importantes. As ci&ecirc;ncias    b&aacute;sicas que investigam os recursos naturais e sua rela&ccedil;&atilde;o    com o meio ambiente s&atilde;o fundamentais. Todas essas ci&ecirc;ncias formam    a base na qual os artigos presentes neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico est&atilde;o    baseados. Sua continuidade &eacute; fundamental. Mais do que nunca, a implementa&ccedil;&atilde;o    de t&eacute;cnicas modernas no estudo de popula&ccedil;&otilde;es visando &agrave;    sua conserva&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria. Mais do que nunca,    a forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos aptos a desenvolverem trabalhos    voltados ao manejo e preserva&ccedil;&atilde;o da floresta &eacute; necess&aacute;ria.    &Eacute; importante, todavia, que se alerte para o fato de que a continuidade    dessas a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o &eacute; incompat&iacute;vel com a implementa&ccedil;&atilde;o    de projetos pr&aacute;ticos e de real desenvolvimento sustent&aacute;vel. N&atilde;o    tratamos aqui, tamb&eacute;m, dos grandes projetos de monitoramento ambiental,    os quais s&atilde;o fundamentais para a Amaz&ocirc;nia, tampouco tratamos de    projetos de aplica&ccedil;&atilde;o imediata dos recursos naturais e seus efeitos    em seres humanos, como os projetos de nutri&ccedil;&atilde;o que estudam frutos    e outros produtos da Amaz&ocirc;nia; ou das pesquisas important&iacute;ssimas    em doen&ccedil;as tropicais e as atuais endemias, algumas delas relacionadas    &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o ambiental como a mal&aacute;ria. Todos esses    estudos v&ecirc;em sendo desenvolvidos na Amaz&ocirc;nia com bastante sucesso    e tamb&eacute;m merecem destaque, pois n&atilde;o h&aacute; como importar solu&ccedil;&otilde;es;    a regi&atilde;o &eacute; &uacute;nica, o bioma &eacute; &uacute;nico e seus    povos de igual modo &uacute;nicos. Mas, no atual momento, onde a&ccedil;&otilde;es    transversais s&atilde;o necess&aacute;rias para que se possam corrigir rumos,    trazer artigos descrevendo o que vem sendo realizado por pesquisadores da Amaz&ocirc;nia    seria apenas mais um relato.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">O objetivo deste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico &eacute; trazer,    mais do que um conjunto de opini&otilde;es, uma mostra do que cientistas, atuando    na Amaz&ocirc;nia, vivendo suas mazelas no dia-a-dia, testemunhando h&aacute;    anos os problemas da regi&atilde;o, pensam e sugerem para que o atual quadro    seja melhorado e para que o sonho da sustentabilidade n&atilde;o acabe no planejamento,    e saia do papel para tornar-se uma realidade sem paralelos. &Eacute; por essa    raz&atilde;o que os autores dos trabalhos apresentados a seguir s&atilde;o un&acirc;nimes    em relatar a escassez de recursos humanos qualificados para que o desenvolvimento    desses setores possa ocorrer a contento. Pela mesma raz&atilde;o, por compartilharem    da vis&atilde;o de quem vive na regi&atilde;o, os autores tamb&eacute;m s&atilde;o    un&acirc;nimes nos reclamos da aus&ecirc;ncia de uma a&ccedil;&atilde;o conjunta    entre Estado e Sociedade na solu&ccedil;&atilde;o de problemas e organiza&ccedil;&atilde;o    dos setores produtivos. Trouxemos, aqui, como se poder&aacute; sentir, a vis&atilde;o    de uma outra Amaz&ocirc;nia; de uma Amaz&ocirc;nia real, com problemas e solu&ccedil;&otilde;es    com os p&eacute;s no ch&atilde;o. </FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Vera Maria Fonseca de Almeida-Val</b> &eacute; bi&oacute;loga,    com mestrado em ecologia e recursos naturais pela UFSCar, doutorado em biologia    de &aacute;gua doce e pesca interior pelo Inpa e p&oacute;s-doutora em adapta&ccedil;&atilde;o    bioqu&iacute;mica pela University of British Columbia, no Canad&aacute;. Atualmente    &eacute; pesquisadora do Inpa e professora dos cursos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em ecologia e em gen&eacute;tica, conserva&ccedil;&atilde;o e biologia evolutiva    do Inpa.</i></FONT></p>      ]]></body>
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