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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n1/a13img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="5"><b>A CR&Iacute;TICA GEN&Eacute;TICA E OS ACERVOS DE M&Uacute;SICOS    BRASILEIROS</b></FONT></p>     <p><FONT size="3"><b>Fl&aacute;via Camargo Toni</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <font size=5><b>A</b></font> m&uacute;sica brasileira de    concerto tem, na cr&iacute;tica gen&eacute;tica, campo vasto de trabalho em    fun&ccedil;&atilde;o de certas caracter&iacute;sticas da pr&oacute;pria &aacute;rea    de m&uacute;sica, bem como do fazer musical. No entanto, nossos acervos musicais    t&ecirc;m sido contemplados, principalmente, com obras que se valeram de nota&ccedil;&atilde;o    musical tradicional, ou seja, aquela grafada sobre pentagramas – os conjuntos    de cinco linhas paralelas – e assentada sobre papel. Ainda que repletas de grafismos    e anotadas com escrita aparentemente herm&eacute;tica, as partituras s&atilde;o    documentos textuais e, como eles, possuem metodologia conhecida para o estabelecimento    do texto musical, seja para se alcan&ccedil;ar uma edi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica    ou gen&eacute;tica. Entre os pentagramas desenhados a bico de pena por J. Sebastian    Bach ou as "bulas" po&eacute;ticas de Willy Corr&ecirc;a de Oliveira    para seu <i>Miserere</i> para piano, in&uacute;meros recursos especiais t&ecirc;m    sido empregados para indicar de que forma se pretende a produ&ccedil;&atilde;o    de determinado som – aquilo que de "tang&iacute;vel" chega a nossos    ouvidos – embora, em termos num&eacute;ricos, a maior parte da m&uacute;sica    escrita at&eacute; hoje obede&ccedil;a a f&oacute;rmulas tradicionais de grafia    e leitura de c&oacute;digos. Algumas obras do s&eacute;culo XX, inclusive, integram    imagens a suas narrativas, &agrave; semelhan&ccedil;a dos argumentos po&eacute;ticos    usados pelos compositores rom&acirc;nticos, criando ambientes extra-musicais    para o int&eacute;rprete, caso de <i>Sports et Divertissements</i>, de Erik    Satie, com desenhos de Charles Martin e textos do pr&oacute;prio compositor    (1). E a quest&atilde;o torna-se bem mais complexa ao tratarmos da m&uacute;sica    eletroac&uacute;stica, do teatro musical ou, ainda, de combina&ccedil;&otilde;es    dessas formas de express&atilde;o e registro musicais. </font></p>     <p><font size="3">O compositor alem&atilde;o Karlheinz Stockhausen sintetizou    a problem&aacute;tica da quest&atilde;o ao explicar a um rep&oacute;rter que    m&eacute;todo seguia para trabalhar, em entrevista concedida no final da d&eacute;cada    de 1970.</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">"N&atilde;o existe <i>um</i> m&eacute;todo de trabalho.      Depende do material e da concep&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica de cada      obra. Tive de me acostumar, nos &uacute;ltimos vinte anos, a utilizar um m&eacute;todo      novo para cada obra. &#91;…&#93; Quando trabalho no est&uacute;dio e estou unicamente      ocupado com sons sint&eacute;ticos, os m&eacute;todos s&atilde;o naturalmente      muito diferentes dos utilizados quando interpretamos m&uacute;sica intuitiva,      com m&uacute;sicos escolhidos especialmente."(2)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Em seguida, narra a concep&ccedil;&atilde;o de <i>Inori</i>,    obra que consumiu cinco meses e meio de trabalho para a busca de certa maneira    de expor movimentos atrelados a sons, em oposi&ccedil;&atilde;o a <i>Ceylon</i>,    pe&ccedil;a que consiste num &uacute;nico ritmo e num texto curto, para cinco    instrumentistas que obedecem a uma organiza&ccedil;&atilde;o formal gen&eacute;rica.    Logo, conclui n&atilde;o ser poss&iacute;vel eleger um &uacute;nico m&eacute;todo    de trabalho, o que pode ser tomado como uma constante na produ&ccedil;&atilde;o    dos compositores do s&eacute;culo XX que n&atilde;o se ativeram &agrave; forma    padr&atilde;o de grafia da nota&ccedil;&atilde;o musical que dominou, por exemplo,    todo o s&eacute;culo XIX. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas, ainda que se delimite o tema em torno da nota&ccedil;&atilde;o    cl&aacute;ssica sobre o papel, &eacute; necess&aacute;rio diferenciar aquela    produzida antes dos programas para computador, ou seja, a obra produzida at&eacute;    cerca de dez anos atr&aacute;s, do registro manual, muitas vezes de cunho autoral.    Isto porque o emprego de software espec&iacute;fico elimina fase importante    do registro do pensamento criador na m&uacute;sica, registro que tantas vezes    &eacute; traduzido no arte-fazer da escrita musical. </font></p>     <p><font size="3">Antes da comercializa&ccedil;&atilde;o de pap&eacute;is impressos    para a nota&ccedil;&atilde;o musical, especiais porque trazem estampados os    conjuntos de pentagramas, os compositores preparavam seus pap&eacute;is desenhando    as cinco linhas com penas de canetas e tinta nanquim ou comum. No entanto, devido    &agrave;s conven&ccedil;&otilde;es da grafia, h&aacute; multiplicidade de tipos    de pap&eacute;is porque o espa&ccedil;o planejado para assentar o texto musical    para vinte e dois instrumentos diversos &eacute; bastante diferente daquele    empregado para o teclado de um piano. Logo, era comum o planejamento do trabalho    atrav&eacute;s de esbo&ccedil;os ou esquemas sintetizando as principais id&eacute;ias    e condu&ccedil;&atilde;o de temas. </font></p>     <p><font size="3">Mesmo na fase da constru&ccedil;&atilde;o da pe&ccedil;a sobre    o papel adequado, a maior parte dos compositores utilizava-se do l&aacute;pis    comum, uma vez que anular os registros a tinta implicava em rasurar o pr&oacute;prio    pentagrama. S&oacute; a partir da&iacute; "cobria-se" o l&aacute;pis    com a tinta, ou seja, escrevia-se &agrave; tinta sobre o l&aacute;pis. No entanto,    a m&uacute;sica que ficou fora do circuito comercial precisava, com freq&uuml;&ecirc;ncia,    ser duplicada para que os diversos instrumentistas pudessem execut&aacute;-la,    exce&ccedil;&atilde;o feita &agrave;s obras para piano, por exemplo. A tarefa    geralmente cabia aos compositores que, na c&oacute;pia, podiam abrir m&atilde;o    da fase de prepara&ccedil;&atilde;o com o l&aacute;pis. C&oacute;pia aut&oacute;grafa    ou de terceiro, estava assim criada a primeira situa&ccedil;&atilde;o oficial    para o aparecimento de variantes de um texto que, n&atilde;o raro, traz diferen&ccedil;as    na grafia em rela&ccedil;&atilde;o ao modelo que lhe d&aacute; origem. Esta    &eacute; uma das principais caracter&iacute;sticas dos acervos de nossos compositores    que escreveram at&eacute; meados do s&eacute;culo XX, vale dizer, cole&ccedil;&otilde;es    onde n&atilde;o raro s&atilde;o encontradas pe&ccedil;as de m&uacute;sica de    c&acirc;mara com as partes individuais dos m&uacute;sicos do grupo copiadas    ou pelo autor ou por terceiro, conjuntos nem sempre completos porque ao circularem    entre v&aacute;rios int&eacute;rpretes, era comum que algumas das partes se    extraviassem. </font></p>     <p><font size="3">Com a populariza&ccedil;&atilde;o da c&oacute;pia heliogr&aacute;fica,    processo de c&oacute;pia com vapor de am&ocirc;nia, o artesanato da escrita    musical se altera bastante e d&aacute; origem a variantes de textos com outras    caracter&iacute;sticas. Isto porque o preparo do material tem que ser feito    sobre papel vegetal, ainda mais dif&iacute;cil de se lidar do que aquele de    fibra de celulose. Neste caso, de forma mais n&iacute;tida que no processo anterior,    a exist&ecirc;ncia de um esbo&ccedil;o registrando parcialmente as principais    id&eacute;ias &eacute; importante porque mesmo o l&aacute;pis, quando apagado,    deixa marcas que podem comprometer o resultado final. R&eacute;guas, penas,    tinta nanquim e l&acirc;mina gilete ou de bisturi passaram a decorar as mesas    de trabalho porque os erros s&oacute; podiam ser reparados &agrave;s custas    de raspagens do que se assentara a tinta e a posterior recomposi&ccedil;&atilde;o    do pentagrama danificado. Tendo em vista as limita&ccedil;&otilde;es para a    revis&atilde;o dos textos estabelecidos sobre o papel vegetal, as c&oacute;pias    heliogr&aacute;ficas passam a acolher as marcas do repensar do autor, ou apenas    da confronta&ccedil;&atilde;o entre a id&eacute;ia matriz e sua realiza&ccedil;&atilde;o    sobre o papel vegetal. </font></p>     <p><font size="3">Certos m&uacute;sicos que, a exemplo de Camargo Guarnieri, tiveram    longa vida produtiva durante os anos de 1930 a 1980, trazem em seus acervos    exemplos das duas fases descritas e prolifera&ccedil;&atilde;o de testemunhos    suficientes para a composi&ccedil;&atilde;o de dossi&ecirc;s gen&eacute;ticos.    Eis o caso de seu <i>Choro para piano e orquestra</i>, do qual se disp&otilde;e    de: </font></p>     <p><font size="3"><b>I)</b> Para a parte geral do maestro (grade):    <br>   a) C&oacute;pia heliogr&aacute;fica do aut&oacute;grafo com poucos acr&eacute;scimos    a l&aacute;pis preto, tamb&eacute;m aut&oacute;grafos;    <br>   b) C&oacute;pia heliogr&aacute;fica de terceiro, com acr&eacute;scimos e supress&otilde;es    a l&aacute;pis preto e caneta vermelha, al&eacute;m das marcas da reg&ecirc;ncia.    </font></p>     <p><font size="3"><b>II)</b> Da redu&ccedil;&atilde;o para dois pianos:    <br>   c) C&oacute;pia heliogr&aacute;fica do aut&oacute;grafo, sem marcas;    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   d) C&oacute;pia heliogr&aacute;fica do aut&oacute;grafo com poucas marcas a    l&aacute;pis, principalmente ligaduras e din&acirc;micas; </font></p>     <p><font size="3"><b>III)</b> Das partes individuais da orquestra:    <br>   e) c&oacute;pia heliogr&aacute;fica assinada "Rapeca del Fraceli 1957"    onde h&aacute; material das cordas crivadas de sinais ou as mesmas partes, sem    marcas e, finalmente,    <br>   f) c&oacute;pia heliogr&aacute;fica assinada por Ricardo Tupi, sem marcas.</font></p>     <p><font size="3">Com cat&aacute;logo de obras registrando mais de seiscentos    t&iacute;tulos de composi&ccedil;&otilde;es, acervo de tal import&acirc;ncia    e com tamanha complexidade &eacute; laborat&oacute;rio privilegiado para o conhecimento    do pensamento criador de Camargo Guarnieri. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><i><b>Fl&aacute;via Camargo Toni</b> &eacute; music&oacute;loga,    livre-docente na &aacute;rea de m&uacute;sica do Instituto de Estudos Brasileiros    da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o    em Musicologia do Departamento de M&uacute;sica da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es    e Artes(ECA) da mesma universidade.</i></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">1. Raro exemplar da obra editada em 1926 figura na biblioteca    que pertenceu a M&aacute;rio de Andrade, acervo do Instituto de Estudos Brasileiros    (IEB) da Universidade de S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="3">2. Biblioteca Salvat, p. 27, 1979. Entrevista provavelmente    concedida a Montserrat Albet, editor do volume.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><i>Biblioteca Salvat de grandes temas: A m&uacute;sica contempor&acirc;nea</i>.    Barcelona, Salvat Editores, 1979, p. 27.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Grier, James. <i>The critical editing of music</i>. New York:    Cambridge University Press. 1996.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Roland-Manuel (org.) <i>Histoire de la musique</i>. Vol. II.    Paris, Gallimard. 1963.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Salles, Cec&iacute;lia A. <i>Gesto inacabado: Processo de cria&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica</i>. S&atilde;o Paulo: Annablume, 1998. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Szendy, Peter. <i>&Eacute;coute: une histoire de nos oreilles</i>.    Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit. 2001.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"><i>Idem</i> (Ed.) <i>Genesis: &Eacute;critures musicales aujourd’hui</i>.    4, 1993.</FONT></p>     ]]></body>
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