<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252007000200016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Por que não Guerreiro Ramos? Novos desafios a serem enfrentados pelas universidades públicas brasileiras]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Figueiredo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Angela]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Grosfoguel]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ramón]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A03"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,IUPERJ  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Ufba CEAO Pós-Afro]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A03">
<institution><![CDATA[,Universidade da Califórnia Departamento de Estudos Étnicos ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Berkeley ]]></addr-line>
<country>EUA</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<volume>59</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>36</fpage>
<lpage>41</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252007000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252007000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252007000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>POR QUE N&Atilde;O GUERREIRO RAMOS? NOVOS DESAFIOS A SEREM    ENFRENTADOS PELAS UNIVERSIDADES P&Uacute;BLICAS BRASILEIRAS</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Angela Figueiredo e Ram&oacute;n Grosfoguel (1)</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>D</b></font><font size="3">iga-me o nome de tr&ecirc;s acad&ecirc;micos    negros brasileiros? Certamente teremos dificuldade em responder a esta pergunta    aparentemente simples, mas, pelo menos de um nome nos lembraremos: Milton Santos    (3/5/26-24/6/01). A refer&ecirc;ncia a Milton Santos resulta n&atilde;o s&oacute;    da sua extensa produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, bem como do fato de ele    ter falecido recentemente. Curiosamente, a morte de Milton Santos estimulou    a reedi&ccedil;&atilde;o de seus livros, hoje expostos nas prateleiras de diversas    livrarias. </font></P>     <p><font size="3">Tratando-se de um intelectual negro, o reconhecimento adquirido    por Milton Santos configura-se como uma exce&ccedil;&atilde;o no ambiente acad&ecirc;mico    brasileiro. De fato, temos refletido pouco n&atilde;o s&oacute; sobre o porqu&ecirc;    da notoriedade de Milton Santos – n&atilde;o estamos pondo em d&uacute;vida    a qualidade e a import&acirc;ncia de seus trabalhos – bem como sobre as    dificuldades de outros intelectuais negros ocuparem posi&ccedil;&otilde;es de    destaque no cen&aacute;rio acad&ecirc;mico brasileiro. </font></P>     <p><font size="3">No final de 2004 perdemos tamb&eacute;m um outro grande intelectual    negro, Cl&oacute;vis Moura, historiador, autor de diversos trabalhos sobre a    escravid&atilde;o negra no Brasil. Outros autores poderiam aqui ser lembrados,    considerando suas importantes contribui&ccedil;&otilde;es &agrave; compreens&atilde;o    da sociedade brasileira: Manoel Querino, Andr&eacute; Rebou&ccedil;as, Guerreiro    Ramos, L&eacute;lia Gonz&aacute;les, Beatriz Nascimento, Joel Rufino e tantos    outros. O objetivo deste texto n&atilde;o &eacute; apenas homenagear autores    e autoras negras, mas refletir sobre o que denomino de "pol&iacute;tica    do esquecimento" mecanismo pelo qual apagamos da mem&oacute;ria das novas    gera&ccedil;&otilde;es a contribui&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica de autores    negros.</font></P>     <p><font size="3">Consciente ou inconscientemente, raramente os autores negros    est&atilde;o nas bibliografias dos cursos ministrados nas universidades. Conseq&uuml;entemente,    poucas vezes temos tido a oportunidade de conhecer a contribui&ccedil;&atilde;o    desses autores, refletindo, inclusive, n&atilde;o apenas sobre o conte&uacute;do    de seus trabalhos, mas sobre o contexto pol&iacute;tico-intelectual em que foram    produzidos. </font></P>     <p><font size="3">Considerando tanto o aumento do n&uacute;mero de alunos negros    nas universidades p&uacute;blicas, como o resultado da implementa&ccedil;&atilde;o    do sistema de cotas, quanto o crescente aumento do n&uacute;mero de pesquisadores    negros (mestres e doutores) na &uacute;ltima d&eacute;cada(2), parece-nos mais    que importante, abordarmos, neste texto, um tema at&eacute; ent&atilde;o pouco    discutido no ambiente acad&ecirc;mico brasileiro: a aus&ecirc;ncia de professores    negros das universidades p&uacute;blicas brasileiras. A nossa hip&oacute;tese    &eacute; de que isto ocorre como o resultado da soma de diferentes fatores:    a geopol&iacute;tica do conhecimento que tem levado a minimizar a produ&ccedil;&atilde;o    dos intelectuais negros; o funcionamento da cultura acad&ecirc;mica (networks)    e do capital social e simb&oacute;lico requeridos (3); o isolamento do intelectual    negro, particularmente, quando ele &eacute; politicamente comprometido com o    combate &agrave;s desigualdade raciais e, evidentemente, ao racismo, tal como    ele se manifesta em nossa sociedade.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>A CONSTRU&Ccedil;&Atilde;O DO CAMPO OU A IMPORT&Acirc;NCIA    DOS "ESTUDOS SOBRE RELA&Ccedil;&Otilde;ES RACIAIS" NO BRASIL</b>    O campo de estudos conhecidos como "estudos das rela&ccedil;&otilde;es    raciais" no Brasil constituem o objeto de conhecimento historicamente produzido    por acad&ecirc;micos brancos cuja epistemologia baseia-se no estudo <i>sobre</i>    negros, por isso mesmo, a no&ccedil;&atilde;o de estudos sobre as "rela&ccedil;&otilde;es    raciais" mant&eacute;m o mito de uma horizontalidade entre os grupos racialmente    diferenciados. Julgamos ser mais adequado falarmos de "hierarquias raciais"    j&aacute; que enfatizar&iacute;amos a verticalidade das rela&ccedil;&otilde;es    sobre a suposta horizontalidade expressa na defini&ccedil;&atilde;o "estudos    das rela&ccedil;&otilde;es raciais". </font></P>     <p><font size="3">O interesse em entender os problemas das "rela&ccedil;&otilde;es    raciais" constituiu-se numa preocupa&ccedil;&atilde;o que antecedeu a institucionaliza&ccedil;&atilde;o    da sociologia brasileira, a partir da cria&ccedil;&atilde;o da Escola Livre    de Sociologia e Pol&iacute;tica, em 1933, e da cria&ccedil;&atilde;o da Universidade    de S&atilde;o Paulo (USP), em 1934. Inicialmente, presente no relato dos viajantes    e, em seguida, na obra dos ensa&iacute;stas, a exemplo de S&iacute;lvio Romero,    Manoel Bonfim, Oliveira Viana e, posteriormente, a partir dos trabalhos de Gilberto    Freyre (4).</font></P>     <p><font size="3">Nesse sentido, a preocupa&ccedil;&atilde;o com as quest&otilde;es    de natureza racial sempre despertou o interesse dos estudiosos, independente    dos enfoques e das agendas acad&ecirc;micas e pol&iacute;ticas. A primeira gera&ccedil;&atilde;o    estava preocupada com o futuro da na&ccedil;&atilde;o brasileira, condenada    pelos efeitos "mal&eacute;ficos" da mistura de ra&ccedil;as. Nesse    per&iacute;odo, os estudos vislumbravam uma &uacute;nica sa&iacute;da: o clareamento,    ou embranquecimento, da popula&ccedil;&atilde;o brasileira a partir da mistura    das ra&ccedil;as em gera&ccedil;&otilde;es consecutivas, ou seja, havia uma    cren&ccedil;a de que mesti&ccedil;agens sucessivas levariam, inevitavelmente,    ao desaparecimento da popula&ccedil;&atilde;o negra. A partir dos trabalhos    de Freyre h&aacute; uma interpreta&ccedil;&atilde;o do Brasil numa chave cultural;    para alguns autores, h&aacute; em Freyre uma valoriza&ccedil;&atilde;o da mistura    racial e cultural. O culturalismo de Freyre acabou por consolidar a cren&ccedil;a    na democracia racial brasileira, paradigma interpretativo vigente pelo menos    at&eacute; o final dos anos 1980. </font></P>     <p><font size="3">O terceiro momento &eacute; caracterizado pela institucionaliza&ccedil;&atilde;o    da sociologia e, conseq&uuml;entemente, pela ado&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicas    de pesquisa e reflex&otilde;es te&oacute;ricas mais rigorosas. Aqui &eacute;    importante destacar a figura de Donald Pierson e a influ&ecirc;ncia que exercer&aacute;    sobre a sociologia brasileira a Escola de Chicago. Pierson desenvolve uma importante    pesquisa sobre as "rela&ccedil;&otilde;es raciais" na Bahia, em que    acaba por corroborar, ou fortalecer, a cren&ccedil;a na inexist&ecirc;ncia do    preconceito racial, enfatizando que o preconceito no Brasil &eacute; de classe.    Duas cr&iacute;ticas contundentes podem ser dirigidas ao trabalho de Pierson:    primeiro, ele generaliza a conclus&atilde;o de uma pesquisa realizada em Salvador    (BA), cidade com a maior popula&ccedil;&atilde;o negra no Brasil como um todo;    segundo, atribui demasiada import&acirc;ncia &agrave; mobilidade social de poucos    negros. &Eacute; importante destacar aqui a import&acirc;ncia atribu&iacute;da    &agrave; mobilidade social dos negros, j&aacute; que era vista como um exemplo    contundente da inexist&ecirc;ncia do preconceito ou da discrimina&ccedil;&atilde;o    racial. </font></P>     <p><font size="3">Quanto da compara&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es    raciais entre o Brasil e os Estados Unidos, a maioria dos autores enfatizava    a import&acirc;ncia da classifica&ccedil;&atilde;o da cor no Brasil e o papel    ocupado pelo mesti&ccedil;o escuro ou mulato na estratifica&ccedil;&atilde;o    social brasileira. Entretanto, jamais encontramos um artigo sequer escrito por    um mulato em que o tema fosse abordado. Ao que parece o debate ocorria em outro    &acirc;mbito, contando apenas com a presen&ccedil;a de pesquisadores brancos    ou mesti&ccedil;os muito claros, e, o mulato, silenciado, lia e aprendia sobre    os benef&iacute;cios de ser mesti&ccedil;o no Brasil.</font></P>     <p><font size="3">Aludindo a esse terceiro momento, em meado dos anos 1930, quando    da chegada da antrop&oacute;loga notre-americana Ruth Landes ao Brasil (5),    demonstra como o campo de estudos sobre as rela&ccedil;&otilde;es raciais brasileiras    j&aacute; estava estruturado &agrave; &eacute;poca, destacando, inclusive, a    majorit&aacute;ria presen&ccedil;a masculina. Corr&ecirc;a tamb&eacute;m observa    que a rejei&ccedil;&atilde;o inicial aos resultados da pesquisa desenvolvida    por Landes guarda estreita rela&ccedil;&atilde;o com os seguintes fatores: primeiro,    o fato de Landes ser mulher, num contexto em que somente os homens desenvolviam    pesquisas sobre o tema da religiosidade negra; segundo, o fato de ela n&atilde;o    ter entrado por meio de uma rede de rela&ccedil;&otilde;es dos <i>experts</i>;    e, terceiro, a rela&ccedil;&atilde;o pessoal desenvolvida por Landes e Edison    Carneiro. Trata-se, portanto, de um campo de lutas concorrencial, no qual o    que estava em jogo n&atilde;o eram apenas os resultados das investiga&ccedil;&otilde;es    e a correspondente legitimidade acad&ecirc;mica, mas, tamb&eacute;m, o reconhecimento    da autoridade (6). Pelas observa&ccedil;&otilde;es de Corr&ecirc;a torna-se    tamb&eacute;m evidente que a caracter&iacute;stica adscrita – no caso    espec&iacute;fico de Landes, o g&ecirc;nero – joga um importante papel    no modo como se inclui ou exclui os agentes de um determinado campo.</font></P>     <p><font size="3">Ainda relacionado a esse terceiro momento, podemos mencionar    as pesquisas desenvolvidas no &acirc;mbito do que convencionalmente chamamos    de projeto Unesco realizadas em diferentes estados brasileiros (7). <i>Grosso    modo</i>, poder&iacute;amos dizer que a escolha do Brasil pela Unesco mantinha    uma estreita rela&ccedil;&atilde;o com as preocupa&ccedil;&otilde;es advindas    do p&oacute;s-guerra visando acabar com as conseq&uuml;&ecirc;ncias da cren&ccedil;a    na exist&ecirc;ncia de ra&ccedil;as e o racismo. O Brasil, portanto, teria um    bom exemplo a dar ao mundo, qual seja, a conviv&ecirc;ncia harm&ocirc;nica entre    as diferentes ra&ccedil;as. As articula&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e    os motivos que levaram &agrave; escolha do Brasil para a realiza&ccedil;&atilde;o    da pesquisa, assim como a escolha do coordenador e dos pesquisadores envolvidos    nesse projeto est&atilde;o bem descrito na tese de Chor Maio (8). </font></P>     <p><font size="3">N&atilde;o podemos deixar de mencionar as pesquisas realizadas    no &acirc;mbito da antropologia, que enfocaram majoritariamente a religiosidade    e alguns aspectos espec&iacute;ficos da cultura negra. &Eacute; importante destacar    tamb&eacute;m a influ&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o dos estudos sobre    cultura e personalidade na antropologia norte-americana, que influenciaram Freyre    e Melville Herskovits que, por sua vez, influenciaram diretamente Arthur Ramos    e, conseq&uuml;entemente, as pesquisas antropol&oacute;gicas sobre a religiosidade    negra. Independente das perspectivas e das abordagens, as pesquisas foram, e    ainda s&atilde;o, realizadas quase que exclusivamente com a popula&ccedil;&atilde;o    negra-mesti&ccedil;a, o que acabou por se configurar no que Guerreiro Ramos    denominou de "o problema dos negros brasileiros".</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; importante destacar algumas mudan&ccedil;as de enfoque    nos estudos sobre as "rela&ccedil;&otilde;es raciais" empreendidos    a partir do final dos anos 1970, sobretudo a partir dos estudos realizados por    Carlos Hasenbalg (9), que demonstravam as desigualdades no acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o    e nos desn&iacute;veis de renda entre negros e brancos, aliado &agrave;s den&uacute;ncias    empreendidas pelo ent&atilde;o rec&eacute;m-formado Movimento Negro Unificado    sobre o preconceito e a discrimina&ccedil;&atilde;o racial no Brasil. Nas &uacute;ltimas    d&eacute;cadas temos testemunhado tanto o aumento e a varia&ccedil;&atilde;o    dos temas de pesquisas, quanto a formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas    p&uacute;blicas no combate &agrave; desigualdade como, por exemplo, a ado&ccedil;&atilde;o    da pol&iacute;tica de cotas a partir de 2002.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a16fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Esta breve descri&ccedil;&atilde;o sobre como se configurou    o campo dos estudos das "rela&ccedil;&otilde;es raciais" no Brasil,    ao inv&eacute;s de estudos das hierarquias raciais como sugerimos acima, objetiva    demonstrar, num primeiro momento, n&atilde;o s&oacute; a import&acirc;ncia dos    estudos sobre as "rela&ccedil;&otilde;es raciais" nas ci&ecirc;ncias    sociais brasileiras, bem como evidenciar a exist&ecirc;ncia de um campo institucionalizado    e hegemonizado por perspectivas e epistemologias euro-brasileiras, em que j&aacute;    havia uma perspectiva comparativa e j&aacute; estava consolidada uma rede de    rela&ccedil;&otilde;es dominadas por acad&ecirc;micos bastante importante, por    exemplo, para o recrutamento dos pesquisadores que foram envolvidos com o j&aacute;    mencionado projeto Unesco – at&eacute; hoje, a maior pesquisa sobre "rela&ccedil;&otilde;es    raciais" realizada por pesquisadores brancos no Brasil. O projeto instaura,    tamb&eacute;m, um momento novo na sociologia brasileira, j&aacute; que pela    primeira vez os pesquisadores recebem recursos significativos para a realiza&ccedil;&atilde;o    de uma pesquisa. Provavelmente, a disponibilidade de recursos do projeto estimulou    muitos pesquisadores a se interessarem pelo tema, j&aacute; que a maioria deles    n&atilde;o tinha experi&ecirc;ncia pr&eacute;via em pesquisas sobre "rela&ccedil;&otilde;es    raciais". </font></P>     <p><font size="3">Para ilustrar quanto tem sido dif&iacute;cil consolidar uma    intelectualidade negra na universidade brasileira &eacute; emblem&aacute;tica    a trajet&oacute;ria de um autor espec&iacute;fico, Alberto Guerreiro Ramos –    soci&oacute;logo, baiano, mulato como a maioria dos pesquisadores o descreve    – falecido em 1982, em Los Angeles, aos 67 anos, v&iacute;tima de c&acirc;ncer    (10). Guerreiro Ramos convive num contexto acad&ecirc;mico em que "os estudos    sobre os negros brasileiros", como ele definiu, j&aacute; estavam consolidados    e eram realizados quase que exclusivamente por pesquisadores brancos –    a exce&ccedil;&atilde;o &eacute; Edison Carneiro, autor negro, tamb&eacute;m    baiano, que escreveu sobre religiosidade negra. Carneiro foi o principal informante    da pesquisa realizada por Ruth Landes, que resultou no livro <i>A cidade das    mulheres</i> (1937), mas ao que parece, ele n&atilde;o teve o mesmo reconhecimento    de outros autores n&atilde;o-negros que abordaram semelhante tema. </font></P>     <p><font size="3">As reflex&otilde;es de Guerreiro sobre o papel pol&iacute;tico    da sociologia, sobre a import&acirc;ncia de uma assimila&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica    da teoria e, principalmente, suas considera&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas    sobre os estudos realizados <i>sobre</i> e n&atilde;o <i>desde, junto ou com</i>    os negros no Brasil, garantem ao autor n&atilde;o somente uma import&acirc;ncia    singular no &acirc;mbito acad&ecirc;mico brasileiro, mas tamb&eacute;m nos permite    a leitura de Guerreiro numa perspectiva que de certo modo o aproxima dos autores    p&oacute;s-coloniais – ainda que ele nunca tenha se identificado com essa    denomina&ccedil;&atilde;o. Entretanto, Guerreiro foi esquecido, marginalizado,    exclu&iacute;do do "pante&atilde;o dos grandes soci&oacute;logos brasileiros".</font></P>     <p><font size="3">O nosso interesse reside, portanto, em entender algumas importantes    quest&otilde;es relacionadas &agrave; obra e &agrave; trajet&oacute;ria de Guerreiro    Ramos: primeiro, analisar sua contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; sociologia,    principalmente no que se refere aos estudos sobre as rela&ccedil;&otilde;es    raciais brasileiras; segundo, entender o porqu&ecirc; da exclus&atilde;o de    Guerreiro e como se construiu uma estrat&eacute;gia ou pol&iacute;tica do esquecimento    da contribui&ccedil;&atilde;o de Guerreiro no &acirc;mbito acad&ecirc;mico;    terceiro, compreender o porqu&ecirc; da aus&ecirc;ncia de Guerreiro no conjunto    das pesquisas realizadas pela Unesco.</font></P>     <p><font size="3"><b>A CRITICA SOCIOL&Oacute;GICA DE GUERREIRO RAMOS</b> Lucia    Lippi Oliveira e Marcos Chor Maio, abordaram a obra de Guerreiro Ramos em diferentes    perspectivas: Oliveira prop&otilde;e uma an&aacute;lise de conceitos e princ&iacute;pios    sociol&oacute;gicos, contidos, principalmente, no livro <i>A redu&ccedil;&atilde;o    sociol&oacute;gica</i>; Chor Maio, analisa a obra de Guerreiro como uma voz    dissidente dentre os trabalhos produzidos sobre os negros no Brasil, incluindo    aqui as pesquisas desenvolvidas no &acirc;mbito do projeto Unesco, objeto de    investiga&ccedil;&atilde;o do referido autor.</font></P>     <p><font size="3">O ineditismo desses dois trabalhos reside n&atilde;o s&oacute;    no fato de eles resgatarem a obra de um autor relativamente ausente do cen&aacute;rio    acad&ecirc;mico, quanto de estabelecerem um di&aacute;logo, efetivo, entre a    interpreta&ccedil;&atilde;o de Guerreiro Ramos e a sociologia de seu tempo.    Mas, ainda que tenham contribu&iacute;do bastante para o resgate da import&acirc;ncia    de Guerreiro &agrave; sociologia brasileira, esses autores refletiram pouco    sobre a exclus&atilde;o de Guerreiro. Eles tamb&eacute;m negligenciaram a rela&ccedil;&atilde;o    entre a produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento e a posicionalidade do autor,    num contexto em que embora o tema das rela&ccedil;&otilde;es raciais fosse determinante    na compreens&atilde;o do Brasil, quase n&atilde;o havia pesquisadores negros    nas ci&ecirc;ncias sociais, e os poucos que haviam foram marginalizados. </font></P>     <p><font size="3">Quando aludimos &agrave; posicionalidade, n&atilde;o estamos    nos referindo apenas a uma quest&atilde;o de valores sociais na produ&ccedil;&atilde;o    do conhecimento, ao fato de que nossos conhecimentos s&atilde;o sempre parciais,    perspectiva j&aacute; bastante abordada dentro das ci&ecirc;ncias sociais. O    ponto central aqui &eacute; o lugar da enuncia&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;,    a localiza&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica, sexual, racial, de classe e de g&ecirc;nero    do sujeito que enuncia. Na filosofia e nas ci&ecirc;ncias ocidentais o sujeito    que fala est&aacute; quase sempre encoberto; a localiza&ccedil;&atilde;o do    sujeito que enuncia est&aacute; sempre desconectada da localiza&ccedil;&atilde;o    epist&ecirc;mica. Por meio dessa desconex&atilde;o entre a localiza&ccedil;&atilde;o    do sujeito nas rela&ccedil;&otilde;es de poder e a localiza&ccedil;&atilde;o    epist&ecirc;mica, a filosofia ocidental e suas ci&ecirc;ncias conseguiram produzir    um mito universal que encobre o lugar de quem fala e suas localiza&ccedil;&otilde;es    epist&ecirc;micas nas estruturas de poder. Isto &eacute; o que o fil&oacute;sofo    colombiano Santiago Castro-Gomez (11) chamou de epistemologia do "ponto    zero" que caracteriza as filosofias euroc&ecirc;ntricas. O "ponto    zero" &eacute; o ponto de vista que esconde e encobre seu pr&oacute;prio    ponto de vista particular, isto &eacute;, a constru&ccedil;&atilde;o de um ponto    de vista que representa a si mesmo como n&atilde;o tendo nenhum ponto de vista    e, portanto, almeja ser neutra e universal. </font></P>     <p><font size="3">As implica&ccedil;&otilde;es da posicionalidade na produ&ccedil;&atilde;o    do conhecimento t&ecirc;m sido discutidas por v&aacute;rios autores (12), e    lembram constantemente que sempre falamos de uma localiza&ccedil;&atilde;o particular    nas rela&ccedil;&otilde;es de poder. Ningu&eacute;m escapa &agrave;s hierarquias    de classe, raciais, sexuais e de g&ecirc;nero, ling&uuml;&iacute;sticas, geogr&aacute;ficas,    e espirituais do sistema-mundo. As feministas negras t&ecirc;m denominado essa    perspectiva da epistemologia de "ponto de vista afro-centrado" (13).    Entretanto, o fil&oacute;sofo da libera&ccedil;&atilde;o latino-americano Enrique    Dussel, desde os anos 1970 a define como "geopol&iacute;tica do conhecimento"    (14) Seguindo o pensador afro-caribenho Frantz Fanon (15) e a feminista chicana    Gloria Anzaldua (16), dever&iacute;amos falar tamb&eacute;m da "corpo-pol&iacute;tica    do conhecimento".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento nas universidades brasileiras,    como em quase todas as universidades ocidentais, privilegia a epistemologia    euroc&ecirc;ntrica. Esta epistemologia contribui para encobrir as hierarquias    de poder raciais hegem&ocirc;nicas nos espa&ccedil;os universit&aacute;rios.    Por isso mesmo, qualquer demanda de acad&ecirc;micos negros que reivindique    sua pr&oacute;pria geopol&iacute;tica e corpo-pol&iacute;tica do conhecimento    &eacute; imediatamente recha&ccedil;ada pela grande maioria dos universit&aacute;rios    brancos como uma perspectiva particular e parcial, quando n&atilde;o a denominam    de essencialista. </font></P>     <p><font size="3">A filosofia do "ponto zero" como j&aacute; explicitada    anteriormente, aparentemente assegura o discurso da neutralidade, que ainda    hoje est&aacute; presente na fala de v&aacute;rios pesquisadores sobre as hierarquias    raciais, quando da demanda de pesquisadores negros acerca da necessidade de    um comprometimento pol&iacute;tico dos pesquisadores no combate &agrave;s desigualdades    raciais no Brasil. A urg&ecirc;ncia presente nos discursos e na produ&ccedil;&atilde;o    acad&ecirc;mica de intelectuais negros, algumas vezes &eacute; vista como apresentando    um vi&eacute;s tendencioso, uma fala demasiadamente comprometida, e, portanto,    pouco cient&iacute;fica.</font></P>     <p><font size="3">No que se refere a Guerreiro Ramos, podemos constatar: por um    lado, que havia uma preocupa&ccedil;&atilde;o, comum &agrave; &eacute;poca,    que estava relacionada ao desenvolvimento nacional; por outro, Guerreiro advogava    em prol de uma sociologia aut&oacute;ctone, manifestando, explicitamente, uma    preocupa&ccedil;&atilde;o com quest&otilde;es relativas &agrave;s hierarquias    raciais e, conseq&uuml;entemente, sobre as pesquisas que estavam sendo realizadas    sobre o negro no Brasil. </font></P>     <p><font size="3">De acordo com Renato Ortiz (17), o problema dos soci&oacute;logos    brasileiros nos anos 40 era fundar um novo campo cient&iacute;fico, o que, segundo    ele, implicava a delimita&ccedil;&atilde;o de fronteiras. </font></P>     <p><font size="3">"Quando escreve <i>O padr&atilde;o de trabalho cient&iacute;fico    dos soci&oacute;logos brasileiros</i> (1958), Florestan Fernandes tem em mente    uma forma&ccedil;&atilde;o intelectual que seria fundamentalmente pautada pelas    'normas, valores e id&eacute;ias do saber cient&iacute;fico' &#91;…&#93;    eu diria que seu objetivo principal &eacute; diferenciar a sociologia das outras    falas, num momento em que imperava a polissemia sobre a interpreta&ccedil;&atilde;o    do social. Primeiro, uma ruptura em rela&ccedil;&atilde;o ao senso comum &#91;…&#93;    segundo, um distanciamento em rela&ccedil;&atilde;o aos problemas sociais, uma    cr&iacute;tica a sua utilidade. Posi&ccedil;&atilde;o antag&ocirc;nica &agrave;    de Guerreiro Ramos, que imaginava a sociologia com uma esp&eacute;cie de 'salva&ccedil;&atilde;o'    , corpo te&oacute;rico cuja voca&ccedil;&atilde;o seria 'tornar-se um    saber vulgarizado' &#91;…&#93;. Dito de outra forma, qualquer tentativa    de generaliza&ccedil;&atilde;o do saber &eacute; uma quimera, ele se caracteriza    por sua regionaliza&ccedil;&atilde;o, adapta&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada    &agrave;s sociedades nas quais se implanta. (Ortiz, 2002:183)</font></P>     <p><font size="3">Ainda conforme Ortiz, havia um embate entre a sociologia paulista    que se autodefinia como predominantemente acad&ecirc;mica, e a sociologia inspirada    no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), no Rio de Janeiro, que    se definia mais como uma sociologia pol&iacute;tica, interagindo mais diretamente    com o desenvolvimento nacional. </font></P>     <p><font size="3">"Guerreiro Ramos nutria ilus&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o    a um pensamento radicalmente aut&oacute;ctone e plantava suas ra&iacute;zes    num momento anterior. Florestan Fernandes estava mais afinado com os novos tempos,    exigindo que nosso rel&oacute;gio acad&ecirc;mico fosse acertado com os imperativos    do poder nacional". (<i>ibidem</i>:186)</font></P>     <p><font size="3">Por fim, Ortiz considera que os soci&oacute;logos paulistas    tinham uma concep&ccedil;&atilde;o mais ampla sobre o campo pol&iacute;tico,    j&aacute; que incorporava a an&aacute;lise &agrave; sua dimens&atilde;o cultural,    enquanto os isebianos tendiam a reduzir a pol&iacute;tica a uma dimens&atilde;o    institucional. Contudo, independente dos limites mencionados &agrave; perspectiva    pol&iacute;tica de Guerreiro Ramos, &eacute; necess&aacute;rio considerar que    ele enfatizava a import&acirc;ncia de uma sociologia engajada, advogando em    prol de uma sociologia militante, capaz de encontrar solu&ccedil;&otilde;es    para os problemas nacionais. </font></P>     <p><font size="3">A constante reivindica&ccedil;&atilde;o de Guerreiro acerca    de uma sociologia brasileira, que, como j&aacute; dissemos, deveria estar empenhada    em resolver os problemas nacionais, mantinha uma rela&ccedil;&atilde;o diretamente    oposta ao que o soci&oacute;logo define como sociologia "consular".    "Al&eacute;m de 'consular', esta &eacute; uma sociologia que    pode ser dita enlatada, visto que &eacute; consumida como uma verdadeira conserva    cultural" (18). Isto &eacute;, a perspectiva cr&iacute;tica de Guerreiro    era de que alguns conceitos cunhados alhures n&atilde;o permitiam interpretar    adequadamente a realidade nacional. </font></P>     <p><font size="3">"&#91;…&#93; no Brasil, pelo menos, se distinguem, com clareza,    entre outras duas correntes de pensamento sociol&oacute;gico: uma corrente que    pode ser chamada, como j&aacute; propus certa vez, de 'consular',    visto que, por muitos aspectos, pode ser considerada como um epis&oacute;dio    da expans&atilde;o cultural dos pa&iacute;ses da Europa e dos Estados Unidos;    e outra que, embora aproveitando da experi&ecirc;ncia acumulada do trabalho    sociol&oacute;gico universal, est&aacute; procurando servir-se dele como instrumento    de auto-conhecimento e desenvolvimento das estruturas nacionais e regionais    &#91;…&#93; </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas a forma&ccedil;&atilde;o do soci&oacute;logo brasileiro    ou latino-americano consiste, via de regra, num adestramento para o conformismo,    para a disponibilidade da intelig&ecirc;ncia em face das teorias. Ele aprende    a receber prontas as solu&ccedil;&otilde;es &#91;…&#93;.</font></P>     <p><font size="3">Tudo que de l&aacute; vem &eacute; ortodoxo, excelente, imit&aacute;vel".    (<i>ibidem</i>:107-108)</font></P>     <p><font size="3">No que se refere aos estudos sobre as hierarquias raciais, Guerreiro    destaca o fato de que os trabalhos sociol&oacute;gicos deveriam ajudar a encontrar    sa&iacute;das para a marginalidade da popula&ccedil;&atilde;o negra brasileira,    em vez de simplesmente descrever a cultura. Guerreiro n&atilde;o aplicou o seu    rigor metodol&oacute;gico e sua perspectiva te&oacute;rica na realiza&ccedil;&atilde;o    de uma pesquisa sobre os negros no Brasil, embora tenha realizado cr&iacute;ticas    contundentes aos estudos produzidos sobre o tema, demarcando diversas vezes    o seu descontentamento com o que estava sendo escrito. De acordo com ele, os    estudos produzidos em nada contribu&iacute;am para melhorar a vida dos negros    brasileiros, uma vez que a &ecirc;nfase era atribu&iacute;da aos aspectos ex&oacute;ticos,    ou melhor, os negros eram vistos como um espet&aacute;culo. </font></P>     <p><font size="3">"H&aacute; o tema do negro e h&aacute; a vida do negro.    Como tema, o negro tem sido, entre n&oacute;s, objeto de escalpela&ccedil;&atilde;o    perpetrada por literatos e pelos chamados 'antrop&oacute;logos e soci&oacute;logos'.    Como vida ou realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu destino, vem se    fazendo a si pr&oacute;prio, segundo lhe t&ecirc;m permitido as condi&ccedil;&otilde;es    particulares da sociedade brasileira. Mas uma coisa &eacute; negro-tema; outra,    &eacute; negro vida". (<i>ibidem</i>: 215)</font></P>     <p><font size="3">Ao refletir sobre essas dimens&otilde;es Guerreiro tece considera&ccedil;&otilde;es    acerca da patologia social dos brancos brasileiros e, principalmente, da patologia    dos brancos nordestinos. A patologia, ou protesto da minoria branca nos estados    dessas regi&otilde;es consistia numa constante reivindica&ccedil;&atilde;o das    origens da pr&oacute;pria brancura, o que Guerreiro &agrave;s vezes define como    a perturba&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica em sua auto-avalia&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica; al&eacute;m de demonstrar "inferioridade sentida com excessiva    intensidade e superioridade, desejada, mas fict&iacute;cia", por isso,    "Ao tomar o negro como tema, elementos da camada 'branca' minorit&aacute;ria    se tornam mais brancos, aproximando-os de seu arqu&eacute;tipo est&eacute;tico    – que &eacute; o europeu" (<i>ibidem</i>:226).</font></P>     <p><font size="3">Na entrevista concedida &agrave; Oliveira, Guerreiro tece cr&iacute;ticas    contundentes a dois importantes escritores brasileiros: Gilberto Freyre, alvo    de cr&iacute;ticas tenazes &agrave; apologia sobre a democracia racial, e tamb&eacute;m    a M&aacute;rio de Andrade, autor de <i>Macuna&iacute;ma</i>, o anti-her&oacute;i    brasileiro, imortalizado no cinema na figura de Grande Otelo – ator negro    mais importante do cinema brasileiro(19). Para ele, em ambas as an&aacute;lises    os pretos s&atilde;o retratados em condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias,    caricaturados, e o Brasil aparece sempre como um pa&iacute;s pitoresco. </font></P>     <p><font size="3">O inc&ocirc;modo vivido por Guerreiro est&aacute; diretamente    relacionado com sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o racial: por que o    anti-her&oacute;i brasileiro &eacute; retratado na figura de um negro? Desde    qual geopol&iacute;tica e corpo-pol&iacute;tica do conhecimento fala Guerreiro    Ramos? Talvez, fosse correto afirmar que, para Guerreiro, aquela &ecirc;nfase    das pesquisas s&oacute;cio-antropol&oacute;gicas com a popula&ccedil;&atilde;o    negra s&oacute; contribui para tornar os negros mais ex&oacute;ticos, refor&ccedil;ando,    assim, a brancura de quem os observava.</font></P>     <p><font size="3"><b>POR QUE N&Atilde;O GUERREIRO?</b> Alguns autores tentaram    entender os motivos que levaram &agrave; marginaliza&ccedil;&atilde;o de Guerreiro    Ramos no meio acad&ecirc;mico. Oliveira (<i>ibidem</i>) alude ao fato de Guerreiro    ter reagido aos c&acirc;nones institucionais das ci&ecirc;ncias sociais brasileiras;    Chor Maio destaca como mais importante o fato de Guerreiro ter sido integralista    – movimento pol&iacute;tico e ideol&oacute;gico de inspira&ccedil;&atilde;o    fascista ocorrido no Brasil na d&eacute;cada de 1930, que buscava um Estado    autorit&aacute;rio e nacionalista. Outros importantes nomes a exemplo de Helder    C&acirc;mara e Alceu Amoroso Lima tamb&eacute;m foram envolvidos com o integralismo    e conseguiram desvincular seus nomes dessa experi&ecirc;ncia. Nesse sentido,    portanto, o passado de extrema direita n&atilde;o &eacute; suficiente para explicar    a marginaliza&ccedil;&atilde;o de Guerreiro Ramos. Al&eacute;m de mencionar    que Guerreiro tinha uma perspectiva de que a sociologia fosse uma ci&ecirc;ncia    engajada, ou uma sociologia militante, com mencionamos anteriormente. Para Joel    Rufino (20):</font></P>     <p> <font size="3">"A explica&ccedil;&atilde;o convencional &eacute; que    houve nos &uacute;ltimos quarenta anos um forte deslocamento das rela&ccedil;&otilde;es    de classe entre n&oacute;s, e conseq&uuml;entemente, mudou a pauta da sociologia    &#91;…&#93; H&aacute;, contudo, uma explica&ccedil;&atilde;o menos &oacute;bvia:    os pensadores populistas jazem sob a montanha da moderniza&ccedil;&atilde;o    triunfante". (Rufino, 1995:23)</font></P>     <p><font size="3">Algumas explica&ccedil;&otilde;es sobre o esquecimento de Guerreiro    Ramos giram tamb&eacute;m em torno de sua personalidade. Todos que o conheceram    concordam com o fato de Guerreiro ser extremamente pol&ecirc;mico, controverso    e disposto a embates te&oacute;ricos e pol&iacute;ticos n&atilde;o muito freq&uuml;entes    na academia branca brasileira. Guerreiro tem uma forma de fazer ci&ecirc;ncia    e de produzir conhecimento que vai de encontro aos moldes hegem&ocirc;nicos,    que se contrap&otilde;e &agrave; nossa propalada cordialidade. O estilo contradit&oacute;rio    e provocador adotado por Guerreiro destoa do nosso estilo polido de fazer ci&ecirc;ncia.    As cr&iacute;ticas dirigidas por Guerreiro a nomes consagrados nas ci&ecirc;ncias    sociais brasileiras como, por exemplo, Arthur Ramos e Florestan Fernandes, n&atilde;o    deixam d&uacute;vidas sobre o seu estilo. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Mas eu escrevi antes deles, antes do estudo do Florestan.    Primeiro, eu fiz o congresso dos negros brasileiros e o expliquei como o congresso    de brancos brasileiros &#91;…&#93;. O sujeito analisava o sangue do negro brasileiro,    o tamanho do nariz, o cabelo etc. Era preciso, assim, analisar o sangue, o nariz    e o cabelo do branco brasileiro. H&aacute; um estudo meu chamado 'Patologia    do Branco Brasileiro' onde eu inverti o problema. Num pa&iacute;s de negro    como o nosso, falar do problema do negro &eacute; uma cretinice. &#91;…&#93; At&eacute;    mulatos, como Edison Carneiro, escrevem sobre o problema do negro brasileiro    &#91;…&#93;". (21)</font></P>     <p><font size="3">Ainda que tenham encontrado respostas plaus&iacute;veis para    a exclus&atilde;o de Guerreiro, nenhum deles aludiu ao fato de ele ser negro    num contexto em que havia e, ainda h&aacute;, poucos autores negros nas ci&ecirc;ncias    sociais (22). Desse modo, as refer&ecirc;ncias ao fato de Guerreiro ter sido    preterido nas duas vezes que disputou uma vaga para professor universit&aacute;rio,    giram em torno do passado integralista, portanto, remetendo &agrave; afilia&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica e n&atilde;o &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o racial. Guerreiro    foi integralista num per&iacute;odo em que ainda era muito jovem, mas esta marca,    esta identifica&ccedil;&atilde;o com a extrema direita perdurou durante toda    a sua vida. Aqui, seria interessante indagar sobre qual o significado de pertencer    &agrave; esquerda naquele per&iacute;odo, e qual o projeto apresentado pela    esquerda &agrave; popula&ccedil;&atilde;o negra. Como explicar o fato de Guerreiro    ter assumido a fun&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnico em administra&ccedil;&atilde;o    em 1943, no Departamento Administrativo do Servi&ccedil;o P&uacute;blico (DASP),    quando deveria ser professor universit&aacute;rio? &Eacute; importante destacar    que o pr&oacute;prio Guerreiro interpreta sua exclus&atilde;o lan&ccedil;ando    m&atilde;o do argumento pol&iacute;tico: </font></P>     <p><font size="3">"Eu tinha liga&ccedil;&otilde;es, evidentemente, com o    Landulfo e com Isa&iacute;as Alves, e os comunistas fizeram uma conspira&ccedil;&atilde;o,    uma coisa qualquer, e me acusaram de colaboracionista. Fizeram uma onda pol&iacute;tica    contra mim…". (Oliveira, 1985:141)</font></P>     <p><font size="3">Guerreiro prossegue:</font></P>     <p><font size="3">"Como eu estava contando, depois que terminei a Faculdade    de Filosofia passei um ano desempregado, um ano terr&iacute;vel, de grandes    dificuldades. Meus amigos me arranjavam emprego, eu tratava com o sujeito, e    no dia seguinte, quando eu ia trabalhar o sujeito voltava atr&aacute;s. Certamente    chegava algum comunista e dizia: 'Olhe, esse cara a&iacute; …'.    Essa &eacute; a minha interpreta&ccedil;&atilde;o… Era cassado; essa era    a minha impress&atilde;o…". (<i>ibidem</i>:143)</font></P>     <p><font size="3">Embora tivesse atuado junto ao Teatro Experimental do Negro    (TEN), e tivesse escrito artigos no jornal <i>Quilombo</i>, o que demonstra    que ele era consciente da discrimina&ccedil;&atilde;o racial existente no Brasil,    Guerreiro resiste em interpretar sua exclus&atilde;o, nesse caso, com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de professor universit&aacute;rio, a partir do    racismo existente nas institui&ccedil;&otilde;es brasileiras, mesmo ap&oacute;s    seu "auto-ex&iacute;lio" de 15 anos nos Estados Unidos. Com isso,    n&atilde;o estamos dizendo que o racismo seria o &uacute;nico motivo da exclus&atilde;o,    contudo, parece-nos um tanto quanto estranho que Guerreiro n&atilde;o consiga    entender o racismo que ele pr&oacute;prio denunciava. </font></P>     <p><font size="3">Talvez, a dificuldade de Guerreiro n&atilde;o seja diferente    daquela apresentada pela maioria dos brasileiros quando o tema &eacute; o racismo    e a discrimina&ccedil;&atilde;o racial. Nas pesquisas realizadas com negros    de classe m&eacute;dia havia, de certo modo, uma dificuldade dos entrevistados    em falar da discrimina&ccedil;&atilde;o racial com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia e uma relativa facilidade de falar da experi&ecirc;ncia    dos outros (23). Isso nos faz lembrar a complexidade do tema entre n&oacute;s,    e a dificuldade de interpretar a exclus&atilde;o do outro ou de si mesmo a partir    da exclus&atilde;o racial.</font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m disso, temos subestimado a efic&aacute;cia do discurso    sobre a preval&ecirc;ncia do preconceito de classe no Brasil em oposi&ccedil;&atilde;o    ao preconceito racial; desde crian&ccedil;a, somos socializados para percebemos    e utilizarmos o discurso relativo &agrave; desigualdade de classe e n&atilde;o    de cor/ra&ccedil;a: quando visitamos um bairro cujos habitantes s&atilde;o majoritariamente,    quando n&atilde;o exclusivamente, brancos, denominamos de bairro de classe m&eacute;dia,    e n&atilde;o como bairro de brancos; o mesmo ocorre nas escolas, sempre referidas    a partir da classe, e n&atilde;o da cor. Freq&uuml;entemente, quando somos exclu&iacute;dos,    tendemos a interpretar a exclus&atilde;o a partir da classe, e n&atilde;o da    cor. Essa dimens&atilde;o das representa&ccedil;&otilde;es sobre a sociedade    brasileira, dificulta n&atilde;o s&oacute; a visibiliza&ccedil;&atilde;o de    pr&aacute;ticas racistas em nosso cotidiano, quanto a rejei&ccedil;&atilde;o    &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas voltadas    para segmentos espec&iacute;ficos da popula&ccedil;&atilde;o com base na cor/ra&ccedil;a.    </font></P>     <p><font size="3">Nesse sentido, a entrevista concedida por S&eacute;rgio Adorno    na revista eletr&ocirc;nica <i>ComCi&ecirc;ncia</i> &eacute; um exemplo ilustrativo    de como a cor/ra&ccedil;a opera nas decis&otilde;es tomadas pelo sistema judicial    no Brasil: </font></P>     <p><font size="3">"Ao fazer essa compara&ccedil;&atilde;o descobri, primeiro,    que os negros eram proporcionalmente mais condenados do que os brancos pelo    mesmo crime. N&atilde;o em termos da dura&ccedil;&atilde;o da pena, que n&atilde;o    variava muito. Quer dizer, quando eles eram punidos, as senten&ccedil;as eram    muito pr&oacute;ximas, n&atilde;o havia varia&ccedil;&otilde;es significativas.    Mas, por exemplo, 59,4% dos brancos observados foram condenados e 68,8% dos    negros foram condenados. A diferen&ccedil;a foi de quase 10%". (<i><a href="http://www.comciencia.br" target="_blank">http://www.comciencia.br</a></i>)</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Para ele, o racismo manifesto nessa institui&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; espec&iacute;fico dela: </font></P>     <p><font size="3">"Voc&ecirc; encontra o racismo no trabalho, nos espa&ccedil;os    p&uacute;blicos, na escola, em coisas elementares da vida cotidiana. O &#91;…&#93;    que acontece &eacute; que estamos tratando de uma institui&ccedil;&atilde;o.    Ent&atilde;o, na justi&ccedil;a, a quest&atilde;o racial acaba adquirindo uma    visibilidade que n&atilde;o necessariamente aparece t&atilde;o vis&iacute;vel    fora dela". (<i>ibidem</i>)</font></P>     <p><font size="3">O mesmo ocorre com alguns acad&ecirc;micos e intelectuais brasileiros,    que t&ecirc;m enorme dificuldade em reconhecer o racismo presente nas institui&ccedil;&otilde;es    brasileiras e, neste caso espec&iacute;fico, o racismo existente nas universidades,    enquanto express&atilde;o de um fen&ocirc;meno que ocorre na sociedade. </font></P>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> Iniciamos este texto mencionando algumas    caracter&iacute;sticas e funcionamento do campo acad&ecirc;mico definido como    estudos das "rela&ccedil;&otilde;es raciais" no Brasil. Abordamos    como um exemplo emblem&aacute;tico o caso de Guerreiro que nos ajudou a entender    e aprender como diversos fatores contribu&iacute;ram para e exclus&atilde;o    de profissionais negros das universidades brasileiras e a marginaliza&ccedil;&atilde;o    da contribui&ccedil;&atilde;o intelectual negra; contudo, sabemos que naquele    per&iacute;odo houve a composi&ccedil;&atilde;o de redes, fundamentais para    a forma&ccedil;&atilde;o de projetos exclusivamente compostos por pesquisadores    brancos, que exclu&iacute;ram os poucos pesquisadores negros existentes a &eacute;poca.    </font></P>     <p><font size="3">Um discurso "universalista", de fato desassociado    de pr&aacute;ticas universalistas, esteve intimamente relacionado com a no&ccedil;&atilde;o    de m&eacute;rito, contribuiu fortemente para a manuten&ccedil;&atilde;o das    desigualdades raciais nas universidades p&uacute;blicas brasileiras. A nega&ccedil;&atilde;o    do racismo nos espa&ccedil;os universit&aacute;rios termina por reproduzir o    discurso perverso de que as cotas, em lugar de aumentar o n&uacute;mero de negros    nas universidades, v&atilde;o criar o racismo e a discrimina&ccedil;&atilde;o    num espa&ccedil;o supostamente imune a essas pr&aacute;ticas. O que permanece    encoberto por esse discurso universalista &eacute; a exclus&atilde;o sistem&aacute;tica    de intelectuais negros dos espa&ccedil;os universit&aacute;rios n&atilde;o s&oacute;    como estudantes, mas, tamb&eacute;m como professores (24). A epistemologia hegem&ocirc;nica    que se beneficia do discurso da imparcialidade/universalismo/neutralidade, na    realidade tem cor. </font></P>     <p><font size="3">Como o resultado da expans&atilde;o da pol&iacute;tica acad&ecirc;mica    tem se ampliado o n&uacute;mero de mestres e doutores negros no Brasil que atuam,    majoritariamente, em espa&ccedil;os perif&eacute;ricos, do ponto de vista da    produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. Uma quest&atilde;o importante que precisa    ser enfrentada no contexto atual p&oacute;s-cotas &eacute; como aumentar o n&uacute;mero    de professores negros nas universidades p&uacute;blicas brasileiras, j&aacute;    que sabemos que n&atilde;o se faz multiculturalismo numa universidade onde o    corpo docente tem uma composi&ccedil;&atilde;o racial t&atilde;o distante da    popula&ccedil;&atilde;o e, atualmente, do corpo discente.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Angela Figueiredo</b> &eacute; doutora em sociologia pelo    IUPERJ e professora associada do P&oacute;s-Afro/CEAO/Ufba.    <br>   <b>Ram&oacute;n Grosfoguel</b> &eacute; professor no Departamento de Estudos    &Eacute;tnicos da Universidade da Calif&oacute;rnia, em Berkeley, EUA.</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><FONT SIZE="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></P>     <p><font size="3">1. Este artigo faz parte de um projeto mais amplo de explicita&ccedil;&atilde;o    da contribui&ccedil;&atilde;o de intelectuais negros &agrave;s ci&ecirc;ncias    sociais brasileiras.</font></P>     <p><font size="3">2. A IV edi&ccedil;&atilde;o do Congresso de Pesquisadores    Negros, ocorrido em setembro do &uacute;ltimo ano, &eacute; um bom indicador    desta mudan&ccedil;a.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Bourdieu, P. . <i>Coisas Ditas</i>. S&atilde;o Paulo,    Editora Brasiliense,1987</font><!-- ref --><p><font size="3">4. Oliveira, L. L.. <i>A sociologia do guerreiro</i>.Rio    de Janeiro: Editora da UFRJ, 1995.</font><!-- ref --><p><font size="3">5. Correa, M. <i>O mist&eacute;rio dos orix&aacute;s e das    bonecas: ra&ccedil;a e g&ecirc;nero na antropologia brasileira</i>. Etnogr&aacute;fica,    Lisboa - Portugal, v. IV, n. 2, p. 233-266, 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3">6. Bourdieu, P. . <i>Coisas Ditas</i>. S&atilde;o Paulo,    Editora Brasiliense,1987 </font><!-- ref --><p><font size="3">7. Mariza Corr&ecirc;a (1987), chama a aten&ccedil;&atilde;o    para a import&acirc;ncia da " … no&ccedil;&atilde;o de projeto que,    muito mais do que a de institui&ccedil;&atilde;o corrente – escola –    ou corte cronol&oacute;gico, parece particularmente apropriada, por incluir    essas e outras e ir um pouco al&eacute;m, para marcar certas continuidades e    rupturas na trajet&oacute;ria da antropologia que se faz no Brasil. Nesse sentido,    a no&ccedil;&atilde;o de projeto tal como utilizada era quase sin&ocirc;nimo    de grupo de refer&ecirc;ncia, j&aacute; que cada um deles remetia a um conjunto    espec&iacute;fico de pessoas, &agrave;s influ&ecirc;ncias de determinados autores    e /ou pesquisadores, &agrave; institui&ccedil;&atilde;o que o abrigava ou a    regi&atilde;o onde ele fora realizado" (Corr&ecirc;a, 1987; 19-20); Corr&ecirc;a,    M. "Hist&oacute;ria da antropologia no Brasil (1930-1960)" <i>Testemunhos</i>.    Campinas/S&atilde;o Paulo: editora da Unicamp/ED.Vertice, v. 1. 1987.</font><!-- ref --><p><font size="3">8. Maio, M. C. O projeto Unesco de rela&ccedil;&otilde;es    raciais e as trocas intelectuais e pol&iacute;ticas Brasil-EUA". <i>Interse&ccedil;&otilde;es</i>,    Rio de Janeiro, Ano 6, n. 1, p. 123-142, 2004.    <!-- ref --> Maio, M. C. "O Projeto Unesco:    ci&ecirc;ncias sociais e o credo racial brasileiro". <i>Revista da USP</i>,    S&atilde;o Paulo, n. 46, p. 115-128, 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3">9. Hasenbalg, C. <i>Discrimina&ccedil;&atilde;o e desigualdades    raciais no Brasil</i>. Rio de Janeiro, Graal, 1979.</font><p><font size="3">10. Guerreiro ministrava aulas na Escola de Administra&ccedil;&atilde;o    P&uacute;blica da Universidade do Sul da Calif&oacute;rnia.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Castro Gomes, S.. <i>La Hybris del Punto Cero: ci&ecirc;ncia,    raza e ilustracion em la Nueva Granada (1750-1816)</i>. Bogot&aacute;, Col&ocirc;mbia,    Editora Pontifica Universidade Javeriana, 2003</font><!-- ref --><p><font size="3">12. Mignolo, W.. <i>Local histories/global designs: essays    on the coloniality</i>. 2000.</font><!-- ref --><p><font size="3">13. Collins, P. H.. <i>Black feminist thought: knowledge,    consciousness and the politic of Empowerment</i>. New York: Rutledge. Chapman    Hill, 1990.</font><!-- ref --><p><font size="3">14. Dussel, H.. <i>Filosofia de liberacion</i>. M&eacute;xico:    Edicol, 1977.</font><!-- ref --><p><font size="3">15. Fanon, F. <i>Black skin:white masks</i>. Grove Press:    New York, 1967.</font><!-- ref --><p><font size="3">16. Anzald&uacute;a, G.. <i>Borderlands/La fronteira: the    new mestiza</i>. San Francisco Spinsters/Aunte Lute. 1987</font><!-- ref --><p><font size="3">17. Ortiz, R. <i>Ci&ecirc;ncias sociais e o trabalho intelectual</i>.    S&atilde;o Paulo: Olho D&aacute;gua, 2002.</font><!-- ref --><p><font size="3">18. Guerreiro Ramos, A.. <i>A redu&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica</i>.    Rio de Janeiro; Editora da UFRJ, 1982.</font><p><font size="3">19. Baseado na obra de M&aacute;rio de Andrade, o filme <i>Macuna&iacute;ma</i>    (1969) dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">20. Rufino, J.. <i>Introdu&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica    &agrave; sociologia brasileira</i>. Rio de Janeiro: Editora da Uerj, 1995.</font><!-- ref --><p><font size="3">21. Guerreiro Ramos, A. <i>Introdu&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica    &agrave; sociologia brasileira</i>. Rio de Janeiro: Editora da Uerj, 1995.</font><!-- ref --><p><font size="3">22. Sobre a dif&iacute;cil trajet&oacute;ria do intelectual    negro, ver Lima, Ari (2001). "A legitima&ccedil;&atilde;o do intelectual    negro no meio acad&ecirc;mico brasileiro: nega&ccedil;&atilde;o de inferioridade,    confronto ou assimila&ccedil;&atilde;o intelectual". In <i>Afro- &Aacute;sia</i>    (25-26). 281-312.</font><!-- ref --><p><font size="3">23. Figueiredo, A.. "A classe m&eacute;dia negra n&atilde;o    vai ao para&iacute;so: trajet&oacute;rias, perfis e identidade negra entre os    empres&aacute;rios negros". Tese defendida no Iuperj, 2003. </font><!-- ref --><p><font size="3">24. Carvalho, J.J.. "O confinamento racial do mundo    acad&ecirc;mico brasileiro" in <i>Revista da USP</i>, n. 22, S&atilde;o    Paulo, USP, 2006 ;    <!-- ref --> Carvalho, J.J.. "A&ccedil;&otilde;es afirmativas como    resposta ao racismo acad&ecirc;mico" <i>In</i>: (org) Walter Silverio.    <i>Teoria e pesquisa</i>. S&atilde;o Paulo, UFSCar, 303-340, 2003.</font> ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bourdieu]]></surname>
<given-names><![CDATA[P]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Coisas Ditas]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Brasiliense]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[L. L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A sociologia do guerreiro]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora da UFRJ]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Correa]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O mistério dos orixás e das bonecas: raça e gênero na antropologia brasileira]]></article-title>
<source><![CDATA[Etnográfica]]></source>
<year>2000</year>
<volume>IV</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>233-266</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bourdieu]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Coisas Ditas]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Brasiliense]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Corrêa]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[História da antropologia no Brasil (1930-1960)]]></article-title>
<source><![CDATA[Testemunhos]]></source>
<year>1987</year>
<volume>1</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Campinasão Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[editora da UnicampED.Vertice]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<label>8</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Maio]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O projeto Unesco de relações raciais e as trocas intelectuais e políticas Brasil-EUA]]></article-title>
<source><![CDATA[Interseções]]></source>
<year>2004</year>
<volume>6</volume>
<numero>1</numero>
<issue>1</issue>
<page-range>123-142</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Maio]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Projeto Unesco: ciências sociais e o credo racial brasileiro]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista da USP]]></source>
<year>2000</year>
<numero>46</numero>
<issue>46</issue>
<page-range>115-128</page-range><publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<label>9</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hasenbalg]]></surname>
<given-names><![CDATA[C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Discriminação e desigualdades raciais no Brasil]]></source>
<year>1979</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Graal]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<label>11</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Castro Gomes]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La Hybris del Punto Cero: ciência, raza e ilustracion em la Nueva Granada (1750-1816)]]></source>
<year>2003</year>
<publisher-loc><![CDATA[Bogotá ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Pontifica Universidade Javeriana]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<label>12</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mignolo]]></surname>
<given-names><![CDATA[W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Local histories/global designs: essays on the coloniality]]></source>
<year>2000</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<label>13</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Collins]]></surname>
<given-names><![CDATA[P. H.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Black feminist thought: knowledge, consciousness and the politic of Empowerment]]></source>
<year>1990</year>
<publisher-loc><![CDATA[New YorkRutledgeChapman Hill ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<label>14</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dussel]]></surname>
<given-names><![CDATA[H.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Filosofia de liberacion]]></source>
<year>1977</year>
<publisher-loc><![CDATA[México ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edicol]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<label>15</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Fanon]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Black skin: white masks]]></source>
<year>1967</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Grove Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<label>16</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Anzaldúa]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Borderlands/La fronteira: the new mestiza]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[San Francisco ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[SpinstersAunte Lute]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<label>17</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ortiz]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ciências sociais e o trabalho intelectual]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Olho Dágua]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<label>18</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Guerreiro Ramos]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A redução sociológica]]></source>
<year>1982</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora da UFRJ]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<label>20</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rufino]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Introdução crítica à sociologia brasileira]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora da Uerj]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<label>21</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Guerreiro Ramos]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Introdução crítica à sociologia brasileira]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora da Uerj]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lima]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ari]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A legitimação do intelectual negro no meio acadêmico brasileiro: negação de inferioridade, confronto ou assimilação intelectual]]></article-title>
<source><![CDATA[Afro- Ásia]]></source>
<year>2001</year>
<numero>25-26</numero>
<issue>25-26</issue>
<page-range>281-312</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B20">
<label>23</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Figueiredo]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A classe média negra não vai ao paraíso: trajetórias, perfis e identidade negra entre os empresários negros]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B21">
<label>24</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Carvalho]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O confinamento racial do mundo acadêmico brasileiro]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista da USP]]></source>
<year>2006</year>
<numero>22</numero>
<issue>22</issue>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[USP]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B22">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Carvalho]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ações afirmativas como resposta ao racismo acadêmico]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Silverio]]></surname>
<given-names><![CDATA[Walter]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Teoria e pesquisa]]></source>
<year>2003</year>
<page-range>303-340</page-range><publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[UFSCar]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
