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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v59n2/a26img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3">PEDRO BIONDI</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A FLORESTA, VISTA DE BAIXO</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Essas suma&uacute;mas poderiam realmente impressionar vistas    desse jeito, para al&eacute;m da raizama descomunal. Soam como um comit&ecirc;    de adultos recriminadores, incriminadores: vertiginosas e moucas. Sobra pouco    para a luz, uma pequena capoeira no firmamento, e ela vem cegando, procurando    desfolhar caminho. Acho que agora conhe&ccedil;o a sensa&ccedil;&atilde;o de    um l&iacute;der de doces massas sendo docemente carregado pela multid&atilde;o.    Ou tudo &agrave; minha volta lembra um louco brinquedo infantil, pel&uacute;cias    de escorpi&otilde;es, aranhas, p&aacute;ssaros coloridos, um jacar&eacute;,    todos flutuam e riem, flutuem e riam, congelados em espuma, como no universo    de sonho de um beb&ecirc; que sobrevoa as grades do ber&ccedil;o-lar. S&oacute;    esta a Amaz&ocirc;nia-pra-todos que consegui. Lutei, lutei muito: at&eacute;    onde deu. Busquei me arrebentar arrebentando quem estivesse em volta, puxei    todas as energias que me restavam em murros, urros, ursos... giros. Mas quem    mata a &aacute;gua? Risos. Quem ganha uma guerra contra part&iacute;culas? Quando    o inimigo &eacute; o ch&atilde;o ou o ar? Cada chute que dei era como chutar    o escuro, em instantes aquela calda-viva voltava e preenchia o vazio, comendo    o v&aacute;cuo. Do que lembro: as suma&uacute;mas de rosto indecifr&aacute;vel    me julgaram e quatro rudes caboclos me arrebentaram o portugu&ecirc;s e me jogaram    ao mar, gringo em meu pr&oacute;prio mapa, um oceano de antenas, perninhas e    ferr&otilde;es, aprende a nadar alem&atilde;o, por ali um representante de cada    preciosa esp&eacute;cie da floresta equatorial, uma prociss&atilde;o de zoologia    ou alucinada arca-de-no&eacute; sem no&eacute;, at&eacute; uma sucuri que desistiu    de se enrolar no que n&atilde;o quebra, pobre monstra inutilizada, seria o mais    horr&iacute;vel de Dante ou Cousteau n&atilde;o fosse essa total anestesia e    o riso babado que me curva a boca depois dos zilhares de aguilhadas de &aacute;cido    f&oacute;rmico. Entre maoris ou pigmeus eu tinha um transe de caramuru ou oferecia    espelhos, mas esse turba invertebrada &eacute; absolutamente surdo-muda, ch&atilde;o    mais fluido, adi&oacute;s belas damas de espa&ntilde;a...</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size=5><b>REINALDO</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Driblar? N&atilde;o &eacute; bem a palavra. Ele d&aacute; uns    cortes que fazem o cara procurar a bola nas placas, pedala como quem ca&ccedil;a    um coelho na cartola, se movimenta em campo como se visse tudo do alto, de helic&oacute;ptero,    ou desenhado numa lousa. Aplica um len&ccedil;ol que &eacute; quase uma cortesia,    de t&atilde;o pl&aacute;stico. T&atilde;o pl&aacute;stico que o cara nem fica    com raiva, sabe? D&aacute; um sorriso de humilhado cordial, de "voc&ecirc;s    viram o que eu vi?", e n&atilde;o seria de estranhar se se ajoelhasse para lustrar    a chuteira dele. Mas se o cara &eacute; desleal ele rosna com os pregos da sola,    nunca vi ningu&eacute;m dividir com tanto sangue, com os dentes rilhados, a    coxa triangular quase estourando de dentro para fora, pintura gritando para    vazar das linhas do desenho. N&atilde;o &eacute; corpulento mas, bom brasileiro,    &eacute; capaz de derrubar zagueiro com pux&atilde;o de Dener, extrai que nem    carrapato m&atilde;o que lhe gruda na camisa, se preciso arranca cabelo ou arranha    rosto no toma-l&aacute; do escanteio. A gente quase esquece o chutador que vive    ali dentro: trivela, bicuda, folha-seca, acorda-coruja, peito-de-p&eacute;,    colocadinha nana-nen&ecirc;, chapa simples pra empurrar pra dentro, cobertura.    Calcanhar, se necess&aacute;rio – ou se maximamente desnecess&aacute;rio.    E carrinho pra n&atilde;o ensejar capricho da torcida, que de tempo em tempo    tem que arranjar um boneco de judas, um bode pra expiar. &Uacute;nico do time    que eu n&atilde;o vi chorar quando a gente foi campe&atilde;o da segundona,    seis anos depois de o clube ter ca&iacute;do, quatro depois de a gente ter entrado    e um depois de a gente ter feito uma temporada de arrebentar e perdido a final    com gol anulado e p&ecirc;nalti inexistente, sem falar nos v&aacute;rios resultados    que iam coincidindo em favor do advers&aacute;rio. &Uacute;nico do time que    n&atilde;o desceu pra mulherada comprada no vesti&aacute;rio. Puta que pariu,    o que o bicho jogou nesses dois anos n&atilde;o t&aacute; no gibi. Fez gol aos    2, aos 45, aos 49. Levou tesoura criminosa pra gente ganhar uma expuls&atilde;o.    Fez gol com drible-da-vaca, gol de barriga e gol de raiva, afundando o goleiro.    Perdeu p&ecirc;nalti e fez quest&atilde;o de bater e converter o seguinte, no    mesmo canto. Perdeu o pai e parece que jogou com mais garra, parecia at&eacute;    mais m&aacute;goa do que homenagem. Ali&aacute;s, do pouco que ele fala –    sempre daquele jeit&atilde;o calad&atilde;o –, disse que o velho nunca    apoiou: a &uacute;ltima coisa que eu queria &eacute; te ver correndo atr&aacute;s    de uma bola no meio de um monte de marmanjo. Antip&aacute;tico, bastante. Parece    que comigo ainda um pouco mais – o pai. Ele, de sorriso nublado, de n&atilde;o    dar intimidade pra ningu&eacute;m – principalmente depois que uns chimpanz&eacute;s    come&ccedil;aram com brincadeirinha pra cima da gente –, mas gente boa    incontest&aacute;vel. Tomamos umas tuba&iacute;nas depois que voei na cara de    um deles. Tr&ecirc;s jogos na primeira divis&atilde;o e veio sujeito managear.    Possibilidade de pular de trezentos pra trinta mil. Ele sabia que fechar na    hora era bobagem, fintou, tenho certeza de que vai fechar pelo dobro. Me contou    como quem v&ecirc; chegando o trem do al&iacute;vio, me revelou um apelido de    bicho mi&uacute;do e me deu um beijo de mulher – de mulher que tirou das    costas as toneladas de um segredo. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Pedro Biondi</b>, 31 anos, &eacute; jornalista e escritor.    Tem textos liter&aacute;rios publicados em sites e revistas e na antologia</i>    Todas as gera&ccedil;&otilde;es – o conto brasiliense contempor&acirc;neo    <i>(LGE,2006). &Eacute; autor do livro in&eacute;dito de contos</i> Cheiro de    leoa. <i>Trabalha como editor de primeira p&aacute;gina da</i> Ag&ecirc;ncia    Brasil, <i>notici&aacute;rio da Radiobr&aacute;s na internet. Nasceu em S&atilde;o    Paulo e mora em Bras&iacute;lia desde 2005.</i></font></P>      ]]></body>
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