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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Máquinas ainda não compreendem intenção humana: algo a ser conquistado a longo prazo]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/mundo.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a11img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">E<small>NTREVISTA</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v60n2/line_bk.gif"></p>     <p><font size="4"><b>M&aacute;quinas ainda n&atilde;o compreendem inten&ccedil;&atilde;o    humana: algo a ser conquistado a longo prazo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O motivo que fez com que Cristiano Castelfranchi, um dos maiores    especialistas europeus na &aacute;rea de intelig&ecirc;ncia artificial (IA),    abandonasse seu trabalho no Conselho Nacional de Pesquisa italiano (CNR, na    sigla em italiano) para passar alguns dias no Brasil &eacute; nobre: o nascimento    de seu neto. Em meio &agrave;s tarefas de av&ocirc;, Castelfranchi falou sobre    seu trabalho com agentes artificiais, pequenas m&aacute;quinas independentes    com capacidades limitadas e espec&iacute;ficas, mas que resolvem problemas complexos    gra&ccedil;as &agrave; coordena&ccedil;&atilde;o, comunica&ccedil;&atilde;o    e distribui&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o entre elas. Segundo    ele, os agentes s&atilde;o frutos de uma nova dire&ccedil;&atilde;o dada aos    estudos com IA nos &uacute;ltimos 30 anos, que busca modelar uma intelig&ecirc;ncia    social em entidades artificiais. Mas tal formaliza&ccedil;&atilde;o se depara    com obst&aacute;culos muito mais complexos do que a capacidade de c&aacute;lculo    matem&aacute;tico ou a habilidade de jogar xadrez que as m&aacute;quinas h&aacute;    tempos j&aacute; possuem. Entretanto, uma vez vencidos esses obst&aacute;culos,    teremos em nosso meio m&aacute;quinas conscientes de si, de seus objetivos e    dos objetivos de terceiros com quem interagem. Teremos at&eacute; mesmo, m&aacute;quinas    capazes de experimentar sentimentos e emo&ccedil;&otilde;es.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>O que s&atilde;o agentes artificiais?</b></i></font></p>     <p><font size="3">A id&eacute;ia central dos agentes &eacute; que uma intelig&ecirc;ncia    centralizada n&atilde;o &eacute; suficiente. Os primeiros 30 anos da intelig&ecirc;ncia    artificial foram dedicados a construir um &uacute;nico c&eacute;rebro racional,    uma intelig&ecirc;ncia com todas as representa&ccedil;&otilde;es, decis&otilde;es,    planejamentos, todo o conhecimento. Mas isso n&atilde;o funciona. Surgiu ent&atilde;o    uma nova onda que diz que intelig&ecirc;ncia &eacute; algo cooperativo, distributivo.    O que realmente importa para a resolu&ccedil;&atilde;o de problemas &eacute;    uma certa quantidade de intelig&ecirc;ncias distribu&iacute;das na qual todas    as informa&ccedil;&otilde;es, banco de dados locais e experi&ecirc;ncias sejam    compartilhadas entre essas intelig&ecirc;ncias. A&iacute; sim se resolve o problema.    Dessa maneira, os agentes s&atilde;o pequenas entidades artificiais onde cada    uma sabe fazer algo espec&iacute;fico e simples. Atrav&eacute;s da coopera&ccedil;&atilde;o    entre os agentes &eacute; que emerge o comportamento inteligente deles.</font></p>     <p><font size="3"><i><b>Que quest&otilde;es precisam ser resolvidas para que tenhamos    m&aacute;quinas com intelig&ecirc;ncia social?</b></i></font></p>     <p><font size="3">Para existir coopera&ccedil;&atilde;o, em qualquer sociedade,    &eacute; necess&aacute;rio que existam normas e que estas sejam respeitadas    pelos sujeitos. Mas, onde est&atilde;o as normas na nossa mente? Como elas consolidam    nosso comportamento ou nos obrigam a fazer algo? As entidades artificiais podem    respeitar normas? Este &eacute; um trabalho dif&iacute;cil. Outra quest&atilde;o    trata de como &eacute; poss&iacute;vel modelar emo&ccedil;&otilde;es, como inveja,    simpatia e culpa em criaturas artificiais. Um &uacute;ltimo aspecto importante    a ser trabalhado &eacute; muito conhecido pela psicologia e pela filosofia e    se chama teoria da mente. Para uma boa coopera&ccedil;&atilde;o social &eacute;    necess&aacute;rio que um agente saiba o objetivo, a inten&ccedil;&atilde;o do    outro e n&atilde;o apenas fa&ccedil;a o que lhe &eacute; pedido. Sem o conhecimento    pr&eacute;vio de uma teoria da mente alheia a intera&ccedil;&atilde;o homem-m&aacute;quina,    ou at&eacute; mesmo homem-homem se torna imposs&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="3"><i><b>Artefatos artificialmente inteligentes atuais possuem    uma boa no&ccedil;&atilde;o de teoria da mente?</b></i></font></p>     <p><font size="3">Uma coopera&ccedil;&atilde;o eficiente n&atilde;o &eacute; aquela    em que um indiv&iacute;duo faz exatamente o que o outro lhe pede. &Eacute; preciso    que ele entenda primordialmente o objetivo do outro, pois de outro modo a coopera&ccedil;&atilde;o    se torna est&uacute;pida. Por exemplo. Um homem pergunta ao outro. "Voc&ecirc;    tem f&oacute;sforo?" e o outro lhe entrega um isqueiro. A coopera&ccedil;&atilde;o    humana funciona 90% desse jeito. A pessoa entendeu a inte&ccedil;&atilde;o de    acender um cigarro. Acontece que as m&aacute;quinas atuais n&atilde;o conseguem    compreender o objetivo do outro. O ideal mesmo seria que ela se antecipasse    e tomasse espontaneamente a iniciativa na coopera&ccedil;&atilde;o com o ser    humano. Como objetivo &uacute;ltimo disso tudo ter&iacute;amos uma m&aacute;quina    possuidora de sentimentos, mas isso ainda &eacute; algo a longo prazo. A curto    prazo o que se pode esperar das m&aacute;quinas &eacute; que compreendam melhor    a inten&ccedil;&atilde;o humana.</font></p>     <p><font size="3"><b><i>As m&aacute;quinas ser&atilde;o algum dia conscientes?</i></b></font></p>     <p><font size="3">Criar uma m&aacute;quina com consci&ecirc;ncia &eacute; uma    afirma&ccedil;&atilde;o mal posta. Pois consci&ecirc;ncia &eacute; um termo    muito amplo e envolve uma s&eacute;rie de processos fenomenol&oacute;gicos complexos    e independentes. Eu, pessoalmente, gosto bastante da no&ccedil;&atilde;o de    consci&ecirc;ncia como estar ciente de si, o <i>self</i>. N&atilde;o falo necessariamente    de aspectos fenomenol&oacute;gicos ou de experi&ecirc;ncias subjetivas, mas    de meta-representa&ccedil;&otilde;es, o modo como eu represento minha mente    para mim mesmo. O grande desafio n&atilde;o &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o    de um artefato com intelig&ecirc;ncia expl&iacute;cita, simb&oacute;lica, mas    o fato das m&aacute;quinas serem capazes de realizar c&aacute;lculos complexos,    mas n&atilde;o conseguirem encontrar e abrir uma porta para sair de uma sala.</font></p>     <p><font size="3"><i><b>Existe a possibilidade de termos guerras contra m&aacute;quinas    racionalmente mais sofisticadas que os humanos?</b></i></font></p>     <p><font size="3">Sou um pouco c&eacute;tico quanto &agrave; id&eacute;ia da possibilidade    real da evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica das m&aacute;quinas, da capacidade    delas virem a se reproduzir, etc. Por outro lado, acredito que o perigo real    e mais pr&oacute;ximo seja a profecia <i>Unabomber</i>, que dizia que, no surgimento    das m&aacute;quinas artificialmente inteligentes, estas seriam totalmente dependentes    das nossas decis&otilde;es, por levarem a resultados melhores que os obtidos    por decis&otilde;es humanas. Eventualmente, chegar&iacute;amos a um momento    que, de tantas decis&otilde;es delegadas &agrave;s m&aacute;quinas, mesmo que    tenhamos o poder de deslig&aacute;-las, acabar&iacute;amos por levar nossa esp&eacute;cie    ao suic&iacute;dio. Este cen&aacute;rio previsto por <i>Unabomber</i> j&aacute;    come&ccedil;a a se tornar realidade. Hoje temos muitos sistemas especialistas    que tomam decis&otilde;es nos setores financeiro, militar e at&eacute; mesmo    m&eacute;dico. Testes mostram que sistemas de diagn&oacute;stico m&eacute;dico    artificiais s&atilde;o capazes de tomar decis&otilde;es mais acertadas que as    de um cirurgi&atilde;o humano. Hoje, ainda tenho a liberdade de perguntar algo    a esse sistema, ele me d&aacute; a resposta e eu decido. Mas suponhamos que    daqui a dez anos esse sistema esteja aperfei&ccedil;oado, com um desempenho    excelente. O que acontecer&aacute; legalmente a um m&eacute;dico que, confiando    na sua intui&ccedil;&atilde;o profissional, desrespeitar a sugest&atilde;o da    m&aacute;quina e o seu paciente vier a falecer? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Luiz Paulo Juttel</i></font></p>      ]]></body>
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