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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>MOSTRA DE CINEMA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>O<SMALL>S CA&Ccedil;ADORES DE FILMES INVIS&Iacute;VEIS</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Rossellini &eacute; fundamental. Godard idem. Gl&aacute;uber,    ent&atilde;o, nem se fala. Mas hoje, no meio acad&ecirc;mico, h&aacute; espa&ccedil;o    tamb&eacute;m para cineastas como Afonso Brazza, Simi&atilde;o Martiniano ou    Manoel Loreno. Algu&eacute;m j&aacute; ouviu falar deles? Brazza, ou Jos&eacute;    Afonso dos Santos Filho, trabalhou no cinema da Boca do Lixo e ganhou fama realizando    filmes de baixo or&ccedil;amento em Bras&iacute;lia. Simi&atilde;o tem seu p&uacute;blico    cativo em Pernambuco e j&aacute; foi protagonista de um curta document&aacute;rio    <I>Simi&atilde;o Martiniano, o camel&ocirc; do cinema </i>(1998), de Clara Ang&eacute;lica    e Hilton Lacerda. Manoel Loreno, o "Seu Manoelzinho", realiza filmes de g&ecirc;nero    imersos na cultura local da cidade de Manten&oacute;polis, no noroeste do Esp&iacute;rito    Santo. Exemplos da obra desses diretores ser&atilde;o trazidos a S&atilde;o    Paulo, capital, por ocasi&atilde;o da mostra "Nas Bordas do Cinema Brasileiro",    de 27 a 30 de maio, nos campi Centro e Vila Ol&iacute;mpia da Universidade Anhembi    Morumbi (UAM).</font></p>     <p><font size="3">Gelson Santana, professor do mestrado em comunica&ccedil;&atilde;o    da Universidade Anhembi Morumbi e um dos organizadores da mostra, comenta que    a sele&ccedil;&atilde;o de filmes exibidos abarca todo o territ&oacute;rio nacional.    "O objetivo &eacute; mapear essa produ&ccedil;&atilde;o audiovisual 'invis&iacute;vel'.    S&atilde;o filmes de apelo local, que trabalham com a geografia, a gestualidade    e todo um modo de falar local. O mais interessante &eacute; que os realizadores    parecem tentar adaptar essa localidade a uma esp&eacute;cie de 'universalidade    midi&aacute;tica', geralmente se espelhando em g&ecirc;neros can&ocirc;nicos    do cinema, como o faroeste, o horror, etc. Tudo isso tratado com um olhar absolutamente    particular", comenta Santana.</font></p>     <p><font size="3">A UAM serve como quartel-general de um grupo que re&uacute;ne    professores-pesquisadores de cinema de diversas regi&otilde;es do Brasil, interessados    nas mais variadas manifesta&ccedil;&otilde;es audiovisuais brasileiras e latino-americanas,    em especial aquelas ignoradas ou rejeitadas pela academia – seja em virtude    de seu apelo popular e sucesso comercial, seja em fun&ccedil;&atilde;o do amadorismo    de determinadas pr&aacute;ticas bastante localizadas ou regionais, e completamente    baseadas no autodidatismo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a26img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Esse grupo nomeia seu objeto de estudo como "cinema de bordas",    um termo controverso, que ainda est&aacute; sendo testado, mas que se caracteriza,    sobretudo, pelo seu car&aacute;ter d&ecirc;itico, isto &eacute;, dependente    do contexto. Bernadette Lyra, coordenadora do mestrado em comunica&ccedil;&atilde;o    da UAM e fundadora do grupo de pesquisa, esclarece que essa id&eacute;ia de    "bordas" &eacute; emprestada da antropologia, origin&aacute;ria de um texto    de Jerusa Pires Ferreira relativo &agrave; obra do escritor Rubens Luchetti    ("Heter&ocirc;nimos e cultura das bordas: Rubens Luchetti", <i>Revista USP</i>,    n.4, dez/ jan/fev de 1989-90, pp. 169-174). O grupo de pesquisa j&aacute; publicou    um livro a respeito, <i>Cinema de Bordas</i> (S&atilde;o Paulo: Ed. A L&aacute;pis,    2006), organizado por Bernadette e Santana, e outro volume ser&aacute; lan&ccedil;ado    at&eacute; o final do ano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Bernadette ressalva que esse trabalho ainda est&aacute; em progresso    e longe de terminar: "na medida em que vamos investigando e descobrindo fatos    e teorias afins, vamos incorporando esses elementos aos estudos do grupo". Ela    explica que "em ess&ecirc;ncia, pensamos em trabalhar um tipo de cinema que    foge &agrave;quilo que a historiografia oficial considera o 'cinema-institui&ccedil;&atilde;o',    quase sempre pautado no art&iacute;stico ou autoral. Esse tipo de cinema que    estudamos n&atilde;o &eacute; propriamente art&iacute;stico (pelo menos n&atilde;o    no sentido mais tradicional do termo), e nem &eacute; um cinema autoral no sentido    de que tenha um 'dono' ou 'autor' que centralize a cria&ccedil;&atilde;o. No    Brasil, esse cinema acaba escapando a historiografias consagradas como aquelas    escritas por Alex Viany ou Gl&aacute;uber Rocha, por exemplo". Rog&eacute;rio    Ferraraz, tamb&eacute;m professor do mestrado em comunica&ccedil;&atilde;o da    UAM e integrante do grupo de pesquisa, acrescenta que, durante muito tempo,    o cinema de g&ecirc;nero e, por extens&atilde;o, o entretenimento, estiveram    &agrave; margem da historiografia oficial do cinema no Brasil.</font></p>     <p><font size="3">Bernadette Lyra ressalta, por&eacute;m, que dentro desse vasto    universo de filmes alternativos, h&aacute; tamb&eacute;m uma s&eacute;rie de    problemas, de oscila&ccedil;&otilde;es entre diversas inst&acirc;ncias. Em outras    palavras, o "cinema de bordas" seria suficientemente heterog&ecirc;neo para    justificar subcategorias mais espec&iacute;ficas, organizadas basicamente em    torno de tr&ecirc;s eixos principais. O primeiro corresponderia a um "cinem&atilde;o"    industrial, mas feito de maneira "popularesca", propositalmente dirigido ao    grande p&uacute;blico (no Brasil, por exemplo, os filmes d’Os Trapalh&otilde;es    ou da Xuxa). S&atilde;o filmes realizados com tecnologia atual, equipes altamente    profissionais e organizadas, tendo por tr&aacute;s grandes empresas como a Globo.    A pesquisadora observa que esses filmes tamb&eacute;m "deslizam", apresentando    apontamentos bem populares em sua est&eacute;tica, fazendo apelo a subculturas    e chegando at&eacute; o<i> trash</i> em determinados momentos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a26img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A segunda corrente corresponde a uma cinematografia realizada    propositalmente na contram&atilde;o de movimentos institu&iacute;dos. Entre    os exemplos est&aacute; o cineasta Ivan Cardoso, que com seu "udigrudi" iria    contra toda a corrente do Cinema Novo. "Quase sempre s&atilde;o realizadores    bem posicionados que entendem e sabem o que est&atilde;o fazendo e o fazem de    prop&oacute;sito, com o objetivo de afrontar um cinema mais autoral ou art&iacute;stico",    comenta Bernadette.</font></p>     <p><font size="3">O terceiro eixo ou corrente em quest&atilde;o diz respeito &agrave;    obra de realizadores autodidatas que, conforme aponta a pesquisadora, "fazem    filmes nas suas comunidades porque querem se aproveitar do que t&ecirc;m &agrave;    m&atilde;o" – por exemplo, qualquer tipo de c&acirc;mera, atores n&atilde;o-profissionais,    etc. "Na verdade, esses realizadores fazem filmes sobretudo baseados num <i>d&eacute;j&agrave;-vu</i>,    em coisas que j&aacute; viram por interm&eacute;dio dos meios audiovisuais;    &eacute; todo um cinema de reciclagem, um 'lixo cultural' que fora colocado    &agrave;s bordas, sendo agora reaproveitado de maneira ca&oacute;tica, por meio    de fragmentos que se montam, e n&atilde;o exatamente de maneira par&oacute;dica",    descreve Bernadette, lembrando da regionaliza&ccedil;&atilde;o do audiovisual    observ&aacute;vel nesse tipo de cinema. </font></p>     <p><font size="3"><b>DIVERSIDADE </b>Bastante heterog&ecirc;neo por si mesmo,    esse terceiro eixo aglutina realizadores das mais diversas regi&otilde;es do    pa&iacute;s, provenientes de diferentes faixas et&aacute;rias e classes sociais.    Al&eacute;m do Norte, representado por <i>Ramb&uacute; III, o rapto do jaraqui    dourado </i>(2007), de Manoel Freitas, J&uacute;nior Castro e Adilamar Halley,    e do noroeste do Esp&iacute;rito Santo, bastante vivo no cinema local de g&ecirc;nero    de Manoel Loreno, na regi&atilde;o Sul do pa&iacute;s s&atilde;o objeto de estudo    do grupo as obras de Peter Baierstorff (Palmital-SC), Felipe Guerra (Carlos    Barbosa-RS), Leandro Vieira (Rio Grande-RS) e Semi Salom&atilde;o (Apucarana-PR).    No estado de S&atilde;o Paulo, Claudin&ecirc; Perina Camargo, de Campinas, e    Marcos Bertoni, da capital, figuram entre os realizadores estudados. No Distrito    Federal, Afonso Brazza desponta como mestre pioneiro no g&ecirc;nero. No Nordeste,    Simi&atilde;o Martiniano representa o Recife (PE) com seus filmes de luta, enquanto    Pedro Onofre traz o melodrama de Macei&oacute; (AL). "Usamos o termo ‘cinema    de bordas’ para fugir um pouco a uma esp&eacute;cie de ideologia, &agrave; id&eacute;ia    de um cinema marginalizado, porque ele n&atilde;o &eacute; isso. Esse cinema    circula com muita desenvoltura, ele agrada, provoca riso, e &eacute; profundamente    mediado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa", observa Bernadette.</font></p>     <p><font size="3">Essas tr&ecirc;s correntes se entremeiam ou interpenetram, sendo    delineadas apenas para efeito did&aacute;tico: "o que perpassa todos eles &eacute;    uma est&eacute;tica de subculturas, de culturas n&atilde;o autorizadas, digamos,    de maneira institucional. Nesse sentido, elas se aproximam daquilo que se chama    hoje de 'paracinema', uma maneira de se considerar tudo aquilo que fica fora    do institucional, ou seja, paralelo ao institucional. A id&eacute;ia de alteridade    sempre norteia essa paracinematografia, que inclui est&eacute;ticas ou modos    variados de express&atilde;o, como o <i>trash</i>, a id&eacute;ia de margens,    bordas, fragmentos, periferia, etc. Esse cinema &eacute; perif&eacute;rico nesse    sentido, mas ele n&atilde;o &eacute; um cinema de periferia no sentido daquele    realizado por ONGs, voltado para uma comunidade exclu&iacute;da, etc.", explica    Bernadette. Nesse tipo de cinema, segundo a pesquisadora, o realizador n&atilde;o    est&aacute; necessariamente preocupado em criticar ou demonstrar dom&iacute;nio    e erudi&ccedil;&atilde;o, assim como o espectador, que busca acima de tudo a    participa&ccedil;&atilde;o, o entretenimento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Alfredo Luiz Suppia</i></font></p>      ]]></body>
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