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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>LITERATURA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>R<small>EGIONAL, UNIVERSAL:</small> 100 <small>ANOS DE</small>    G<small>UIMAR&Atilde;ES</small> R<small>OSA</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Ao se revisitar a obra de Guimar&atilde;es Rosa, no ano em que    o escritor completaria cem anos, percebe-se a for&ccedil;a e atualidade de seus    livros. O que faz uma obra de arte ser considerada bela, eterna e sobreviver    ao tempo &eacute; uma quest&atilde;o com muitas respostas. As hip&oacute;teses    passam pelas grandes revolu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas como o <I>sfumato    </i>de Leonardo da Vinci, a grandeza e a beleza est&eacute;tica de Dante Alighieri    ou a espiritualidade de Johann Sebastian Bach.</font></p>     <p><font size="3">Suzi Sperber, professora de literatura da Universidade Estadual    de Campinas (Unicamp), acredita que a atemporalidade da obra de Guimar&atilde;es    Rosa se deve "&agrave; extraordin&aacute;ria beleza do texto e forma como ele    trabalha com as palavras". Segundo ela, a obra dele nos obriga a abord&aacute;-la    com a emo&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o com a raz&atilde;o. "Ele quer a derrota    da raz&atilde;o. O leitor n&atilde;o &eacute; obrigado a ter conhecimentos liter&aacute;rios    para ser envolvido pelo texto", afirma. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a28img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os contos e romances do autor, na primeira impress&atilde;o,    parecem inacess&iacute;veis, mas ao mesmo tempo envolvem o leitor, principalmente    atrav&eacute;s da linguagem po&eacute;tica e uma constru&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica    consciente do som e ritmo da palavra. Sua linguagem &eacute; um "terreno movedi&ccedil;o    e de limites imprecisos entre a prosa e a poesia", define Cl&aacute;udia Soares,    outra especialista em Guimar&atilde;es Rosa e professora da Universidade Federal    de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, Rosa produziu uma mistura, partindo de    uma dic&ccedil;&atilde;o de fundo regionalista, acrescentando elementos provenientes    de seu amplo conhecimento da l&iacute;ngua portuguesa e das outras que conhecia    – como arca&iacute;smos, estrangeirismos e neologismos. </font></p>     <p><font size="3"><i>Grande sert&atilde;o: veredas</i>, a obra mais aclamada do    autor, &eacute; uma auto-narrativa de um jagun&ccedil;o aposentado, que conta    a sua hist&oacute;ria a um viajante, um "doutor", que passa um tempo hospedado    em sua fazenda. O registro dessa conversa, no qual s&oacute; ouvimos a voz do    jagun&ccedil;o, reflete e interroga o doutor sobre os acontecimentos vividos,    o sentido da exist&ecirc;ncia, paix&otilde;es e as lutas entre Deus e o Diabo.    Cl&aacute;udia define o livro como sendo "a est&oacute;ria de um homem em sua    'travessia', pela exist&ecirc;ncia, tratando sobre quest&otilde;es que todos    temos que enfrentar em nossas pr&oacute;prias travessias". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a28img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Um ponto em comum em v&aacute;rios textos de Rosa &eacute; o    encontro de conceitos e pessoas, numa primeira an&aacute;lise, antag&ocirc;nicas    como, por exemplo, o jagun&ccedil;o e o doutor. "Rosa promoveu definitivamente    o encontro entre o mundo do doutor e o do sertanejo, entre a cidade e sert&atilde;o,    entre cultura r&uacute;stica, de base oral, e cultura letrada. Assim, ele emprestou    ao sert&atilde;o significados simb&oacute;licos e alargou os seus limites para    al&eacute;m das fronteiras geogr&aacute;ficas. O sert&atilde;o se tornou o mundo",    reflete Cl&aacute;udia. </font></p>     <p><font size="3">Estudando Rosa &eacute; poss&iacute;vel perceber que ele era    sens&iacute;vel tanto &agrave; cultura popular do sert&atilde;o, como &agrave;    chamada erudita. Suzi Speber conta que passou um longo per&iacute;odo na casa    do autor logo ap&oacute;s a sua morte. Na biblioteca, a pesquisadora teve acesso    aos seus livros e observou suas anota&ccedil;&otilde;es, grifos e at&eacute;    mesmo trechos que ele escrevia a partir do que lia. "Rosa era muito ecl&eacute;tico,    lia filosofia japonesa, europ&eacute;ia e do oriente chin&ecirc;s. Ele tamb&eacute;m    se interessava por livros de cunho espiritualista e at&eacute; literatura espiritualista    de terceira categoria", conta a pesquisadora.</font></p>     <p><font size="3"><b>CULTURA POPULAR</b> Publicado em 1956, <i>Grande sert&atilde;o:    veredas</i> foi escrito quatro anos depois de uma famosa viagem do autor pelo    interior de Minas Gerais, acompanhando a condu&ccedil;&atilde;o de uma boiada.    Rosa anotou exaustivamente dados concretos da realidade f&iacute;sica e da cultura    sertaneja, e esses registros – suas famosas cadernetas de viagem, que atualmente    se encontram no Instituto de Estudos Brasileiros da USP – foram utilizados como    mat&eacute;ria-prima que o escritor trabalhou esteticamente para compor os livros.    As anota&ccedil;&otilde;es inclu&iacute;am dados sobre a flora, a fauna e a    gente sertaneja, usos, costumes, cren&ccedil;as, linguagem, supersti&ccedil;&otilde;es,    versos, anedotas, can&ccedil;&otilde;es, casos, est&oacute;rias, enfim, tudo    que lhe despertasse algum interesse. </font></p>     <p><font size="3"><b>BUSCA POR SIGNIFICADOS</b> A uni&atilde;o desses dois universos,    do homem que falava sete idiomas e possu&iacute;a uma vasta cultura, com o apreciador    da cultura popular, &eacute;, talvez, o tra&ccedil;o mais caracter&iacute;stico    de Rosa. Suzi afirma que p&ocirc;de perceber, nas anota&ccedil;&otilde;es a    que teve acesso, que o autor gostava de conversar com as pessoas mais humildes.    "As pessoas que n&atilde;o tiveram instru&ccedil;&atilde;o, procuram palavras    para exprimir aquilo que experienciam, criam novas palavras, imagens, ou transformam    outras que conhecem, mas n&atilde;o sabem o que significa. Essas pessoas humildes    abriram o caminho para que Rosa partisse nessa busca por novas palavras e imagens",    conclui. </font></p>     <p><font size="3">O texto coloca esses dois mundos, o popular e o erudito, em    condi&ccedil;&atilde;o de igualdade e comunh&atilde;o. Suzi lembra, como exemplo,    o conto "S&atilde;o Marcos", do livro <i>Sagarana</i>, em que a trama envolve    um doutor que trabalhava numa cidade pequena que tinha um curandeiro. E esse    m&eacute;dico ca&ccedil;oava do segundo, at&eacute; um dia em que ele perde    a vis&atilde;o. O feiticeiro consegue devolver-lhe a vis&atilde;o, mas quando    o doutor abre os olhos, ele v&ecirc; nas m&atilde;os de seu curador um boneco    com uma agulha espetada nos olhos. E daquele dia em diante, ele decide compactuar    com o curandeiro. Cl&aacute;udia Soares conclui que "neste ‘doutor’ que viaja    pelo sert&atilde;o, Rosa, que era m&eacute;dico e atendeu em cidades do interior,    se reproduz". </font></p>     <p><font size="3">J&aacute; para Suzi Sperber, "h&aacute; muitas camadas de sentido,    complexas, diferentes e de origens muito diferentes, que s&atilde;o percept&iacute;veis    exatamente a partir desse trabalho de linguagem que ele fez". Para a pesquisadora    a obra de Guimar&atilde;es Rosa seria como um palimpsesto, em que se raspa a    tela de uma pintura e surge outra camada, que se raspada permite enxergar nova    camada. "O texto de Rosa tem sempre mais camadas, voc&ecirc; n&atilde;o encontrar&aacute;    uma an&aacute;lise que ir&aacute; resultar em uma conclus&atilde;o final, pois    sempre haver&aacute; outra. Tem mil facetas. O fasc&iacute;nio &eacute; extraordin&aacute;rio",    conclui. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Luciano Valente</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n2/a28img03.gif"></p>      ]]></body>
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