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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/a21img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="4"><b>CULTURA POPULAR</b></font></P>     <P><font size="4"><b>CAPOEIRA GINGA PARA CONQUISTAR LEGITIMIDADE</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Reconhecida no mundo todo como arte genuinamente brasileira,    a capoeira jogou em terra nativa para mostrar aos conterr&acirc;neos o seu valor    e, ainda hoje, tenta legitimar os profissionais respons&aacute;veis por sua    hist&oacute;ria e continuidade dentro e para al&eacute;m do campo da educa&ccedil;&atilde;o    f&iacute;sica. De pr&aacute;tica de marginalizados at&eacute; atividade <i>cult</i>    de descolados e estrangeiros, a capoeira, perante o Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o    F&iacute;sica (Confef), deve ser ensinada apenas por aqueles que cursaram o    ensino superior ou realizaram cursos de atualiza&ccedil;&atilde;o junto aos    conselhos regionais (Crefs). "Mais que um conjunto de exerc&iacute;cios    f&iacute;sicos, a capoeira compreende toda uma vincula&ccedil;&atilde;o com    a tradi&ccedil;&atilde;o", enfatiza Vivian Fonseca, do Centro de Pesquisa    e Documenta&ccedil;&atilde;o de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea do Brasil    (CPDoc) ligado &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas (FGV).    "A capoeira tem forte n&atilde;o s&oacute; seu lado combativo, de luta,    como tamb&eacute;m seus aspectos l&uacute;dicos e seu lado de dan&ccedil;a e    brincadeira. Enquadr&aacute;-la numa defini&ccedil;&atilde;o &uacute;nica seria,    para esses capoeiristas, como desqualific&aacute;-la, esvaziando seu sentido    de existir", afirma a autora de artigo sobre o tema na <i>Recorde: revista    de hist&oacute;ria do esporte</i> (vol.1 n.1., 2008).</font></P>     <p><font size="3">A luta contempor&acirc;nea da capoeira para ganhar terreno &eacute;    hist&oacute;rica. Praticada no Brasil entre os escravos como forma de intera&ccedil;&atilde;o,    entretenimento, defesa, atividade f&iacute;sica e mem&oacute;ria cultural, a    atividade passou a ser inclu&iacute;da no C&oacute;digo Penal em 1890. A busca    por uma nova identidade nacional condenou &agrave; pris&atilde;o aqueles vistos    como vagabundos e malandros pela elite do regime republicano. Essa busca seria,    mais tarde, o principal argumento que tornaria a capoeira um dos principais    meios de expans&atilde;o e divulga&ccedil;&atilde;o da cultura brasileira no    exterior, nas palavras do ministro da Cultura Gilberto Gil, em discurso proferido    em 2004 na sede da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas    (ONU), segundo lembra Vivian.</font></P>     <p><font size="3">Mas foi nos anos 1930 que se iniciou o processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o    da capoeira, deixando de ser praticada nas ruas e passando a ser ensinada em    espa&ccedil;os fechados, com exerc&iacute;cios repetitivos e com a cria&ccedil;&atilde;o    de um m&eacute;todo de ensino. "At&eacute; ent&atilde;o os capoeiristas aprendiam    de <i>oitiva</i>, como os pr&oacute;prios capoeiristas dizem, ou seja, aprendiam    apenas olhando os outros jogarem na roda e conforme jogavam", descreve a autora    da pesquisa. Os principais respons&aacute;veis por essa mudan&ccedil;a s&atilde;o    os mestres Bimba e Pastinha, lembrados at&eacute; os dias atuais como refer&ecirc;ncias    da capoeira contempor&acirc;nea. O primeiro, Manoel dos Reis Machado, nascera    em Salvador em 1899 e f&ocirc;ra respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o    da chamada capoeira regional, fortalecendo o lado guerreiro do jogo, enfraquecido    gra&ccedil;as &agrave; repress&atilde;o contra a capoeira. Bimba foi quem primeiro    criou uma academia, o Centro de Cultura F&iacute;sica Regional e a ensinar por    meio da famosa Seq&uuml;&ecirc;ncia de Bimba. Enquanto o segundo mestre, Vicente    Ferreira Pastinha, tamb&eacute;m soteropolitano e nascido em 1889, ensinou a    pr&aacute;tica tida como mais pr&oacute;xima da tradi&ccedil;&atilde;o africana,    no Centro Esportivo de Capoeira Angola (a partir da d&eacute;cada de 1940),    e impulsionou sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o. "Eu registrei a capoeira,    criei um estatuto, batizei, coloquei um presidente no centro, que hoje &eacute;    presidente na Assembl&eacute;ia, eu organizei a capoeira", afirmou em mat&eacute;ria    do jornal o <i>Estado de S. Paulo</i>, de 1969, recuperada pela autora do artigo.    A cal&ccedil;a preta e camisa amarela, uniforme identificado como dos capoeiristas    angoleiros, &eacute; fruto do trabalho de Pastinha. </font><font size="3">A    princ&iacute;pio, os dois estilos suaram para conquistar adeptos e se legitimar,    e o tempo se encarregou de reservar seus espa&ccedil;os, de forma a garantir    e preservar a mem&oacute;ria de seus mestres, mesmo que se tenha criado uma    certa rivalidade entre ambas as capoeiras. "Numa pr&aacute;tica onde a linhagem    se mostra fundamental, estar vinculado com qualquer um dos dois grandes mestres    ser&aacute; essencial para os alunos que buscar&atilde;o seguir sua vida dentro    da capoeira", enfatiza a pesquisadora da FGV.</font></P>     <p><font size="3"><b>PROFISSIONALIZA&Ccedil;&Atilde;O</b> De acordo com a Confedera&ccedil;&atilde;o    Brasileira de Capoeira s&oacute; &eacute; considerado mestre aquele com idade    m&iacute;nima de 35 anos e 22 anos de pr&aacute;tica. J&aacute; o Conselho Superior    de Mestres determina que entre os pr&eacute;-requisitos para se tornar um mestre    integrante da entidade &eacute; preciso ter no m&iacute;nimo 40 anos e outros    27 de pr&aacute;tica. Para passar os ensinamentos da capoeira adiante, como    professor, &eacute; necess&aacute;rio muito tempo de pr&aacute;tica, "raramente    antes de pelo menos cinco anos, para aqueles mais participativos". Com    tamanhas qualifica&ccedil;&otilde;es, a determina&ccedil;&atilde;o do Confef,    estabelecida na d&eacute;cada de 1990, teve efeito contr&aacute;rio ao buscado.    Muitos passaram a enxergar a filia&ccedil;&atilde;o aos conselhos regionais    como certificado de baixa qualidade e pouco conhecimento.</font></P>     <p><font size="3">Em um esfor&ccedil;o para reverter o quadro, formou-se em 2000    a Frente Unida pela Autonomia Profissional da Educa&ccedil;&atilde;o e das Tradi&ccedil;&otilde;es    Populares composta por profissionais de &aacute;reas atingidas pelas determina&ccedil;&otilde;es    do conselho federal. Os capoeiristas pediam a regulamenta&ccedil;&atilde;o das    profiss&otilde;es de mestre e professores, delegando para si essa responsabilidade.    Quatro anos mais tarde, os capoeiristas, por meio do VII F&oacute;rum Nacional    de Debates: "Formaliza&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    para a capoeira", escreveram a Carta de Bras&iacute;lia solicitando unifica&ccedil;&atilde;o    nos procedimentos t&eacute;cnicos, culturais, desportivos, a partir de suas    bases tradicionais, estabelecidas pela capoeira angola e regional; capacita&ccedil;&atilde;o    de docentes e mestres da capoeira por meio do poder p&uacute;blico; desobriga&ccedil;&atilde;o    da inscri&ccedil;&atilde;o dos mesmos junto aos Crefs entre outros.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v60n3/a21img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Neste meio tempo, houve alguns avan&ccedil;os. "Os mestres    de capoeira t&ecirc;m conquistado o direito de ministrarem suas aulas, sem a    obriga&ccedil;&atilde;o de se filiarem aos Crefs, apesar desse ainda ser um    terreno de disputas, n&atilde;o apresentando, at&eacute; o momento, uma resolu&ccedil;&atilde;o    final", lamenta Vivian, que &eacute; p&oacute;s-graduanda da FGV. </font></P>     <p><font size="3">"O campo da educa&ccedil;&atilde;o formal, principalmente,    precisa refletir de forma profunda sobre suas pr&aacute;ticas, no sentido de    poder acolher as ricas experi&ecirc;ncias educacionais provenientes da cultura    popular, representadas pelas formas tradicionais de transmiss&atilde;o dos saberes    de uma comunidade. Nesse sentido, a capoeira e os mestres t&ecirc;m muito a    ensinar", refor&ccedil;a Pedro Rodolpho Jungers Abib, autor de pesquisa    sobre o papel dos mestres da capoeira angola nas formas tradicionais de transmiss&atilde;o    de conhecimento da cultura popular, publicada em 2006 (<i>Cad. Cedes</i>, vol.    26, n. 68).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Germana Barata</i></font></P>      ]]></body>
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