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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Continuará existindo a física de altas energias, após o LHC?]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/tendenc.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><b>Continuar&aacute; existindo a f&iacute;sica    de altas energias, ap&oacute;s o LHC?</b></font></P>     <p align="center"><font size="3"><b><i>Carlos Escobar</i></b></font></P>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>H</b></font>&aacute; mais de seis d&eacute;cadas    presenciamos o crescimento exponencial da energia dos aceleradores de part&iacute;culas,    podendo a grosso modo dizer que, desde 1930, a energia dos aceleradores terrestres,    concebidos e constru&iacute;dos pelo ser humano em seus laborat&oacute;rios,    aumenta por um fator 10 a cada seis anos. Do acelerador eletroest&aacute;tico    de Cockcroft e Walton (ainda hoje usado nos grande laborat&oacute;rios como    Fermilab e Cern) com energia inferior a 1 MeV (1 milh&atilde;o de eletronvolt)    ao gigantesco Grande Colisor de H&aacute;drons (LHC) do Cern &#91;Organiza&ccedil;&atilde;o    Europeia para a Investiga&ccedil;&atilde;o Nuclear&#93;, que foi a estrela dos meios    de comunica&ccedil;&atilde;o mundiais em setembro de 2008, por ocasi&atilde;o    do seu primeiro feixe, a energia efetiva dos aceleradores de part&iacute;culas    aumentou em 100 bilh&otilde;es de vezes! Um crescimento t&atilde;o estupendo    quanto o aumento em velocidade de computa&ccedil;&atilde;o desde as calculadoras    mec&acirc;nicas dos anos 1930 aos computadores de hoje.</font></P>     <p><font size="3">Gra&ccedil;as aos aceleradores de part&iacute;culas, ap&oacute;s    um per&iacute;odo inicial de fant&aacute;sticas descobertas de novas formas    de mat&eacute;ria em raios c&oacute;smicos, temos hoje um conhecimento bastante    aprofundado das leis da natureza que regem o comportamento da mat&eacute;ria    em escalas sub&#45;nucleares, da ordem de um bilion&eacute;simo de um cent&eacute;simo    de nan&ocirc;metro, para escolher uma escala de comprimento que est&aacute;    em moda, a nanoescala. O universo nessas dimens&otilde;es &eacute; o universo    de quarks, gl&uacute;ons, b&oacute;sons vetoriais e l&eacute;ptons (entre os    quais o nosso querido e indispens&aacute;vel el&eacute;tron). Mas &eacute; inequ&iacute;voco    o sentimento dos cientistas que trabalham em f&iacute;sica de altas energias:    a teoria, que foi constru&iacute;da a partir dos anos 1960, &eacute; incompleta,    possui um grande n&uacute;mero de par&acirc;metros livres sobre os quais nada    tem a dizer, a maioria dos quais ligados &agrave;s massas das part&iacute;culas    fundamentais que entram nessa teoria e, para complicar, argumentos de consist&ecirc;ncia    interna mostram que essa teoria necessita modifica&ccedil;&otilde;es fundamentais    numa escala de energia, al&eacute;m daquela at&eacute; agora atingida pelo mais    energ&eacute;tico acelerador em opera&ccedil;&atilde;o, o Tevatron do Laborat&oacute;rio    Nacional Fermi (Fermilab), nos EUA. Para investigar essas quest&otilde;es foi    constru&iacute;do o LHC, o projeto de maior complexidade j&aacute; tentado pela    humanidade. Mas isso j&aacute; &eacute; hist&oacute;ria e foi abundantemente    coberto pela imprensa e meios de comunica&ccedil;&atilde;o em 2008. O que pretendemos    aqui &eacute; esbo&ccedil;ar preocupa&ccedil;&otilde;es e apontar caminhos que    nos permita responder a pergunta feita no t&iacute;tulo deste artigo.</font></P>     <p><font size="3">O grande f&iacute;sico dinamarqu&ecirc;s, Niels Bohr, costumava    brincar dizendo que previs&otilde;es s&atilde;o dif&iacute;ceis de serem feitas,    especialmente quando dizem respeito ao futuro. Estarei totalmente enquadrado    na observa&ccedil;&atilde;o brincalhona de Bohr. Claro que o futuro da &aacute;rea    depender&aacute; totalmente das descobertas feitas no LHC, principalmente no    que diz respeito &agrave; f&iacute;sica de altas energias realizada em aceleradores    terrestres, afinal, poucos acreditam que outra grande m&aacute;quina venha a    ser constru&iacute;da ap&oacute;s o gigantesco e caro (6 bilh&otilde;es de euros)    acelerador do Cern, ainda que existam em estudo projetos tais como o Colisor    Linear Internacional (ILC), um colisor de el&eacute;trons (conv&eacute;m lembrar    que o LHC &eacute; um colisor de pr&oacute;tons) com energia bastante inferior    ao LHC, mas com a vantagem de produzir intera&ccedil;&otilde;es mais limpas    com as quais poder&iacute;amos estudar com precis&atilde;o alguns dos fen&ocirc;menos    descobertos no LHC. Nessa vis&atilde;o o LHC seria uma m&aacute;quina de descobertas    e o ILC uma m&aacute;quina para estudos de precis&atilde;o. A crise econ&ocirc;mica,    os desafios ambientais, a necessidade imperativa de diminuir as desigualdades    sociais e econ&ocirc;micas numa escala mundial, desafios que, se n&atilde;o    enfrentados, levam ao risco de nossa pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia como    esp&eacute;cie, n&atilde;o recomendam a constru&ccedil;&atilde;o de novos aceleradores    sem que haja uma radical inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica ou em t&eacute;cnicas    de acelera&ccedil;&atilde;o, conseguindo gradientes de campos pelo menos 100    vezes maiores do que os hoje alcan&ccedil;ados nas cavidades de r&aacute;dio    frequ&ecirc;ncia que alimentam os grandes aceleradores ou na tecnologia de im&atilde;s    supercondutores, n&atilde;o sendo improv&aacute;vel que nos pr&oacute;ximos    dez anos alcancem&#45;se avan&ccedil;os em supercondutores de alta temperatura permitindo    a fabrica&ccedil;&atilde;o de im&atilde;s grandes com campos de 30 a 50 tesla,    quando hoje no LHC os im&atilde;s supercondutores com fios de liga NbTi chegam    a 8,3 tesla. Sem falar na temperatura, j&aacute; que os im&atilde;s de NbTi    do LHC tem que operar a 1,9K (&#45;271º C) enquanto os im&atilde;s com supercondutores    de alta temperatura poderiam operar a temperaturas entre 90 e 120º K, dispensando    o resfriamento com h&eacute;lio l&iacute;quido que onera pesadamente os custos    operacionais das m&aacute;quinas supercondutoras, como o Tevatron e o LHC. </font></P>     <p><font size="3">A maneira pela qual apresentei at&eacute; agora os dilemas da    f&iacute;sica de altas energias pode levar &agrave; impress&atilde;o equivocada    de que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel fazer essa f&iacute;sica em aceleradores    terrestres. N&atilde;o s&oacute; essa impress&atilde;o &eacute; enganosa como    ignora a raiz hist&oacute;rica da &aacute;rea, seu nascimento como disciplina    aut&ocirc;noma de investiga&ccedil;&atilde;o, com seus pr&oacute;prios programas    e instrumentos. Como mencionei brevemente, logo no in&iacute;cio deste artigo,    a f&iacute;sica de altas energias nasceu da f&iacute;sica de raios c&oacute;smicos,    fen&ocirc;meno descoberto em 1912 pelo f&iacute;sico austr&iacute;aco Vitor    Hess e investigado a fundo por f&iacute;sicos do calibre de Robert Millikan,    Arthur Compton, Bruno Rossi, Pierre Auger, Enrico Fermi, Georgiy Zatsepin e,    mais pr&oacute;ximos a n&oacute;s, Gleb Wataghin, Cesar Lattes, Giuseppe Occhialini,    Marcelo Damy de Souza Santos e outros. A entrada em opera&ccedil;&atilde;o,    ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial, dos grandes aceleradores de part&iacute;culas    nos EUA e na Europa, tiraram os raios c&oacute;smicos do palco das altas energias.    Mas a hist&oacute;ria parece querer completar um ciclo, trazendo de volta ao    centro das aten&ccedil;&otilde;es os raios c&oacute;smicos, agora investigados    na sua fronteira de alt&iacute;ssimas energias, na qual lidamos com part&iacute;culas    possuindo energias cerca de 10 a 30 milh&otilde;es de vezes maiores que as dos    feixes circulantes de pr&oacute;tons do LHC! Isso &eacute; o que estamos fazendo    no Observat&oacute;rio Auger em Malarg&uuml;e, prov&iacute;ncia de Mendoza,    na Argentina (<a href="http://www.auger.org" target="_blank">www.auger.org</a>).    Claro est&aacute; que num experimento de raios c&oacute;smicos n&atilde;o temos    um feixe intenso, controlado, com seus par&acirc;metros bem determinados como    num acelerador terrestre, mas come&ccedil;amos a observar, atrav&eacute;s desses    raios c&oacute;smicos, fen&ocirc;menos at&eacute; ent&atilde;o insuspeitos na    natureza e que podem levar&#45;nos &agrave; revis&atilde;o de aspectos fundamentais    da f&iacute;sica de part&iacute;culas e da astrof&iacute;sica relativ&iacute;stica.    De maneira inspiradora, a janela aberta na &uacute;ltima d&eacute;cada pelos    avan&ccedil;os na astronomia, astrof&iacute;sica e cosmologia permite&#45;nos vislumbrar    uma resposta positiva &agrave; pergunta feita no t&iacute;tulo deste artigo:    sim, a f&iacute;sica de altas energias continuar&aacute; saud&aacute;vel, enquanto    a humanidade assim o esteja, explorando agora o dom&iacute;nio astrof&iacute;sico    e cosmol&oacute;gico. A gera&ccedil;&atilde;o futura de projetos nessa &aacute;rea    exibe um amplo leque de possibilidades que permitir&atilde;o testes fundamentais    da teoria da relatividade geral de Einstein, num regime em que ainda n&atilde;o    foi testada, possibilitar&atilde;o uma nova mirada no passado do universo atrav&eacute;s    do estudo da famosa linha de 21cm fortemente deslocada para o vermelho, elucidar&atilde;o    a exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o da mat&eacute;ria e energia escura e estabelecer&atilde;o,    sem ambiguidades, a exist&ecirc;ncia e propriedades dos buracos negros, que    exercem forte fasc&iacute;nio n&atilde;o s&oacute; para os cientistas como para    o p&uacute;blico em geral. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Demonstra&ccedil;&atilde;o da pujan&ccedil;a dessa nova &aacute;rea,    f&iacute;sica de astropart&iacute;culas (assim &eacute; chamada) s&atilde;o    as mais de 350 cartas de inten&ccedil;&otilde;es (<I>white papers</I>) apresentadas    em resposta &agrave; chamada formulada pela National Academies dos EUA no<I>    Decadal Survey Astro2010 </I>e o programa equivalente na Comunidade Europeia    conhecido como Aspera (<a href="http://www.7nationalacademies.org/bpa/Astro2010.html" target="_blank">www.7nationalacademies.org/bpa/Astro2010.html</a>    e <a href="http://www.aspera&#45;eu.org/" target="_blank">www.aspera&#45;eu.org/</a>).</font></P>     <p><font size="3">Longa vida &agrave; f&iacute;sica de altas energias! "Espere,    n&atilde;o ser&aacute; f&iacute;sica de astropart&iacute;culas?", poderiam    perguntar. N&atilde;o importa, a natureza &eacute; inexor&aacute;vel e o ser    humano limitado, assim como a hist&oacute;ria n&atilde;o terminar&aacute;, enquanto    estivermos vivos n&atilde;o terminar&aacute; a busca pelo conhecimento das leis    que regem o comportamento da mat&eacute;ria, seja em grande escala, seja na    mais min&uacute;scula escala acess&iacute;vel ao conhecimento humano, o que    necessitamos s&atilde;o dados experimentais: </font></P>     <p align="right"><font size="3"><i>Teorias, meu amigo, s&atilde;o cinza,    <br>   mas verde &eacute; a eterna &aacute;rvore da vida.</i></font></P>     <p align="right"><font size="3"><i>Fausto de Goethe</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Carlos Escobar</b> &eacute; professor titular do Instituto    de F&iacute;sica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)    e coordenador da colabora&ccedil;&atilde;o brasileira no Observat&oacute;rio    Pierre Auger.</i></font></P>      ]]></body>

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