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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Interseções entre dois reflexos: uma divisão do design brsileiro]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/artensai.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>INTERSE&Ccedil;&Otilde;ES ENTRE DOIS REFLEXOS: UMA VIS&Atilde;O    DO DESIGN BRASILEIRO</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b><i>Maria Luiza A. C. de Castro</i></b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Nos anos 1970 e 1980 houve, no Brasil, um grande esfor&ccedil;o    no sentido de se enquadrar o design dentro de um planejamento empresarial. As    interven&ccedil;&otilde;es foram baseadas em metodologias de gest&atilde;o do    design, que evolu&iacute;ram para configurar o design dito estrat&eacute;gico,    uma forma de atua&ccedil;&atilde;o do profissional junto aos mercados: esta    abordagem ocupava&#45;se da orienta&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica do design,    apoiada por an&aacute;lises de fatores internos e externos &agrave;s empresas,    em um n&iacute;vel hier&aacute;rquico mais alto dentro destas e desde as primeiras    fases do desenvolvimento de produtos (1). Essa fase colocou&#45;se como resposta    a um processo de cientifiza&ccedil;&atilde;o das atividades de projeto, herdado    da escola de Ulm, na Alemanha, que serviu de base para a implanta&ccedil;&atilde;o    do ensino de design no pa&iacute;s. </font></P>     <p><font size="3">Em uma an&aacute;lise esclarecida sobre o design brasileiro    contempor&acirc;neo, o italiano Andrea Branzi (2) situa a tentativa de operacionaliza&ccedil;&atilde;o    racional da disciplina &agrave; origem de suas dificuldades subsequentes. O    autor critica a importa&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos e princ&iacute;pios    oriundos da vis&atilde;o europeia da disciplina, na qual os fundamentos da elabora&ccedil;&atilde;o    conceitual eram baseados na "perman&ecirc;ncia no tempo", e na "estabilidade    simb&oacute;lica dos seus fundamentos", carregados de um forte valor hist&oacute;rico.    A tentativa de valorizar no Brasil uma tradi&ccedil;&atilde;o que nunca existira,    baseada na "pesquisa de produtos definitivos, projetados para uma sociedade    ordenada e monol&oacute;gica" (3) teria resultado num projeto abstrato    e inexequ&iacute;vel. </font></P>     <p><font size="3">Branzi (2) baseia sua cr&iacute;tica em uma vis&atilde;o p&oacute;s&#45;moderna,    que privilegia o enfoque m&uacute;ltiplo e prop&otilde;e a busca de solu&ccedil;&otilde;es    para o design no pa&iacute;s por meio da atua&ccedil;&atilde;o de uma "constela&ccedil;&atilde;o"    de designers, em oposi&ccedil;&atilde;o a um sistema de design estrat&eacute;gico.    Ele descarta a ideia de inser&ccedil;&atilde;o dentro de um planejamento pautado    pela racionalidade e funcionalidade &#151; tal como o que caracterizou a ess&ecirc;ncia    da condu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do Estado na d&eacute;cada de 1970    &#151; e acredita que a resposta para as quest&otilde;es de design se encontra no    est&iacute;mulo aos talentos individuais dos profissionais, atrav&eacute;s "de    motiva&ccedil;&atilde;o particular e da capacidade subjetiva de propor inova&ccedil;&otilde;es    t&eacute;cnicas, mas tamb&eacute;m est&eacute;ticas" (4). </font></P>     <p><font size="3">Segundo o autor, a crise do design brasileiro s&oacute; teria    come&ccedil;ado a se dissipar na &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo    XX, com a substitui&ccedil;&atilde;o de um "teorema unit&aacute;rio impratic&aacute;vel"    &#151; baseado nas solu&ccedil;&otilde;es homogeneizantes modernistas &#151; por um modelo    mais liberal, atrav&eacute;s do qual "os novos projetistas operam em um    contexto produtivo internacional (e em primeiro plano na It&aacute;lia), superam    a refer&ecirc;ncia &uacute;nica da ind&uacute;stria local brasileira, desfrutam    da globaliza&ccedil;&atilde;o para veicular os seus signos inovadores, sem precisar    verific&aacute;&#45;los sobre o contexto latino&#45;americano" (4). Os designers    passam, assim, a se encaixar nas tend&ecirc;ncias internacionais, filtradas    por sua personalidade individual, abandonando a busca de uma identidade &uacute;nica    local &#151; a qual, segundo Branzi, parece n&atilde;o existir. O internacionalismo    em que os designers da "nova constela&ccedil;&atilde;o" operam diz    respeito &agrave; liberdade, ao individualismo, &agrave; vis&atilde;o do detalhe    &#151; dentro de uma vis&atilde;o p&oacute;s&#45;moderna, pela qual o autor milita.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O enfoque p&oacute;s&#45;moderno tem o m&eacute;rito de introduzir    a incerteza no discurso organizacional, mostrando que n&atilde;o se pode confiar    em um futuro determinado, de progresso cont&iacute;nuo, avalizado pela evolu&ccedil;&atilde;o    da tecnologia (5). Por&eacute;m, se por um lado os p&oacute;s&#45;modernos reconhecem    os diversos n&iacute;veis de comunica&ccedil;&atilde;o e intera&ccedil;&atilde;o,    o resultado, de seu ponto de vista, &eacute; a fragmenta&ccedil;&atilde;o do    mundo, que gera a impossibilidade de qualquer planejamento. Os pensadores sist&ecirc;micos    concordam que a incerteza &eacute; determinante, mas, para eles, &eacute; imprescind&iacute;vel    que as pessoas possam vislumbrar um futuro melhor (5), o que os leva a procurar    respostas para esse paradoxo, elaborando novas formas de conhecimento, mesmo    que estas n&atilde;o sejam baseadas na previs&atilde;o. A vis&atilde;o sist&ecirc;mica    coloca&#45;se, assim, como um enfoque alternativo, capaz de esclarecer e situar    a complexidade da interconex&atilde;o entre os n&iacute;veis de comunica&ccedil;&atilde;o    e as escalas de articula&ccedil;&atilde;o do design com outras inst&acirc;ncias,    tais como a economia e a sociedade.</font></P>     <p><font size="3">A Teoria dos Sistemas foi elaborada nos anos 1950 por pioneiros    que tinham em comum a necessidade de uma vis&atilde;o unificada para compreender    e lidar com os n&iacute;veis crescentes de complexidade na apreens&atilde;o    da vida. Eles desenvolveram uma perspectiva transdisciplinar que enfatizava    a ordem intr&iacute;nseca e a interdepend&ecirc;ncia do mundo em todas as suas    manifesta&ccedil;&otilde;es e considerava a exist&ecirc;ncia de sistemas, estabelecidos    mediante a intera&ccedil;&atilde;o entre suas partes (6). Essa vis&atilde;o    evoluiu gerando, principalmente nas d&eacute;cadas de 1970 e 1980, modelos que    descrevem aspectos da vida e da sociedade, baseados no conceito de auto&#45;organiza&ccedil;&atilde;o:    esse conceito parte do princ&iacute;pio de que as mudan&ccedil;as no meio causam    "irrita&ccedil;&otilde;es" no sistema, que reage provocando uma recombina&ccedil;&atilde;o    interna de seus elementos para criar novas estruturas e modos de comportamento.    </font></P>     <p><font size="3">Dentro dessa perspectiva, os problemas que o design brasileiro    enfrentou, quando colocado sob o enfoque da gest&atilde;o de empresas no contexto    de industrializa&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada, n&atilde;o se inserem dentro    de uma rela&ccedil;&atilde;o linear enquanto efeito de direcionamentos tais    como as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que incentivaram o modelo de substitui&ccedil;&atilde;o    de importa&ccedil;&otilde;es, ou a implementa&ccedil;&atilde;o pontual da gest&atilde;o    racional do design; tamb&eacute;m n&atilde;o foram consequ&ecirc;ncia exclusiva    da ado&ccedil;&atilde;o dos modelos funcionalistas de Ulm, ou da restri&ccedil;&atilde;o    de liberdade criativa de um regime pol&iacute;tico totalit&aacute;rio: eles    surgiram da evolu&ccedil;&atilde;o de todo um conjunto de circunst&acirc;ncias    &#151; estas e ainda outras &#151; que "irritaram" o sistema socioecon&ocirc;mico    brasileiro, do qual o sistema de design ainda n&atilde;o tinha se diferenciado.    A organiza&ccedil;&atilde;o das estruturas de pr&aacute;tica de design e as    modalidades de projeto que passaram a ser utilizadas emergiram da acomoda&ccedil;&atilde;o    do sistema ao meio. </font></P>     <p><font size="3">Em contraposi&ccedil;&atilde;o ao design estrat&eacute;gico    existiu, assim, um outro direcionamento de design, que se originou de uma heran&ccedil;a    artesanal dilu&iacute;da, portadora de alguns componentes da base cultural e    &eacute;tnica brasileira, incluindo tamb&eacute;m a constante influ&ecirc;ncia    europeia a que esta foi submetida. Sem as interfer&ecirc;ncias externas, esse    design dito artesanal poderia ter eventualmente evolu&iacute;do, passando por    uma etapa intermedi&aacute;ria de consolida&ccedil;&atilde;o, at&eacute; se    transformar em design industrial e eventualmente criar ramifica&ccedil;&otilde;es    especializadas, como o pr&oacute;prio design estrat&eacute;gico. Mas a evolu&ccedil;&atilde;o    do sistema econ&ocirc;mico ocorreu dentro de uma din&acirc;mica mais acelerada,    em articula&ccedil;&atilde;o com a evolu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica global    &#151; e tentou se especializar em um subsistema de design estrat&eacute;gico &#151; voltado    para o mercado &#151; antes da evolu&ccedil;&atilde;o do artesanato ter alcan&ccedil;ado    esse est&aacute;gio: a vertente artesanal e a vertente industrial nada mais    s&atilde;o, portanto, do que a express&atilde;o da dial&eacute;tica global/local    no design.</font></P>     <p><font size="3"><B>C&Oacute;PIA DE IMPORTADOS </b>Em consequ&ecirc;ncia das    modalidades de industrializa&ccedil;&atilde;o operantes no Brasil, em que os    produtos das multinacionais n&atilde;o eram desenvolvidos localmente e as pr&oacute;prias    ind&uacute;strias locais copiavam e adaptavam produtos importados, o design    estrat&eacute;gico brasileiro n&atilde;o encontrou espa&ccedil;o pr&oacute;prio    de express&atilde;o (7). Com a introdu&ccedil;&atilde;o de esfor&ccedil;os orquestrados    de utiliza&ccedil;&atilde;o do design como ferramenta de competitividade e para    agregar valor aos produtos, o sistema sofreu influ&ecirc;ncias de seu entorno,    evoluiu internamente e originou alguns novos "fen&oacute;tipos", mais    ou menos adaptados. Os talentos individuais a que Branzi se refere s&atilde;o    resultado dessa evolu&ccedil;&atilde;o: se as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    n&atilde;o geraram o efeito pretendido, por certo s&atilde;o respons&aacute;veis    &#151; ao menos em parte &#151; pela nova gera&ccedil;&atilde;o de designers, articulada    com o global, mas n&atilde;o necessariamente atrav&eacute;s da ind&uacute;stria    brasileira.</font></P>     <p><font size="3">A pol&iacute;tica de desenvolvimento procura acelerar o processo    evolutivo dos sistemas no &acirc;mbito do territ&oacute;rio nacional, mas nem    sempre os objetivos s&atilde;o alcan&ccedil;ados: "dentro de sistemas sociais    organizados, as chances s&atilde;o relativamente grandes de que atividades sejam    desenvolvidas como esquematizadas. Isto n&atilde;o significa, necessariamente,    que os efeitos ocorram conforme pretendido" (8). Assim, apesar do planejamento    introduzir uma "irrita&ccedil;&atilde;o" em um sistema, n&atilde;o    se pode prever o resultado da intrincada intera&ccedil;&atilde;o entre os fatores    internos que define a dire&ccedil;&atilde;o na qual este sistema vai evoluir:    ocorrem mudan&ccedil;as, mas raramente elas correspondem aos resultados que    foram planejados. </font></P>     <p><font size="3">A ind&uacute;stria brasileira n&atilde;o se destaca hoje por    sua competitividade e n&atilde;o criou uma identidade forte (7). Talvez devido    &agrave; dificuldade do design em se articular internamente dentro de um modelo    for&ccedil;ado, a reprodu&ccedil;&atilde;o do sistema tenha se dado no sentido    da articula&ccedil;&atilde;o com a esfera global. A natureza dos mecanismos    da sele&ccedil;&atilde;o no sistema permanece uma hip&oacute;tese, mas certamente    Branzi (2) aponta para uma das dire&ccedil;&otilde;es prov&aacute;veis: &eacute;    mais f&aacute;cil para os designers brasileiros se integrarem &agrave;s experimenta&ccedil;&otilde;es    criativas como as atualmente em curso na It&aacute;lia, com a busca de valores    p&oacute;s&#45;materiais, do que &agrave;s tentativas de criar uma identidade &uacute;nica    que nunca existiu neste pa&iacute;s, dentro de metodologias que n&atilde;o correspondem    &agrave;s realidades locais. O resultado &eacute; um di&aacute;logo essencialmente    global que, muitas vezes, sequer transita pelo local, e n&atilde;o traz maiores    contribui&ccedil;&otilde;es para a ind&uacute;stria brasileira, alvo inicial    das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.</font></P>     <p><font size="3">Por outro lado, na evolu&ccedil;&atilde;o da vertente artesanal    do design no Brasil, desvinculado da grande ind&uacute;stria, o mecanismo de    sele&ccedil;&atilde;o do sistema parece estar sendo a compatibilidade com uma    tend&ecirc;ncia social mais ampla, que privilegia a perenidade, a tradi&ccedil;&atilde;o,    bem como o respeito ambiental, fundamentando o seu sentido e o seu valor. Isso    explicaria os bons resultados obtidos por um outro grupo de designers de sucesso,    embora sem renome internacional, uma vez que est&atilde;o articulados &agrave;    produ&ccedil;&atilde;o de pequenas e m&eacute;dias empresas. Branzi os designa    como os "pais fundadores de uma tend&ecirc;ncia" (9), mas subestima,    talvez, a especificidade e reprodu&ccedil;&atilde;o desse grupo, com uma repercuss&atilde;o    mais conectada com as realidades locais e regionais e voltada para um desenvolvimento    end&oacute;geno &#151; embora em sintonia com um campo de produ&ccedil;&atilde;o    cultural global. Esse tipo de design evolui em torno da atividade artesanal,    incentivada por algumas institui&ccedil;&otilde;es e pol&iacute;ticas de desenvolvimento    a construir uma etapa intermedi&aacute;ria de corporativismo manufatureiro &#151;    cuja inexist&ecirc;ncia no passado a arquiteta Lina Bo Bardi apontara. </font></P>     <p><font size="3">Esse direcionamento artesanal abriga, entretanto, um paradoxo:    a tradi&ccedil;&atilde;o emergiu em uma sociedade que n&atilde;o mais existe,    seja em termos de sistema de comunica&ccedil;&atilde;o, seja em termos de formas    de diferencia&ccedil;&atilde;o: a manuten&ccedil;&atilde;o de determinadas peculiaridades    do trabalho tradicional faz com que ele se transforme em objeto de desejo de    um consumo que pertence a novas esferas, e que demanda, para sua satisfa&ccedil;&atilde;o,    caracter&iacute;sticas produtivas com ele incompat&iacute;veis.</font></P>     <p><font size="3">Essa &eacute; a origem de muitas dificuldades que as institui&ccedil;&otilde;es    promotoras do desenvolvimento encontram, na implanta&ccedil;&atilde;o do design    estrat&eacute;gico junto a sociedades tradicionais. A integra&ccedil;&atilde;o    definitiva do design artesanal ao desenvolvimento regional conduz &agrave; tentativa    de conjugar a tradi&ccedil;&atilde;o &agrave; ind&uacute;stria &#151; n&atilde;o    artesanal por ess&ecirc;ncia &#151; e pode levar ao esvaziamento de sua capacidade    narrativa, transformando os objetos em mero pastiche, reduzindo&#45;os a imagens    de f&aacute;cil consumo. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>PASSADO <i>VERSUS </i>FUTURO </b>A promo&ccedil;&atilde;o    de uma tradi&ccedil;&atilde;o <I>ensaiada </I>&#151; uma vez que promovida por metodologias    elaboradas para aplica&ccedil;&atilde;o generalizada &#151; mostra&#45;se extremamente    problem&aacute;tica: a tentativa de expressar o passado entra em contradi&ccedil;&atilde;o    com a necessidade de antecipa&ccedil;&atilde;o das necessidades reais dos usu&aacute;rios    do futuro &#151; objeto das estrat&eacute;gias de satisfa&ccedil;&atilde;o do mercado.</font></P>     <p><font size="3">Adicionalmente, a busca de uma articula&ccedil;&atilde;o de    mercado com a escala global antes de se consolidarem os elos regionais, direcionamento    corrente de certas metodologias, constitui um problema de dif&iacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o.    Dessa forma, a diferencia&ccedil;&atilde;o do design&#45;artesanal enquanto sistema    e a sua eventual integra&ccedil;&atilde;o a cadeias de valor existentes insinuam&#45;se    de forma contradit&oacute;ria.</font></P>     <p><font size="3">Branzi (9), fundamentando&#45;se basicamente na sua quase f&eacute;    na din&acirc;mica p&oacute;s&#45;moderna e na capacidade individual dos designers,    faz um progn&oacute;stico otimista para a evolu&ccedil;&atilde;o do design brasileiro,    dentro de um "contexto de multiplicidade criativa". Esse contexto    diz respeito a uma maior liberdade para a consci&ecirc;ncia individual, que    n&atilde;o &eacute;, entretanto, aut&ocirc;noma e independente: ela est&aacute;    inserida em um meio, com o qual interage; a articula&ccedil;&atilde;o dos "novos    talentos" em uma escala global repercute e cria press&otilde;es locais.    Essas press&otilde;es v&atilde;o afetar a comunica&ccedil;&atilde;o do design    artesanal e a evolu&ccedil;&atilde;o do sistema, que dever&aacute; lidar com    contradi&ccedil;&otilde;es e paradoxos em sua reprodu&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o parece evidente que os mecanismos de sele&ccedil;&atilde;o operem    no sentido de encontrar solu&ccedil;&otilde;es para regi&otilde;es brasileiras    menos industrializadas ou para o desenvolvimento end&oacute;geno.</font></P>     <p><font size="3">Por outro lado, se &eacute; verdade que o desempenho de talentos    individuais ou as a&ccedil;&otilde;es de l&iacute;deres e estrategistas n&atilde;o    podem definir os rumos da evolu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o dever&aacute; ser    o simples abandono de um direcionamento modernista racionalista que vai garantir    o seu bom encaminhamento. </font></P>     <p><font size="3">Cada vez mais, vem surgindo um consenso sobre a necessidade    de redes de aprendizado auto&#45;organizadas que privilegiem a criatividade para    lidar com a complexidade do meio e das oportunidades. Se a &ecirc;nfase excessiva    na ordem e na organiza&ccedil;&atilde;o dificulta as adapta&ccedil;&otilde;es,    o excesso de desordem n&atilde;o permite uma boa utiliza&ccedil;&atilde;o dos    recursos e leva &agrave; perda de oportunidades e &agrave; falta de suporte    para a estabilidade.</font></P>     <p><font size="3">Apesar de sua maior indulg&ecirc;ncia com o modernismo, o enfoque    sist&ecirc;mico converge com o p&oacute;s&#45;moderno quando considera a vis&atilde;o    un&iacute;voca como deficiente, uma vez que cria uma armadilha conceitual: &eacute;    necess&aacute;rio que haja uma pluralidade de agendas, desafios e aspira&ccedil;&otilde;es,    j&aacute; que uma cultura homog&ecirc;nea pode tolher a criatividade (5). </font></P>     <p><font size="3">As pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para o design no Brasil    continuam se baseando no design estrat&eacute;gico, que se alia &agrave;s metodologias    participativas de promo&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento sustent&aacute;vel,    tais como os Arranjos Produtivos Locais (APL). A busca de inova&ccedil;&atilde;o    atrav&eacute;s do design &eacute; uma das principais ferramentas utilizadas    para melhoria de qualidade da produ&ccedil;&atilde;o. Entretanto, embora as    metodologias tenham se aprimorado e se flexibilizado nos &uacute;ltimos anos,    a sua aplica&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o consegue estimular de forma satisfat&oacute;ria    as redes de aprendizado auto&#45;organizadas.</font></P>     <p><font size="3">A inser&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es de design sob    a tutela do setor de tecnologia nos APL fica, de certa forma, circunscrita ao    sistema produtivo, sob o efeito do que Veiga (10) caracteriza como uma "l&oacute;gica    dos meios"; ela est&aacute; ligada    a um pensamento dentro do qual a interven&ccedil;&atilde;o do Estado, mesmo    com o objetivo de regular as assimetrias do mercado, acaba restringindo&#45;o ao    exerc&iacute;cio da fun&ccedil;&atilde;o de "selecionador da lei da oferta    e da procura" (11), deixando, em segundo plano, outras frentes de a&ccedil;&atilde;o    mais criativas.</font></P>     <p><font size="3">Adicionalmente, apesar de sua import&acirc;ncia na regula&ccedil;&atilde;o    da desordem social e ambiental provocada pela globaliza&ccedil;&atilde;o, a    preocupa&ccedil;&atilde;o com o meio ambiente n&atilde;o tem sido necessariamente    contemplada pelo direcionamento estrat&eacute;gico do design. </font></P>     <p><font size="3">A possibilidade da reintegra&ccedil;&atilde;o do reformismo    social dentro de uma nova conforma&ccedil;&atilde;o do design vai depender da    evolu&ccedil;&atilde;o do sistema, e das rela&ccedil;&otilde;es que estabelecer    com os sistemas da cultura, da ci&ecirc;ncia, da economia, da pol&iacute;tica.    Nessa perspectiva, o design poderia se constituir em materializa&ccedil;&atilde;o    de um ato pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gico na reivindica&ccedil;&atilde;o da    mudan&ccedil;a do paradigma de explora&ccedil;&atilde;o insustent&aacute;vel    da natureza. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas a verdade &eacute; que o futuro &eacute; fundamentalmente    imprevis&iacute;vel e quaisquer progn&oacute;sticos s&atilde;o sempre problem&aacute;ticos.    O ponto de partida para as pol&iacute;ticas de desenvolvimento &eacute; a constata&ccedil;&atilde;o    de que a complexidade do mundo n&atilde;o &eacute; domin&aacute;vel e que uma    pluralidade de descri&ccedil;&otilde;es pode dar uma vis&atilde;o enriquecida,    que aprimore a compreens&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o. "A vis&atilde;o    realista &eacute; t&atilde;o problem&aacute;tica quanto a ado&ccedil;&atilde;o    de ideais sem refer&ecirc;ncia &agrave; realidade" (12). </font></P>     <p><font size="3">Assim, existe a necessidade de se desenvolver uma compreens&atilde;o    realista do contexto em que se trabalha, mas deve haver tamb&eacute;m o desenvolvimento    da pluralidade de tal interpreta&ccedil;&atilde;o. As diversas metodologias    sist&ecirc;micas parecem adequadas para tal, uma vez que se baseiam na elabora&ccedil;&atilde;o    de sentidos e vis&otilde;es mais do que planejamento de programas espec&iacute;ficos    a serem seguidos (12). </font></P>     <p><font size="3">&Eacute; certo que os rumos do design brasileiro n&atilde;o    podem ser definidos &#151; mas, seja dentro de uma perspectiva p&oacute;s&#45;moderna    ou de uma perspectiva sist&ecirc;mica, &eacute; importante que se reflita sobre    o futuro e que se d&ecirc; conta da necessidade de um projeto de aprendizado    cont&iacute;nuo &#151; com a participa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; de <I>experts,</I>    mas tamb&eacute;m de todos os envolvidos na produ&ccedil;&atilde;o &#151; como premissa    para qualquer esbo&ccedil;o de planejamento ou de pol&iacute;tica p&uacute;blica.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Maria Luiza A. C. de Castro</b> &eacute; professora assistente    na Faculdade de Arquitetura Urbanismo e Design da Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia    e doutoranda em desenvolvimento sustent&aacute;vel pelo N&uacute;cleo de Altos    Estudos da Amaz&ocirc;nia (UFPA). Foi consultora de design do Sebrae&#45;AP entre    2004 e 2006. </i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Magalh&atilde;es, C.F. "Design estrat&eacute;gico &#151;    Integra&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o do desenho industrial baseado    no mercado". Rio de Janeiro. Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado defendida    no Departamento de Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o, Coppe, Universidade    Federal do Rio de Janeiro(UFRJ).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050438&pid=S0009-6725200900030002000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Branzi, A. "O Brasil como modelo do mundo". <I>In</I>:    Moraes, D. <I>An&aacute;lise do design brasileiro:    entre mimese e mesti&ccedil;agem</I>. S&atilde;o Paulo: Edgar Bl&uuml;cher.    2006. p.3&#45;17.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050440&pid=S0009-6725200900030002000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <p><font size="3">3. Branzi, A. <I>op cit</I>. p. 13.</font></P>     <p><font size="3">4. Branzi, A. <I>op cit</I>. p. 17.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Montuori, A.; Purser, R. "Ecological futures: systems    theory, postmodernism, and participative learning in an age of uncertainty".    <I>In</I>: D. Boje; D. Gephart; ; T. Joseph, (Ed.). <I>Postmodernism and organization    theory</I> . Newbury Park: Sage. 1996. p.181&#45;201.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050444&pid=S0009-6725200900030002000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Banathy, B. H. "The evolution of systems inquiry".    The first international electronic seminar on wholeness, 2000. Dispon&iacute;vel    em <a href="http://www.newciv.org/ISSS_Primer/seminar.html" target="_blank">http//:    www.newciv.org/ISSS_Primer/seminar.html</a>, (acesso em 27/03/2007).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050446&pid=S0009-6725200900030002000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7. Moraes, D. <I>An&aacute;lise do design brasileiro: entre    mimese e mesti&ccedil;agem</I>. S&atilde;o Paulo, Edgar Blucher, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050448&pid=S0009-6725200900030002000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Ara&uacute;jo, C.; Waitzbort, L. "Sistema e evolu&ccedil;&atilde;o    na teoria de Luhmann". <I>Lua Nova</I>, n.47, p.179&#45;200, 1999. p.192.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050450&pid=S0009-6725200900030002000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">9. Branzi, A. <I>op cit.</I> p. 16. </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Veiga, E. <I>Desenvolvimento sustent&aacute;vel: o desafio    do s&eacute;culo XXI. </I>Rio de Janeiro: Garamond. 2005. p.31.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050453&pid=S0009-6725200900030002000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Olivieri, C. G. <I>Cultura neoliberal &#151; leis de incentivo    como pol&iacute;tica p&uacute;blica de cultura. </I>S&atilde;o Paulo: Editora    Escrituras/Instituto Pensarte. 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050455&pid=S0009-6725200900030002000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12. Montuori, A.; Conti, I. <I>From power to partnership</I>.    San Francisco: Harper, 1993. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.ciis.edu/faculty/articles/ montuori/strategicplanning.pdf" target="_blank">http//:www.ciis.edu/faculty/articles/    montuori/strategicplanning.pdf</a>; (acesso em 04/06/2008).</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=050457&pid=S0009-6725200900030002000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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