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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uso de tecnologias prepara crianças a se tornarem cidadãs do mundo moderno]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/mundo.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>ENTREVISTA: LEO BURD</b></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n3/line_blk.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Uso de tecnologias prepara crian&ccedil;as a se tornarem    cidad&atilde;s do mundo moderno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a07img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O brasileiro Leo Burd assumiu recentemente o cargo de pesquisador    no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, com a    meta de concretizar um sonho: criar e implementar tecnologias para estimular    crian&ccedil;as a participar efetivamente como cidad&atilde;s em suas comunidades,    especialmente as carentes. Interligando mapas, internet e telefonia, Burd acredita    que a tecnologia, aliada a outras a&ccedil;&otilde;es, &eacute; uma ferramenta    importante de empoderamento social desse grupo que, segundo ele, &eacute; marginalizado    de maneira n&atilde;o &oacute;bvia. "Colocamos muita expectativa em cima    dos jovens, o futuro est&aacute; em suas m&atilde;os, mas nunca ajudamos a prepar&aacute;&#45;los    para que se tornem cidad&atilde;os do mundo moderno".</font></p>     <p><font size="3">Formado em ci&ecirc;ncias da computa&ccedil;&atilde;o pelo Instituto    Tecnol&oacute;gico de Aeron&aacute;utica (ITA), Burd desenvolveu softwares para    educa&ccedil;&atilde;o durante o seu mestrado na Universidade Estadual de Campinas    (Unicamp) e buscou novos m&eacute;todos para pensar tecnologias para crian&ccedil;as    em seu doutoramento pelo MIT. Nesta entrevista, realizada em seu escrit&oacute;rio    no Media Lab, em Cambridge, ele conta sobre o rec&eacute;m lan&ccedil;ado Department    of Play (DoP) &#150; aqui traduzido como Secretaria do Brincar &#150; do qual ele &eacute;    co&#45;fundador. Destacou como as ideias do arquiteto Nicholas Negroponte, cofundador    do Media Lab, se concatenaram para criar um ambiente de est&iacute;mulo &agrave;    criatividade e experimenta&ccedil;&atilde;o, em um local que inova nos m&eacute;todos    de desenvolvimento de novas tecnologias e novas m&iacute;dias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B><I>Quais s&atilde;o os objetivos do Minist&eacute;rio do    Brincar?</I></B></font></p>     <p><font size="3">O DoP &eacute; recente, foi fundado em novembro do ano passado.    Nosso objetivo &eacute; criar incentivos para ajudar crian&ccedil;as a se tornarem    cidad&atilde;s ativas em suas comunidades locais, redescobrindo a rua, explorando    o bairro de uma forma que seja interessante para elas e que contribua para que    tenham uma participa&ccedil;&atilde;o ativa nas decis&otilde;es n&atilde;o s&oacute;    do bairro, mas tamb&eacute;m de suas vidas. Acreditamos que a tecnologia pode    ajudar nisso, de muitas maneiras. </font></p>     <p><font size="3"><B><I>Por que o foco em crian&ccedil;as? </I></B></font></p>     <p><font size="3">As crian&ccedil;as, hoje em dia, s&atilde;o muito oprimidas    ou deixadas de lado, tanto em fam&iacute;lias de baixa quanto de alta renda.    S&atilde;o marginalizadas de uma maneira n&atilde;o &oacute;bvia. A crian&ccedil;a    vai para escola de manh&atilde;, faz alguma atividade e depois volta para casa.    O tipo de contato que ela tem com o mundo externo e com a sociedade de uma forma    mais ampla &eacute; muito restrito. E o contato com os adultos tende a ser muito    de cima para baixo, muito dirigido. A crian&ccedil;a que sempre teve que obedecer    ordens e ficar em ambientes condicionados, de repente completa 18 anos e &eacute;    considerada cidad&atilde; do mundo. Que opini&atilde;o essa pessoa vai ter se    nunca teve oportunidade de testar suas pr&oacute;prias ideias no mundo? Colocamos    muita expectativa em cima dos jovens, o futuro est&aacute; em suas m&atilde;os,    mas nunca ajudamos a prepar&aacute;&#45;los para que se tornem cidad&atilde;os do    mundo moderno; &eacute; uma &aacute;rea muito deficiente.</font></p>     <p><font size="3"><B><I>Quais ferramentas voc&ecirc;s est&atilde;o desenvolvendo    para as crian&ccedil;as e quais os impactos observados?</I></B></font></p>     <p><font size="3">&Eacute; tudo muito recente, n&atilde;o podemos falar em impacto    ainda. Estamos focando o nosso trabalho principalmente em duas ferramentas.    Uma delas, desenvolvida por Jeffrey Warren, do Grassroots Mapping &#91;mapeamento    "do povo"&#93;, permite que as pr&oacute;prias crian&ccedil;as fa&ccedil;am    o mapeamento do bairro em que moram. A outra, chamada "What's Up?"    &#91;e a&iacute;?&#93;, vem sendo desenvolvida desde o meu doutorado, e &eacute; um    sistema de not&iacute;cias do bairro combinando telefone com computador.</font></p>     <p><font size="3">Para o mapeamento do bairro, uma c&acirc;mara fotogr&aacute;fica    de baixo custo &eacute; presa a um bal&atilde;o ou a uma pipa, a crian&ccedil;ada    sai carregando o bal&atilde;o ou a pipa pela comunidade e a c&acirc;mera tira    fotografias a cada 10 segundos. Depois elas baixam o bal&atilde;o, pegam as    fotografias e p&otilde;em no computador. Desenvolvemos um software que as ajuda    a organizar as fotos e a criar mapas das comunidades. Elas podem fazer anota&ccedil;&otilde;es    dos lugares que gostam ou n&atilde;o, onde moram, onde &eacute; a escola. O    enfoque que estamos trazendo para o trabalho do Jeff, por meio do DoP, &eacute;    como tornar essas ferramentas acess&iacute;veis para as crian&ccedil;as, principalmente    por meio de um editor de mapas para crian&ccedil;as que seja f&aacute;cil de    ser usado, ic&ocirc;nico, que permita que elas marquem pontos no mapa, gravem    hist&oacute;rias, associem hist&oacute;rias com os diferentes lugares usando    a voz. A voz &eacute; subutilizada em computa&ccedil;&atilde;o hoje. O fato    de voc&ecirc; poder gravar sua voz e ouvir seu sotaque, os ru&iacute;dos do    ambiente, &eacute; algo muito pessoal e significativo.</font></p>     <p><font size="3">Jeffrey trabalhou muito com uma favela em Lima, no Peru, e era    uma favela que pelo mapa oficial da cidade s&oacute; tinha duas ruas, mas entre    essas duas ruas moram dez mil pessoas. Os l&iacute;deres comunit&aacute;rios    come&ccedil;aram a ver os mapas como um &oacute;timo recurso para organiza&ccedil;&atilde;o    da comunidade e marca&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas que precisam de maior    enfoque. &Eacute; divertido, simples e f&aacute;cil de montar.</font></p>     <p><font size="3"><B><I>E como funciona o sistema de not&iacute;cias do bairro?</I></B></font></p>     <p><font size="3">A ideia do "What's Up?" &eacute; desenvolver uma ferramenta    que n&atilde;o exija que as crian&ccedil;as tenham acesso frequente ao computador    nem que sejam alfabetizadas. Ligando para um n&uacute;mero gratuito ou acessando    o site, as crian&ccedil;as podem organizar eventos no bairro, como festas, jogos,    apresenta&ccedil;&otilde;es, discuss&otilde;es pol&iacute;ticas, justamente    para quebrar a barreira de que n&atilde;o sabemos o que est&aacute; acontecendo    no bairro. Queremos colocar as crian&ccedil;as n&atilde;o s&oacute; como rep&oacute;rteres,    mas tamb&eacute;m como agentes da organiza&ccedil;&atilde;o desses eventos.    Acreditamos que nesse processo, a crian&ccedil;ada &eacute; for&ccedil;ada a    entender como a comunidade funciona. Precisam entrar em contato com o governo    local se querem bloquear a rua, com os comerciantes para conseguir materiais    emprestados para a festa. Acabam se expondo mais, mas de uma maneira positiva.    H&aacute; muitos projetos em que as crian&ccedil;as identificam problemas no    bairro, mas isto tende a coloc&aacute;&#45;las em uma posi&ccedil;&atilde;o de confronto    e relatam problemas. Se a crian&ccedil;ada gosta de jogar bola, ent&atilde;o    vamos organizar um campeonato; tudo em cima de atividades que elas j&aacute;    estejam interessadas, mas ampliando para o resto da comunidade. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O sistema pode ser acessado tanto via telefone comum, como via    computador. Todos que se registram ganham uma conta, um ramal pessoal e uma    caixa de mensagem de voz. Ao acessar o sistema, a crian&ccedil;a entra no menu    principal, que apresenta uma s&eacute;rie de possibilidades: deixar um recado    gravado para um amigo ou para um grupo, gravar an&uacute;ncios para a comunidade,    divulgar eventos. O sistema &eacute; interligado, ou seja, se a crian&ccedil;a    gravar um an&uacute;ncio de evento via telefone, a mesma informa&ccedil;&atilde;o    ficar&aacute; tamb&eacute;m dispon&iacute;vel no site. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a07img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Quando comecei a desenvolver a tecnologia, minha ideia era criar    um sistema de telefonia para crian&ccedil;as, mas a crian&ccedil;ada quis um    portal na internet, algo mais concreto, que pudessem fazer refer&ecirc;ncia.    Criamos um site com um mecanismo para gravarem suas pr&oacute;prias vozes. Ficaram    muito contentes at&eacute; que descobriram que o sistema tinha mais de mil mensagens    para serem gravadas. Come&ccedil;aram a gravar, ficaram cansados, e no sistema    final o resultado foi a combina&ccedil;&atilde;o de diversas vozes. Menina,    rapaz, computador: a voz da comunidade, o que foi muito interessante. Um efeito    colateral disso &eacute; que hoje fica relativamente f&aacute;cil traduzir o    sistema para v&aacute;rias l&iacute;nguas. Crian&ccedil;as com dialeto na &Iacute;ndia,    &iacute;ndios mexicanos usando o sistema com a voz deles, gente no Brasil falando    tupi, e por a&iacute; vai.</font></p>     <p><font size="3">Estamos revivendo o "What's Up?" e pretendemos integr&aacute;&#45;lo    ao sistema de mapeamento. Ser&aacute; poss&iacute;vel, por exemplo, mandar mensagem    para todos que moram em uma determinada rua, ou que moram a uma certa dist&acirc;ncia    da sua organiza&ccedil;&atilde;o. H&aacute; uma s&eacute;rie de aplica&ccedil;&otilde;es.    A mensagem pode ser de texto (via torpedo de celular), email, pode ser um telefonema    ou uma mensagem de voz. O sistema vai mostrar no mapa quem recebeu as mensagens    de voz, possibilitando identificar se &eacute; preciso alterar a forma de comunica&ccedil;&atilde;o.    Um sistema que virtualmente alcance todos na comunidade e que incentive a participa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a07img03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A ideia &eacute; que tudo seja feito em software aberto e que    possamos demonstrar o uso dessa ferramenta, mas que seja um convite para que    outras pessoas possam colaborar e criem novas funcionalidades em cima da tecnologia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B><I>Voc&ecirc; sonha com uma gera&ccedil;&atilde;o mais cidad&atilde;,    mais participativa?</I></B></font></p>     <p><font size="3">As tecnologias de hoje ajudam, de certa forma, a quebrar as    barreiras de espa&ccedil;o e tempo. &Eacute; f&aacute;cil receber not&iacute;cias    do Jap&atilde;o, saber o que est&aacute; acontecendo nos Estados Unidos, mas    saber o que est&aacute; acontecendo no seu bairro &eacute; muito dif&iacute;cil.    E as crian&ccedil;as est&atilde;o cada vez mais confinadas &agrave;s suas casas,    escolas, centros comunit&aacute;rios. Existem muitas iniciativas de governo    e funda&ccedil;&otilde;es que focam na ideia de se trazer tecnologias para comunidades    carentes, disponibilizando acesso &agrave; internet, por exemplo, mas a maior    parte das ferramentas s&atilde;o ou muito complexas e dif&iacute;ceis de serem    usadas, ou n&atilde;o oferecem funcionalidade que seja apropriada para crian&ccedil;as.    O foco normalmente &eacute; em adolescentes para cima. E o que acontece com    a crian&ccedil;ada? Ela se perde. Iniciativas recentes como a do computador    de 100 d&oacute;lares, a do "um laptop por crian&ccedil;a" (one laptop    per child, OLPC), e outras, ajudaram a trazer um pouco mais de aten&ccedil;&atilde;o    para as crian&ccedil;as, mas precisamos fazer muito mais para vermos um real    impacto. Pensando em desenvolvimento de sociedades democr&aacute;ticas, &eacute;    vital que a gente foque em crian&ccedil;as.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Cristina Caldas</I></font></p>      ]]></body>
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