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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/tendencias.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size=5><b>Nova arquitetura curricular na universidade    Brasileira</b></font></P>     <P align="center"><font size="3"><b><i>Naomar de Almeida Filho    <br>   </i></b></font><font size="3"><b><i>Denise Coutinho</i></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A</b></font> <font size="3">universidade &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o hipercomplexa, criada na Europa Ocidental h&aacute; mil anos. Foi concebida inicialmente para guardar e proteger os valores da civiliza&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, transformou&#45;se, em longa e rica hist&oacute;ria, e passou a cumprir m&uacute;ltiplas fun&ccedil;&otilde;es, promovendo inova&ccedil;&atilde;o na cultura e na sociedade.</font></P>     <P><font size="3"> No contexto atual, &eacute; preciso diferenciar fun&ccedil;&otilde;es de educa&ccedil;&atilde;o superior das fun&ccedil;&otilde;es de universidade. As primeiras compreendem, sobretudo, forma&ccedil;&atilde;o de quadros t&eacute;cnicos, compreendendo sujeitos produtores de aplica&ccedil;&otilde;es, t&eacute;cnicas e pr&aacute;ticas, e reprodutores de conhecimento e de ideologia (professores e educadores). Isso se faz com acumula&ccedil;&atilde;o de capital simb&oacute;lico mediante aplica&ccedil;&atilde;o de conhecimento disciplinar, resultando em habilita&ccedil;&atilde;o de carreiras profissionais.</font></P>     <P><font size="3"> As fun&ccedil;&otilde;es de universidade s&atilde;o mais amplas, implicando forma&ccedil;&atilde;o de intelectuais; al&eacute;m de atuar como institui&ccedil;&atilde;o de ensino superior, responsabiliza&#45;se pela forma&ccedil;&atilde;o de produtores de conhecimentos (pesquisadores e criadores). A universidade &eacute; produtora e n&atilde;o apenas deposit&aacute;ria e repassadora de capital simb&oacute;lico. Mais do que isso, promove as culturas human&iacute;stica, art&iacute;stica e cient&iacute;fica. Em algumas sociedades, por acr&eacute;scimo, responsabiliza&#45;se pela certifica&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplas carreiras profissionais. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">No Brasil, entretanto, o treinamento profissional tem sido o foco principal da forma&ccedil;&atilde;o. A universidade tem sido poli&#45;profissional e multidisciplinar. Podemos torn&aacute;&#45;la supra&#45;profissional e interdisciplinar &#150; no limite, transdisciplinar.</font></P>     <P><font size="3"> A consolida&ccedil;&atilde;o da democracia brasileira, a partir da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, desencadeou eventos e processos que indicam maturidade institucional. Primeiro, a estabiliza&ccedil;&atilde;o e amplia&ccedil;&atilde;o do financiamento do sistema de ci&ecirc;ncia e tecnologia (C&amp;T) e do fomento &agrave; cultura resultaram em excepcional crescimento da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. Segundo, a recente implanta&ccedil;&atilde;o do Reuni (Reestrutura&ccedil;&atilde;o e Expans&atilde;o das Universidades Federais), mediante planos de metas, articulados a sistemas de avalia&ccedil;&atilde;o, produz n&atilde;o apenas crescimento, mas tamb&eacute;m a afirma&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios de qualidade. Terceiro, em paralelo &agrave; crescente import&acirc;ncia do Brasil no cen&aacute;rio pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico mundial, avan&ccedil;a o processo de internacionaliza&ccedil;&atilde;o do parque universit&aacute;rio brasileiro, com destaque para a decis&atilde;o estrat&eacute;gica das principais institui&ccedil;&otilde;es federais e das estaduais paulistas, que pretendem tornar&#45;se universidades de "classe mundial".</font></P>     <P><font size="3"> Dado esse contexto geral de inova&ccedil;&atilde;o e expans&atilde;o, defendemos a tese de que, a partir de projetos institucionais, com indu&ccedil;&atilde;o (mas n&atilde;o imposi&ccedil;&atilde;o) de organismos governamentais, iniciou&#45;se em 2008 uma nova reforma universit&aacute;ria no Brasil.</font></P>     <P><font size="3"> Os eixos da reforma universit&aacute;ria de 2008 s&atilde;o os seguintes: a) expans&atilde;o de vagas na gradua&ccedil;&atilde;o, com cobertura territorial e inclus&atilde;o social; b) recupera&ccedil;&atilde;o do financiamento; c) amplia&ccedil;&atilde;o de quadros docentes; d) novos formatos de processo seletivo (Enem, SiSu); e) reestrutura&ccedil;&atilde;o da gradua&ccedil;&atilde;o (em curso); f) revis&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o (a ser implantada).</font></P>     <P><font size="3"> Nessa reforma, a reestrutura&ccedil;&atilde;o da gradua&ccedil;&atilde;o consiste, basicamente, na implanta&ccedil;&atilde;o do regime de ciclos, visando diversificar e racionalizar modelos de forma&ccedil;&atilde;o profissional e acad&ecirc;mica.</font></P>     <P><font size="3">O regime de ciclos n&atilde;o &eacute; novidade, nem no mundo nem no Brasil. No s&eacute;culo XIX, Daniel Gilman implantou&#45;o na Universidade Johns Hopkins e Abraham Flexner consolidou&#45;o em todo o sistema universit&aacute;rio dos EUA, no come&ccedil;o do s&eacute;culo XX. No Brasil, An&iacute;sio Teixeira o adaptou ao contexto nacional na her&oacute;ica Universidade do Distrito Federal (UDF) em 1934 e depois, com Darci Ribeiro, recriou&#45;o na Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) de 1961. Hoje, com o avan&ccedil;o do processo de Bolonha, trata&#45;se da arquitetura curricular predominante nos pa&iacute;ses europeus. </font></P>     <P><font size="3">No contexto da reforma universit&aacute;ria em curso, vale destacar novos modelos de ensino de gradua&ccedil;&atilde;o, com educa&ccedil;&atilde;o geral e regime de ciclos, compat&iacute;veis com os modelos curriculares dos pa&iacute;ses da Organiza&ccedil;&atilde;o para Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE), como os bacharelados interdisciplinares (BI) e similares. Efeitos imediatos desse processo de renova&ccedil;&atilde;o, tais modelos, al&eacute;m de empregar processos seletivos que superam a tortura do vestibular e de promover marcos pedag&oacute;gicos baseados na autonomia, t&ecirc;m a virtude de tornar mais clara a diferencia&ccedil;&atilde;o (e especificidade) entre trajet&oacute;rias de forma&ccedil;&atilde;o profissionais e acad&ecirc;micas.</font></P>     <P><font size="3"> Em 2003, a USP foi pioneira com os bacharelados em ci&ecirc;ncias moleculares (ineg&aacute;vel sucesso, inexplicavelmente descontinuado) e em humanidades (excelente projeto, n&atilde;o implantado). Em 2005, a nova Universidade Federal do ABC (UFABC) inaugurou inicialmente o BI em C&amp;T, com um primeiro ciclo de tr&ecirc;s anos e onze op&ccedil;&otilde;es de segundo ciclo; em 2011, abrir&aacute; o BI em ci&ecirc;ncias e humanidades.</font></P>     <P><font size="3"> Outras institui&ccedil;&otilde;es federais est&atilde;o seguindo essa tend&ecirc;ncia inovadora: UFRN, Ufersa, UFCG, UFRB, UFJF, Unifal, UFVJM, UFSJ, UFSC, Ufac, Ufopa e Unipampa. Na UFRJ, o projeto do bacharelado em ci&ecirc;ncias matem&aacute;ticas e da natureza pretende oferecer o primeiro ciclo para cursos espec&iacute;ficos das &aacute;reas de qu&iacute;mica, f&iacute;sica e matem&aacute;tica.</font></P>     <P><font size="3"> Em 2010, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) abriu, no campus de Barra Funda, o bacharelado em ci&ecirc;ncias exatas, com um primeiro ciclo de tr&ecirc;s anos e quatro op&ccedil;&otilde;es de segundo ciclo. Nesse mesmo ano, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) iniciou o Programa de Forma&ccedil;&atilde;o Interdisciplinar Superior (Profis), curso sequencial de dois anos, primeiro ciclo para op&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o profissional destinado aos melhores alunos do ensino p&uacute;blico.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"> Eis um balan&ccedil;o da situa&ccedil;&atilde;o atual: em 13 universidades brasileiras, iniciam&#45;se experi&ecirc;ncias com o regime de ciclos, com 16 bacharelados interdisciplinares. Em 2011, ser&atilde;o ofertadas 7.464 vagas, totalizando mais de 11 mil matr&iacute;culas em 26 cursos de primeiro ciclo.</font></P>     <P><font size="3"> J&aacute; em 2007, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) havia aprovado a oferta de BIs em quatro grandes &aacute;reas do conhecimento (artes, humanidades, C&amp;T, sa&uacute;de). Em 2011, ser&atilde;o mais de 3 mil alunos com 62 op&ccedil;&otilde;es de segundo ciclo. Merecem destaque &aacute;reas de concentra&ccedil;&atilde;o j&aacute; ativas no BI de humanidades: estudos jur&iacute;dicos, forma&ccedil;&atilde;o proped&ecirc;utica para ingresso no curso de direito, e estudos da subjetividade e do comportamento humano, para ingresso em psicologia. No BI em sa&uacute;de, uma &aacute;rea de concentra&ccedil;&atilde;o permite continuidade na gradua&ccedil;&atilde;o e p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no Instituto de Sa&uacute;de Coletiva da UFBA. </font></P>     <P><font size="3">O marco conceitual desse projeto repousa sobre tr&ecirc;s eixos: em primeiro lugar, epistemologias n&atilde;o&#45;cartesianas demandam e valorizam a inter/ transdisciplinaridade, o que permite integrar saberes das artes e das humanidades ao universo da pesquisa e da forma&ccedil;&atilde;o. Em segundo lugar, teorias cr&iacute;ticas da sociedade promovem a etnodiversidade nos processos educacionais. Em terceiro lugar, uma pedagogia emancipat&oacute;ria permite formar sujeitos com autonomia e inventividade,portantomais bempreparadospara cumprir a miss&atilde;o (trans)formadora da institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria. As categorias de etnodiversidade, interdisciplinaridade e autonomia constituem refer&ecirc;ncias para pensar e agir frente a problemas complexos, estruturantes e emergentes, na contemporaneidade. </font></P>     <P><font size="3">Apostamos que &eacute; desej&aacute;vel e necess&aacute;rio superar o paradigma disciplinar convencional que, em muitos campos de conhecimento e de forma&ccedil;&atilde;o, representa a conserva&ccedil;&atilde;o de modelos acostumados e apenas reativos de universidade. A recria&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria brasileira, em curso, confirmar&aacute; os compromissos do esp&iacute;rito universit&aacute;rio em sintonia com o desenvolvimento social, pol&iacute;tico, art&iacute;stico e tecnol&oacute;gico &#150; em uma palavra, humano &#150; da na&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><i>Naomar de Almeida Filho</i></b> <i>&eacute; professor titular do Instituto de Sa&uacute;de Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisador n&iacute;vel 1A do CNPq e ex&#45;reitor da UFBA (2002&#45;2010)    <br>     <b>Denise Coutinho</b> &eacute; professora adjunta do Instituto de Psicologia da UFBA e coordenadora da &Aacute;rea de Concentra&ccedil;&atilde;o Estudos da Subjetividade e do Comportamento Humano nos Bacharelados Interdisciplinares</i></font></P>      ]]></body>
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