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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/prosa.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3">E<small>vandro</small> Affonso Ferreira</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">&Eacute; domingo. Chove choro. Minha tristeza &eacute; seca. Efeito natural dela melancolia &aacute;rida. Pranto que torce&#45;retorce o &iacute;ntimo; desalento que chega guiado pelo sopro da morte. A vida &eacute; ruim; eu sei. Mas a n&atilde;o exist&ecirc;ncia me amedronta. Este n&atilde;o saber o que acontece depois que viramos a esquina me desespera; pelo sil&ecirc;ncio de todos desde toda a eternidade parece que n&atilde;o h&aacute; nada l&aacute;; nem l&aacute;grimas de Her&aacute;clito nem sorriso de Dem&oacute;crito; mas tamb&eacute;m poder&aacute; ser sil&ecirc;ncio justific&aacute;vel: encontraremos o planeta dos seres&#45;da&#45;mudez&#45;eterna; lugar no qual se prescinde solenemente do subterf&uacute;gio da fala; da sagacidade da palavra; planeta do idioma&#45;sentimento; seremos possivelmente asas que voam suprimindo p&aacute;ssaros. Sei que tenho medo. Acho que vou pedir torta de peras ao vinho. Espero que d&ecirc; tempo. Para a senhora de humor refinado deu; aquela de vestido preto que estava na sexta mesa &agrave; esquerda assim que cheguei nesta mesa&#45;mirante. Agora me arrependo de n&atilde;o t&ecirc;&#45;la convidado para sentar&#45;se comigo; falar&iacute;amos antes de tudo dos chistes preferidos dele judeu psicanalista de Viena &#150; este que escreveu interessante texto falando do luto falando da melancolia. Sempre privei da intimidade desses substantivos; minha tristeza &eacute; cong&ecirc;nita; meu sentimento de pesar me acompanha h&aacute; sete d&eacute;cadas sem conseguir percorrer toda a sua trajet&oacute;ria. Senhor decr&eacute;pito sentado &agrave; mesa da outra confeitaria n&atilde;o conteve sua felicidade com repentina chegada de amigo igualmente v&iacute;tima da decrepitude. Tamb&eacute;m ficaria feliz se minha amiga fil&oacute;sofa entrasse de s&uacute;bito neste templo moderno. Mas n&atilde;o vir&aacute;: posso v&ecirc;&#45;la; est&aacute; escrevendo seu novo romance; exatamente neste trecho: se eu pudesse mover as estacas que me fincam ao ch&atilde;o no comando do poder de ir e vir impedindo qualquer arrebatamento da vontade e tornando&#45;me esta imensa r&eacute;stia de pot&ecirc;ncias irrealiz&aacute;veis. N&atilde;o nos veremos face a face nunca mais: estou encerrando minha vida nesta manh&atilde; tempestuosa de domingo que parou para mim. Trov&otilde;es &agrave;s vezes se confundem com relinchos de quatro cavalos &#150; possivelmente. Sei&#45;sinto&#45;pressinto que est&atilde;o na rua de tr&aacute;s. Tocaia. Espreitando talvez chegada dele contundente&#45;definitivo&#45;fatal sinal de pontua&ccedil;&atilde;o. Pode ser tamb&eacute;m que tudo seja del&iacute;rio provocado pelo <i>nom plus</i> ultra do sentimento de tristeza &#150; a melancolia. Sei que depois desta tempestade n&atilde;o haver&aacute; arco&#45;&iacute;ris. Adeus minha amiga. Lembrei&#45;me de s&uacute;bito da quase&#45;quinta aquela em que voc&ecirc; me disse que sabe feito eu que a vida &eacute; ruim &#150; mas que n&atilde;o devemos contar isso para os pequenos. Sim: n&atilde;o &eacute; aconselh&aacute;vel servir de arauto transmitindo &agrave;s crian&ccedil;as tal des&iacute;gnio inabal&aacute;vel. Sem considerar que maioria cresce vive tempo todo distra&iacute;da sem se dar conta disso. Sei que foi comovente ver naquele momento niilismo cedendo espa&ccedil;o &agrave; generosidade materna. Minha m&atilde;e n&atilde;o foi generosa comigo se matando sem dizer adeus. Voc&ecirc; foi mais uma vez desprendida doando&#45;me o adeus daquela que lhe trouxe ao mundo. </font></P>     <P><font size="3">Rel&acirc;mpagos resplandecem todo o espa&ccedil;o que circunda este templo moderno. Natureza lan&ccedil;ando m&atilde;o de seu poder iluminante para clarear meu caminho em dire&ccedil;&atilde;o ao possivelmente absoluto Nada. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Evandro Affonso Ferreira</b>. Mineiro de Arax&aacute;, radicado em S&atilde;o Paulo h&aacute; 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000. &Eacute; autor de </i>Grogot&oacute;!<i> (Topbooks), </i>Ara&atilde;!<i> (Hedra), </i>Erefu&ecirc;, Zaratemp&ocirc; e Catr&acirc;mbias<i> (editora 34). O trecho publicado faz parte de </i>Minha m&atilde;e se matou sem dizer adeus<i>, pp. 109&#45;110, rec&eacute;m lan&ccedil;ado pela Editora Record. O livro conta a hist&oacute;ria do &uacute;ltimo dia de um escritor an&ocirc;nimo que faz pacto com a morte para finalmente escrever um livro com come&ccedil;o, meio e fim.</i></font></P>      ]]></body>

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