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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>CINEMA</b></font></P>     <P><font size=5>Com o foco nos animais para melhor apreender o mundo</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a23img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">As rela&ccedil;&otilde;es que podemos estabelecer entre o cinema e os animais v&atilde;o muito al&eacute;m do document&aacute;rio ecol&oacute;gico. Os animais s&atilde;o plenos de movimento, essencial para o suporte cinematogr&aacute;fico. Mas quem est&aacute; acostumado aos programas da National Geographic ou do canal Discovery pode n&atilde;o suspeitar que uma c&acirc;mera j&aacute; serviu ao infame prop&oacute;sito de registrar a execu&ccedil;&atilde;o de um animal inocente, num tempo em que os direitos dos animais e a pr&oacute;pria ecologia como ci&ecirc;ncia ainda "engatinhavam", ou eram praticamente ignorados. Produzido pela Edison Manufacturing Co. (isso mesmo, o est&uacute;dio de Thomas Alva Edison, famoso inventor americano) e rodado em Coney Island, Nova York, <I>Eletrocuting an elephant </I>(1903), reproduz o triste testemunho da execu&ccedil;&atilde;o do elefante Topsy, condenado por matar tr&ecirc;s homens, dentre eles um espectador b&ecirc;bado.</font></P>     <P><font size="3">Mas o fasc&iacute;nio provocado pela vida animal geralmente superou as barbaridades praticadas pelo homem, motivando cineastas contempor&acirc;neos de Edison e at&eacute; mesmo precursores do cinema. Em 1872, nos EUA, bem antes da primeira exibi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica do cinemat&oacute;grafo dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re em Paris, Edward Muybridge j&aacute; havia provado, por meio de uma s&eacute;rie de fotografias sequenciais, que, num dado momento, o cavalo a galope tinha suas quatro patas no ar. Posteriormente, as "s&eacute;ries fotogr&aacute;ficas" de Muybridge encantavam o p&uacute;blico com seus cavalos, camelos, bis&otilde;es e seres humanos em movimento, entre outros animais. Por volta da mesma &eacute;poca, na Fran&ccedil;a, o fisiologista Etienne Jules&#45;Marey dedicava&#45;se ao estudo do movimento dos animais com o apoio da fotografia e dos primeiros desenvolvimentos do cinema. Munido de sua inven&ccedil;&atilde;o de 1882, o fuzil cronofotogr&aacute;fico, cristalizou imagens impressionantes em suas cronofotografias, como <I>Chronophotographie du saut en longeur</I> (1882&#45;3) ou <I>Vol du p&eacute;lican</I> (1883). O&nbsp;aparato de Marey era capaz de produzir 12&nbsp;fotogramas&nbsp;consecutivos por segundo, impressos numa &uacute;nica fotografia. Com seu fuzil, o inventor&#45;cientista estudou&nbsp;cavalos,&nbsp;p&aacute;ssaros,&nbsp;c&atilde;es,&nbsp;ovelhas,&nbsp;asnos,&nbsp;elefantes,&nbsp;peixes, criaturas microsc&oacute;picas,&nbsp;moluscos,&nbsp;insetos,&nbsp;r&eacute;pteis, dentre outros.&nbsp;Autor de <I>La machine animale</I>&nbsp;(1873) e <I>Levol des oiseaux</I>&nbsp;(1880), Marey foi contempor&acirc;neo de Muybridge (ambos nasceram em 1830, com a diferen&ccedil;a de um m&ecirc;s, e morreram em maio de 1904).</font></P>     <P><font size="3">Dos experimentos de Muybridge e Marey at&eacute; hoje, n&atilde;o cessa o interesse cinematogr&aacute;fico pelos animais na chave da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. O cineasta franc&ecirc;s Jean Painlev&eacute; foi um pioneiro do documentarismo animal e cient&iacute;fico, com obras marcantes como <I>Le</I> v<I>ampire</I> (1945). O filme celebra o fasc&iacute;nio da morfologia dos animais, com foco sobre uma esp&eacute;cie sul&#45;americana de morcego hemat&oacute;fago, comum no Brasil. No contexto de uma sensibilidade ecol&oacute;gica mundial ascendente, documentaristas como Jacques Cousteau redimensionaram o legado de cineastas predecessores, tornando o cinema um instrumento de conscientiza&ccedil;&atilde;o a respeito do valor da vida e do desastre da influ&ecirc;ncia humana sobre o planeta.</font></P>       <P><font size="3"><b>C&Atilde;ES COMO PROTAGONISTAS</b> N&atilde;o s&oacute; o documentarismo cinematogr&aacute;fico elegeu animais como foco de sua aten&ccedil;&atilde;o. A ascens&atilde;o do cinema narrativo&#45;dram&aacute;tico (o filme de longa&#45;metragem que nos conta uma determinada est&oacute;ria) deve parcialmente sua popularidade n&atilde;o s&oacute; a um <I>star&#45;system</I> de atores e atrizes humanos, mas tamb&eacute;m a animais que desempenharam pap&eacute;is memor&aacute;veis para a c&acirc;mera, como em <I>Rescued by Rover</I> (1905), filme brit&acirc;nico de Cecil M. Hepworth. &Eacute; prov&aacute;vel que este seja um dos primeiros filmes&nbsp;da hist&oacute;ria do cinema&nbsp;com um&nbsp;cachorro&nbsp;no papel principal, possivelmente inaugurando a ideia do "c&atilde;o her&oacute;i", antecedendo produ&ccedil;&otilde;es como <I>Lassie</I>&nbsp;(1943),&nbsp;<I>Rin&#45;tin&#45;tin</I>&nbsp;(s&eacute;rie 1954&#150;1959) ou <I>Beethoven</I>&nbsp;(1992).&nbsp;De <I>Os 101 d&aacute;lmatas</I> (<I>101 dalmatians</I>, 1996), da Disney, ao recente <I>Sempre ao seu lado</I> (<I>Hachiko: a dog’s story</I>, 2009), de Lasse Hallstr&ouml;m &#150; adapta&ccedil;&atilde;o de antiga lenda sobre o c&atilde;o Akita japon&ecirc;s &#150;, o melhor amigo do homem tem tido papel de destaque nos cinemas mundo afora. A espontaneidade dos personagens caninos e sua capacidade de traduzir sentimentos universais s&atilde;o singulares, vide o caso do Bomb&oacute;n de <I>O cachorro</I> (<I>El perro</I>, 2004), p&eacute;rola argentina dirigida por Carlos Sorin.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a23img02.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>LITERATURA ANIMAL</b> A antrop&oacute;loga N&aacute;dia Farage, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observa que o cinema buscou inspira&ccedil;&atilde;o inicialmente na literatura, espa&ccedil;o em que a explora&ccedil;&atilde;o dos animais ganha preemin&ecirc;ncia desde fins do s&eacute;culo XVIII, em virtude das novas ideias trazidas pelo movimento rom&acirc;ntico quanto &agrave; rela&ccedil;&atilde;o do homem com a natureza. "Den&uacute;ncia contundente da explora&ccedil;&atilde;o de cavalos, o romance de Anna Sewell , <I>Black beauty</I> (1877), veio popularizar o tema do sofrimento animal. O romance, segundo a cr&iacute;tica liter&aacute;ria C.Lansbury (1984),&nbsp;&nbsp;haveria surtido, para a causa dos animais, efeito similar &agrave;quele de <I>A cabana do Pai Tom&aacute;s</I> para a causa da aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura no contexto euro&#45;americano. A &uacute;ltima adapta&ccedil;&atilde;o de <I>Black beauty</I> para o cinema foi feita em 1994 mas, ao que parece, n&atilde;o foi um sucesso de bilheteria", explica Farage. A antrop&oacute;loga acrescenta que celebridade duradoura, como sabemos, alcan&ccedil;ou o romance do austr&iacute;aco Felix Salten,&nbsp;&nbsp;<I>Bambi</I> (1923), gra&ccedil;as &agrave; vers&atilde;o cinematogr&aacute;fica de Walt Disney (1942).&nbsp;&nbsp;T&atilde;o importante quanto um libelo contra a guerra, entretanto, o filme estabelecia um nexo entre ca&ccedil;a esportiva e guerra, cujo atributo comum &eacute; sua est&uacute;pida inutilidade. Farage relembra que, segundo o antrop&oacute;logo norte&#45;americano M.Cartmill (1996) &#150; que discute a produ&ccedil;&atilde;o e a recep&ccedil;&atilde;o de <I>Bambi</I> no quadro de um estudo sobre a ca&ccedil;a esportiva &#150;, a cena da morte da m&atilde;e do pequeno cervo, presente na primeira vers&atilde;o, era manifesto t&atilde;o eloquente e chocante contra o assassinato de seres vivos indefesos que foi expurgada das vers&otilde;es posteriores. "<I>Bambi</I> teria sido o primeiro filme em que humanos n&atilde;o s&atilde;o protagonistas em primeiro plano e, mais do que isso, sua presen&ccedil;a alusiva, mesmo na vers&atilde;o leve, destinada ao p&uacute;blico infantil, &eacute; imagem de viol&ecirc;ncia e de destrui&ccedil;&atilde;o", completa Farage.</font></P>     <P><font size="3">Baseado em fatos reais, <I>Na montanha dos gorilas</I> (<I>Gorillas in the mist</I>, 1988), de Michael Apted, foi um caso exemplar de filme de fic&ccedil;&atilde;o engajado na defesa animal. <I>Na montanha dos gorilas</I> relata a luta da antrop&oacute;loga americana Dian Fossey (interpretada pela atriz Sigourney Weaver) que, em 1967, viajou para a &Aacute;frica e, durante v&aacute;rios anos em Ruanda, se dedicou &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o dos gorilas da montanha, amea&ccedil;ados de extin&ccedil;&atilde;o em raz&atilde;o da ca&ccedil;a indiscriminada. </font></P>     <P><font size="3">Mais recente, o filme <I>Babe</I>, <I>o porquinho atrapalhado</I> (<I>Babe,</I>1995) dirigido por Chris Noonan, retoma o tema do relacionamento entre o homem e animais de outra esp&eacute;cie. Para N&aacute;dia, "a mensagem relevante do filme &eacute; a de que a individua&ccedil;&atilde;o, produzida pela compreens&atilde;o e pelo afeto, pode subverter a velha ordem da preda&ccedil;&atilde;o e, o que &eacute; mais importante, que esta ordem n&atilde;o &eacute; imut&aacute;vel ou intranspon&iacute;vel, contra&#45;argumento &agrave;s alegadas raz&otilde;es de ordem biol&oacute;gica para o abate e consumo dos corpos animais.&nbsp;&nbsp;A sequ&ecirc;ncia <I>Babe: um porquinho na cidade</I> (<I>Babe:pig in the city</I>, 1998), tamb&eacute;m de Noonan, expande sua cr&iacute;tica &agrave; inexorabilidade de outras pr&aacute;ticas explorat&oacute;rias de animais, como a experimenta&ccedil;&atilde;o biom&eacute;dica (imageticamente articulada ao consumo da carne, por meio da cena de um jantar de confraterniza&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos em uma universidade), a manipula&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica de esp&eacute;cies (um bull terrier que sofre por s&oacute; querer matar e n&atilde;o nutrir outros desejos), al&eacute;m de incidir sobre a triste condi&ccedil;&atilde;o dos animais dom&eacute;sticos em contexto urbano, notadamente o abandono de c&atilde;es e gatos", observa.&nbsp;Farage assinala tamb&eacute;m que sucesso do filme <I>Babe</I> deve&#45;se, ainda, &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de sua produ&ccedil;&atilde;o, que se estendeu por largo tempo utilizando animais reais, mas com o cuidado de avisar sua audi&ecirc;ncia de que eles n&atilde;o sofreram maus tratos durante a filmagem. "N&atilde;o sei se se trata de iniciativa pioneira, mas o fato &eacute; que, hoje, quase todos os filmes explicitam as condi&ccedil;&otilde;es de utiliza&ccedil;&atilde;o de animais; a rec&iacute;proca tamb&eacute;m &eacute; verdadeira, como mostram os boicotes ao filme de Pedro Almod&oacute;var, <I>Fale com ela </I>( <I>Hable con ella,</I> 2002) e ao mais recente <I>&Aacute;gua para elefantes</I> (<I>Water for elefants</I>, 2011), de Francis Lawrence, acusados de viola&ccedil;&atilde;o da &eacute;tica no trato dos animais utilizados", comenta Farage. A antrop&oacute;loga lembra ainda que, no fim dos anos 1990, <I>A revolu&ccedil;&atilde;o dos bichos</I> (<I>Animal farm, </I>1999), de John Stephenson, merece men&ccedil;&atilde;o por seu interesse em desconstruir a met&aacute;fora celebrizada por George Orwell, utilizando animais reais para apresentar a vida de explora&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies da fazenda como degradante em si mesma e, por isso, motivo para nossa indigna&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a23img03.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>FASC&Iacute;NIO DOS DOCUMENT&Aacute;RIOS</b> <I>A marcha dos pinguins</I> (<I>La marche de l’empereur</I>, 2006), de Luc Jacquet, vencedor do Oscar 2006 de Melhor Document&aacute;rio, usa t&eacute;cnicas de fic&ccedil;&atilde;o em seu fascinante registro da luta pela vida na Ant&aacute;rtida. O filme cria uma narrativa antropom&oacute;rfica na qual um casal de pinguins e seu filhote s&atilde;o os personagens principais, recorrendo a narradores humanos e conven&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero como, por exemplo, o cinema musical. Lan&ccedil;ado em 2011, <I>Bonobos</I>, document&aacute;rio de Alain Tixier, retoma a defesa de uma esp&eacute;cie animal em risco de extin&ccedil;&atilde;o a partir do trabalho de Claudine Andr&eacute;, que se dedica &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o do bonobo, grande macaco natural do Congo. </font></P>     <P><font size="3">N&aacute;dia Farage&nbsp;observa que a inteligibilidade e recep&ccedil;&atilde;o dos filmes aqui citados encontra&#45;se na dissemina&ccedil;&atilde;o das teses levantadas pelos movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o animal, a partir, sobretudo, da publica&ccedil;&atilde;o da obra de Peter Singer (1975).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Paulo Medeiros, ex&#45;diretor t&eacute;cnico e um dos fundadores da ONG Animal &amp; Natureza (<a href="http://www.animalenatureza.org.br" target="_blank"><i>www.animalenatureza.org.br</i></a>), observa que h&aacute; muitos filmes protagonizados por animais com mensagens &eacute;ticas e valiosas, por&eacute;m faltam abordagens mais realistas da condi&ccedil;&atilde;o animal. "Por exemplo, um tema que nunca vi tratado num filme ou programa de TV, de forma realista, diz respeito ao descontrole populacional provocado pelo abandono", explica Medeiros. A entidade, que foca suas atividades na esteriliza&ccedil;&atilde;o de animais abandonados e de regi&otilde;es carentes, v&ecirc; nessa defasagem um enfraquecimento do potencial de conscientiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. "Todos sabemos que o cinema e a televis&atilde;o s&atilde;o grandes formadores de opini&atilde;o. Quanto mais o tema &eacute; divulgado, mais as pessoas procuram se informar a respeito e tomar uma atitude em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o", explica Paulo.</font></P>     <P><font size="3">A despeito do choque que determinadas cenas da vida animal podem gerar no p&uacute;blico espectador, tanto o cinema document&aacute;rio quanto o de fic&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m, frequentemente, servido &agrave; conscientiza&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica e difus&atilde;o de direitos animais. </font></P>        <P><font size="3"><b>QUEST&Otilde;ES POL&Iacute;TICAS NA TELA</b> Para N&aacute;dia Farage, "de um lado o cinema &eacute; &iacute;ndice da lenta, por&eacute;m persistente, mudan&ccedil;a na sensibilidade urbana euro&#45;americana (que nos afeta, evidentemente, como consumidores de sua produ&ccedil;&atilde;o cultural) quanto ao estatuto dos animais; de outro, o cinema contribui com uma reflex&atilde;o politicamente fundamental para tal mudan&ccedil;a em nossas concep&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas quanto aos animais. Assim, a produ&ccedil;&atilde;o recente, pelo menos desde os anos 1990, tem abordado criticamente velhas pr&aacute;ticas, problematizando sua naturaliza&ccedil;&atilde;o. Nessa linha, evoco <I>Fuga das galinhas</I> (<I>Chicken run, </I>2000), de Peter Lord e Nick Park, anima&ccedil;&atilde;o <I>cult</I> em que a granja &eacute; equiparada ao campo de concentra&ccedil;&atilde;o; <I>Madagascar</I> (2005), de Eric Darnell e Tom McGrath, que trata da ambiguidade, vale dizer, o limbo simb&oacute;lico a que est&atilde;o submetidos os animais silvestres criados ou nascidos em cativeiro (no caso, o zool&oacute;gico); <I>Os sem floresta</I> (<I>Over the hedge, </I>2006), de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, que aborda a terr&iacute;vel situa&ccedil;&atilde;o dos animais silvestres desterritorializados pela expans&atilde;o urbana." </font></P>     <P><font size="3">J&aacute; <I>Bee movie &#150; A hist&oacute;ria de uma abelha</I> (2007), de Steve Hickner e Simon J. Smith, continua N&aacute;dia, "tem por tema instigante uma hipot&eacute;tica a&ccedil;&atilde;o judicial movida pelas abelhas contra a humanidade pela apropria&ccedil;&atilde;o ind&eacute;bita do fruto de seu trabalho, o mel; inverte assim, ficcionalmente, os famosos julgamentos medievais de animais e, contra seus an&aacute;logos hist&oacute;ricos, resulta em ganho de causa para as abelhas. O efeito a curto prazo da interrup&ccedil;&atilde;o do trabalho das abelhas &eacute; a terra devastada, advert&ecirc;ncia mais do que oportuna nos tempos que correm, quando o uso de pesticidas tem provocado uma brutal diminui&ccedil;&atilde;o na popula&ccedil;&atilde;o de abelhas, ao ponto do trabalho de poliniza&ccedil;&atilde;o haver se tornado ponder&aacute;vel fator de produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola em algumas regi&otilde;es dos EUA. Meu invent&aacute;rio de filmes est&aacute; longe de ser exaustivo. Dele destaca&#45;se , entretanto, o trabalho consistente da Dream Works e da Aardmar Animations, por vezes em parceria, na constru&ccedil;&atilde;o de um novo padr&atilde;o de sensibilidade, com base na semelhan&ccedil;a poss&iacute;vel entre animais, humanos, inclusive. Nesse sentido, n&atilde;o posso deixar de citar uma de suas &uacute;ltimas produ&ccedil;&otilde;es, <I>Como treinar seu drag&atilde;o</I> (<I>DreamWorks</I>, EUA,2010), em que um menino franzino consegue estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o de afeto com o drag&atilde;o que deveria matar, porque foi capaz de ler, nos olhos dele, o medo que tamb&eacute;m sentia, partilha que neutraliza a extrema alteridade de um drag&atilde;o. Trata&#45;se, portanto, de alentadora mudan&ccedil;a em curso que o cinema reflete e, ao mesmo tempo, produz. Essa mudan&ccedil;a permitir&aacute;, qui&ccedil;&aacute;, um novo pacto entre as esp&eacute;cies, um pacto de solidariedade e apoio m&uacute;tuos, como quis Piotr Kropotkin no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX", disserta Farage.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a23img04.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Vale dizer que n&atilde;o s&oacute; o cinema, mas as artes em geral t&ecirc;m celebrado, desde sempre, a natureza em toda a sua multiplicidade de formas e esp&eacute;cies. Prova mais sofisticada e filos&oacute;fica dessa celebra&ccedil;&atilde;o que atravessa os tempos pode ser conferida no segundo cap&iacute;tulo da exposi&ccedil;&atilde;o <I>Animism</I>, que abre este ano no dia 15 de setembro, no Generali Foundationproduziert, Alemanha (<a href="http://foundation.generali.at/index.php?id=794&amp;L=1" target="_blank">http://foundation.generali.at/index.php?id=794&L=1</a>). Revisando o conceito etnol&oacute;gico do animismo, emergente no s&eacute;culo XIX, a exposi&ccedil;&atilde;o traz obras de Etienne Jules&#45;Marey e Jean Painlev&eacute;, citados nesta mat&eacute;ria, e ainda Apichatpong Weerasethakul, o diretor tailand&ecirc;s de <I>Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas</I> (<I>Lung Boonmee raluek chat</I>, 2010), entre v&aacute;rios artistas.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Alfredo Suppia e Paula Medeiros</i></font></P>     ]]></body>
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