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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O sonho e a expressão estética da contradição]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)  ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O    sonho e a express&atilde;o est&eacute;tica da contradi&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Ricardo Prado    Pupo Nogueira</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Psiquiatra, psicanalista    e doutor em comunica&ccedil;&atilde;o e semi&oacute;tica pela Pontif&iacute;cia    Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A antropologia    e a psican&aacute;lise possuem seus pr&oacute;prios terrenos de estudo. Por&eacute;m,    n&atilde;o se pode deixar de perceber, que tanto uma forma de conhecimento,    como a outra, enfoque o homem e sua rela&ccedil;&atilde;o com o mundo. N&atilde;o    o mundo concreto e objetivado, mas o mundo que vai se destacando e aos poucos    se revelando do que at&eacute; ent&atilde;o era abstrato ou desconhecido. Mas,    mesmo sendo desconhecido, manifesta-se com impositiva autoridade, justificando    seu reconhecimento. A capacidade humana de criar seus caminhos sob as condi&ccedil;&otilde;es    naturais, marca sua trajet&oacute;ria na posse do conhecimento e de seu consequente    desenvolvimento. Por meio das dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o ao meio    ambiente, o homem pode descobrir suas ferramentas internas, para se organizar    dentro dessa estrutura complexa das leis naturais. O homem foi se integrando    dentro de sua possibilidade de elabora&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios    naturais que o cercam, e dessa integra&ccedil;&atilde;o surgiu a chance da esp&eacute;cie.    A percep&ccedil;&atilde;o das limita&ccedil;&otilde;es encontrou, em nossa esp&eacute;cie,    um poder de supera&ccedil;&atilde;o at&eacute; ent&atilde;o inusitado para as    esp&eacute;cies anteriores, o que nos tornou mais credenciados a uma adapta&ccedil;&atilde;o    eficiente. Tal cr&eacute;dito inicia-se com o que se costumou chamar de pensamento    primitivo e faz refer&ecirc;ncia &agrave;s caracter&iacute;sticas das culturas    primitivas e a estrutura de seu funcionamento. O termo primitivo aqui se refere    a como no in&iacute;cio do nosso desenvolvimento o conhecimento era estruturado    e organizado. A posse do conhecimento, nessa &eacute;poca, seguia padr&otilde;es    intuitivos e levaram muitos e muitos anos para chegar a crit&eacute;rios mais    l&oacute;gicos e definidos. N&atilde;o existe em tal constata&ccedil;&atilde;o    funcional nenhuma desvaloriza&ccedil;&atilde;o, mesmo que hoje o privil&eacute;gio    cient&iacute;fico seja da maior import&acirc;ncia. Na verdade, todos os recursos    s&atilde;o necess&aacute;rios para a evolu&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie.    O fato &eacute; que atualmente o conhecimento que preliminarmente chamaremos    de intuitivo, para depois defini-lo melhor, fica relegado a planos secund&aacute;rios    e at&eacute; mais identificado com um pensamento pueril e inconsistente, que    de forma nenhuma se justifica, pois o intuitivo, ou, se preferirem, o primitivo    &eacute; a base do que futuramente poder&aacute; ser l&oacute;gico e cient&iacute;fico.    A desaten&ccedil;&atilde;o atual sobre esse descr&eacute;dito prov&eacute;m    da confus&atilde;o entre produto e produ&ccedil;&atilde;o. Privilegia-se o resultado,    deixando num segundo plano suas organiza&ccedil;&otilde;es produtivas, desprezando    assim a criatividade significante que nos tirou das trevas e das cavernas. A    desaten&ccedil;&atilde;o para a base criativa do processo supervaloriza o significado    final, que poderia ser chamado de conhecimento espec&iacute;fico. No esfor&ccedil;o    de controlar o conhecimento, o homem se descuidou do abstrato e de sua for&ccedil;a    expressiva, mesmo que ainda n&atilde;o totalmente compreendida. Forma-se assim    uma zona de conforto e de falso controle. Digo falso, porque a adapta&ccedil;&atilde;o    ao mundo se faz na mesma propor&ccedil;&atilde;o em que ele &eacute; transformado.    A capacidade de integrar-se at&eacute; para o que foi criado por ele mesmo,    &eacute; o que permite ao homem n&atilde;o acabar sendo v&iacute;tima de suas    pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A estrutura do    funcionamento on&iacute;rico &eacute; o tema encontrado neste estudo, para o    resgate essencial do pensamento primitivo. Para que essa opera&ccedil;&atilde;o    possa ser feita, vou apresentar o sonho como outro polo perceptivo, que se integra    em todas as caracter&iacute;sticas essenciais da teoria da percep&ccedil;&atilde;o.    No sonho sentimos intensamente sua express&atilde;o, mas n&atilde;o conseguimos    compreend&ecirc;-lo na mesma propor&ccedil;&atilde;o. Por mais que Sigmund Freud    tenha se esfor&ccedil;ado para entender seu funcionamento, e descoberto sua    origem inconsciente; e por mais que outros autores que vieram depois dele, como    Melanie Klein, Wilfred Bion e Jaques Lacan, aprimorassem esse conhecimento,    o valor que damos a ele ainda &eacute; desproporcional &agrave; sua import&acirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A psican&aacute;lise    desvirtualizou o inconsciente, reconhecendo nele a capacidade significante at&eacute;    ent&atilde;o incompreendida A antropologia tamb&eacute;m trilhou um caminho    semelhante e passou a perscrutar os signos e a se ocupar deles, originando um    vasto campo de signific&acirc;ncia. Na verdade, as duas formas de conhecimento    foram se ocupando, cada uma a seu modo, dos contornos formais do que nos &eacute;    imposto a partir do inconsciente, e das consequ&ecirc;ncias de sua a&ccedil;&atilde;o    na adapta&ccedil;&atilde;o ao mundo. Se a antropologia buscou a estrutura dos    movimentos sociais das sociedades primitivas, a psican&aacute;lise buscou, por    seu lado, a for&ccedil;a expressiva do inconsciente, sua linguagem e consequentemente    sua leitura. Caminhando assim, paralelamente, essas duas formas de conhecimento    foram descobrindo o conceito de "significante" e entendendo que se poderia sentir    o que ainda n&atilde;o era conhecido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No que se refere    &agrave; antropologia, Bronislaw Malinowski (1) foi o primeiro a tatear esse    caminho. Seu conceito de man&aacute; cunhado a partir do conhecimento das trocas,    e de sua import&acirc;ncia entre os membros das comunidades primitivas, come&ccedil;a    a reconhecer a transcend&ecirc;ncia de tais mecanismos que evocavam um poder    de opera&ccedil;&atilde;o nas estruturas sociais. N&atilde;o apenas se dava    um presente, mas se adquiria um poder sobre o outro, como se o interior do presente    contivesse uma for&ccedil;a m&aacute;gica, religiosa ou espiritual. Esse conceito,    desenvolvido posteriormente por L&eacute;vi-Strauss (2), ganha outra dimens&atilde;o.    Para ele, o conceito de man&aacute; n&atilde;o pertence &agrave; realidade e    sim ao pensamento, que quando pensa em si, s&oacute; pode pensar em um objeto.    Reconhece-se assim que os significantes s&oacute; significam, sem que tenham    que ter um significado pr&oacute;prio. Um significante &eacute; vazio de significado,    e &eacute; apto apenas a criar novos significados. O man&aacute; &eacute; esse    significante que representa os infinitos significantes vazios, aptos a gerar    significados. O significante opera as for&ccedil;as expressivas organizando-as    numa coer&ecirc;ncia est&eacute;tica, para produzir um significado, que por    sua vez representa expressivamente as composi&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a    que lhe deu origem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A psican&aacute;lise    caminhou de forma semelhante e procurou entender as express&otilde;es humanas,    em sua coer&ecirc;ncia interna, o que revelaria a participa&ccedil;&atilde;o    de for&ccedil;as fora da consci&ecirc;ncia, at&eacute; ent&atilde;o desconhecidas,    ou, apenas, intu&iacute;das. Observa-se que s&atilde;o caminhos semelhantes,    em que se procura o at&eacute; ent&atilde;o abstrato, mas atuante, poder de    s&iacute;ntese de express&otilde;es, at&eacute; mesmo contradit&oacute;rias,    mas que, apesar da contraditoriedade, n&atilde;o perdem o compromisso com a    verdade. N&atilde;o a verdade normativa, das leis e dos regimes, mas a verdade    de se estar no mundo, a verdade do real inating&iacute;vel, mas orientador,    em dire&ccedil;&atilde;o ao qual caminha o sentido seguro da significa&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o posso deixar de ressaltar aqui a imensa contribui&ccedil;&atilde;o    da teoria semi&oacute;tica sobre o que se considera um signo verdadeiro (3).    Esse conceito nos ensina, exatamente, a import&acirc;ncia do compromisso s&iacute;gnico    em dire&ccedil;&atilde;o ao real, que por ser inating&iacute;vel, existe apenas    como um rumo seguro do signo, como se desse a ele seu DNA de verdade. Isso n&atilde;o    quer dizer que o signo seja definitivo, quer dizer apenas que suas mudan&ccedil;as    se produzem na busca desse real. Sua autenticidade n&atilde;o est&aacute; em    sua verdade, e sim na transforma&ccedil;&atilde;o evolutiva, que leva em conta    todas as infinitas mudan&ccedil;as a que estamos sujeitos, contanto que a percep&ccedil;&atilde;o    do real continue orientando sua evolu&ccedil;&atilde;o. .</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que n&atilde;o    se deve perder de vista &eacute; o quanto somos definidos pelos arranjos que    se faz em nosso interior, sem que conscientemente tenhamos not&iacute;cias deles.    Sentimos seus efeitos e somos muitas vezes impulsionados por determina&ccedil;&otilde;es    que chegam a nos surpreender. Estou falando como se me referisse a um polo perceptivo    que integra os achados e apenas inicia sua organiza&ccedil;&atilde;o, esperando    que, posteriormente, eles possam ser mais bem definidos. Esse &eacute; o verdadeiro    papel do significante. Ele &eacute; o grande explorador da massa incomensur&aacute;vel    que nos envolve. Ele &eacute; um componente importante do aparelho perceptivo    que ainda n&atilde;o sofreu a redu&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica, e que,    portanto, concentra um alto teor de informa&ccedil;&atilde;o bruta, indiferente    &agrave;s contradi&ccedil;&otilde;es internas do padr&atilde;o lingu&iacute;stico.    Prescindindo da redu&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao funcionamento da    l&iacute;ngua, o <i>percepto</i> ainda bruto, ganha as portas da compreens&atilde;o    por meio da est&eacute;tica formal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sentido est&eacute;tico    pressup&otilde;e que tudo que &eacute; expresso &eacute; virtualmente conte&uacute;do    tal como forma. Como forma, devo definir aqui, a coer&ecirc;ncia est&eacute;tica    de todo fen&ocirc;meno particular. Isso quer dizer que as contradi&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o nela imediatas e excluem-se entre si. Assim, chega-se ao sentimento    est&eacute;tico, que &eacute; o de ser totalmente dominado pelo inintelig&iacute;vel    e, no entanto, definido. &Eacute;, exatamente, o que percebemos nos movimentos    sociais, nos lapsos e, principalmente, em nossos sonhos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Das possibilidades    citadas escolherei a que para mim &eacute; a mais significativa. Estarei falando    do sonho, da estrutura do sonhar, de sua forma muito particular de express&atilde;o    que at&eacute; hoje nos intriga. A estrutura do sonhar tem um sentido maior    do que uma resolu&ccedil;&atilde;o de conflito, fun&ccedil;&atilde;o essa que    est&aacute; mais associada &agrave; consci&ecirc;ncia. O sonho se presta a encontrar    uma linguagem para esse conflito. De acordo com o que est&aacute; sendo desenvolvido    aqui, podemos transcender as quest&otilde;es referentes ao sonho como apenas    uma realiza&ccedil;&atilde;o de desejo, e chegar assim a um formalismo est&eacute;tico;    &agrave; natureza esteticamente construtiva da contradi&ccedil;&atilde;o, sem    que seja ainda atrofiada por nosso rigor conceitual. Como dizia Friedrich Hegel:    "A arte &eacute; a express&atilde;o da verdade". Pensando assim, abre-se o caminho    para a primeira inst&acirc;ncia do processo perceptivo. Se os significados s&atilde;o    caminhos seguros para a procura da verdade, porque a express&atilde;o conflitiva    tamb&eacute;m n&atilde;o seria? Sendo que os significados se originaram desse    primeiro movimento perceptivo? Eu at&eacute; poderia dizer que constru&iacute;mos    o mundo que vivemos pelo sentido, mas o alimentamos pela express&atilde;o da    contradi&ccedil;&atilde;o. Assim, podemos explicar o horror com que acordamos,    em alguns momentos, de sonhos angustiantes e o tempo que levamos para apaziguar    a mente, e transformar o vigor expressivo num discurso mais brando e controlado.    Essa pequena fra&ccedil;&atilde;o de nosso dia era extremamente dilatada nas    culturas primitivas que se defrontavam com leis naturais t&atilde;o impiedosas    e at&eacute; ent&atilde;o desconhecidas no seu cotidiano. Esse horror foi sendo    enfrentado com a condi&ccedil;&atilde;o significante que foi evoluindo e trazendo    uma compreens&atilde;o e recursos para a nossa evolu&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria    do mundo. Mas, a sensa&ccedil;&atilde;o frente ao inusitado que ainda hoje &eacute;    sentida, e que acredito, nunca desaparecer&aacute;, est&aacute; a&iacute; para    que possamos explor&aacute;-la com mais recursos de significantes capacitados    a gerar novos significados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Theodor Adorno    (4) apreende maravilhosamente o que est&aacute; sendo dito aqui: "O horror e    o belo apenas parecem contradit&oacute;rios, mas s&atilde;o apenas sensa&ccedil;&otilde;es    frente ao inusitado". Na mesma obra, um pouco mais &agrave; frente, surge outro    ponto que refor&ccedil;a a import&acirc;ncia da express&atilde;o est&eacute;tica    da contradi&ccedil;&atilde;o: "A dor na presen&ccedil;a do belo &eacute; a nostalgia    do que &eacute; interdito ao sujeito pelo bloco subjetivo, mas mesmo que interdito    &eacute; mais verdadeiro do que ele pr&oacute;prio".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud (5) revelou    a import&acirc;ncia da satisfa&ccedil;&atilde;o do desejo na organiza&ccedil;&atilde;o    on&iacute;rica. Ligado ao princ&iacute;pio do prazer esse seria, segundo ele,    a mola mestra na concep&ccedil;&atilde;o das cenas preconizadas nos sonhos.    Sem que se deixe de lado a sua importante descoberta, estou transcendendo as    barreiras do prazer, para abranger o conhecimento, e a consequente instrumenta&ccedil;&atilde;o    que ele nos proporciona frente ao inusitado e, at&eacute; ent&atilde;o, insond&aacute;vel.    A express&atilde;o criativa &eacute; capaz de vencer a barreira das contradi&ccedil;&otilde;es,    e salvar parcelas do real que poderiam ficar, para sempre, soterradas. Isso    explica a sensa&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima que temos com nossos sonhos,    que por mais estranhos que possam parecer, guardam uma no&ccedil;&atilde;o muito    profunda de identidade. Estamos convictos de que o sonho foi produzido em nosso    interior, s&oacute; n&atilde;o conseguimos acompanhar completamente as etapas    de sua cria&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se os sentidos    s&atilde;o caminhos seguros para a procura da verdade, porque desprezar&iacute;amos    sua express&atilde;o, ainda que estranha ao nosso conhecimento? Deve-se entender    que o conflito &eacute; resultante n&atilde;o da natureza essencial da coisa    em si, mas sim da forma que organizamos seu conhecimento. Portanto, o que chamamos    de conflito, &eacute; resultante do conhecimento com que objetivamos a coisa    em si mesma e, sendo assim, s&oacute; pode ser corrigido originalmente por meio    do desenvolvimento perceptivo que, no meu entender, &eacute; o que os sonhos    podem fazer. Isso porque a estrutura do sonhar se apresenta como formaliza&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica para as contradi&ccedil;&otilde;es. Dessa maneira, a estrutura    do sonhar est&aacute; mais pr&oacute;xima do polo perceptivo, enquanto a linguagem    discursiva est&aacute; na ponta final do processo e faz a apresenta&ccedil;&atilde;o    do significado. Como estamos muito mais acostumados com a linguagem discursiva,    acabamos, erroneamente, por valoriz&aacute;-la pelo todo de um processo de significa&ccedil;&atilde;o,    que come&ccedil;a na ess&ecirc;ncia primordial da coisa, captada perceptivamente    e reconhecida sob uma determinada forma que chamamos de significado. O que n&atilde;o    podemos esquecer &eacute; que esse significado &eacute; apenas uma das infinitas    formas de reconhecimento da coisa propriamente dita, que sempre estar&aacute;    al&eacute;m da nossa objetiva&ccedil;&atilde;o formal. Como dizia Immanuel Kant:    "O conhecimento discursivo deve renunciar ao &iacute;ntimo das coisas".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Theodor Adorno    (6) tem uma forma muito simples e original de apresentar a import&acirc;ncia    do significante e da constitui&ccedil;&atilde;o esteticamente formal da contradi&ccedil;&atilde;o.    Para o autor, a arte tem o dom de preservar o est&eacute;tico e manter a percep&ccedil;&atilde;o    ativa com o ainda indefinido. Falando da arte, pode-se compreender melhor, por    meio da teoria est&eacute;tica de Adorno, porque somos cativados por formas    que nos envolvem e sensibilizam sem que necessariamente saibamos por qu&ecirc;.    Acrescento que o mesmo acontece com os sonhos, que com suas composi&ccedil;&otilde;es    de imagem, nos atingem profundamente. Vale aqui a cita&ccedil;&atilde;o original    de Adorno: "As obras de arte representam as contradi&ccedil;&otilde;es enquanto    um todo, a situa&ccedil;&atilde;o antagonista enquanto totalidade. S&oacute;    atrav&eacute;s da sua media&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o mediante o seu <i>parti    pris</i> direto, &eacute; que s&atilde;o capazes de, gra&ccedil;as &agrave;    express&atilde;o, transcender a situa&ccedil;&atilde;o antagonista. As contradi&ccedil;&otilde;es    objetivas sulcam o sujeito; n&atilde;o s&atilde;o por ele postas, nem produzidas    pela sua consci&ecirc;ncia. Eis o verdadeiro primado do objeto na composi&ccedil;&atilde;o    interna das obras de arte. O sujeito pode dissolver-se frutuosamente no objeto    est&eacute;tico s&oacute; porque ele &eacute;, por seu turno, mediatizado pelo    objeto e exprime, ao mesmo tempo, de modo imediato, o sofrimento. Os antagonismos    s&atilde;o tecnicamente articulados na composi&ccedil;&atilde;o imanente das    obras, que torna a interpreta&ccedil;&atilde;o transl&uacute;cida &agrave;s    rela&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o no exterior. As tens&otilde;es n&atilde;o    s&atilde;o copiadas, mas d&atilde;o forma &agrave; coisa; s&oacute; isto constitui    o conceito est&eacute;tico da forma".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A contradi&ccedil;&atilde;o    apreendida numa est&eacute;tica formal, refor&ccedil;a a import&acirc;ncia de    conceitos aparentemente esquecidos, como, por exemplo, o de man&aacute;, inicialmente    estudado por Malinowski e L&eacute;vi-Strauss, e, atualmente, s&oacute; relacionado    a um momento primitivo de nossa cultura. A condi&ccedil;&atilde;o significante    nunca deixou de ser vital para nossa cultura e seu desenvolvimento. Sua aprecia&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica nos deixa mais pr&oacute;ximos da sondagem do abstrato e de    novos caminhos da significa&ccedil;&atilde;o. A prova do que acabou de ser dito    est&aacute; nos sonhos, que nunca desapareceram e n&atilde;o deixaram de ter    a mesma estrutura de funcionamento, desde os tempos mais remotos, de onde nos    vem relatos ainda hoje pesquisados. Sendo assim, a estrutura on&iacute;rica    pode ser reconhecida como um polo perceptivo, plenamente adaptado aos conceitos    da teoria da percep&ccedil;&atilde;o. Os sonhos adquirem dessa maneira uma import&acirc;ncia    maior na express&atilde;o criativa de recursos que n&atilde;o poderiam se apresentar    &agrave; nossa consci&ecirc;ncia de outra maneira, posto que a comunica&ccedil;&atilde;o    lingu&iacute;stica n&atilde;o &eacute; um instrumento apto para a manifesta&ccedil;&atilde;o    contradit&oacute;ria formal. A estrutura on&iacute;rica se presta a essa liberdade    significante que, por sua vez, nos aproxima do <i>percepto</i> ainda livre das    restri&ccedil;&otilde;es comunicacionais impostas pela linguagem. Isto at&eacute;    nos explica porque nos tempos modernos, t&atilde;o tecnol&oacute;gicos e cient&iacute;ficos,    os rituais primitivos e m&aacute;gicos, continuem sendo procurados e estudados.    A adapta&ccedil;&atilde;o humana ao mundo continua dependente desse recurso,    da mesma forma como as culturas primitivas. Se existe uma diferen&ccedil;a,    ela est&aacute; apenas na grande quantidade de significados que foram gerados    no desenvolvimento da esp&eacute;cie humana. N&atilde;o podemos, com tanta sabedoria    acumulada, desprezar os elementos primitivos de nossa cultura, atualizados em    nossos sonhos e na arte, que apesar de ser moderna, procura resgatar nossos    primeiros momentos de evolu&ccedil;&atilde;o social e cultural. Segundo Boris    Groys (7), a grande caracter&iacute;stica da arte moderna &eacute; a de levantar    uma suspeita, suspeita essa que nos remete a uma pergunta t&atilde;o comum que    nos fazemos frente a algo inusitado que nos atinge emocionalmente sem que saibamos    bem por qu&ecirc;. A pergunta &eacute;: O que seria isto que est&aacute; sendo    observado? A arte moderna nos retira a seguran&ccedil;a da defini&ccedil;&atilde;o    e abre a via da suspeita e da cria&ccedil;&atilde;o. Com a sutileza, pr&oacute;pria    dos artistas, a arte moderna recupera a inseguran&ccedil;a criativa frente ao    mundo aplicada &agrave;s culturas primitivas, por meio de rituais m&aacute;gicos    e sagrados. O sonho, outro baluarte do imp&eacute;rio significante &eacute;    respeitoso frente a suas imagens contundentes e profundamente realistas, aptas    a abrir a capacidade criativa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. Malinowski,    B. <i>Uma teoria cient&iacute;fica da cultura.</i> Rio de Janeiro: Editora Zahar.    1975.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. L&eacute;vi-Strauss,    C. <i>As estruturas elementares do parentesco</i>. Petr&oacute;polis: Vozes.    1976.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. Santaella, L.    <i>A Assinatura das coisas. Peirce e a literatura.</i> Rio de Janeiro: Editora    Imago. 1992.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Adorno, T. W.    <i>Teoria est&eacute;tica.</i> Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. pp. 401-475.    2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Freud, S. <i>Interpreta&ccedil;&atilde;o    dos sonhos.</i> Vol. IV, Tomo VI. Rio de Janeiro: Delta. 1979.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">6. Adorno, T. W.    <i>Teoria est&eacute;tica</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. p. 492. 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">7. Groys, B. <i>Bajo    sospecha. Uma fenomenologia de los medios.</i> Valencia: Editora Pre-textos.    2008.    </font></p>      ]]></body><back>
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