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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/noticiasbr.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O <small>SHOW DA VIOL&Ecirc;NCIA</small></font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v64n2/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><B>M&iacute;dia ajuda a legitimar a repress&atilde;o ao criminalizar periferias e favelas</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a03img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Uma opera&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Militar no centro da cidade de S&atilde;o Paulo para reprimir tr&aacute;fico e consumo de drogas e "limpar" a regi&atilde;o que ficou conhecida como Cracol&acirc;ndia ganhou a m&iacute;dia, no in&iacute;cio deste ano. Policiais utilizando sprays de g&aacute;s de pimenta, atirando balas de borracha ou invadindo cal&ccedil;adas com motocicletas para remover ou prender uma multid&atilde;o de dependentes qu&iacute;micos e traficantes, contabilizaram cerca de 8,2 mil abordagens, segundo dados do governo paulista. Pesquisa de opini&atilde;o p&uacute;blica feita pelos jornais <I>O Estado de S. Paulo</I> e <I>Folha de S. Paulo</I> mostrou que 62,3% e 82% , respectivamente, aprovaram totalmente a atua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia. </font></p>     <p><font size="3">As viola&ccedil;&otilde;es e abusos cometidos, por sua vez, viraram not&iacute;cia nas redes sociais e foram denunciadas por organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais junto ao Conselho de Direitos Humanos das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. O mesmo aconteceu com a remo&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada dos moradores do bairro Pinheirinho, na cidade paulista de S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos, por conta de uma senten&ccedil;a judicial de reintegra&ccedil;&atilde;o de posse: a violenta desocupa&ccedil;&atilde;o ganhou visibilidade na internet, desafiando o tratamento &#150; de invisibiliza&ccedil;&atilde;o &#150; que os grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o (sobretudo os jornais e a televis&atilde;o) dispensaram &agrave; remo&ccedil;&atilde;o. Testemunhos e depoimentos das v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia puderam ter publicidade na rede.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Cracol&acirc;ndia" e "Pinheirinho" tornaram-se emblemas de um momento pol&iacute;tico de retomada da criminaliza&ccedil;&atilde;o das favelas e periferias pela opini&atilde;o p&uacute;blica, em que a viol&ecirc;ncia policial, mesmo que ilegal (por cometer excessos, abusos e viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos) conta com legitima&ccedil;&atilde;o social. O aumento da repress&atilde;o estaria relacionado a uma intensifica&ccedil;&atilde;o dos estere&oacute;tipos e estigmas em torno da pobreza e da exclus&atilde;o, que fazem com que a viol&ecirc;ncia por parte do Estado (da pol&iacute;cia) torne-se leg&iacute;tima. Ambos alimentam-se mutuamente, e a m&iacute;dia tem papel mais do que relevante nisso tudo.</font></p>     <p><font size="3">Gabriel de Santis Feltran, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar), analisa essa complexa din&acirc;mica no livro <I>Fronteiras de tens&atilde;o &#150; Pol&iacute;tica e viol&ecirc;ncia nas periferias de S&atilde;o Paulo</I> (Unesp, 2011) e ajuda a pensar os acontecimentos recentes. "No Pinheirinho passaram os tratores por cima das casas das pessoas, com todos os seus pertences dentro. Um bairro consolidado se tornou um lix&atilde;o. Acompanho remo&ccedil;&otilde;es h&aacute; tempos, e nunca tinha visto nada t&atilde;o expl&iacute;cito", conta Feltran, que ainda lembra que a sa&iacute;da proposta para a Cracol&acirc;ndia &#150; a constru&ccedil;&atilde;o de "centros de tratamento" para milhares de usu&aacute;rios, amparados pela interna&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria &#150; desconsidera todos os estudos realizados recentemente sobre o assunto.</font></p>     <p><font size="3">Mas como pensar, ent&atilde;o, o apoio contabilizado pelas pesquisas de opini&atilde;o p&uacute;blica a essa l&oacute;gica e &agrave; repress&atilde;o policial? A m&iacute;dia ajudaria a criar as imagens, estere&oacute;tipos e preconceitos que, aos olhos do p&uacute;blico, justificariam a ilegalidade da atua&ccedil;&atilde;o policial. O exemplo que Gabriel Feltran traz em seu livro &eacute; o do notici&aacute;rio que sempre faz quest&atilde;o de dizer, ao contabilizar os mortos em chacinas e a&ccedil;&otilde;es policiais, quantos deles apresentavam antecedentes criminais, legitimando-se a l&oacute;gica do "bandido bom &eacute; bandido morto". A criminaliza&ccedil;&atilde;o acontece, ent&atilde;o, quando os meios de comunica&ccedil;&atilde;o tomam as favelas e as periferias urbanas como territ&oacute;rios homog&ecirc;neos e dominados por "bandidos" e, de modo preconceituoso, associam a imagem de seus moradores &#150; principalmente os jovens pobres e negros &#150; ao crime. "As grandes m&iacute;dias t&ecirc;m tido um papel fundamental na constitui&ccedil;&atilde;o &#150; expl&iacute;cita, consciente e informada &#150; desses estere&oacute;tipos. Os jornalistas desses meios funcionam, hoje, como difusores dessa moral absoluta da gest&atilde;o dos indesej&aacute;veis. Mais ainda: a espetaculariza&ccedil;&atilde;o tem sido uma das formas mais utilizadas para tentar gerir um conflito social que, atualmente, n&atilde;o encontra formas de express&atilde;o pol&iacute;tica legitimada.", diz Feltran.</font></p>     <p><font size="3"><B>MARGINALIDADE OU RELIGI&Atilde;O </B>Ao tratar desse car&aacute;ter paradoxal das imagens de viol&ecirc;ncia na m&iacute;dia, Cl&aacute;udio Cardoso de Paiva, professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal da Para&iacute;ba (UFPB), lembra que h&aacute; escritores, romancistas, cineastas, ficcionistas e documentaristas, cuja forma&ccedil;&atilde;o &eacute;tica e consci&ecirc;ncia social implica numa cria&ccedil;&atilde;o preocupada com a constru&ccedil;&atilde;o das identidades de maneira sens&iacute;vel e respons&aacute;vel, concorrendo para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma visibilidade afirmativa dos indiv&iacute;duos e grupos nas comunidades pobres. Mas, para ele, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode esquecer que, tragicamente, vivemos numa sociedade em que os exclu&iacute;dos se encontram num beco estreito entre a criminalidade e a coopta&ccedil;&atilde;o pelas comunidades religiosas. </font></p>     <p><font size="3">"Para o enfrentamento da contradi&ccedil;&atilde;o &#150; que &eacute; mais forte que s&oacute; paradoxo &#150; faz-se necess&aacute;ria uma estrat&eacute;gia de produ&ccedil;&atilde;o educacional, intelectual, est&eacute;tica, inteligente e sens&iacute;vel para o refinamento da percep&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica principalmente dos jovens. Mas essa empresa n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil pois o inconsciente infanto-juvenil &eacute; inteiramente atravessado pela ideologia do consumo que &eacute; terrivelmente violenta", afirma Paiva.</font></p>     <p><font size="3"><b>REALIDADE E FIC&Ccedil;&Atilde;O</b> O pol&ecirc;mico e recorrente tema da "espetaculariza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia" diz respeito ao modo de expressar e tratar est&eacute;tica e politicamente a viol&ecirc;ncia como problema. Para Esther Hamburguer, antrop&oacute;loga e professora da ECA-USP, essa espetaculariza&ccedil;&atilde;o &#150; que ela prefere chamar de hiper-realismo ou hipervisibilidade da viol&ecirc;ncia &#150; teria emergido no cinema e contaminado a televis&atilde;o. Num artigo publicado na <I>Revista de Antropologia</I>, em 2008, ela analisa alguns filmes recentes do cinema brasileiro, em que os temas da viol&ecirc;ncia e da desigualdade social se fazem presentes. <I>Not&iacute;cias de uma guerra particular </I>(1999); <I>Cidade de Deus</I> (2002); <I>O invasor</I> (2002); <I>&Ocirc;nibus 174</I> (2002); <I>Carandiru</I> (2003); <I>O prisioneiro da grade de ferro</I> (2003); <I>Falc&atilde;o, Meninos do tr&aacute;fico</I> (2006) e <I>Tropa de elite</I> (2007) seriam os respons&aacute;veis pela cria&ccedil;&atilde;o de um novo tipo de realismo: atrav&eacute;s de uma s&eacute;rie de artif&iacute;cios, uma verossimilhan&ccedil;a com o real &eacute; inventada e os filmes ganham ares de document&aacute;rio, como se eles fossem capazes de registrar, de forma transparente, a realidade da viol&ecirc;ncia na periferia. Uma hipervisibilidade cujo efeito colateral seria o risco de reduzir os universos das periferias e favelas a imagens estereotipadas e generaliza&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a03img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Dentre os truques utilizados na cria&ccedil;&atilde;o dessa est&eacute;tica hiper-realista, h&aacute; o excesso de contrastes de cores (tons azulados e cinzas que se op&otilde;em a cores quentes); um ritmo acelerado, de videoclipe, na altern&acirc;ncia de planos curtos, criado pela montagem; a &ecirc;nfase em atores desconhecidos (jovens negros, em sua maioria, que n&atilde;o s&atilde;o atores profissionais e que se tornam personagens de si mesmos ao lan&ccedil;ar m&atilde;o de g&iacute;rias e gestos da periferia); um tom de depoimento dado por uma narra&ccedil;&atilde;o em <I>off</I> do protagonista que explica, de modo did&aacute;tico, o plano das imagens para o espectador; espa&ccedil;os e tempos tomados de forma bem definida (o morro e o asfalto no Rio de Janeiro; periferias e pres&iacute;dios em S&atilde;o Paulo; eventos recentes, baseados em hist&oacute;rias contempor&acirc;neas e reais, lan&ccedil;ando-se m&atilde;o de imagens de arquivo), tamb&eacute;m ajudam a criar imagens que se querem como espelhos da realidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A antrop&oacute;loga lembra alguns textos publicados na imprensa no calor da hora, mais especificamente quando <I>Cidade de Deus</I> foi lan&ccedil;ado, em 2002, quando o tema da espetaculariza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia no Brasil foi retomado com for&ccedil;a. O texto de Ivana Bentes, pesquisadora da UFRJ, destaca em artigo no <I>O Estado de S. Paulo</I> como, atrav&eacute;s da montagem e da imers&atilde;o total do espectador nas imagens, <I>Cidade de Deus</I> suscita a adrenalina dos filmes de a&ccedil;&atilde;o hollywoodianos, em que o prazer estaria em assistir a algu&eacute;m infligir e/ou sofrer algum tipo de viol&ecirc;ncia. Uma satura&ccedil;&atilde;o dos sentidos que anestesia o espectador. O texto de Jean Claude Bernardet no mesmo jornal, por sua vez, aborda como o filme configuraria um "cinema do espanto" que quer criar um testemunho da viol&ecirc;ncia cheio de pontos de exclama&ccedil;&atilde;o em vez de interroga&ccedil;&atilde;o, baseado numa descri&ccedil;&atilde;o sem julgamento moral das a&ccedil;&otilde;es e comportamentos dos personagens.</font></p>     <p><font size="3"><B>COMO EVITAR ESTERE&Oacute;TIPOS? </B>Nessa contamina&ccedil;&atilde;o entre o real e fic&ccedil;&atilde;o, cineastas e atores, curiosamente, ainda se tornam vozes autorizadas e especializadas no tema da viol&ecirc;ncia, caso da equipe do filme <I>Tropa de elite</I>: por ocasi&atilde;o do lan&ccedil;amento da sequ&ecirc;ncia do filme, em 2010, as entrevistas do diretor Jos&eacute; Padilha ou mesmo do protagonista, Wagner Moura, muitas vezes foram transformadas em verdadeiros debates acerca da implanta&ccedil;&atilde;o das Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora (UPPs) e da pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a p&uacute;blica no Rio de Janeiro.</font></p>     <p><font size="3">"A quest&atilde;o que permanece sem resposta &eacute;: como expressar situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia e discrimina&ccedil;&atilde;o sem contribuir para refor&ccedil;ar estere&oacute;tipos? Ou melhor, como contribuir visualmente para desarticular estere&oacute;tipos, especialmente os que associam jovens homens negros e pobres &agrave; viol&ecirc;ncia?", pergunta Esther Hamburguer em seu artigo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Carolina Cantarino</I></font></p>      ]]></body>
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