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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/noticiasbr.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">M<small>IGRA&Ccedil;&Otilde;ES</small></font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v64n2/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><B>Nova onda de estrangeiros chega ao Brasil</B></font></p>     <p><font size="3">Eles est&atilde;o chegando em n&uacute;mero cada vez maior. Os motivos s&atilde;o variados e diferentes do fluxo migrat&oacute;rio do s&eacute;culo passado, p&oacute;s-guerras. Agora entram no pa&iacute;s para estudar, trabalhar, montar um neg&oacute;cio ou simplesmente casar. Deixam para tr&aacute;s fam&iacute;lias, hist&oacute;rias, culturas e por aqui ficam, muitas vezes para sempre. Saem de seus pa&iacute;ses movidos seja pela transfer&ecirc;ncia tempor&aacute;ria por exig&ecirc;ncia do empregador &agrave; tentativa de uma vida melhor no exterior, fugindo de &aacute;reas de conflitos ou de desastres ambientais. Chegam das Am&eacute;ricas, da Europa, da &Aacute;sia, de toda parte. O tr&acirc;nsito desses migrantes existe por todo o planeta e, segundo a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), eles formam atualmente um contingente de 160 milh&otilde;es de pessoas.</font></p>     <p><font size="3">O soci&oacute;logo Dimas Floriani, professor da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR), considera que no imagin&aacute;rio brasileiro a quest&atilde;o migrat&oacute;ria tende a ser tratada com toler&acirc;ncia e humanidade, por ser uma na&ccedil;&atilde;o formada por estrangeiros, que contribu&iacute;ram para moldar nossas caracter&iacute;sticas de hibrida&ccedil;&atilde;o &eacute;tnico-cultural. Desde seu descobrimento, o Brasil recebeu holandeses, portugueses, franceses, espanh&oacute;is e, posteriormente, italianos, japoneses, chineses e muitos latino-americanos. Os estrangeiros que aqui chegaram nos s&eacute;culos XVI e XVII, n&atilde;o s&atilde;o considerados imigrantes por muitos autores pois foram enviados pelo governo de seus pa&iacute;ses com o objetivo de colonizar o Brasil; s&atilde;o tidos como colonizadores. Do mesmo modo, os negros trazidos da &Aacute;frica como escravos, n&atilde;o s&atilde;o considerados migrantes, pois vieram para c&aacute; como prisioneiros em navios negreiros. </font></p>     <p><font size="3">Dados para 2011 do Minist&eacute;rio do Trabalho e Emprego (MTE) apontam um aumento de mais de 25% na emiss&atilde;o de vistos de trabalho, em rela&ccedil;&atilde;o a 2010. Foram concedidos 70.524 vistos, dos quais 66.690 foram tempor&aacute;rios, a maioria (34%) de at&eacute; 90 dias. S&atilde;o autoriza&ccedil;&otilde;es dadas majoritariamente a homens (90% dos vistos) para trabalhar a bordo de embarca&ccedil;&atilde;o ou plataforma estrangeira ou ainda navios tur&iacute;sticos estrangeiros, por prazo de at&eacute; 90 dias. Cinco pa&iacute;ses &#150; Estados Unidos, Filipinas, Reino Unido, &Iacute;ndia e Alemanha &#150; est&atilde;o na origem de 43% dos vistos tempor&aacute;rios expedidos (ver <a href="#grf01">gr&aacute;fico 1</a>). Menos de 8 % dos vistos tempor&aacute;rios foram concedidos por dois anos para estrangeiros com contrato de trabalho no Brasil. </font></p>     <p><a name="grf01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a05grf01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Este n&uacute;mero, por&eacute;m, aumentou 117% em rela&ccedil;&atilde;o a 2008. Nem todos os migrantes solicitam entrada no Brasil por meio de visto tempor&aacute;rio. Nos &uacute;ltimos quatro anos, houve um aumento de mais de 700% nos vistos permanentes de car&aacute;ter humanit&aacute;rio e de 550% para estabelecimento de uni&atilde;o est&aacute;vel. Franceses s&atilde;o os que mais solicitaram uni&atilde;o est&aacute;vel com brasileiros, mas foram os haitianos (709 dos 711 pedidos aprovados) os que mais recorreram a raz&otilde;es humanit&aacute;rias para solicitar resid&ecirc;ncia no Brasil em 2011. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a05grf02.jpg" border="0" usemap="#Map">   <map name="Map">     <area shape="rect" coords="36,329,348,346" href="http://www.diasmarques.adv.br/artigos/Artigo_Imigracao_Estadao2.pdf" target="_blank">   </map> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Sem d&uacute;vida, existe hoje uma intensifica&ccedil;&atilde;o do fluxo de migra&ccedil;&atilde;o e o que ocorre no Brasil n&atilde;o &eacute; diferente do que vem sendo observado em outros pa&iacute;ses do mundo. Floriani, que &eacute; tamb&eacute;m coordenador acad&ecirc;mico da Casa Latino-americana (CASLA), em Curitiba, considera que a imigra&ccedil;&atilde;o &eacute;, preponderantemente, influenciada por aspectos econ&ocirc;micos. Ele alerta, por&eacute;m, a import&acirc;ncia de se considerar o custo humano e existencial: "pouco se discute aspectos culturais dessa mudan&ccedil;a, o custo humano, o sofrimento do migrante por ter suas ra&iacute;zes cortadas e por ter que reaprender a viver em outras circunst&acirc;ncias".</font></p>     <p><font size="3"><B>PORTAS ABERTAS </B>A hist&oacute;ria da humanidade &eacute; marcada por fluxos migrat&oacute;rios, apesar de fronteiras nacionais e territoriais terem sido, e continuarem sendo, controladas pelos Estados. No Brasil, o que regula o fluxo s&atilde;o as pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas do pa&iacute;s e seu poder de atra&ccedil;&atilde;o de estrangeiros que, em seus pa&iacute;ses, enfrentem dificuldades de diferentes naturezas, seja econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica ou religiosa. Estima-se que entre 1870 e 1950 mais de 4,5 milh&otilde;es de estrangeiros chegaram ao Brasil como imigrantes, com grandes varia&ccedil;&otilde;es de um ano a outro: por exemplo, em 1891, p&oacute;s Lei &Aacute;urea em 1888, entraram no Brasil 215 mil estrangeiros; j&aacute; em 1943, em plena II Guerra Mundial, esses foram pouco mais de 1.300.</font></p>     <p><font size="3">A ge&oacute;grafa Gislene Santos, professora da UFPR, afirma que desde os anos 1980 ocorrem altera&ccedil;&otilde;es na configura&ccedil;&atilde;o do fluxo migrat&oacute;rio internacional. Na &eacute;poca, a participa&ccedil;&atilde;o do Brasil era principalmente para fora: brasileiros que buscavam melhores condi&ccedil;&otilde;es ou oportunidades nos Estados Unidos, no Paraguai e no Jap&atilde;o. Gislene, que desenvolve pesquisas sobre migra&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas, acrescenta que a partir do final dos anos 1990 o Brasil tornou-se tamb&eacute;m receptor de migrantes, vindos dos vizinhos Bol&iacute;via, Paraguai, Argentina e Chile, assim como de alguns pa&iacute;ses da Europa Ocidental e da China. Segundo ela, refor&ccedil;ou-se tamb&eacute;m o fluxo de migrantes vindos do L&iacute;bano. </font></p>     <p><font size="3"><B>O&Aacute;SIS </B>A estabiliza&ccedil;&atilde;o da economia brasileira, oportunidades de vida existentes aqui e a maior visibilidade no cen&aacute;rio externo t&ecirc;m sido apontados como as principais causas para o aumento do fluxo de estrangeiros para o pa&iacute;s. Gislene salienta que esse processo migrat&oacute;rio apresenta hoje uma tipologia variada. "Por exemplo, para o setor automobil&iacute;stico no Brasil, alguns postos de trabalho s&atilde;o reservados para os trabalhadores do pa&iacute;s de origem, como &eacute; o caso da francesa Renault em Curitiba. Existe tamb&eacute;m um fluxo de trabalhadores que atendem &agrave;s demandas do setor informal da economia urbana, como servi&ccedil;os dom&eacute;sticos, de alimenta&ccedil;&atilde;o e confec&ccedil;&atilde;o. Nestes, os trabalhadores s&atilde;o menos qualificados e em geral s&atilde;o migrantes latino-americanos, sobretudo do Paraguai e da Bol&iacute;via, e mais recentemente, chineses".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>... MAS N&Atilde;O PARA TODOS</b> A globaliza&ccedil;&atilde;o existe, principalmente para o capital e os investimentos, mas as barreiras persistem nas fronteiras, nas alf&acirc;ndegas, para a circula&ccedil;&atilde;o de pessoas. Em seu livro <I>Dimens&otilde;es da reestrutura&ccedil;&atilde;o produtiva</I>, Giovanni Alves, professor da Universidade Estadual Paulista J&uacute;lio de Mesquita Filho (Unesp), considera que na atual civiliza&ccedil;&atilde;o do capital, o trabalho &eacute; marcado pela fluidez e pela liquidez, impondo o deslocamento e migra&ccedil;&atilde;o em grande escala, concordando com Karl Marx ao apontar que os migrantes seguem atr&aacute;s do capital emigrante. Mas se para o capital existem t&ecirc;nues fronteiras que limitem sua circula&ccedil;&atilde;o, para pessoas que buscam uma vida melhor, a entrada em um pa&iacute;s estrangeiro pode ser muito dif&iacute;cil.</font></p>     <p><font size="3">Um exemplo s&atilde;o os 274 migrantes haitianos que desde janeiro deste ano est&atilde;o em I&ntilde;apari, um pequeno vilarejo peruano na fronteira com o Brasil. Foram surpreendidos pela Resolu&ccedil;&atilde;o nº 97/2012 do Conselho Nacional de Imigra&ccedil;&atilde;o (CNIg), que passou a vigorar em 18 de janeiro, e segundo a qual a embaixada brasileira em Porto Pr&iacute;ncipe, capital do Haiti, s&oacute; pode expedir, em car&aacute;ter especial, at&eacute; 1,2 mil vistos por ano, ou 100 por m&ecirc;s. Os que conseguiram entrar no Brasil antes da resolu&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o sendo regularizados pouco a pouco. Mas os que n&atilde;o haviam entrado e sa&iacute;ram do Haiti sem a permiss&atilde;o, est&atilde;o impedidos de entrar no Brasil. </font></p>     <p><font size="3">Do mesmo modo que muitos migrantes brasileiros e mexicanos nos EUA passam por graves situa&ccedil;&otilde;es de constrangimento e humilha&ccedil;&atilde;o devido &agrave; austeridade da pol&iacute;tica migrat&oacute;ria norte-americana, migrantes estrangeiros enfrentam problemas em nosso pa&iacute;s. Ainda assim, uma enquete realizada pelo Pew Research Center em 2007 (http://pewglobal.org/files/pdf/258.pdf) aponta que a maioria dos brasileiros (72%), dos venezuelanos (77%), dos chilenos (74%), dos bolivianos (73%), dos mexicanos (71%) e dos argentinos (68%) consideram que seus pa&iacute;ses deveriam limitar e controlar muito mais a imigra&ccedil;&atilde;o. Embora pesquisas de opini&atilde;o p&uacute;blica tenham um car&aacute;ter vol&aacute;til, o soci&oacute;logo Floriani considera pertinente discutir a natureza do processo migrat&oacute;rio e as pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias, definindo-se estrat&eacute;gias de curto, m&eacute;dio e longo prazo e considerando-se aspectos econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos, culturais e de direitos humanos.</font></p>     <p><font size="3">No &acirc;mbito do Mercosul existem acordos para o tr&acirc;nsito de trabalhadores, "entretanto s&atilde;o acordos voltados para a circula&ccedil;&atilde;o do trabalho", salienta Gislene Santos. No Brasil, a pol&iacute;tica de migra&ccedil;&atilde;o &eacute; definida no Estatuto do Estrangeiro (Lei 6815/80) e &eacute; rigorosa, afirma a professora Gislene, pois "nesta lei o migrante &eacute; tratado como assunto de seguran&ccedil;a nacional". Na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal constam aspectos da migra&ccedil;&atilde;o estrangeira, como as relativas &agrave; nacionalidade e aos direitos pol&iacute;ticos, e a entrada de estrangeiros no Brasil &eacute; assunto dos Minist&eacute;rios das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores, da Justi&ccedil;a e do Minist&eacute;rio do Trabalho e Emprego. Gislene Santos destaca que v&aacute;rios procedimentos para regulariza&ccedil;&atilde;o de um migrante estrangeiro s&atilde;o atribu&iacute;dos aos agentes da Pol&iacute;cia Federal, que n&atilde;o s&atilde;o preparados para receber e dar assist&ecirc;ncia ao migrante. Gislene Santos explica que temos uma pol&iacute;tica de Estado para normatizar o tr&acirc;nsito migrat&oacute;rio, mas n&atilde;o temos pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para a integra&ccedil;&atilde;o dos migrantes estrangeiros, que quanto mais empobrecidos s&atilde;o, mais vulner&aacute;veis e sujeitos a constrangimentos econ&ocirc;micos e sociais ficam. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Leonor Assad</I></font></p>      ]]></body>
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