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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/noticias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">ENTREVISTA</font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v64n2/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><B>Pesquisador colombiano defende ci&ecirc;ncia mais criativa e conectada &agrave; popula&ccedil;&atilde;o</B></font></p>     <p><font size="3">No come&ccedil;o de mar&ccedil;o aconteceu a etapa do Rio de Janeiro do circuito Arte.mov, evento que se define como um "espa&ccedil;o para a produ&ccedil;&atilde;o e reflex&atilde;o cr&iacute;tica em torno da chamada 'cultura da mobilidade'". A programa&ccedil;&atilde;o contou com debates e apresenta&ccedil;&otilde;es no Parque das Ru&iacute;nas, al&eacute;m de uma oficina de cartografia experimental com o artista e pesquisador colombiano Andres Burbano. No dia seguinte, o mesmo trabalho foi feito na Nuvem, hacklab rural em Visconde de Mau&aacute; &#150; na regi&atilde;o serrana da Mantiqueira. Burbano desenvolve atualmente, na Universidade da Calif&oacute;rnia, em Santa B&aacute;rbara, EUA, sua pesquisa de doutorado sobre a hist&oacute;ria das tecnologias de comunica&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina. Sua apresenta&ccedil;&atilde;o em mar&ccedil;o tratou de mapeamento a&eacute;reo a partir de c&acirc;meras digitais presas a bal&otilde;es feitos &agrave; m&atilde;o. Cada bal&atilde;o flutuava por alguns minutos, fazendo fotos que depois seriam utilizadas para gerar cartografias colaborativas da regi&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3"><B>CI&Ecirc;NCIA E CULTURA:</B> <i>Como essa oficina de bal&otilde;es se relaciona ao debate sobre ci&ecirc;ncia?</i> </font></p>     <p><font size="3"><B>ANDRES BURBANO:</B> A ideia da oficina com os bal&otilde;es &eacute; explorar a ci&ecirc;ncia cidad&atilde;. Como o cidad&atilde;o comum &#150; voc&ecirc;, eu, o professor ali &#150; pode projetar de forma barata experimentos que ajudem a tomar decis&otilde;es, pressionar o governo, entender onde estamos. </font></p>     <p><font size="3"><i>Poderia falar mais sobre a inflex&atilde;o da ideia de ci&ecirc;ncia com o cidad&atilde;o, a chamada ci&ecirc;ncia hacker, ou ci&ecirc;ncia livre?</i></font></p>     <p><font size="3">Um dos problemas que a ci&ecirc;ncia tem como institui&ccedil;&atilde;o (e &eacute; um problema da ci&ecirc;ncia na Europa, EUA e Jap&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; na Am&eacute;rica Latina) &eacute; que ela perdeu o contato com as pessoas, com o cidad&atilde;o comum, com o cotidiano. Tem um discurso muito elevado que n&atilde;o se conecta ao cidad&atilde;o. E o cientista diz "as pessoas n&atilde;o est&atilde;o interessadas no meu trabalho. Como &eacute; poss&iacute;vel?". Mas ele mesmo n&atilde;o faz um esfor&ccedil;o para se conectar a elas. Esse <I>gap</I> n&atilde;o &eacute; s&oacute; do cientista. &Eacute; nosso tamb&eacute;m. Pense na ferramenta que estamos usando agora, a fotografia digital. H&aacute; 10, 20 anos era inacess&iacute;vel, mas j&aacute; estava l&aacute;. Agora temos uma c&acirc;mera de 60 d&oacute;lares, potencialmente mais barata, modificada com software livre, para usar como quisermos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><I>O senhor pesquisa a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia na Am&eacute;rica Latina, mas, ao mesmo tempo, colabora com coisas que est&atilde;o al&eacute;m da ci&ecirc;ncia. Por exemplo, essa experimenta&ccedil;&atilde;o com bal&otilde;es poderia ser feita totalmente dentro da universidade. O que o motiva a buscar colabora&ccedil;&otilde;es fora dela tamb&eacute;m?</I></font></p>     <p><font size="3">Sou uma pessoa de interface. Trabalho na interface entre ci&ecirc;ncia e arte, entre universidade e comunidade. Comecei a compreender isso quando est&aacute;vamos trabalhando no projeto Bogot&aacute; Wifi, modificando antenas de TV para fazer p&uacute;blico. Outros grupos similares estavam seguindo o modelo hacker: <I>fa&ccedil;a voc&ecirc; mesmo</I>, em rede. Mas parei um momento e falei: "fizemos tudo que est&aacute; no website, mas como vamos testar se a antena est&aacute; realmente funcionando?" Ent&atilde;o convenci alguns cientistas, com os laborat&oacute;rios apropriados para testar antenas, para que nos ajudassem a selecionar quais antenas funcionavam melhor. E fez uma diferen&ccedil;a incr&iacute;vel, porque eles tinham os instrumentos. E ficaram interessados no que faz&iacute;amos. </font></p>     <p><font size="3"><i>Como a influ&ecirc;ncia da ci&ecirc;ncia como protocolo de comunica&ccedil;&atilde;o volta para a pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia a partir da cultura da internet? </i></font></p>     <p><font size="3">O que eu vejo &eacute; que a ci&ecirc;ncia tem um sistema, por vezes, estruturado demais. E ela n&atilde;o consegue cobrir tudo que poderia ou, idealmente, deveria cobrir. E assim necessita que outros n&iacute;veis da sociedade estejam ali. Nos EUA, no momento, h&aacute; um problema ser&iacute;ssimo. Grande parte da sociedade n&atilde;o acredita nos cientistas de modo geral. N&atilde;o porque a ci&ecirc;ncia n&atilde;o d&ecirc; resultados, ou porque deu origem &agrave; bomba at&ocirc;mica. N&atilde;o creem por motivos religiosos e, em parte, isso &eacute; um projeto pol&iacute;tico consciente do Partido Republicano. Eles afirmam que dados cient&iacute;ficos que comprovam a sele&ccedil;&atilde;o natural s&atilde;o mentirosos. E est&atilde;o influenciando o conte&uacute;do das escolas. Ent&atilde;o a discuss&atilde;o vai t&atilde;o longe que surge hoje a pergunta: "voc&ecirc; concorda que a evolu&ccedil;&atilde;o seja ensinada nos col&eacute;gios"? Quando a pergunta necess&aacute;ria deveria ser: "voc&ecirc; concorda que o criacionismo seja ensinado"? Porque a escola existe para uma educa&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, para disseminar conhecimento. Por que isso acontece? Porque o sistema cient&iacute;fico n&atilde;o conseguiu manter uma maneira de se comprometer com a sociedade de maneira &oacute;tima. Construiu, sim, para dentro, para legislar, validar conhecimento. Um sistema sofisticado, muito interessante, com a revis&atilde;o de pares e tudo mais. Mas ao ponto de vista da sociedade n&atilde;o conseguem mais voltar, n&atilde;o sabem como.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a06img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>Essas iniciativas de coopera&ccedil;&atilde;o podem ser um caminho interessante para buscar o contato entre ci&ecirc;ncia e sociedade?</i></font></p>     <p><font size="3">Sem d&uacute;vida. Principalmente na aproxima&ccedil;&atilde;o com a cultura hacker. O que o hacker traz &eacute; o sentido de comunidade. N&atilde;o existe um hacker sozinho, como pode existir em outras pr&aacute;ticas. A ci&ecirc;ncia cidad&atilde;, assim, vai compartilhar conhecimento, atribuir tarefas, mudar planos coletivamente. O perigo, do meu ponto de vista, &eacute; negar o valor do conhecimento do cientista experiente. O <I>fa&ccedil;a voc&ecirc; mesmo</I> tem limites. Quando se trabalha com um cientista experiente, ao qual se pode propor coisas, os limites desaparecem. Participei de um projeto de mapeamento arqueol&oacute;gico onde isso ficou claro. Encontramos uma pessoa que conhecia metodologias sobre como fazer o mapeamento do lugar por linhas, medindo &acirc;ngulos de 90 graus para saber a altitude de cada elemento. A princ&iacute;pio ficamos s&oacute; olhando. Depois ele mostrou os dados, e estavam perfeitos. N&atilde;o havia nenhum erro, nenhum problema. Ou seja, precisamos deles. E eles encontram o qu&ecirc;, quando v&ecirc;m para esse lado? Gente curiosa, que se interessa pelo trabalho deles. E isso para eles &eacute; incr&iacute;vel. Grande parte da sociedade n&atilde;o est&aacute; interessada no trabalho cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="3"><i>O cientista no topo da hierarquia tamb&eacute;m tem interesse em colaborar com n&atilde;o cientistas?</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Tem, tem. N&atilde;o todos. Cada vez mais, cientistas veem as perguntas que a gente faz como interessantes, e podem ceder tempo de seus laborat&oacute;rios e deles pr&oacute;prios para explor&aacute;- las. Agora, em primeiro lugar, &eacute; necess&aacute;rio aproximar- se com respeito. Em segundo, precisamos ter o m&iacute;nimo de conhecimento para negociar com eles. E, terceiro, n&atilde;o podemos ter medo de perguntar coisas malucas. Quando voc&ecirc; d&aacute; mais espa&ccedil;o para perguntas inusitadas, eles se surpreendem e prestam aten&ccedil;&atilde;o. Os cientistas mais importantes do s&eacute;culo XX se posicionavam de maneira clara nesse sentido. Einstein falava que "para a inova&ccedil;&atilde;o, a imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; mais importante que o conhecimento". E isso tem tudo a ver com ci&ecirc;ncia cidad&atilde; &#150; a uni&atilde;o de <I>insight</I> com m&eacute;todo, que pode gerar inova&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"><i>O que &eacute; inova&ccedil;&atilde;o?</i></font></p>     <p><font size="3">&Eacute; quando um processo ou aparelho inventado encontra eco na sociedade. A inven&ccedil;&atilde;o pode ser individual e ficar s&oacute; nisso. Para ser considerada inova&ccedil;&atilde;o, precisa ter impacto, mesmo que numa comunidade espec&iacute;fica. A patente tem uma hist&oacute;ria interessante, pois originalmente, foi feita para proteger o trabalho, que gerou valor, e isso deve ser devidamente atribu&iacute;do. O problema &eacute; que no s&eacute;culo XX se desenvolve o conflito do inventor que se torna empreendedor, como Thomas Edison. A sociedade inteira muda com a eletricidade e isso gera um imp&eacute;rio. Em pouco tempo, a patente passa a ser instrumento de manuten&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gios. E se torna um problema &#150; em vez de proteger ela acaba, pelo contr&aacute;rio, por bloquear a inven&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Felipe Fonseca</I></font></p>      ]]></body>
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