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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/artigos_aborto.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Aborto seguro: um direito das mulheres?</b></font></p>     <p><font size="3">Nilc&eacute;a Freire</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> discuss&atilde;o sobre o aborto no pa&iacute;s e a primazia das mulheres em tomarem a decis&atilde;o sobre sua realiza&ccedil;&atilde;o foi, desde sempre, revestida de grande simbolismo posto que  confronta a sociedade com temas "intoc&aacute;veis", como o in&iacute;cio da vida humana e a "propriedade" sobre os corpos femininos. </font></p>     <p><font size="3">Nos &uacute;ltimos anos e, especialmente a partir da I e da II Confer&ecirc;ncias Nacionais de Pol&iacute;ticas para as Mulheres, o tratamento do tema ganhou novos contornos. A aprova&ccedil;&atilde;o da resolu&ccedil;&atilde;o que demandava ao governo brasileiro iniciativas que viessem a rever, no sentido descriminalizante, a legisla&ccedil;&atilde;o brasileira, inseriu a quest&atilde;o do aborto no campo de discuss&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, mais especificamente, no &acirc;mbito da sa&uacute;de p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, vale registrar que no Brasil, seguindo uma tend&ecirc;ncia mundial, houve no mesmo per&iacute;odo um acentuado crescimento e/ou explicita&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es conservadoras quanto ao tema, por parte de diferentes grupamentos religiosos que ampliaram sua for&ccedil;a pol&iacute;tica no Congresso Nacional.</font></p>     <p><font size="3">Na sociedade brasileira, apesar da legisla&ccedil;&atilde;o restritiva e criminalizante, a pr&aacute;tica clandestina do aborto ocorre em escala que coloca em risco a vida de milhares de mulheres, sobretudo nos extratos de renda mais baixos da popula&ccedil;&atilde;o, configurando-se, desta maneira, como a quarta causa de morte materna no Brasil.</font></p>     <p><font size="3">Estima-se que, em 2005 (1), para cada 100 nascidos vivos ocorreram 30 abortos realizados em condi&ccedil;&otilde;es inseguras e prec&aacute;rias. Em termos de mortalidade materna, se aprofundarmos as estat&iacute;sticas, considerando os aspectos socioecon&ocirc;micos, verificamos que as maiores v&iacute;timas s&atilde;o mulheres negras e pobres. A desagrega&ccedil;&atilde;o dos dados em rela&ccedil;&atilde;o ao quesito ra&ccedil;a e cor elucida parte da desigualdade &eacute;tnico-social entre as brasileiras: das mortes maternas causadas pelo aborto em 2004, aproximadamente 9% eram mulheres brancas e 20% eram negras (2).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em 2009, foi apresentado um estudo financiado pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, "20 anos de pesquisa sobre o aborto no Brasil", coordenado por D&eacute;bora Diniz e Marilena Corr&ecirc;a, em que se revela o perfil das mulheres que realizam o aborto no Brasil, concluindo-se que s&atilde;o, predominantemente, mulheres entre 20 e 29 anos, em uni&atilde;o est&aacute;vel, com at&eacute; oito anos de estudo, trabalhadoras e cat&oacute;licas. Os resultados da pesquisa p&otilde;em por terra o estere&oacute;tipo de que somente mulheres "irrespons&aacute;veis" e "inconsequentes" recorrem ao aborto como solu&ccedil;&atilde;o para o problema da gravidez indesejada e o reposiciona como op&ccedil;&atilde;o, via de regra dif&iacute;cil, de mulheres e, porque n&atilde;o dizer, de homens, que por diferentes raz&otilde;es vivenciam essa conting&ecirc;ncia de vida. </font></p>     <p><font size="3">Independentemente das condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, sociais, de escolaridade, entre outras, em que se encontram essas mulheres, a criminaliza&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica do aborto as iguala sonegando-lhes o direito &agrave; sa&uacute;de e impondo-lhes as consequ&ecirc;ncias no campo ps&iacute;quico e social de uma gravidez n&atilde;o desejada. </font></p>     <p><font size="3">As mulheres que recorrem ao aborto inseguro ou clandestino ficam expostas ao risco dos agravos a sua sa&uacute;de e at&eacute; a morte, al&eacute;m do sofrimento moral de um processo judicial que pode levar &agrave; condena&ccedil;&atilde;o. O caso das dez mil mulheres de Mato Grosso do Sul &eacute; exemplar no sentido de demonstrar as poss&iacute;veis consequ&ecirc;ncias de uma legisla&ccedil;&atilde;o t&atilde;o anacr&ocirc;nica quanto injusta.</font></p>     <p><font size="3">Ao avaliar o VI Relat&oacute;rio Nacional Brasileiro, o Comit&ecirc; de Elimina&ccedil;&atilde;o da Discrimina&ccedil;&atilde;o contra Mulheres das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, recomendou, juntamente com outras medidas, que o pa&iacute;s proceda &agrave; revis&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o, com vistas &agrave; descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto, e que prossiga com seus esfor&ccedil;os para aumentar o acesso das mulheres &agrave; assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de, em particular aos servi&ccedil;os de sa&uacute;de sexual e reprodutiva, o que inclui a assist&ecirc;ncia aos casos e &agrave;s complica&ccedil;&otilde;es decorrentes de abortos n&atilde;o seguros. Tal recomenda&ccedil;&atilde;o se fundamenta nos dados sobre morte materna em consequ&ecirc;ncia de abortamento inseguro.</font></p>     <p><font size="3">As recomenda&ccedil;&otilde;es do Comit&ecirc; revalidam e refor&ccedil;am os compromissos assumidos pelo pa&iacute;s em diferentes instrumentos internacionais, por meio dos quais se reconhece que a exposi&ccedil;&atilde;o aos riscos de um abortamento inseguro implica em viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos de meninas e mulheres, a exemplo da Declara&ccedil;&atilde;o de Viena, de 1993, e que direitos sexuais e reprodutivos s&atilde;o direitos humanos, conforme a defini&ccedil;&atilde;o resultante da IV Confer&ecirc;ncia Mundial sobre a Mulher, em Pequim, em 1995. O compromisso do Estado brasileiro expresso nesses instrumentos &eacute; claro no sentido da abordagem do aborto como problema de sa&uacute;de p&uacute;blica e da necessidade de rever a legisla&ccedil;&atilde;o restritiva e punitiva sobre o tema.</font></p>     <p><font size="3">Urge, portanto, aprofundar o debate entre n&oacute;s com a delicadeza que o assunto merece e com a consci&ecirc;ncia da pol&ecirc;mica que desperta. Sendo part&iacute;cipe da Conven&ccedil;&atilde;o sobre a Elimina&ccedil;&atilde;o de todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o contra a Mulher, o Estado brasileiro deve garantir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres brasileiras atrav&eacute;s da discuss&atilde;o livre e informada. </font></p>     <p><font size="3">Para isso, &eacute; imprescind&iacute;vel superar os paradigmas estigmatizantes do machismo e do sexismo que obstaculizam a verdadeira promo&ccedil;&atilde;o da igualdade entre homens e mulheres e avan&ccedil;ar rumo a uma sociedade garantidora da totalidade dos direitos humanos.</font></p>     <p><font size="3">Urge enfrentar o debate sobre o aborto com a consci&ecirc;ncia da propor&ccedil;&atilde;o de seus impactos na vida das mulheres. E aqui, cabe lembrar o julgamento da A&ccedil;&atilde;o de Argui&ccedil;&atilde;o de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 sobre a interrup&ccedil;&atilde;o de gesta&ccedil;&otilde;es de fetos anenc&eacute;falos que, felizmente, teve parecer favor&aacute;vel do Supremo Tribunal Federal. </font></p>     <p><font size="3">Ainda que delicada e dif&iacute;cil a discuss&atilde;o sobre o tema, o aborto est&aacute;, mais do que nunca, em pauta e &agrave; sociedade brasileira, e em especial &agrave;s mulheres, cabe decidir sobre qual devem ser os pr&oacute;ximos passos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><I><B>Nilc&eacute;a Freire</B> &eacute; m&eacute;dica e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Foi ministra da Secretaria Especial de Pol&iacute;ticas para as Mulheres da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica (2004-2010).</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Adesse, L.; Monteiro, M.F.G.. In: Ipas Brasil. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ipas.org.br/arquivos/factsh_mag.pdf" target="_blank">http://www.ipas.org.br/arquivos/factsh_mag.pdf</a> (acesso em 2/2/10)</font><!-- ref --><p><font size="3">2. Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. Secretaria de Gest&atilde;o Estrat&eacute;gica e Participativa. Painel de Indicadores do SUS. Vol.1, 2008. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/painel_%20indicadores_do_SUS.pdf" target="_blank">http://portal.saude.gov.br/portal/ arquivos/pdf/painel_%20indicadores_do_SUS.pdf</a> (acesso em 2/2/10).    </font></p>      ]]></body><back>
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<collab>Ministério da Saúde.^dSecretaria de Gestão Estratégica e Participativa</collab>
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