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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>CENTEN&Aacute;RIO DE NELSON RODRIGUES</b> </font></p>     <p><font size=5><b>As muitas facetas do &quot;anjo pornogr&aacute;fico&quot;</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nascido em agosto de 1912, Nelson Rodrigues, um dos grandes dramaturgos brasileiros, foi tamb&eacute;m um dos maiores cronistas de seu tempo, escreveu novelas no in&iacute;cio da televis&atilde;o no Brasil e foi um apaixonado por futebol. Com estilo que afrontava a moral e os bons costumes, suas obras expunham as mais variadas taras humanas com uma naturalidade ultrajante para a &eacute;poca e ele pr&oacute;prio se intitulava um "anjo pornogr&aacute;fico".</font></p>     <p><font size="3">"Vindo de uma fam&iacute;lia de jornalistas, Nelson Rodrigues era obcecado por palavras e narrativas. Contribu&iacute;a para diversos jornais e suas colunas no jornal <I>&Uacute;ltima Hora</I> ficaram imortalizadas. E, tanto em <I>A vida como ela &eacute;</I> como em suas <I>Cr&ocirc;nicas esportivas</I>, Nelson faz um retrato sem censura da vida cotidiana em um Brasil onde o Rio de Janeiro era o centro do poder e ditava as modas e costumes", explica Angela Leite Lopes, professora e pesquisadora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais, da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a23img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nelson Rodrigues n&atilde;o era um desconhecido quando escreveu sua primeira pe&ccedil;a para o teatro, <I>Vestido de noiva</I>, cujos di&aacute;logos r&aacute;pidos e cheios do ritmo do portugu&ecirc;s falado nas ruas, diferente do idioma empolado tido como norma para a escrita liter&aacute;ria de ent&atilde;o, s&atilde;o um marco para o teatro moderno brasileiro. "Ele deixou de lado o  'sotaque de Lisboa' e trouxe para as cr&ocirc;nicas e para o teatro o que podemos chamar de 'fala afetiva brasileira', ou seja, aquela onde o ritmo das frases e as g&iacute;rias d&atilde;o um ar mais real para os personagens. Essa &eacute; uma das maiores contribui&ccedil;&otilde;es do Nelson Rodrigues para a dramaturgia brasileira. O mesmo vale para os contos, romances e cr&ocirc;nicas. Ele n&atilde;o reinventou esses g&ecirc;neros, mas mudou e ampliou as op&ccedil;&otilde;es de uso do portugu&ecirc;s", aponta Luis Augusto Fischer, pesquisador do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS)</font></p>     <p><font size="3"><B>JORNALISTA DESBOCADO E CRONISTA INVICTO </B>Nelson Rodrigues era um escritor que trabalhava em v&aacute;rias frentes. No jornalismo, come&ccedil;ou cobrindo o notici&aacute;rio policial; em suas colunas semanais, ele misturava personagens fict&iacute;cios com hist&oacute;rias reais ou "levemente inventadas".  As trai&ccedil;&otilde;es de ambos os sexos, casamentos arranjados, relacionamentos infelizes, degrada&ccedil;&otilde;es morais e outros tabus (que ficavam at&eacute; pequenos quando comparados &agrave;s suas hist&oacute;rias envolvendo incestos, por exemplo) eram discutidos &agrave; boca mi&uacute;da, principalmente entre o p&uacute;blico masculino. O cronista escancarava os subterr&acirc;neos das fam&iacute;lias, contribuindo para o estabelecimento de arqu&eacute;tipos brasileiros consagrados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Figuras prosaicas, t&iacute;picas de qualquer botequim ou outro cen&aacute;rio que temos em todo o Brasil, repetiam frases prontas e lugares comuns que todos j&aacute; tinham ouvido de alguma maneira. Ele interpretava de forma muito perspicaz, fazia grandes observa&ccedil;&otilde;es sobre o pensamento do pa&iacute;s usando figuras de linguagem simples, mas extremamente cr&iacute;ticas. Esses coment&aacute;rios, a partir de figuras muito pr&oacute;ximas da realidade e fugindo dos conceitos muito abstratos faziam do Nelson Rodrigues uma esp&eacute;cie de fil&oacute;sofo do seu tempo", considera Fisher. </font></p>     <p><font size="3">Outro assunto que acendia a veia apaixonada de Nelson Rodrigues era o futebol. As conversas de bar e coment&aacute;rios sobre os jogos do fim de semana rendiam longas e proveitosas discuss&otilde;es, que acabavam virando grandes cr&ocirc;nicas. Futebol e poesia se encontravam nos textos de Nelson, assim como a cr&iacute;tica &aacute;cida e a falta de papas na l&iacute;ngua. "Escritos em primeira pessoa, tamb&eacute;m com a mistura de personagens reais e fict&iacute;cios, suas cr&ocirc;nicas esportivas transbordam a paix&atilde;o que nutria pelo esporte", detalha o pesquisador.</font></p>     <p><font size="3"><B>UM NOVO TEATRO </B><I>Vestido de noiva</I> (1943), segunda das 17 pe&ccedil;as escritas por Nelson Rodrigues, inovou o teatro brasileiro em v&aacute;rios n&iacute;veis, seja pelos di&aacute;logos &aacute;geis, seja pelo enla&ccedil;amento entre realidade, fic&ccedil;&atilde;o e alucina&ccedil;&atilde;o. Os personagens psicol&oacute;gicos e profundos ganharam tamb&eacute;m um espa&ccedil;o c&ecirc;nico vanguardista: a montagem de Zbigniew Ziembinski. "A quebra com a narrativa tradicional e com os personagens, como &eacute; visto em <I>Vestido de noiva</I> &eacute; algo muito impactante. Pode- se dizer que &eacute; o in&iacute;cio do teatro moderno no Brasil", diz Angela Leite Lopes.</font></p>     <p><font size="3">Na sequ&ecirc;ncia, escreveu <I>&Aacute;lbum de fam&iacute;lia</I>, que foi censurada e s&oacute; chegou a ser encenada mais de 20 anos depois, em meados de 1967. Nesse meio tempo, Nelson escreveu muitos outros textos para o teatro, al&eacute;m de cr&ocirc;nicas e romances sob o pseud&ocirc;nimo de Suzana Flag. "Ele era um escritor que atuava em diversas frentes. Escrevia para o teatro e sobre o teatro, por exemplo, al&eacute;m de fazer livros de seus textos teatrais", aponta Lopes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a23img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>TV E CINEMA </B>Nelson Rodrigues criou, ainda, tr&ecirc;s telenovelas e teve diversas miniss&eacute;ries de textos adaptados de sua obra. "Nelson &eacute; um cl&aacute;ssico brasileiro, ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; &agrave; toa que ele vai ser reencenado e reinterpretado o tempo todo. Sua obra ainda causa impacto, &eacute; discutida no meio art&iacute;stico-cultural, e a televis&atilde;o o absorveu e popularizou", diz Lopes. No cinema, o movimento &eacute; similar. S&atilde;o mais de 20 filmes com a tem&aacute;tica "rodriguiana" e muitos autores e diretores influenciados por ele.</font></p>     <p><font size="3">"&Eacute; importante observar tamb&eacute;m as idiossincrasias de Nelson Rodrigues. Ele escrevia para o teatro de vanguarda e tamb&eacute;m para a televis&atilde;o de 'massa'. Mas isso se observa em outros pontos da vida dele. Ele se autodenominava reacion&aacute;rio, era contra o endeusamento da juventude e de seus movimentos, mas tamb&eacute;m era contra a censura. Tinha grande apre&ccedil;o pelo passado, mas documentava a vida contempor&acirc;nea brasileira. A esquerda n&atilde;o o via com bons olhos, mas os representantes da direita tamb&eacute;m n&atilde;o o aceitavam de bom grado", aponta Fisher. </font></p>     <p><font size="3"><B>AGOSTO DE NELSON </B>Em agosto pr&oacute;ximo Nelson Rodrigues faria cem anos e, para homenage&aacute;-lo, diversos eventos foram planejados. Um edital da Funda&ccedil;&atilde;o Nacional das Artes (Funarte), &oacute;rg&atilde;o ligado ao Minist&eacute;rio da Cultura (MinC), prev&ecirc; o patroc&iacute;nio para companhias de teatro reencenarem as 17 pe&ccedil;as do autor. Vai ser o chamado "Agosto de Nelson".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Al&eacute;m disso, exposi&ccedil;&otilde;es montadas no Rio de Janeiro e em S&atilde;o Paulo devem depois circular por todo o pa&iacute;s. Ambas com curadoria dos filhos Maria L&uacute;cia Rodrigues e Nelson Rodrigues Filho, as exposi&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m a proposta de mostrar a amplitude do trabalho do autor de forma a interessar tanto ao p&uacute;blico familiarizado com sua obra como aos que ser&atilde;o apresentados ao autor, em todas as dimens&otilde;es da sua produ&ccedil;&atilde;o. Est&aacute; no ar o site www.nelsonrodrigues.com.br, criado por S&ocirc;nia Rodrigues, que tamb&eacute;m prepara uma biografia do pai a ser publicada pela editora Nova Fronteira. </font></p>     <p><font size="3">"A ideia do site n&atilde;o &eacute; somente tornar acess&iacute;vel para consulta ou leitura, mas tamb&eacute;m trazer novas releituras de sua obra. A ideia &eacute; que o p&uacute;blico interaja e construa novos significados, com uma rela&ccedil;&atilde;o mais autoral do que apenas consumo. Dessa forma, v&iacute;deos, jogos interativos e textos cl&aacute;ssicos poder&atilde;o se mesclar em novas dimens&otilde;es", explica S&ocirc;nia. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Enio Rodrigo Barbosa</I></font></p>      ]]></body>
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