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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>FAZENDAS</b></font></p>     <p><font size=5><b>Desafios para se preservar o patrim&ocirc;nio rural</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a24img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Elas j&aacute; ocuparam papel central na hist&oacute;ria brasileira. Irradiando poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico por sua produ&ccedil;&atilde;o de cana-de-a&ccedil;&uacute;car ou caf&eacute;, as fazendas paulistas tiveram papel fundamental no desenvolvimento do estado de S&atilde;o Paulo e do Brasil. Hoje, com o intenso processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o e avan&ccedil;o do agroneg&oacute;cio tais propriedades est&atilde;o em risco de extin&ccedil;&atilde;o. Para inverter essa tend&ecirc;ncia, a Associa&ccedil;&atilde;o das Fazendas Hist&oacute;ricas Paulistas buscou a universidade para encontrar atividades econ&ocirc;micas que viabilizem a preserva&ccedil;&atilde;o das fazendas. Foi criado, ent&atilde;o, o projeto "Patrim&ocirc;nio cultural rural paulista: espa&ccedil;o privilegiado para pesquisa, educa&ccedil;&atilde;o e turismo" que envolveu 17 fazendas de v&aacute;rias regi&otilde;es do estado, em cidades como Itu, Campinas, Mococa, S&atilde;o Carlos, Tiet&ecirc; e Sorocaba. A pesquisa teve apoio financeiro da Fapesp e envolveu treze institui&ccedil;&otilde;es de ensino e pesquisa &#150; entre elas a Embrapa, o Instituto Agron&ocirc;mico de Campinas e as tr&ecirc;s universidades p&uacute;blicas paulistas: USP, Unesp e Unicamp. </font></p>     <p><font size="3">O patrim&ocirc;nio cultural rural congrega o conjunto de registros materiais e imateriais decorrentes das pr&aacute;ticas, costumes e das formas de produ&ccedil;&atilde;o estabelecidas na &aacute;rea rural. A hist&oacute;ria do estado de S&atilde;o Paulo &eacute; marcada pela explora&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola, primeiro a cana-de-a&ccedil;&uacute;car, depois o caf&eacute;, pela forte presen&ccedil;a do imigrante europeu no centro do estado, com as col&ocirc;nias de moradores junto &agrave;s fazendas de caf&eacute;, e uma grande liga&ccedil;&atilde;o com as ferrovias. No Vale do Para&iacute;ba, de ocupa&ccedil;&atilde;o mais antiga, ainda &eacute; poss&iacute;vel encontrar vest&iacute;gios da presen&ccedil;a de escravos, como as senzalas e instrumentos de puni&ccedil;&atilde;o nas fazendas, ou ainda forte mem&oacute;ria da figura do tropeiro que transportava produtos no lombo do burro rumo ao litoral.</font></p>     <p><font size="3">Mergulhados no ambiente urbano, aos olhos dos moradores das cidades as fazendas se tornam invis&iacute;veis. Em Campinas, por exemplo, &eacute; poss&iacute;vel at&eacute; hoje encontrar casar&otilde;es do s&eacute;culo XIX. Segundo Marcos Tognon, pesquisador do Centro de Mem&oacute;ria da Unicamp e coordenador do projeto, a cidade possui, em sua &aacute;rea urbana, mais de 40 fazendas, densidade que pode ser reproduzida para v&aacute;rias outras cidades como Itu, S&atilde;o Carlos, entre outras. A expans&atilde;o das cidades, por&eacute;m, representa uma s&eacute;ria amea&ccedil;a a esse patrim&ocirc;nio j&aacute; que os custos da manuten&ccedil;&atilde;o s&atilde;o elevados e n&atilde;o h&aacute; mecanismos formais de incentivo para os propriet&aacute;rios que querem preservar. "Existe uma incapacidade em n&oacute;s, indiv&iacute;duos eminentemente urbanos, de compreender esse patrim&ocirc;nio rural. Nele est&atilde;o muitas ra&iacute;zes da cultura urbana paulista, parte dos nossos h&aacute;bitos, da culin&aacute;ria, al&eacute;m da m&uacute;sica caipira, origin&aacute;ria nesse mundo rural", assinala Tognon. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a24img02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>INVENT&Aacute;RIO PARA MAPEAR CULTURA </B>A aus&ecirc;ncia de um invent&aacute;rio global e acess&iacute;vel ou de metodologias de invent&aacute;rio para os bens culturais &eacute; um grande problema no Brasil. "Em outros pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e Europa essas normativas s&atilde;o instrumentos de pol&iacute;tica p&uacute;blica", aponta Tognon. O caso mais emblem&aacute;tico &eacute; o da Fran&ccedil;a que criou uma pol&iacute;tica p&uacute;blica totalmente dedicada ao turismo, hoje sua maior fonte de riqueza. "Isso s&oacute; foi poss&iacute;vel por meio de um invent&aacute;rio que mapeou todo o patrim&ocirc;nio cultural daquele pa&iacute;s. &Eacute; um exemplo para o mundo", compara o pesquisador.</font></p>     <p><font size="3">Um dos objetivos do projeto Fazendas Hist&oacute;ricas Paulistas foi, justamente, criar uma metodologia para inventariar adequadamente o patrim&ocirc;nio cultural rural paulista. "Somente a partir desse mapeamento ser&aacute; poss&iacute;vel criar pol&iacute;ticas de preserva&ccedil;&atilde;o e explorar o potencial tur&iacute;stico desses locais", acredita. A elabora&ccedil;&atilde;o dessa normativa foi iniciada este ano, a partir de uma parceria dos pesquisadores do Centro de Mem&oacute;ria da Unicamp com o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico, Arqueol&oacute;gico, Art&iacute;stico e Tur&iacute;stico) e com o Gabinete da Casa Civil do governo do estado de S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="3">O patrim&ocirc;nio cultural rural paulista tem caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas, diferentes do patrim&ocirc;nio cultural urbano. "Ele possibilita compreender todas as fases da ocupa&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio, aspectos hist&oacute;ricos, tecnol&oacute;gicos, econ&ocirc;micos, rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, religiosas, alimenta&ccedil;&atilde;o, assim como valores familiares e sociais". Para o pesquisador, &eacute; urgente criar est&iacute;mulos &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o dessa cultura. Um dos instrumentos seria associar atividades de preserva&ccedil;&atilde;o ao turismo e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o patrimonial.</font></p>     <p><font size="3">Parte do trabalho desenvolvido ao longo do projeto, iniciado em 2008, foi oferecer oficinas em todo o estado de S&atilde;o Paulo para ensinar como elaborar projetos de capta&ccedil;&atilde;o de recursos, conservar tijolos, fazer a manuten&ccedil;&atilde;o de telhados, preserva&ccedil;&atilde;o de fotografias e oficinas espec&iacute;ficas para turismo. O objetivo &eacute; profissionalizar muitas atividades tur&iacute;sticas que j&aacute; est&atilde;o sendo oferecidas nessas fazendas, muitas vezes, de modo intuitivo. Outros produtos da pesquisa ser&atilde;o um conjunto de 35 cartilhas sobre patrim&ocirc;nio, abordando procedimentos b&aacute;sicos da conversa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios tipos de patrim&ocirc;nio material como a arquitetura, fotografias, m&oacute;veis, utens&iacute;lios e documentos e um dossi&ecirc; sobre o turismo praticado hoje nessas fazendas. A partir do material coletado em algumas delas ser&aacute; organizado um livro com receitas t&iacute;picas das fazendas paulistas. </font></p>     <p><font size="3"><B>PATRIM&Ocirc;NIO IMATERIAL </B>A maioria das 17 fazendas paulistas que fizeram parte do projeto Fazendas Hist&oacute;ricas Paulistas arrendou suas terras para planta&ccedil;&otilde;es intensivas de cana ou laranja, em um modelo de agroneg&oacute;cio altamente mecanizado, totalmente diferente daquele vivido pelas fazendas em seus tempos &aacute;ureos. Essas propriedades passam a ter apenas os pr&eacute;dios hist&oacute;ricos e uma pequena &aacute;rea de entorno. O modelo de agroneg&oacute;cio vigente imp&otilde;e uma nova din&acirc;mica social nas fazendas hist&oacute;ricas, que elimina as festas, as celebra&ccedil;&otilde;es religiosas, toda uma cultura rural deixa de existir porque a comunidade que dava sentido a essa vida migrou para a cidade. </font></p>     <p><font size="3">Esse conjunto de pr&aacute;ticas compreende o chamado patrim&ocirc;nio intang&iacute;vel, termo cunhado para distinguir essa heran&ccedil;a do patrim&ocirc;nio arquitet&ocirc;nico ou natural. "O projeto nas fazendas hist&oacute;ricas paulistas tem se preocupado em captar esse patrim&ocirc;nio imaterial, ainda existente no meio rural paulista", conta a soci&oacute;loga Olga von Simson, da Unicamp, que coordena as pesquisas nessa &aacute;rea. "Trabalhamos com a mem&oacute;ria dos atores sociais que viveram na fazenda, no auge de sua atividade econ&ocirc;mica e social para reconstruirmos e registrarmos a riqueza que esse patrim&ocirc;nio imaterial teve no passado", completa. Diversos elementos aparecem no contato com essas pessoas que viveram por muitos anos no meio rural, segundo a pesquisadora. "Fica clara a fun&ccedil;&atilde;o dos g&ecirc;neros naquelas comunidades: o homem ligado ao trabalho na terra, ao esfor&ccedil;o da produ&ccedil;&atilde;o e a figura feminina ligada ao cuidado, seja no preparo dos alimentos, dos rem&eacute;dios e no cuidado da casa", exemplifica a pesquisadora. Das entrevistas com as mulheres surgem lembran&ccedil;as de m&uacute;sicas, novenas, das festas para os santos padroeiros, supersti&ccedil;&otilde;es para fazer chover, as sortes para achar marido, segredos da culin&aacute;ria, receitas de rem&eacute;dios &agrave; base de plantas.</font></p>     <p><font size="3"><B>TURISMO COM ALMA </B>Com a migra&ccedil;&atilde;o para a cidade, essas fazendas, suas casas, equipamentos, jardins, acabam se transformando em espa&ccedil;os subocupados j&aacute; que os novos modelos de atividade econ&ocirc;mica a que elas se dedicam e os novos modelos familiares n&atilde;o d&atilde;o conta de ocupar as imensas salas, os quartos, a grande cozinha. "Essa mem&oacute;ria que tentamos reconstruir permite colocar alma nesses espa&ccedil;os, antes plenamente ocupados, mas que hoje est&atilde;o esvaziados", acredita Olga. "A ideia &eacute; se valer desse conhecimento e tentar traduzi-lo em estrat&eacute;gias de divulga&ccedil;&atilde;o da vida rural antiga para o turista", complementa. Algumas fazendas j&aacute; t&ecirc;m aproveitamento empresarial, s&atilde;o hot&eacute;is-fazenda, especializadas em cavalgadas, ou j&aacute; recebem grupos de turistas para visitas de um dia. Outras praticam um turismo mais simples, recebendo fam&iacute;lias para o turismo chamado de habita&ccedil;&atilde;o, quando as pessoas ficam hospedadas na fazenda participando das atividades cotidianas. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></p>     ]]></body>
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