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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/prosa.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>M<small>ARCIA</small> T<small>IBURI</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><B>A M&Atilde;E</B></font></p>     <p><font size="3">Triste ver a m&atilde;e limpando a folha de papel fotogr&aacute;fico, a imagem do menino desbotando ao sol que entra pela janela da pequena casa de dois c&ocirc;modos, indo dar na porta a dividir os ambientes, a imagem, abertura e fechamento em seu tamanho natural, tons r&oacute;seos e alaranjados na queima&ccedil;&atilde;o dos raios, a imagem, que a todos vem assustar, menos &agrave; ela, que n&atilde;o estranha aqueles olhos pedintes contornados pela cabeleira lisa, parecendo um cartaz promocional, dos que se usam em portas de loja em tempos de liquida&ccedil;&atilde;o para chamar clientes, a imagem &eacute; um display, diz a vizinha, s&oacute; que o menino n&atilde;o ri, e ela n&atilde;o se conforma, pois que o pariu, imagem, para que risse sob os olhos escuros, meteoritos apagando-se no ar, as ma&ccedil;&atilde;s protuberantes sob as olheiras fundas fazem o rosto e o sil&ecirc;ncio, algo que ele n&atilde;o chama de m&atilde;e vem e olha bem de perto, a vizinha, sempre ao lado, n&atilde;o tem certeza de que ele n&atilde;o fala com ela, tampouco sabe o que ela sente, n&atilde;o se pode imaginar porque fica ali parada o dia todo e chama a todos para v&ecirc;-lo, e os outros, por que n&atilde;o fogem da cena bizarra, dizem que &eacute; o &uacute;nico caminho pra chegar em casa no final da rua, <I>&eacute; a pena que me d&aacute; </I>dir&aacute; a vizinha que aos poucos deixa saber que toda tarde tenta convencer os outros a entrarem com ela, s&oacute; Agnes n&atilde;o olha, bebe a &aacute;gua que havia no corpo, logo sobe a ladeira com pressa, deixando um desprezo no ar pelo mover das p&aacute;lpebras, acendendo um cigarro, dizendo de uma vez <I>vou me embora</I>, desenhando um risco de cumplicidade perdida junto com o cheiro da fuma&ccedil;a misturado com o perfume de sabonete de seu corpo forte, com o cheiro de caf&eacute; e vela de dentro da casa, se encontrando na porta com o olfato renitente de quem se acostumou ao odor dos porcos. </font></p>     <p><font size="3">&Eacute; a&iacute; que chego eu. Eu que crio os porcos e observo Agnes. Meus olhos j&aacute; n&atilde;o aguentam ver sempre a mesma coisa. O cen&aacute;rio se refazendo ao sol que tudo desbota. Essa vela infind&aacute;vel acessa sobre o resto de sebo petrificado. Sempre fui sens&iacute;vel. Mais ao que se v&ecirc; do que aos cheiros que agora me d&atilde;o asco. O ch&atilde;o do quartinho, pista de patina&ccedil;&atilde;o no branco da gordura. Tenho o lodo, os meus porcos, n&atilde;o preciso ver a m&atilde;e escorregando. As cortinas de voal sedoso pesadas na densidade da fuligem de anos. As paredes pintadas de prata. Tudo &eacute; sujo e, no entanto, ordem. A l&acirc;mpada do teto num lustre de vidro antigo, azulado, transl&uacute;cido. O teto esfuma&ccedil;ado escondendo as moscas que no ver&atilde;o v&ecirc;m passar a noite camufladas entre as demais. Uma ou duas sobre os olhos do pequeno estigma. Ele me olha como um condenado que pedisse &aacute;gua. O copo na mesa ao lado est&aacute; vazio. Foi Agnes. &Eacute; dentro desse copo, sobre o qual jamais falei, nem ela, &eacute; nele que deixamos uma frustra&ccedil;&atilde;o que nos pertence. Ficava ali, boiando sobre a &aacute;gua sempre limpa, trocada a cada dia, a lucidez que permitiria pensar em coisas como falta, medo, absurdo. De vez em quando me levanto pra sair. Ela me pega pela m&atilde;o com tanta for&ccedil;a e me conta novamente sobre os anos passados entre as sombras, conversa de corredores vazios. O dia em que tentou se matar. Diz-me que era finta com o filho. Que eu nunca conte a ningu&eacute;m o que sei. Que est&aacute; s&oacute; no mundo como um animal a ser extinto. Sem sa&iacute;da, volto &agrave; cadeira. Penso em Agnes. Segurando-me as m&atilde;os com medo de que eu fuja, repete o que j&aacute; sei: quem n&atilde;o sobrevive &agrave; sombra &eacute; que nunca foi humano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Marcia Tiburi</b> &eacute; graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela UFRGS. Publicou v&aacute;rios livros de filosofia e tr&ecirc;s romances</i> Magn&oacute;lia <i>(Bertrand Brasil, 2005),</i> A mulher de costas <i>(Bertrand Brasil, 2006) e</i> O manto <i>(Record, 2009), os quais comp&otilde;em a chamada "Trilogia &Iacute;ntima". Em junho deste ano publicar&aacute; o romance</i> Era meu esse rosto <i>(Record, 2012). &Eacute; professora do programa de p&oacute;s- gradua&ccedil;&atilde;o em educa&ccedil;&atilde;o, arte e hist&oacute;ria da cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista</i> Cult.</font></p>      ]]></body>
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