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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Cinema e TV no Brasil: breve panorama a partir da criação da Globo Filmes]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/ensaios.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>Cinema e TV no Brasil: breve panorama a partir da cria&ccedil;&atilde;o da Globo Filmes </b></font> </p>     <p><font size="3"><I>Juliana Sangion </I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nos &uacute;ltimos anos, o p&uacute;blico brasileiro &#151; majoritariamente habituado aos padr&otilde;es televisivos &#151; passou a encontrar forte identifica&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica e est&eacute;tica das produ&ccedil;&otilde;es televisivas com os filmes brasileiros que alcan&ccedil;aram o circuito exibidor comercial. Apesar de bastante difundida, por&eacute;m, &eacute; equivocada a afirma&ccedil;&atilde;o de que todo cinema feito no pa&iacute;s atualmente tem tais caracter&iacute;sticas. </font></p>     <p><font size="3">O que de fato ocorre &eacute; que s&atilde;o justamente os filmes com as maiores bilheterias, aqueles que partilham desse hibridismo. Por tr&aacute;s da imensa maioria desses filmes est&aacute; a marca da Globo Filmes, desde o in&iacute;cio da primeira d&eacute;cada de 2000. </font></p>     <p><font size="3">Se por um lado &eacute; arriscada a afirma&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o h&aacute; cinema sem apoio da Globo Filmes, &#150; considerando que h&aacute; v&aacute;rias propostas diferentes sendo produzidas no pa&iacute;s &#150; por outro lado est&aacute; claro que sua entrada no mercado consolidou uma forma espec&iacute;fica de fazer cinema: a pensada a partir e para um p&uacute;blico acostumado &agrave; televis&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Para al&eacute;m de comentar o hibridismo est&eacute;tico, &eacute; importante analisar o atual contexto do audiovisual brasileiro, mais especificamente sob o enfoque da rela&ccedil;&atilde;o cinema&#45;TV e dos conceitos da economia criativa. Considerando tamb&eacute;m as obras que recebem apoio de divulga&ccedil;&atilde;o no lan&ccedil;amento, a Globo Filmes aumentou sua produ&ccedil;&atilde;o de dois a tr&ecirc;s filmes no in&iacute;cio das opera&ccedil;&otilde;es, em 1998, para cerca de 17 filmes por ano atualmente: a cada 25 dias, h&aacute; uma campanha de um filme brasileiro no ar na televis&atilde;o. Quando a Globo Filmes estreou no setor cinematogr&aacute;fico, o <i>market share</i> da produ&ccedil;&atilde;o nacional girava em torno de 6 a 7% do mercado brasileiro. Na fase em que a Globo Filmes se consolidou, em 2003, os filmes brasileiros chegaram a representar 21,4% do mercado. Apesar da situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ter se mantido (oscilando em torno de 12% na fase seguinte), em 2010 bateu 19% enquanto, no ano seguinte, o share de mercado do filme nacional recuou para 12,6%. </font></p>     <p><font size="3"><B>COMUNICA&Ccedil;&Atilde;O E CULTURA: NOVAS CONFIGURA&Ccedil;&Otilde;ES </B>A cria&ccedil;&atilde;o da Globo Filmes pelas Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, em 1998, e seu modo de atua&ccedil;&atilde;o no mercado, foram favorecidos por elementos econ&ocirc;micos e por uma s&eacute;rie de outros fatores socioculturais e pol&iacute;ticos. Ao longo dos &uacute;ltimos 40 anos, o cen&aacute;rio empresarial brasileiro na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o se desenhou favoravelmente para que ocorresse a redund&acirc;ncia de conte&uacute;dos em diferentes m&iacute;dias, ou a chamada reciclagem audiovisual, como prop&otilde;e Andr&eacute; Gatti (1). E, n&atilde;o por acaso, foi a Globo a empresa que obteve maior &ecirc;xito ao entrar em diferentes setores da comunica&ccedil;&atilde;o audiovisual. A redund&acirc;ncia de conte&uacute;dos em diferentes plataformas, no caso da Globo, ocorre quando seu bra&ccedil;o cinematogr&aacute;fico produz ou coproduz filmes com uma f&oacute;rmula j&aacute; utilizada pela TV, transformando s&eacute;ries e programas j&aacute; existentes em produ&ccedil;&otilde;es para o cinema (<i>Os normais, A grande fam&iacute;lia</i>). Ou quando adapta filmes de sucesso no cinema, para a TV (<i>Cidade dos homens, Carandiru, Chico Xavier</i>). Interessante notar que, da mesma maneira, h&aacute; repeti&ccedil;&atilde;o das t&eacute;cnicas de trabalho. Diretores de TV da emissora, por exemplo, t&ecirc;m seus projetos aprovados para dirigir filmes, al&eacute;m de t&eacute;cnicos e de v&aacute;rios atores do elenco de novelas e outros programas. Neste caso, a especializa&ccedil;&atilde;o e o know&#45;how da empresa facilitam a redund&acirc;ncia. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Para melhor refletir sobre a situa&ccedil;&atilde;o atual da comunica&ccedil;&atilde;o de massas no Brasil &eacute; necess&aacute;rio resgatar alguns aspectos da hist&oacute;ria e dos elementos que a comp&otilde;em. O crescimento vertiginoso da Globo e o poder conquistado por ela na &aacute;rea em que atua est&atilde;o diretamente relacionados ao desenvolvimento do processo hist&oacute;rico do setor audiovisual no pa&iacute;s. Dos 20 filmes com maior bilheteria do cinema nacional no per&iacute;odo de 2000 a 2011, apenas dois n&atilde;o tiveram o selo da Globo Filmes. Atualmente, a empresa j&aacute; passou a marca de 120 milh&otilde;es de espectadores, com cerca de 150 filmes lan&ccedil;ados desde 1998.</font></p>     <p><font size="3"> O crescimento das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo foi permeado, ao longo dos anos, por um discurso que justificava sua hegemonia, apoiado na compet&ecirc;ncia empresarial, no nacionalismo e na compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica, este &uacute;ltimo pilar que sempre mereceu destaque na comunica&ccedil;&atilde;o institucional do grupo. Nesse contexto, &eacute; interessante notar o percurso do campo audiovisual, saindo da esfera social para o &acirc;mbito comercial, sendo praticamente engolido pelas l&oacute;gicas de mercado, como acontece h&aacute; anos com os grandes conglomerados midi&aacute;ticos em todo o mundo. A comunica&ccedil;&atilde;o social, mais especificamente os meios e produtos audiovisuais, torna&#45;se cada vez mais um bem de mercado instalado no &acirc;mbito da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (OMC) (2).</font></p>     <p><font size="3"> Mais que um agente econ&ocirc;mico, o campo audiovisual, notadamente a televis&atilde;o, assumiu um papel de agente pol&iacute;tico na sociedade contempor&acirc;nea, como destacou o soci&oacute;logo Octavio Ianni, em <i>O pr&iacute;ncipe eletr&ocirc;nico</i> (2000), ao afirmar que o ve&iacute;culo configura&#45;se em um dos mais importantes "pr&iacute;ncipes eletr&ocirc;nicos do s&eacute;culo XX", em refer&ecirc;ncia &agrave;s obras dos italianos Maquiavel, em <i>O pr&iacute;ncipe</i>, e <i>Gramsci</i>, em <i>O moderno pr&iacute;ncipe</i>. Para Ianni, "trata&#45;se de um meio de comunica&ccedil;&atilde;o, informa&ccedil;&atilde;o e propaganda presente, ativo no cotidiano de uns e outros, indiv&iacute;duos e coletividades, em todo o mundo. Registra e interpreta, seleciona e enfatiza, esquece e sataniza o que poderia ser a realidade e o imagin&aacute;rio. Muitas vezes, transforma a realidade, seja em algo encantado ou escatol&oacute;gico, em geral virtualizando a realidade, em tal escala que o real aparece como forma esp&uacute;ria do virtual" (3).</font></p>     <p><font size="3"> Segundo o soci&oacute;logo, a import&acirc;ncia das empresas e conglomerados de m&iacute;dia na organiza&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica em que se assenta grande parte da integra&ccedil;&atilde;o social, que prevalece no mundo, reside especialmente no fato de que essa organiza&ccedil;&atilde;o se baseia no modo pelo qual a pr&oacute;pria m&iacute;dia atua.</font></p>     <p><font size="3"> A oferta do conte&uacute;do f&iacute;lmico em diferentes plataformas, al&eacute;m das salas de cinema, que presenciamos hoje, se aproxima em certo sentido ao descrito por Canclini sobre os processos de desterritorializa&ccedil;&atilde;o e descolecionamento &#151; frutos da p&oacute;s&#45;modernidade &#151; que geram contradi&ccedil;&otilde;es entre as utopias de cria&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;noma na cultura e a industrializa&ccedil;&atilde;o dos mercados simb&oacute;licos, na medida em que "a prolifera&ccedil;&atilde;o de dispositivos de reprodu&ccedil;&atilde;o faz com que se percam as cole&ccedil;&otilde;es, se desestruturem as imagens e (especialmente nesse caso) os contextos, as refer&ecirc;ncias sem&acirc;nticas e hist&oacute;ricas que amarravam seus sentidos" (4). &Eacute; justamente na p&oacute;s&#45;modernidade onde presenciamos as formas mais concentradas de acumula&ccedil;&atilde;o de poder e centraliza&ccedil;&atilde;o transnacional da cultura que a humanidade j&aacute; conheceu.</font></p>     <p><font size="3"> A reprodu&ccedil;&atilde;o p&oacute;s&#45;moderna muda os contextos, desterritorializa. O deslocamento cultural pelo qual passa o cinema brasileiro se d&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s novas plataformas, principalmente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; televis&atilde;o. Esta tem substitu&iacute;do os filmes n&atilde;o somente no tempo livre do p&uacute;blico, mas tamb&eacute;m no espa&ccedil;o dos cinemas, quando os filmes assumem uma est&eacute;tica e uma linguagem inerente muito mais &agrave; televis&atilde;o do que ao padr&atilde;o cinematogr&aacute;fico tradicional.</font></p>     <p><font size="3"> Tomemos como exemplo o caso de <i>Ant&ocirc;nia</i> (2007), produ&ccedil;&atilde;o de Tata Amaral. Antes de s&eacute;rie de TV, <i>Ant&ocirc;nia</i> era para ter sido um filme. A ideia inicial da diretora era lan&ccedil;ar <i>Ant&ocirc;nia</i> nos cinemas e somente depois transform&aacute;&#45;la em s&eacute;rie. Por&eacute;m, sem verba para finalizar e distribuir o filme j&aacute; rodado, Tata procurou a produtora O2, de Fernando Meirelles, que abra&ccedil;ou a ideia, mas sugeriu que o filme ficasse para depois, <i>Ant&ocirc;nia</i> estreou na TV Globo em novembro de 2006, exibido semanalmente, &agrave;s sextas&#45;feiras, e chegou a atingir 32 pontos de audi&ecirc;ncia na estreia. No entanto, o deslocamento da TV para o cinema, nesse caso, foi um fracasso. O filme estreou nos cinemas em fevereiro de 2007, mas n&atilde;o foi sucesso de bilheteria; pelo contr&aacute;rio, n&atilde;o chegou a 80 mil espectadores.</font></p>     <p> <font size="3"><b>ESTRAT&Eacute;GIA DE NEG&Oacute;CIO</b> A decis&atilde;o da Globo em expandir seus neg&oacute;cios para o mercado cinematogr&aacute;fico pode ser entendida como uma estrat&eacute;gia de crescimento econ&ocirc;mico, utilizada por muitas empresas de comunica&ccedil;&atilde;o. Com a busca de oportunidades em mercados novos, a empresa diversifica os riscos de seus investimentos, al&eacute;m de ter a possibilidade de reduzir custos, j&aacute; que passa a utilizar o know&#45;how e boa parte da estrutura que possui para a atua&ccedil;&atilde;o no novo mercado e a ampliar os espa&ccedil;os para anunciantes.</font></p>     <p><font size="3"> As estrat&eacute;gias de crescimento econ&ocirc;mico podem ser tanto externas &#151; como &eacute; o caso das fus&otilde;es, absor&ccedil;&otilde;es e alian&ccedil;as com outras empresas do mesmo setor ou de setores afins &#151; como internas. O caso Globo encontra resson&acirc;ncia na chamada economia de sinergia, na qual h&aacute; redu&ccedil;&atilde;o de custos devido &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de bens relacionados. Neste caso, a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual &#151; filmes para cinema, para os canais de TV aberta e fechada da emissora, para DVD etc.</font></p>     <p><font size="3"> Al&eacute;m de aproveitar o conte&uacute;do, a Globo tamb&eacute;m se vale de toda uma estrutura j&aacute; montada para a promo&ccedil;&atilde;o do filme em seus programas de televis&atilde;o e de uma forte e ampla rede de contatos com atores, diretores e produtores. Fatores estes que beneficiam a redu&ccedil;&atilde;o de custos e facilitam mecanismos para a empresa financiar&#45;se, j&aacute; que os filmes representam uma fonte nova de renda com publicidade cada vez que s&atilde;o exibidos em meios diferentes. Ocorre uma otimiza&ccedil;&atilde;o do ganho com a venda de espa&ccedil;os publicit&aacute;rios a partir de um mesmo conte&uacute;do.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Desde o in&iacute;cio de sua hist&oacute;ria, a partir de uma vis&atilde;o claramente voltada para a excel&ecirc;ncia nos neg&oacute;cios e buscando a consolida&ccedil;&atilde;o no mercado, a TV Globo teve de construir suas estruturas industriais para alimentar a programa&ccedil;&atilde;o. Diferentemente do que ocorria nos Estados Unidos, onde uma produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica forte e consolidada apoiava com conte&uacute;dos a televis&atilde;o, no Brasil praticamente inexistia tal interc&acirc;mbio. Assim, a integra&ccedil;&atilde;o vertical j&aacute; aparece nas d&eacute;cadas iniciais da Globo. Tal integra&ccedil;&atilde;o possibilitava &agrave; emissora, o controle do produto, a internacionaliza&ccedil;&atilde;o das atividades e a redu&ccedil;&atilde;o dos custos (5). Um exemplo da industrializa&ccedil;&atilde;o bem sucedida da TV Globo e que alavancou a empresa como expoente do setor audiovisual no imagin&aacute;rio do brasileiro est&aacute; na produ&ccedil;&atilde;o das telenovelas e miniss&eacute;ries.</font></p>     <p><font size="3"> Um dos destaques &eacute; a novela <i>Escrava Isaura</i>, de Gilberto Braga, que foi ao ar pela TV Globo em 100 cap&iacute;tulos, entre 1976 e 1977. No final de 1985, <i>Escrava Isaura</i> j&aacute; havia sido vendida para 27 pa&iacute;ses. Mesmo quase 40 anos ap&oacute;s sua estreia, ela ainda est&aacute; na lista das novelas mais comercializadas no exterior. J&aacute; foi exibida sete vezes na Fran&ccedil;a, cinco na Alemanha e tr&ecirc;s na Su&iacute;&ccedil;a e chegou a pa&iacute;ses africanos como Congo, Gab&atilde;o, Gana e Zimb&aacute;bue. Na pr&oacute;pria Globo, a novela foi reapresentada algumas vezes.</font></p>     <p><font size="3"> Outro exemplo de grande sucesso, do fim da d&eacute;cada de 1970, &eacute; <i>Dancin' Days</i>. Este ano, a TV Globo se juntou &agrave; rede portuguesa SIC na coprodu&ccedil;&atilde;o da vers&atilde;o portuguesa da novela, cujas grava&ccedil;&otilde;es em Portugal come&ccedil;aram em mar&ccedil;o. A novela &#151; tamb&eacute;m de autoria de Gilberto Braga &#151;, exibida pela TV Globo entre 1978 e 1979, marcou &eacute;poca no Brasil e no exterior. Foi a primeira novela brasileira a ser exibida no M&eacute;xico, pa&iacute;s com forte tradi&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o de teledramaturgia e um dos maiores exportadores mundiais desse conte&uacute;do. <i>Dancin' Days</i> foi apresentada em cerca de 40 pa&iacute;ses, de acordo com dados da Globo.</font></p>     <p><font size="3"> Foi exatamente nos anos de 1970 que a TV Globo conseguiu chegar &agrave; expans&atilde;o internacional com a venda de algumas telenovelas e a participa&ccedil;&atilde;o em eventos internacionais de comercializa&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos. Isso foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o de uma estrutura de produ&ccedil;&atilde;o de novelas e miniss&eacute;ries por meio do investimento em v&aacute;rias frentes, como inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e forma&ccedil;&atilde;o/treinamento de pessoal t&eacute;cnico, uso racionalizado dos est&uacute;dios, constru&ccedil;&atilde;o de cen&aacute;rios, busca de criadores culturais de diferentes &aacute;reas para sofisticar o padr&atilde;o da dramaturgia. H&aacute; bastante pol&ecirc;mica quando se questiona o uso do saber&#45;fazer na TV aplicado ao cinema.</font></p>     <p><font size="3"> Est&aacute; claro que o uso do mesmo formato para ambos os meios tem o objetivo de atrair para o cinema um p&uacute;blico j&aacute; familiarizado com o que v&ecirc; na televis&atilde;o, tendo assim, uma possibilidade maior de rentabilidade tamb&eacute;m no novo suporte.</font></p>     <p><font size="3"> Os espectadores, encarados aqui como clientes, representam grande oportunidade de outro tipo de sinergia: sinergia de base de clientes. "(...) um grupo de comunica&ccedil;&atilde;o possui informa&ccedil;&otilde;es sobre o mercado em que investe e pode oferecer&#45;lhe diferentes produtos de sua propriedade (...)" (6).</font></p>     <p> <font size="3"><b>HIST&Oacute;RIA</b> A cria&ccedil;&atilde;o da Globo Filmes se insere numa perspectiva da empresa de aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s novas m&iacute;dias, surgida a partir da metade dos anos de 1990. O cinema foi considerado como mais uma das plataformas em que as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo deveriam atuar como produtora de conte&uacute;do. A ideia partiu da diretora Marluce Dias, da Rede Globo. &Eacute; importante notar como o "neg&oacute;cio Globo Filmes", evidenciado por meio de sua estrutura organizacional e hier&aacute;rquica, se insere totalmente no campo televisivo: suas decis&otilde;es s&atilde;o tomadas e influenciadas pela dire&ccedil;&atilde;o da TV Globo, tendo como um dos benef&iacute;cios a infraestrutura da empresa, tanto f&iacute;sica como de capital humano e know&#45;how.</font></p>     <p><font size="3"> Do ponto de vista de neg&oacute;cio, a estrat&eacute;gia era criar e fortalecer um p&uacute;blico consumidor de conte&uacute;do, o "espectador do futuro", apoiada nos h&aacute;bitos de consumo dos jovens. Para Carlos Eduardo Rodrigues, diretor&#45;executivo da Globo Filmes, a filosofia definida em sua cria&ccedil;&atilde;o era que a Globo estivesse onde seu telespectador estivesse.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> Procuramos mostrar a maneira de encarar o mercado audiovisual adotada pela Globo Filmes, por meio de estrat&eacute;gias oriundas de neg&oacute;cios de outras naturezas e que foram, ao longo dos anos, sendo incorporadas pelas ind&uacute;strias culturais, que no Brasil t&ecirc;m seu expoente no caso das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo &#151; &iacute;cone empresarial de qualidade na ind&uacute;stria do audiovisual.</font></p>     <p><font size="3"> Quando o meio midi&aacute;tico incorpora formatos corporativos, vemos estrat&eacute;gias comerciais que assumem um car&aacute;ter agressivo do ponto de vista empresarial, as quais podem ser identificadas claramente na atua&ccedil;&atilde;o da Globo Filmes. Dentre os efeitos dessa "empresarializa&ccedil;&atilde;o" temos que a necessidade de adequar as propostas comunicativas &agrave;s exig&ecirc;ncias do consumo geram processos de padroniza&ccedil;&atilde;o. Desta maneira, reduzem&#45;se as especificidades e aumentam as chances de o conte&uacute;do circular mais facilmente em circuitos comerciais que requerem produtos bastante homog&ecirc;neos (7).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Em suma, o modelo de economia de cinema no Brasil, marcado pela competi&ccedil;&atilde;o deficiente, ainda que fomentasse a produ&ccedil;&atilde;o, deixava as empresas produtoras brasileiras carentes de maior apoio para as fases de promo&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o dos filmes. Enfrentar um mercado interno altamente oligopolizado nesse quesito, al&eacute;m de concorrer com o filme estrangeiro hegem&ocirc;nico da ind&uacute;stria norte&#45;americana, fez com que empresas e governo n&atilde;o conseguissem alavancar um projeto de ind&uacute;stria para o cinema nacional e contribuiu para o surgimento e consolida&ccedil;&atilde;o de um projeto como o da Globo Filmes.</font></p>     <p><font size="3"> Dados da Ancine (Ag&ecirc;ncia Nacional do Cinema) mostram que entre 2001 e 2009, a produ&ccedil;&atilde;o de filmes brasileiros cresceu cerca de 160%. Mas a entrada da Globo no cinema alterou o cen&aacute;rio audiovisual, para al&eacute;m das estat&iacute;sticas acima. Alterou seus diferentes aspectos: produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o, exibi&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o entre profissionais, conte&uacute;do est&eacute;tico e narrativo etc. Na produ&ccedil;&atilde;o e posteriormente na distribui&ccedil;&atilde;o, o filme nacional fica dependente da associa&ccedil;&atilde;o a grandes produtoras e a agentes financeiros de grande poder &#151; as chamadas majors &#151;, de um lado e, de outro, ao maior grupo de comunica&ccedil;&atilde;o audiovisual do pa&iacute;s, que det&eacute;m alto poder midi&aacute;tico. Praticamente apenas os filmes que se associam &agrave;s megacorpora&ccedil;&otilde;es do entretenimento e &agrave; Rede Globo, por meio da Globo Filmes, conseguem ser competitivos.</font></p>     <p><font size="3"> Na rela&ccedil;&atilde;o entre profissionais, presenciamos o surgimento de uma nova gera&ccedil;&atilde;o de realizadores audiovisuais. Formada em um per&iacute;odo em que a produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica nacional estava praticamente estagnada, essa gera&ccedil;&atilde;o migrou para a televis&atilde;o e para a publicidade. Hoje, esses profissionais transitam pelas diferentes plataformas, trocam informa&ccedil;&otilde;es e experimentam novas formas est&eacute;ticas e de produ&ccedil;&atilde;o. Com rela&ccedil;&atilde;o aos conte&uacute;dos, temos que a divis&atilde;o entre linguagens e ind&uacute;strias &#151; cinematogr&aacute;fica e televisiva &#151; est&aacute; em seu momento mais fr&aacute;gil. Tem sido cada vez mais dif&iacute;cil n&atilde;o identificar caracter&iacute;sticas de um meio inseridas em outro, o que acaba por criar novos par&acirc;metros audiovisuais. O resultado do hibridismo da pel&iacute;cula com o digital, para al&eacute;m das fronteiras t&ecirc;nues entre os campos, &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o de um cinema mais eletr&ocirc;nico e uma televis&atilde;o percebida como sendo de maior qualidade, ao ficar com "cara" de cinema.</font></p>     <p><font size="3"> O p&uacute;blico brasileiro mais consolidado &eacute;, sem d&uacute;vida, o formado por telespectadores &#45; habituados aos padr&otilde;es da teledramaturgia produzidos por e para essa m&iacute;dia&#45;, muito mais que de espectadores de cinema. Portanto, o pr&oacute;prio consumo dom&eacute;stico de televis&atilde;o que, ao longo da hist&oacute;ria do audiovisual nacional amea&ccedil;ou o cinema, hoje ajuda a alavancar a audi&ecirc;ncia, no que se consolidou como a principal estrat&eacute;gia da Globo Filmes. O que n&atilde;o se pode afirmar com certeza &eacute; at&eacute; quando essa f&oacute;rmula funcionar&aacute;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Juliana Sangion</b> &eacute; jornalista, doutora em multimeios pela Unicamp e professora na &aacute;rea de audiovisual da PUC&#45;Campinas. </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 1. Gatti, A.. "O mercado cinematogr&aacute;fico brasileiro: uma situa&ccedil;&atilde;o global?" In: Meleiro, A. (org.). <I>Cinema no mundo: Ind&uacute;stria, pol&iacute;tica e mercado: Am&eacute;rica Latina.</I> S&atilde;o Paulo. Escrituras, 2007. p. 137, vol 2.     </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3"> 2. Leal Filho, L.. "Sociedade e televis&atilde;o". In: Brittos, V. C.; Cabral, A. (orgs.). <I>Economia pol&iacute;tica da comunica&ccedil;&atilde;o: interfaces brasileiras</I>. Ed. e&#45;papers, 2008. p. 195.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Ianni, O. "O pr&iacute;ncipe eletr&ocirc;nico". In: Dowbor, L. et al. (orgs.). <I>Desafios da comunica&ccedil;&atilde;o</I>. S&atilde;o Paulo.Ed. Vozes, 2000. pp. 65&#45;66.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 4. Canclini, N.G. <I>Culturas h&iacute;bridas: estrat&eacute;gias para entrar y salir de la modernidad</I>. M&eacute;xico DF. Editorial Grijalbo, 1990, p. 25.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Ramos, J.M.O. <I>Cinema, televis&atilde;o e publicidade: cultura popular de massa no Brasil nos anos 1970&#45;1980</I>. S&atilde;o Paulo. Annablume, 2004, p.45.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3"> 6. Bustos, J.C.M. "Estrateg&iacute;as de los grupos de comunicaci&oacute;n en la era de la convergencia". In: Bolano, C.; Mastrini, G.; Sierra, F. (eds.). <I>Econom&iacute;a pol&iacute;tica, comunicaci&oacute;n y conocimiento: una perspectiva cr&iacute;tica latinoamericana</I>. La Cruj&iacute;a, 2005.     </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3"> 7. Mart&iacute;n&#45;Barbero, J. <I>Os exerc&iacute;cios do ver: hegemonia audiovisual e fic&ccedil;&atilde;o televisiva</I>. S&atilde;o Paulo: Editora Senac, 2001, p. 77.     </font></p>      ]]></body><back>
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