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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>OUVINDO A LEITURA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Nova tecnologia expande os sentidos para o ato de ler</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">"... ouvi um c&atilde;o latir ao longe. Outros latidos foram respondendo, at&eacute; que, trazido pelo vento que agora soprava de leve sobre o Passo, chegou aos meus ouvidos um urro selvagem, que parecia vir de muito longe, t&atilde;o longe quanto a imagina&ccedil;&atilde;o pode alcan&ccedil;ar". Esse &eacute; um dos trechos de <I>Dr&aacute;cula</I>, de Bram Stoker. A descri&ccedil;&atilde;o tenta compor um cen&aacute;rio sombrio, com uivos, latidos, o som do vento, mas deixa parte dessa tarefa para o leitor, para onde sua imagina&ccedil;&atilde;o puder alcan&ccedil;ar. O trecho destacado foi retirado de uma vers&atilde;o eletr&ocirc;nica de <I>Dr&aacute;cula</I>, feita para <I>e&#45;readers</I>, uma entre tantas novidades que as tecnologias de comunica&ccedil;&atilde;o trouxeram para o mundo dos livros. Nesse suporte o leitor pode ir al&eacute;m do texto, acessando links na internet relacionados ao conte&uacute;do da obra, fazer anota&ccedil;&otilde;es, ou comentar sobre o que est&aacute; lendo nas redes sociais. </font></p>     <p><font size="3">Uma das novidades tecnol&oacute;gicas mais recentes &eacute; um aplicativo que produz ambientes sonoros para livros. Sincronizado com trechos das obras, o <I>booktrack</I>, nome dessa tecnologia, prop&otilde;e uma esp&eacute;cie de trilha sonora para a leitura. Com o aplicativo, ao ler o trecho acima, ouvir&iacute;amos o latido do c&atilde;o ao longe, o som do vento, os uivos. Mas, que efeitos isso teria em nosso modo de ler? Como fica nossa capacidade de imaginar, de compor um cen&aacute;rio a partir da leitura? </font></p>     <p><font size="3">O fil&oacute;sofo e psicanalista Andr&eacute; Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), n&atilde;o acredita que essas tecnologias afetem nossa capacidade de imaginar. Para ele, tal receio &eacute; an&aacute;logo ao que tivemos quando surgiram os primeiros livros ilustrados, ou quando o cinema floresceu. "A imagina&ccedil;&atilde;o sempre existir&aacute; com toda a sua pot&ecirc;ncia. E, certamente, se a novidade das trilhas sonoras de livros pegar, passar&aacute; a haver uma grande inventividade na cria&ccedil;&atilde;o de trilhas para os mesmos livros, ou mesmo a op&ccedil;&atilde;o de cada leitor criar sua pr&oacute;pria trilha", diz. "Al&eacute;m do mais, n&atilde;o penso que os e&#45;books substituir&atilde;o os livros; apenas tendem a ser uma nova m&iacute;dia, que proporcionar&aacute; prazeres diferentes, e n&atilde;o uma m&iacute;dia substituta, que extinga a anterior", complementa. </font></p>     <p><font size="3"><B>O LIVRO NA HIST&Oacute;RIA </B>Leitura, livros e leitores mudaram ao longo do tempo e continuam mudando. Novos suportes como os tablets, livros eletr&ocirc;nicos e trilhas sonoras, s&atilde;o parte dessas mudan&ccedil;as. A <I>Il&iacute;ada</I> e a <I>Odiss&eacute;ia</I>, do s&eacute;culo VIII a.C., atribu&iacute;das ao poeta grego Homero, s&atilde;o poemas para serem declamados e n&atilde;o lidos. Isso porque a sociedade antiga se apoiava no discurso oral e n&atilde;o no texto. Pequenas t&aacute;buas, tecidos, conchas, pedras, cer&acirc;mica, tantos foram os suportes utilizados para escrever e para ler, cada um deles implicando em diversos modos de organiza&ccedil;&atilde;o do texto e imagens, em diferentes posturas corporais e formas de construir significados a partir da leitura. "A nossa imagem dominante do que &eacute; um livro est&aacute;, sobretudo, associada ao formato de livro que mais sucesso teve na hist&oacute;ria humana at&eacute; hoje: o c&oacute;dice, um conjunto de cadernos com folhas costuradas umas &agrave;s outras", explica Andr&eacute; Belo, historiador da Universidade Rennes 2, Paris, Fran&ccedil;a. Para ele, o fato de haver uma trilha sonora n&atilde;o parece decisivo para mudar o estatuto do livro, enquanto objeto. </font></p>     <p><font size="3">As caracter&iacute;sticas do livro t&ecirc;m se mostrado bastante est&aacute;veis. Na passagem para o livro impresso no s&eacute;culo XV, por conta da inven&ccedil;&atilde;o da imprensa por Gutemberg, s&atilde;o herdadas as caracter&iacute;sticas do livro manuscrito, como a estrutura de p&aacute;ginas, colunas e linhas, cap&iacute;tulos etc. No livro <I>A aventura do livro: do leitor ao navegador</I>, o historiador franc&ecirc;s Roger Chartier, afirma que a impress&atilde;o de Gutemberg n&atilde;o cria um objeto novo nem estabelece uma nova rela&ccedil;&atilde;o com a leitura, como aconteceu com o aparecimento do c&oacute;dice. J&aacute; o livro eletr&ocirc;nico modifica a maneira de ler porque, al&eacute;m das rela&ccedil;&otilde;es sensoriais, ele tamb&eacute;m possibilita leituras al&eacute;m do livro, links, compartilhamento e v&aacute;rias outras possibilidades que o conte&uacute;do imerso na internet pode propiciar. </font></p>     <p><font size="3">Para Andr&eacute; Belo, a rela&ccedil;&atilde;o entre mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas e mudan&ccedil;as na experi&ecirc;ncia da leitura &eacute; uma quest&atilde;o fundamental. "Suspeito que o fato de estarmos crescentemente ligados a v&aacute;rias fontes de informa&ccedil;&atilde;o ao mesmo tempo: texto, som, v&iacute;deo etc, traga consequ&ecirc;ncias empobrecedoras para a nossa capacidade de concentra&ccedil;&atilde;o", afirma o pesquisador. "Tenho tend&ecirc;ncia a associar&#45;me ao que defende Nicholas Carr, professor do Massachusets Instituto of Technology, que tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o para os riscos do 'multitasking'. Para Carr, isso afeta a nossa mem&oacute;ria mais profunda, que &eacute; tamb&eacute;m a mais criativa e a que melhor consegue fazer a indispens&aacute;vel triagem entre informa&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel e sup&eacute;rflua. Sem reacionarismos, ou seja, sem estar contra os avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos, que t&ecirc;m aspectos muito enriquecedores, &eacute; preciso saber desligar o bot&atilde;o regularmente... O que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil", acredita. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/a21img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>UM IMAGIN&Aacute;RIO DA LEITURA </B>Um caminho promissor para a compreens&atilde;o dos impactos das tecnologias no mundo da leitura talvez seja admitir v&aacute;rios tipos de leitores, v&aacute;rios tipos de leituras convivendo simultaneamente. Para o presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de Leitura do Brasil (ALB), Antonio Carlos Amorim, "&eacute; certo que a leitura estimula a imagina&ccedil;&atilde;o, assim como o fazem o cinema, e, em certa medida, as pr&aacute;ticas culturais baseadas na oralidade". Ele aponta, no entanto, que a leitura participa da circula&ccedil;&atilde;o de um conjunto de significa&ccedil;&otilde;es culturais que constituem imagin&aacute;rios sociais. "Os sujeitos leitores, em contato com imagens, sons e odores, por exemplo, entrar&atilde;o em contato com a leitura do livro em atravessamentos v&aacute;rios e distintos daquele suposto envolvimento da leitura silenciosa ou em voz alta das letras impressas em papel. E tal situa&ccedil;&atilde;o pode significar mais uma abertura do que uma restri&ccedil;&atilde;o &agrave; experi&ecirc;ncia leitora, que estimula ou permite ou valoriza a imagina&ccedil;&atilde;o", afirma. </font></p>     <p><font size="3">H&aacute; que se pensar tamb&eacute;m se livros eletr&ocirc;nicos ou trilhas sonoras em obras liter&aacute;rias s&atilde;o capazes de atrair novos leitores ou se apenas trariam mudan&ccedil;as no modo de ler para aqueles que j&aacute; s&atilde;o leitores. "Penso que nesta quest&atilde;o continua a ser decisivo o papel de institui&ccedil;&otilde;es como a escola, da aprendizagem precoce da leitura e da escrita e o ambiente familiar e social em que crescemos", afirma Andr&eacute; Belo. Para ele, e&#45;books, computadores etc, surgem mais tarde, e mesmo quando s&atilde;o introduzidos mais cedo, eles funcionam como complemento de uma rela&ccedil;&atilde;o com o escrito que se aprende primeiro noutros suportes e com intermedi&aacute;rios como os professores e os pais. Para Antonio Carlos Amorim, da ALB, em uma sociedade que prima o multisensorial e a experi&ecirc;ncia do ef&ecirc;mero e do inusitado, essas tecnologias ser&atilde;o efetivamente capazes de atrair novos leitores. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></p>      ]]></body>
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