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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A dimensão religiosa e étnica nos conflitos do Sudão: uma análise crítica]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a12img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><B>A dimens&atilde;o religiosa e &eacute;tnica nos conflitos do Sud&atilde;o: uma an&aacute;lise cr&iacute;tica</B></font></P>     <P><font size="3">Daniela Nascimento</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <font size=5><b>O</b></font> Sud&atilde;o sempre foi marcado por uma hist&oacute;ria de profunda exclus&atilde;o, da qual o conflito violento se foi tornando apenas mais uma das suas tr&aacute;gicas express&otilde;es. De fato, ao longo da hist&oacute;ria sudanesa, v&aacute;rios grupos foram sendo, repetida e sistematicamente, exclu&iacute;dos da vida econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica, social e cultural do pa&iacute;s. Esta foi tamb&eacute;m uma tend&ecirc;ncia perpetuada e acentuada pelo dom&iacute;nio colonial anglo-eg&iacute;pcio entre 1898 e 1956, per&iacute;odo em que o pa&iacute;s foi alvo de uma pol&iacute;tica de administra&ccedil;&atilde;o colonial distinta ao norte e ao sul. Ao norte foi implementada uma pol&iacute;tica de administra&ccedil;&atilde;o civil, com a substitui&ccedil;&atilde;o dos governadores militares por agentes civis brit&acirc;nicos, enquanto ao sul foi implementado um modelo de administra&ccedil;&atilde;o central nativa, com a separa&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios grupos &eacute;tnicos de modo a evitar conflitos e controlar a popula&ccedil;&atilde;o. Essa pol&iacute;tica foi, mais tarde, (em 1930), substitu&iacute;da pela "pol&iacute;tica sulista" que visava desenvolver as estruturas pol&iacute;ticas e sociais de acordo com padr&otilde;es de identidade "africana" em vez de "&aacute;rabe" (&agrave; semelhan&ccedil;a do norte). Aplicaram-se, assim, pr&aacute;ticas administrativas e coloniais significativamente diferentes nas duas regi&otilde;es do Sud&atilde;o que, na nossa opini&atilde;o, serviram de base para uma certa ideia de autogoverno no sul do pa&iacute;s, mas que na pr&aacute;tica fomentaram um sentimento de neglig&ecirc;ncia do poder colonial brit&acirc;nico relativamente &agrave; regi&atilde;o e, consequentemente, tens&otilde;es v&aacute;rias entre o poder colonial e a popula&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia em 1956, o Sud&atilde;o mergulha quase que automaticamente numa situa&ccedil;&atilde;o de instabilidade pol&iacute;tica e conflito interno entre norte e sul que viria a se prolongar por mais de quatro d&eacute;cadas (1). </font></P>     <P><font size="3">Com a passagem do poder pol&iacute;tico para as m&atilde;os de partidos centralizadores do norte e com as crescentes reivindica&ccedil;&otilde;es independentistas por parte de grupos representantes do sul, continuadamente negadas por Cartum, as reivindica&ccedil;&otilde;es sulistas foram, ent&atilde;o, cristalizando-se em torno do Sudan's People Liberation Movement/Army (SPLM/A). Este tornou-se, assim, o &uacute;nico grupo rebelde capaz de pressionar e enfrentar, pol&iacute;tica e militarmente, um governo &aacute;rabe-mu&ccedil;ulmano defensor de um projeto nacionalista particularmente agressivo (2). As diferen&ccedil;as religiosas entre a popula&ccedil;&atilde;o do norte, majoritariamente mu&ccedil;ulmana, e do sul, majoritariamente crist&atilde; e animista, rapidamente se tornaram um instrumento facilmente aproveitado e usado por ambas as partes, em especial ap&oacute;s a imposi&ccedil;&atilde;o, em 1983, da lei isl&acirc;mica a todo o territ&oacute;rio sudan&ecirc;s por parte do governo liderado por Gaafar Nimeiri. Tal medida, vista por Cartum como essencial para alimentar e justificar perante a popula&ccedil;&atilde;o do norte a ideia de um pa&iacute;s homog&ecirc;neo e perfeitamente controlado pelo governo central, foi igualmente aproveitada pelos rebeldes do sul para justificar a sua pol&iacute;tica de resist&ecirc;ncia violenta e militar contra o poder autorit&aacute;rio de Cartum, marcando indiscutivelmente a forma como o conflito se desenrolou. Os sucessivos golpes militares ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia deixaram igualmente pouco espa&ccedil;o para iniciativas de paz bem-sucedidas, o que foi acompanhado por uma precariza&ccedil;&atilde;o crescente da situa&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica e pol&iacute;tica de v&aacute;rias comunidades sudanesas, em especial no sul. Apesar de a guerra entre o norte e sul ter algumas das suas origens na luta pela posse de terras e em diverg&ecirc;ncias relacionadas com quest&otilde;es religiosas e &eacute;tnicas, podemos afirmar que esta foi significativamente agravada com o in&iacute;cio da explora&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo em algumas &aacute;reas do sul no final da d&eacute;cada de 1990. Tal fato resultou numa acentua&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais e econ&ocirc;micas entre o norte e o sul em virtude da monopoliza&ccedil;&atilde;o dos benef&iacute;cios dessa explora&ccedil;&atilde;o pelo governo em Cartum. Por seu lado, a viol&ecirc;ncia no Darfur, regi&atilde;o situada no oeste do Sud&atilde;o e que havia sido um dos reinos mais pr&oacute;speros do territ&oacute;rio antes do dom&iacute;nio colonial, torna-se mais vis&iacute;vel e agudizada em 2003, quando grupos rebeldes da regi&atilde;o procuraram retirar dividendos das negocia&ccedil;&otilde;es de paz com o sul (3) relativamente a quest&otilde;es de partilha de poder e recursos. Os massacres e as desloca&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas de v&aacute;rias popula&ccedil;&otilde;es (4) de Darfur, perpetradas pelas mil&iacute;cias armadas Janjaweed &#150; alegadamente com a coniv&ecirc;ncia e apoio do regime de Cartum &#150; e os confrontos com os dois principais grupos rebeldes da regi&atilde;o &#150; o Sudan Liberation Movement/Army (SLM/A) e o Justice and Equality Movement (JEM) &#150;, que se insurgiram contra o governo, n&atilde;o s&oacute; ganharam propor&ccedil;&otilde;es incontrol&aacute;veis, como tamb&eacute;m permitiram perceber a exist&ecirc;ncia de causas muito mais profundas e estruturais para a viol&ecirc;ncia nas v&aacute;rias regi&otilde;es do territ&oacute;rio sudan&ecirc;s. Neste contexto de viol&ecirc;ncia disseminada, podemos considerar a rela&ccedil;&atilde;o entre conflito norte-sul e o conflito em Darfur como decorrente, em parte, de uma crescente e indiscut&iacute;vel polariza&ccedil;&atilde;o e instrumentaliza&ccedil;&atilde;o desses conflitos em torno das ideias de ra&ccedil;a e etnia, levada ao extremo com o golpe militar de 1989 que colocou no poder um governo mu&ccedil;ulmano e ditatorial liderado pelo ainda presidente Omar-al-Bashir. Os dois conflitos s&atilde;o diferentes mas est&atilde;o, de fato, relacionados na medida em que a viol&ecirc;ncia em Darfur se intensificou quando os grupos rebeldes da regi&atilde;o procuraram retirar dividendos das negocia&ccedil;&otilde;es entre o norte e o sul relativamente a quest&otilde;es de partilha de poder e riquezas. &Agrave; semelhan&ccedil;a do que acontecia no sul, esses grupos reclamam d&eacute;cadas de neglig&ecirc;ncia e marginaliza&ccedil;&atilde;o social, econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica dessa regi&atilde;o africana por parte do governo. Tendo sido uma das mais pr&oacute;speras regi&otilde;es do Sud&atilde;o, o Darfur foi progressivamente negligenciado, pol&iacute;tica e economicamente, pelos sucessivos governos e regimes sudaneses, mas em particular pelo regime ditatorial e sect&aacute;rio de al-Bashir. Mesmo sendo um pa&iacute;s marcadamente multi&eacute;tnico e multirreligioso, o Sud&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um Estado com rela&ccedil;&otilde;es sociais baseadas em leis profundamente discriminat&oacute;rias (5), em particular no que diz respeito &agrave; partilha de recursos, poder e direitos. Esta complexidade geogr&aacute;fica, &eacute;tnica e religiosa contribuiu, desde sempre, para uma igual complexidade pol&iacute;tica alimentada por um governo interessado apenas em manter o <I>status quo </I>e em retirar o m&aacute;ximo de dividendos poss&iacute;vel da opress&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o do sul. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a13img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Com o fim formal do conflito armado entre o norte e o sul do Sud&atilde;o, conseguido com o Acordo Geral de Paz de 2005 e que culminou com a secess&atilde;o do territ&oacute;rio do sul ap&oacute;s o referendo realizado em janeiro de 2011, grande parte da discuss&atilde;o sobre a natureza da viol&ecirc;ncia naquele que era o maior pa&iacute;s de &Aacute;frica foi perdendo f&ocirc;lego. Como j&aacute; foi mencionado anteriormente, o Sud&atilde;o sempre foi um pa&iacute;s marcado pelo conflito, tendo este sido frequentemente creditado a motivos religiosos. De fato, a exist&ecirc;ncia de disputas e diverg&ecirc;ncias desde o per&iacute;odo colonial, entre comunidades majoritariamente mu&ccedil;ulmanas ao norte, e maioritariamente crist&atilde;s e animistas ao sul ajudou a que se tornasse dominante uma vis&atilde;o do conflito relacionada quase exclusivamente com a dimens&atilde;o religiosa do mesmo. De um modo geral, isso foi sendo continuadamente visto como <I>o</I> elemento essencial na rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as entre norte e sul, tanto por atores internos como por atores externos. Do mesmo modo, o eclodir da viol&ecirc;ncia na regi&atilde;o de Darfur em 2003, dessa feita opondo comunidades &aacute;rabes e comunidades africanas negras, fez sobressair a vis&atilde;o primordialista de um conflito armado onde as diferen&ccedil;as &shy;&eacute;tnicas e culturais se tornaram, no discurso dominante, <I>o </I>fator explicativo das disputas. Parece obviamente ser mais f&aacute;cil classificar certos conflitos como "&eacute;tnicos" ou "religiosos" e, por isso, inevit&aacute;veis ou imposs&iacute;veis de prevenir ou resolver. A assun&ccedil;&atilde;o de que &oacute;dios ancestrais sempre originar&atilde;o guerras b&aacute;rbaras, nas quais n&atilde;o se pode ou n&atilde;o se deve interferir, &eacute; perigosa, em especial num contexto internacional j&aacute; de si bastante polarizado em torno de ideias feitas sobre o "bem" e o "mal", o "amigo" e o "inimigo". Neste artigo, contudo, defendemos uma abordagem distinta, atrav&eacute;s da qual se prop&otilde;e um olhar cr&iacute;tico sobre essa vis&atilde;o dominante relativamente aos conflitos supostamente "religiosos" e "&eacute;tnicos" no Sud&atilde;o. Para esse efeito, o artigo apresenta alguns argumentos alternativos que procuram, acima de tudo, abrir novos caminhos para uma leitura mais rigorosa das causas da viol&ecirc;ncia que t&ecirc;m sido predominantes no pa&iacute;s durante as &uacute;ltimas d&eacute;cadas. </font></P>     <p><font size="3"><B>A ETNIA E A RELIGI&Atilde;O NO(S) CONFLITO(S) DO SUD&Atilde;O: UMA AN&Aacute;LISE TE&Oacute;RICA </B>Em virtude das suas carater&iacute;sticas internas marcadas pela diversidade &eacute;tnica e religiosa, e da sua trajet&oacute;ria de conflito, o Sud&atilde;o constitui um caso particularmente interessante do ponto de vista do debate te&oacute;rico acerca do papel que as diferen&ccedil;as &eacute;tnicas e religiosas assumem enquanto causas de viol&ecirc;ncia. &Agrave; luz desse debate, que op&otilde;e primordialismo, instrumentalismo e construtivismo, existem obviamente v&aacute;rias vis&otilde;es divergentes relativamente &agrave; exist&ecirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre diversidade &eacute;tnica e/ou religiosa e a ocorr&ecirc;ncia de viol&ecirc;ncia entre grupos dentro de um Estado. Como j&aacute; referido inicialmente, os conflitos no Sud&atilde;o t&ecirc;m sido, por muitos, interpretados como um exemplo do argumento primordialista, de acordo com o qual a mais importante das vari&aacute;veis para explicar conflitos internos &eacute; exatamente a diferen&ccedil;a religiosa entre grupos. A vis&atilde;o primordialista considera as identidades &eacute;tnicas e religiosas como sendo componentes fundamentais da natureza humana e, por isso, constantes e imut&aacute;veis (6). Os conflitos tornam-se, nesse sentido, inevit&aacute;veis e quase que "naturais" em virtude dos diferentes entendimentos do sagrado e religioso entre grupos (7). Contudo, essa vis&atilde;o primordialista &eacute; aqui considerada como sendo bastante limitada uma vez que retira aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s causas e dimens&otilde;es m&uacute;ltiplas e complexas que, de forma mais profunda e estrutural, contribuem para a ocorr&ecirc;ncia e perpetua&ccedil;&atilde;o do conflito, nomeadamente as desigualdades socioecon&ocirc;micas profundas entre grupos. Al&eacute;m disso, ao naturalizar e fixar estas identidades prim&aacute;rias, n&atilde;o explica realmente porque &eacute; que estas surgem em grupos cultural e biologicamente distintos. Por seu lado, a vis&atilde;o instrumentalista tende a reconhecer a import&acirc;ncia das diferen&ccedil;as &eacute;tnicas e religiosas existentes, assim como o seu impacto nos conflitos, mas n&atilde;o os encara como ingrediente central dos mesmos (8). Contrariamente ao primordialismo, o instrumentalismo olha a etnia e a religi&atilde;o como mais um instrumento para obten&ccedil;&atilde;o de recursos v&aacute;rios e enfatiza o car&aacute;ter "pl&aacute;stico" e artificial das identidades religiosas e &eacute;tnicas (9), acabando por comparar os grupos &eacute;tnicos e religiosos a outros grupos de interesse. De acordo com esta vis&atilde;o, a etnia e a religi&atilde;o existem e persistem porque se tornam &uacute;teis e podem resultar em vantagens e ganhos pol&iacute;ticos, econ&ocirc;micos ou sociais (10). Essas identidades tornam-se, assim, definidas socialmente, flex&iacute;veis e negoci&aacute;veis, assim como pass&iacute;veis de serem manipul&aacute;veis (11). No quadro desta abordagem te&oacute;rica, referem-se como importantes dois fatores: por um lado, a capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o das massas por parte de determinados l&iacute;deres e, por outro lado, a instrumentaliza&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o religiosa aliada a desigualdades pol&iacute;ticas, sociais e econ&ocirc;micas, permitindo que determinados grupos se mobilizem em torno de ressentimentos socioecon&ocirc;micos explicados pelas elites por l&oacute;gicas de discrimina&ccedil;&atilde;o com base na religi&atilde;o ou na etnia (12). Deste ponto de vista, por exemplo, a pr&oacute;pria elite &aacute;rabe mu&ccedil;ulmana governativa do Sud&atilde;o foi alimentando esse processo, servindo-se frequentemente de argumentos que remetem &agrave;s diverg&ecirc;ncias religiosas como fatores de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o na sociedade sudanesa e alimentando uma guerra que durou v&aacute;rias d&eacute;cadas. Finalmente, no que diz respeito &agrave; tese construtivista, o mundo social &eacute; um mundo de consci&ecirc;ncia humana, constru&iacute;do e partilhado. Aplicado ao debate sobre as causas de conflitos violentos, o construtivismo baseia-se em tr&ecirc;s grandes argumentos: as identidades &eacute;tnicas ou religiosas s&atilde;o socialmente constru&iacute;das; s&atilde;o din&acirc;micas e as suas fronteiras flex&iacute;veis e mut&aacute;veis; e a filia&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica ou religiosa &eacute; determinada e/ou constru&iacute;da pela sociedade (13). Sugere-se, assim, que as diferen&ccedil;as &eacute;tnicas ou religiosas nada t&ecirc;m de inerente ou naturalmente conflitual, mas que em certos contextos esse tipo de identidade pode passar de um princ&iacute;pio organizativo relativamente neutral a um poderoso instrumento para mobiliza&ccedil;&atilde;o e legitima&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia (14). Nesta l&oacute;gica, os conflitos est&atilde;o muito diretamente associados a certas estruturas cognitivas (como a ideologia, o nacionalismo, a etnicidade ou a religi&atilde;o), atrav&eacute;s das quais se atribuem aos atores sociais determinadas concep&ccedil;&otilde;es valorativas de si mesmos, afetando assim o seu comportamento dentro da sociedade (15). A religi&atilde;o torna-se, portanto, uma vari&aacute;vel interveniente, importante num determinado conflito, mas com um impacto potencialmente amb&iacute;guo, na medida em que tanto pode reduzir a possibilidade e risco de ocorr&ecirc;ncia de viol&ecirc;ncia, como torn&aacute;-la mais prov&aacute;vel (16). </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a13img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size="3">A partir desses enquadramentos te&oacute;ricos, e contrariamente ao que uma leitura simplista poder&aacute; fazer crer, podemos afirmar que os conflitos no Sud&atilde;o n&atilde;o correspondem necessariamente a um "choque de civiliza&ccedil;&otilde;es" (17) que se tornou inevit&aacute;vel pela exist&ecirc;ncia de grupos &eacute;tnica ou religiosamente distintos e em que essa identidade &eacute; vista como um obst&aacute;culo quase natural &agrave; coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica num mesmo territ&oacute;rio. Quando tentamos aplicar a vis&atilde;o primordialista ao conflito norte-sul, rapidamente verificamos que esta &eacute;, no m&iacute;nimo, limitada. Na nossa perspetiva, e seguindo a vis&atilde;o de Atta El-Battahani, a ideia popular de que os conflitos na &Aacute;frica, como no Sud&atilde;o, resultam de diferen&ccedil;as &eacute;tnicas, tribais, religiosas ou culturais &eacute; profundamente err&ocirc;nea (18). Pelo contr&aacute;rio, os conflitos no sul e em Darfur (assim como a viol&ecirc;ncia latente no leste do pa&iacute;s) (19) devem antes ser analisados e interpretados num contexto mais amplo e profundo, como fazendo parte de uma mesma vis&atilde;o em que o "inimigo" &eacute;, &agrave; superf&iacute;cie, associado a uma elite mu&ccedil;ulmana e &aacute;rabe restrita que, desde a independ&ecirc;ncia, tem controlado e dominado a vida econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica do pa&iacute;s. Se atentarmos para a viol&ecirc;ncia que, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tem assolado o Sud&atilde;o, podemos afirmar que duas das principais causas alegadamente por detr&aacute;s de conflitos t&atilde;o persistentes no sul desde a d&eacute;cada de 1980, e que se foram alastrando a Darfur em 2003 e ao leste do Sud&atilde;o, t&ecirc;m sido o desrespeito pela diversidade &eacute;tnica e religiosa do pa&iacute;s e a marginaliza&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica de determinados grupos, criando divis&otilde;es artificiais entre mu&ccedil;ulmanos, crist&atilde;os e animistas, &aacute;rabes e africanos. De fato, a repress&atilde;o, a marginaliza&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica e pol&iacute;tica de largos setores da popula&ccedil;&atilde;o sudanesa e uma vis&atilde;o profundamente fundamentalista do Isl&atilde; aplicada cegamente em todo o territ&oacute;rio e em total desrespeito pela diversidade &eacute;tnica e religiosa, foram fomentando a instabilidade e o descontentamento profundo de muitos grupos que foram encontrando na rebeli&atilde;o armada uma, se n&atilde;o mesmo a &uacute;nica, forma de contesta&ccedil;&atilde;o e resist&ecirc;ncia ao governo de Cartum. Neste contexto, e ainda que reconhecendo a diversidade religiosa e &eacute;tnica que carateriza o Sud&atilde;o, esta an&aacute;lise tem subjacente a rejei&ccedil;&atilde;o da premissa dominante em que a viol&ecirc;ncia no Sud&atilde;o n&atilde;o &eacute; mais do que o resultado de &oacute;dios e lealdades hist&oacute;ricos, assentes na identidade &eacute;tnica e/ou religiosa. De acordo com Abdel Ghaffar Ahmed, s&oacute; quando esses fatores se combinam como diferen&ccedil;as ao n&iacute;vel dos recursos e da riqueza ou com percep&ccedil;&otilde;es de desigualdade &eacute; que se tornam relevantes (20). Assim, uma leitura aprofundada e rigorosa da hist&oacute;ria e da realidade sudanesa dever&aacute; trazer &agrave; superf&iacute;cie aquelas que s&atilde;o as suas causas mais estruturais e complexas: as profundas desigualdades sociais e econ&ocirc;micas entre o norte e o sul mas tamb&eacute;m entre as elites governativas e todos aqueles que v&ecirc;m se opondo a um governo ditatorial que, habilidosamente, foi usando a "carta &eacute;tnica/religiosa" para mobilizar apoio e perpetuar uma guerra que favorecia uns em detrimento de outros. De fato, por detr&aacute;s de um contexto em que as divis&otilde;es &eacute;tnicas e religiosas foram ganhando uma relev&acirc;ncia crescente enquanto fatores explicativos e justificativos do conflito, esconde-se uma hist&oacute;ria de assimetrias e desigualdades pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas entre um norte mu&ccedil;ulmano controlado por uma elite &aacute;rabe e enriquecida e um sul majoritariamente crist&atilde;o e animista, empobrecido e despojado dos seus recursos e das suas popula&ccedil;&otilde;es. </font></P>     <p><font size="3"><B>CONCLUS&Otilde;ES </B>Com base nesta an&aacute;lise, o nosso enfoque centrou-se nas causas e fatores mais profundos e estruturais tais como as desigualdades socioecon&ocirc;micas entre grupos e que, normalmente, n&atilde;o s&atilde;o levados em conta nas an&aacute;lises sobre conflitos violentos internos, mas que, se n&atilde;o forem devidamente reconhecidos, colocam em risco quaisquer esfor&ccedil;os de paz. O objetivo deste artigo &eacute; o de chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a necessidade de melhor compreendermos a multiplicidade de causas complexas e din&acirc;micas que se escondem por detr&aacute;s das guerras aparentemente "&eacute;tnicas" ou "religiosas". Com tal an&aacute;lise, e atrav&eacute;s do caso do Sud&atilde;o, procuramos chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a necessidade de desconstruir vis&otilde;es simplistas e limitadas sobre etnicidade e/ou religi&atilde;o alimentadas por muitos dos atores tradicionalmente envolvidos em conflitos violentos. No caso da viol&ecirc;ncia no Sud&atilde;o, &eacute; essencialmente do reconhecimento dessas desigualdades e assimetrias profundas e do reconhecimento da instrumentaliza&ccedil;&atilde;o das especificidades &eacute;tnicas e religiosas que tem caracterizado o regime sudan&ecirc;s, que n&atilde;o s&oacute; resultar&aacute; um conhecimento s&eacute;rio e rigoroso sobre as causas da viol&ecirc;ncia e do conflito no Sud&atilde;o, como tamb&eacute;m naturalmente depender&aacute; a sustentabilidade da paz num pa&iacute;s em que o subdesenvolvimento e a guerra foram se tornando realidades aparentemente end&ecirc;micas e irrevers&iacute;veis.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><B>Daniela Nascimento </B>&eacute; professora auxiliar na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, doutora em pol&iacute;tica internacional e resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos (Universidade de Coimbra) e investigadora do Centro de Estudos Sociais/Universidade de Coimbra.</I></font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">1.  Sosa, R. "Sud&aacute;n, un conflicto sin fin". <I>Papeles de Cuestiones Internacionales</I>, Madrid, nº.86. 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071215&pid=S0009-6725201200040001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">2.  Nascimento, D. "Sud&atilde;o: entre a promessa de paz no sul e a incerteza da guerra em Darfur". <I>Contexto Internacional</I>, Vol.31, nº.3, pp.429-458. 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071217&pid=S0009-6725201200040001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P><font size="3">3.  Nessa altura, ambas as partes ao norte e ao sul estavam prestes a concluir as negocia&ccedil;&otilde;es para um novo acordo de paz que viria a ser assinado em janeiro de 2005 (Acordo Geral de Paz) e que inclu&iacute;a importantes disposi&ccedil;&otilde;es relativamente &agrave; partilha de poder pol&iacute;tico e recurso, nomeadamente petr&oacute;leo.</font></P>     <P><font size="3">4.  A regi&atilde;o de Darfur &eacute; caracterizada por popula&ccedil;&otilde;es mu&ccedil;ulmanas africanas e sedent&aacute;rias, como os Fur, Zaghawa e Massalit, que se dedicam predominantemente ao pastoreio e &agrave; agricultura e que, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, t&ecirc;m sido particularmente afetados por per&iacute;odos de seca e fome prolongadas.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">5.  Johnson, D. <I>The root causes of Sudan's Civil Wars</I>. Oxford: The International African Institute in association with James Currey. 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071221&pid=S0009-6725201200040001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">6.  Ferreira, P.M. "O paradoxo afro-&aacute;rabe: conflitos e interven&ccedil;&atilde;o no Sud&atilde;o". In<I>: Pol&iacute;tica Internacional</I>, 27, p. 82. 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071223&pid=S0009-6725201200040001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">7.  Hasenclever, A.; Rittberger, V. "Does religion make a difference? Theoretical approaches to the impact of faith on political conflict. In<I>: Millennium</I>, 29, 3, pp. 641-674. 2000.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071225&pid=S0009-6725201200040001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P><font size="3">8.  Hasenclever, A. ; Rittberger, V., <I>op cit.</I> p. 642.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">9.  Jenkins, R. "Ethnicity etecetera: social anthropological points of view". In: Bulmer,M.; Soloms, J. (eds.) <I>Ethnic and Racial Studies Today</I>. London: Routledge, p. 89. 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071228&pid=S0009-6725201200040001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">10.  Yang, P. Q. <I>Ethnic studies: issues and approaches</I>. New York: State University of New York Press, p. 46. 2000.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071230&pid=S0009-6725201200040001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">11.  Ferreira, P. M. <I>Identidades &eacute;tnicas, poder e viol&ecirc;ncia em &Aacute;frica: o conflito no Burundi</I>. Lisboa, Instituto Portugu&ecirc;s de Apoio ao Desenvolvimento &#150; Centro de Documenta&ccedil;&atilde;o e Informa&ccedil;&atilde;o, p. 82. 2005b.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071232&pid=S0009-6725201200040001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">12.  Hasenclever, A. ; Rittberger, V., <I>op cit.</I></font></P>     <P><font size="3">13. Yang, P. Q., <I>op. cit.</I> p. 14.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">14.  USAID. <I>Conducting a conflict assessment: a framework for strategy and program development</I>. 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071236&pid=S0009-6725201200040001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P><font size="3">15.  Hasenclever, A. ; Rittberger, V., <I>op cit.</I> p. 647.</font></P>     <P><font size="3">16.  Ibidem, p.649.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">17.  Express&atilde;o utilizada por Samuel P. Huntington para caracterizar o novo paradigma de conflitualidade internacional que marcaria o mundo no p&oacute;s-Guerra Fria. De acordo com este argumento, os novos conflitos mundiais passariam a ser travados entre blocos com identidades civilizacionais e religiosas diferentes. Huntington, S. P., <I>The clash of civilizations and the remaking of world order</I>. Nova Iorque: Simon&amp;Schuster. 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071240&pid=S0009-6725201200040001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">18.  Na opini&atilde;o de El-Battahani, grande parte das diverg&ecirc;ncias &eacute;tnicas ou religiosas parecem ser mais consequ&ecirc;ncias do que causas de conflito violento e que quanto mais tempo dura o conflito, mais esses fatores se destacam como princ&iacute;pios de solidariedade e mobiliza&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica. El-Battahani, A. (2006) "A complex web: Politics and conflict in Sudan". In: Simmons, M. and Dixon, P. (eds.) <I>Peace by Piece: Addressing Sudan's Conflicts</I>. London: Conciliation Resources, p. 13. 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071242&pid=S0009-6725201200040001300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">19.  O leste sudan&ecirc;s constitui um enorme paradoxo pois &eacute; uma das re&shy;gi&otilde;es mais pr&oacute;speras e ricas em recursos, mas a sua popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; entre as mais pobres do pa&iacute;s. A luta por uma maior autonomia e partilha da riqueza tem sido uma constante desde a independ&ecirc;ncia, liderada pelo Congresso de Beja que, a partir de 1995, recorreu &agrave; viol&ecirc;ncia para responder &agrave; repress&atilde;o imposta pela pol&iacute;tica isl&acirc;mica fundamentalista e &agrave;s expropria&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas do governo. International Crisis Group, <I>Sudan: saving peace in the East. Africa Report</I>, 102. 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071244&pid=S0009-6725201200040001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">20.  Ahmed, A. G. "Multiple complexity and prospects for reconciliation and unity: the Sudan conundrum". In: Nhema, A.; Zeleza, P. T. (eds.) <I>The roots of African conflicts: the causes and costs</I>. Oxford:James Currey, pp.71-87. 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=071246&pid=S0009-6725201200040001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>      ]]></body>
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