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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/tendencias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Atual situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia &#150; crise na seguran&ccedil;a p&uacute;blica em S&atilde;o Paulo?</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><i><b>Nancy Cardia</b></i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>O</b></font><font size="3"> que est&aacute; acontecendo com a seguran&ccedil;a p&uacute;blica no estado de S&atilde;o Paulo? Ter&iacute;amos perdido os ganhos conquistados ao longo da &uacute;ltima d&eacute;cada ou estamos vivendo uma crise aguda, por&eacute;m epis&oacute;dica? &Eacute; dif&iacute;cil dar respostas precisas em meio ao tumulto das not&iacute;cias, por&eacute;m &eacute; tamb&eacute;m necess&aacute;rio fazer uma reflex&atilde;o sobre os dados dispon&iacute;veis. </font></p>     <p><font size="3">O N&uacute;cleo de Estudos da Viol&ecirc;ncia da Universidade de S&atilde;o Paulo (NEV&#45;USP) tem trabalhado com dados sobre a viol&ecirc;ncia na cidade e no estado de S&atilde;o Paulo oriundos da Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica e que s&atilde;o utilizados em v&aacute;rios estudos que buscam identificar as causas da queda dos homic&iacute;dios. Os dados sobre homic&iacute;dio na cidade s&atilde;o comparados com os de mortalidade por agress&atilde;o do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de (Datasus) e com os que prov&ecirc;m de atestados de &oacute;bito na cidade do banco de dados do Programa de Aprimoramento das Informa&ccedil;&otilde;es de Mortalidade. Essas fontes subsidi&aacute;rias permitem algum controle sobre a qualidade da informa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Al&eacute;m desses dados, realizamos a cada dois anos um <I>survey</I> na cidade de S&atilde;o Paulo sobre o contato (exposi&ccedil;&atilde;o) que as pessoas t&ecirc;m com a viol&ecirc;ncia, com a particularidade de ser realizada uma amostra suplementar em tr&ecirc;s distritos onde as taxas de homic&iacute;dio, nos anos 1980 e 1990, foram muito altas: Jd. &Acirc;ngela, Jd. S&atilde;o Lu&iacute;s e Cap&atilde;o Redondo. De certo modo os dados do <I>survey</I> permitem balizar os dados oficiais sobre ocorr&ecirc;ncias criminais, pois expressam uma experi&ecirc;ncia da popula&ccedil;&atilde;o enquanto v&iacute;tima de delitos que podem, ou n&atilde;o, ter sido registrados pela pol&iacute;cia.</font></p>     <p><font size="3">Uma revis&atilde;o dos dados da Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do Estado de S&atilde;o Paulo, de 1996 at&eacute; outubro de 2012, revela informa&ccedil;&otilde;es que contradizem a imagem de crise na seguran&ccedil;a p&uacute;blica, se por "crise na seguran&ccedil;a p&uacute;blica" estivermos nos referindo a um aumento generalizado de ocorr&ecirc;ncias criminais. Como nem todas as ocorr&ecirc;ncias criminais t&ecirc;m a mesma probabilidade de serem registradas, selecionamos os tipos de delitos com menor risco de subnotifica&ccedil;&atilde;o: homic&iacute;dios dolosos, tentativas de homic&iacute;dios, latroc&iacute;nios, roubos e furtos de carros, roubos a bancos, roubos de carga e um delito que &eacute; pass&iacute;vel de sub&#45;representa&ccedil;&atilde;o, o tr&aacute;fico de entorpecentes. O n&uacute;mero de homic&iacute;dios dolosos caiu no estado de S&atilde;o Paulo, desde o in&iacute;cio dos anos 2000, passando de uma taxa de 30,3 (por 100 mil habitantes), em 1996, para 10,6 (por 100 mil) em 2011. Na cidade de S&atilde;o Paulo, a queda foi ainda maior: de 46,6 homic&iacute;dios (por 100 mil), em 1996, para 8,9 em 2011, tendo atingido em 1999 o pico de 52,4 homic&iacute;dios (por 100 mil). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Essa queda se deu em todos os delitos selecionados, exceto em rela&ccedil;&atilde;o ao tr&aacute;fico de entorpecentes que cresceu continuamente. Aumento que ocorreu principalmente no interior do estado, onde saltou de 25,5 para 109,4 (por 100 mil) assim como na regi&atilde;o metropolitana, que foi de 12,6 para 57,2 (por 100 mil). Como esses dados se referem ao pe­r&iacute;odo anterior &agrave; crise &eacute; poss&iacute;vel que em 2012 tenha ocorrido uma revers&atilde;o nesta tend&ecirc;ncia. Por&eacute;m, a an&aacute;lise dos dados dispon&iacute;veis at&eacute; outubro de 2012, n&atilde;o corrobora essa hip&oacute;tese; os n&uacute;meros continuam em queda ou est&atilde;o semelhantes aos de 2011.</font></p>     <p><font size="3"><b>QUEDA DA VITIMIZA&Ccedil;&Atilde;O</b> Uma primeira quest&atilde;o que se levanta &eacute; sobre a qualidade desses dados em termos de representarem efetivamente a experi&ecirc;ncia das pessoas. Os <I>surveys</I> realizados pelo NEV permitem, ao menos, identificar se os dados oficiais s&atilde;o ou n&atilde;o congruentes com a vitimiza&ccedil;&atilde;o relatada pelos entrevistados. Os dados, tanto da cidade como os dos tr&ecirc;s distritos, revelam queda na vitimiza&ccedil;&atilde;o entre 2000 e 2010. Cai tamb&eacute;m a preval&ecirc;ncia de vitimiza&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">De modo geral, a queda na vitimiza&ccedil;&atilde;o foi constante ao longo do per&iacute;odo, no que se refere aos delitos mais graves: ser ferido por arma de fogo, v&iacute;tima de roubo &agrave; m&atilde;o armada e ter perdido parente pr&oacute;ximo assassinado. Ca&iacute;ram tamb&eacute;m as agress&otilde;es e extors&otilde;es por policiais ainda que esta queda tenha flutuado e que nos tr&ecirc;s distritos tenha sido inferior ao observado na cidade. Os <I>surveys</I> registram ainda uma melhoria na imagem das institui&ccedil;&otilde;es do sistema de justi&ccedil;a criminal, exceto a do sistema prisional que continua tendo baixa credibilidade.</font></p>     <p><font size="3">Quais os indicadores de crise na seguran&ccedil;a p&uacute;blica e por que os dados oficiais n&atilde;o refletem esta crise? Os indicadores de que h&aacute; algo errado s&atilde;o os assassinatos de policiais e de pessoas que apresentam ind&iacute;cios de execu&ccedil;&atilde;o, acompanhados de not&iacute;cias sobre exist&ecirc;ncia de ordens, por parte de grupos de organiza&ccedil;&otilde;es criminosas, de: execu&ccedil;&otilde;es de policiais, toques de recolher em comunidades e de atos de viol&ecirc;ncia como queima de &ocirc;nibus. </font></p>     <p><font size="3">Por lei de 1995 a Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica deve tornar p&uacute;blico a cada tr&ecirc;s meses os dados de ocorr&ecirc;ncias criminais no estado incluindo o n&uacute;mero de pessoas mortas e feridas em ocorr&ecirc;ncias envolvendo cada uma das pol&iacute;cias, militar e civil. Nesses dados deve estar discriminada a situa&ccedil;&atilde;o do policial, se em servi&ccedil;o ou de folga. Os dados trazem informa&ccedil;&atilde;o sobre ferimentos e morte de policiais civis e militares em a&ccedil;&atilde;o. Assim, os dados para os tr&ecirc;s primeiros trimestres de 2012 nos revelam que 13 policiais militares foram mortos e 163 feridos em ocorr&ecirc;ncias criminais at&eacute; o fim de setembro de 2012. Revelam ainda que foram mortas pela pol&iacute;cia militar, em servi&ccedil;o, 379 pessoas no mesmo per&iacute;odo. Esses n&uacute;meros seguem a tend&ecirc;ncia de anos anteriores. Ap&oacute;s um pico de 868 mortes pela pol&iacute;cia militar, em 2003, essas mortes vinham caindo tendo, em 2011, atingido 437 pessoas, n&uacute;mero ainda excessivamente alto quando comparado ao de outros pa&iacute;ses. Os dados da secretaria indicam que os policiais que foram mortos nos &uacute;ltimos meses provavelmente o foram <b>fora de servi&ccedil;o</b> e/ou eram policiais aposentados, em casos que seriam computados como "homic&iacute;dios dolosos". Quando pouco mais de 100 policiais s&atilde;o mortos em curto espa&ccedil;o de tempo h&aacute; algo errado na seguran&ccedil;a p&uacute;blica, ainda mais quando esse n&uacute;mero representa mais do que o total de policiais militares mortos em servi&ccedil;o ao longo dos &uacute;ltimos cinco anos. </font></p>     <p><font size="3"><b>MAS O QUE EST&Aacute; EM CURSO?</b> N&atilde;o h&aacute; ind&iacute;cios que conquistas obtidas na redu&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia na &uacute;ltima d&eacute;cada estejam em risco de se perder, mas h&aacute; sinais de que h&aacute; algo errado na atua&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;cias e, possivelmente, na abordagem dada ao problema do crime organizado.</font></p>     <p><font size="3">Os casos de execu&ccedil;&atilde;o descritos pelos jornais nos quais dois indiv&iacute;duos mascarados (com frequ&ecirc;ncia em uma moto) matam a tiros pessoa(s) est&atilde;o sendo classificados, de novo, como "homic&iacute;dio doloso". Sem mais informa&ccedil;&otilde;es sobre essas ocorr&ecirc;ncias, como a identidade das v&iacute;timas, contexto ou sobre as investiga&ccedil;&otilde;es &eacute; dif&iacute;cil extrair conclus&otilde;es sobre o que est&aacute; em curso. As mortes de policiais foram provocadas por a&ccedil;&otilde;es violentas da pol&iacute;cia contra grupos acusados de pertencer ao PCC? S&atilde;o as mortes de jovens nas periferias a&ccedil;&otilde;es de vingan&ccedil;a, intimida&ccedil;&atilde;o ou retalia&ccedil;&atilde;o, ou n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma conex&atilde;o com as mortes de policiais? Tampouco podemos responder a estas quest&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3">Chama a aten&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, o fato de que o crime de tr&aacute;fico de entorpecentes, considerados uma das principais atividades do crime organizado e uma das mais lucrativas, seja o delito cujo registro cresceu de modo substancial nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas (de 21,7 para 85,4 por 100 mil). Esse crescimento pode decorrer tanto de maior a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia ou de uma maior presen&ccedil;a do delito na sociedade, ou ambos. De qualquer modo os dados revelam uma forte resist&ecirc;ncia desse delito &agrave;s iniciativas de coibi&#45;lo. </font></p>     <p><font size="3">Os dados do <I>survey</I> do NEV&#45;USP revelam que aumentou, ao longo da d&eacute;cada, a visibilidade das transa&ccedil;&otilde;es e do uso de drogas no espa&ccedil;o p&uacute;blico, na percep&ccedil;&atilde;o dos entrevistados, e isso n&atilde;o ocorreu s&oacute; em S&atilde;o Paulo, pois dados do mesmo <I>survey</I> aplicado em 11 capitais brasileiras mostram que entre 1999 e 2010 essa visibilidade do uso e venda de drogas se generalizou no pa&iacute;s. Al&eacute;m disso, o maior crescimento de ocorr&ecirc;ncias relacionadas com o tr&aacute;fico de drogas tem se dado no interior do estado de S&atilde;o Paulo e n&atilde;o na capital ou regi&atilde;o metropolitana. No passado as pol&iacute;cias atribu&iacute;am ao tr&aacute;fico de drogas a responsabilidade pelo crescimento dos homic&iacute;dios. Os homic&iacute;dios despencaram e o tr&aacute;fico parece ter florescido. H&aacute; alguma rela&ccedil;&atilde;o entre esse crescimento e a crise atual? Ser&aacute; que a crise atual desvenda para o p&uacute;blico que certo tipo de tr&eacute;gua foi rompido? Como dito anteriormente n&atilde;o temos condi&ccedil;&atilde;o de responder a esta pergunta; o tempo nos dir&aacute;, e qu&atilde;o mais abertas &agrave; sociedade forem as autoridades maior ser&aacute; a probabilidade que possam contar com o apoio desta para a&ccedil;&otilde;es que visem garantir a seguran&ccedil;a p&uacute;blica dentro do respeito &agrave;s leis.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Nancy Cardia</b> &eacute; coordenadora adjunta do NEV&#45;USP.</i></font></p>      ]]></body>
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