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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/noticiasbr.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">C<small>ONHECIMENTO TRADICIONAL</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v65n1/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><b>Legisla&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o garante a reparti&ccedil;&atilde;o dos benef&iacute;cios</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A Fazenda Chapada est&aacute; localizada em Barra do Corda ou "Terra dos &Iacute;ndios", uma pequena cidade a 350 quil&ocirc;metros de S&atilde;o Luiz, no Maranh&atilde;o. Na Chapada a colheita n&atilde;o &eacute; de frutos, as folhas &eacute; que recebem todos os cuidados. A &aacute;rvore de jaborandi (<I>Pilocarpus spp.</I>) det&eacute;m a pilocarpina, princ&iacute;pio ativo de uma das drogas mais usadas em oftalmologia, cuja patente foi registrada em 1991 pela Merck, multinacional alem&atilde; do ramo farmac&ecirc;utico. A entrada do jaborandi na lista de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o, a mecaniza&ccedil;&atilde;o da colheita em larga escala pela empresa, e a poss&iacute;vel substitui&ccedil;&atilde;o pela pilocarpina sint&eacute;tica enfatiza a import&acirc;ncia do debate sobre o uso do conhecimento tradicional versus  os benef&iacute;cios das comunidades detentoras. Para Fernanda Kaingang, advogada e diretora executiva e financeira do Instituto Ind&iacute;gena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), o Estado precisa ser mais atuante no empoderamento das comunidades tradicionais.</font></p>     <p><font size="3">"A quest&atilde;o do acesso a esses saberes tradicionais &eacute; problem&aacute;tica, mas n&atilde;o &eacute; a principal. O fundamental &eacute; saber se os benef&iacute;cios dessa apropria&ccedil;&atilde;o est&atilde;o sendo repartidos com a comunidade", afirma Fernanda.</font></p>     <p><font size="3">Quando a Merck chegou &agrave; regi&atilde;o, no final da d&eacute;cada de 1960, comprava as folhas de jaborandi colhidas pela popula&ccedil;&atilde;o local. Entretanto, "desde o in&iacute;cio estava claro para a empresa que o estoque natural de folhas de <I>Pilocarpus</I> poderia acabar", conta Claudio Urbano Pinheiro, pesquisador do Departamento de Oceanografia e Limnologia, da Universidade Federal do Maranh&atilde;o (UFMA). "Eles conclu&iacute;ram que a &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o seria a domestica&ccedil;&atilde;o do recurso natural, um processo que avan&ccedil;ou com a aquisi&ccedil;&atilde;o, em 1989, de 2.250 hectares de uma propriedade rural no munic&iacute;pio de Barra do Corda", explica. No sistema extrativista de retirada das folhas de jaborandi, os coletores entram nas matas durante a esta&ccedil;&atilde;o seca (julho a dezembro). Eles afirmam que as plantas toleram esse procedimento e que novas folhas rebrotam depois da colheita, quando do in&iacute;cio da esta&ccedil;&atilde;o chuvosa. Entretanto, segundo Pinheiro, a coleta excessiva e frequente de folhas da mesma planta ou grupo de plantas resultou em danos ecol&oacute;gicos para as popula&ccedil;&otilde;es naturais de jaborandi, "com redu&ccedil;&atilde;o ou mesmo desaparecimento das &aacute;rvores em muitas partes do estado do Maranh&atilde;o", afirma o pesquisador. Desde 1992, o jaborandi est&aacute; na Lista Oficial de Esp&eacute;cies da Flora Brasileira Amea&ccedil;adas de Extin&ccedil;&atilde;o, publicada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&aacute;veis (Ibama).</font></p>     <p><font size="3">"A rela&ccedil;&atilde;o entre a companhia farmac&ecirc;utica e as comunidades que foram levadas &agrave; coleta de folhas de jaborandi n&atilde;o parece ter sido uma rela&ccedil;&atilde;o bilateral em termos de benef&iacute;cios diretos", acredita Pinheiro. Para ele, o benef&iacute;cio pecuni&aacute;rio resultante da coleta e venda de folhas foi tempor&aacute;rio (enquanto duraram as popula&ccedil;&otilde;es naturais da planta). N&atilde;o houve melhorias socioecon&ocirc;micas relevantes e duradouras trazidas pela explora&ccedil;&atilde;o para as comunidades envolvidas. Mesmo na &aacute;rea de influ&ecirc;ncia da fazenda da Merck, n&atilde;o aconteceram melhorias sociais diretas como, por exemplo, a gera&ccedil;&atilde;o de um n&uacute;mero expressivo de empregos. "A expectativa de emprego foi maior apenas no in&iacute;cio da implanta&ccedil;&atilde;o da planta&ccedil;&atilde;o, a qual se tornou, mais tarde, quase totalmente mecanizada, dispensando grande parte da necessidade da m&atilde;o de obra local", completa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>REPARTINDO BENEF&Iacute;CIOS</b> No aspecto legal, o acesso ao conhecimento tradicional &eacute; permitido e, muitas vezes, estimulado. A Conven&ccedil;&atilde;o sobre Diversidade Biol&oacute;gica (CDB), um dos principais resultados da Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD, ou Rio 92), realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992, ratificado pelo Brasil em 1994, tem tr&ecirc;s objetivos: a conserva&ccedil;&atilde;o da diversidade biol&oacute;gica, o uso sustent&aacute;vel de seus componentes e a reparti&ccedil;&atilde;o justa e equitativa dos benef&iacute;cios resultantes do uso dos recursos gen&eacute;ticos, conforme explica Fernanda, do Inbrapi. Portanto, j&aacute; existe um respaldo legal para prote&ccedil;&atilde;o do conhecimento tradicional, ainda que disperso em v&aacute;rios instrumentos. Al&eacute;m disso, tamb&eacute;m aumentou a participa&ccedil;&atilde;o dos povos ind&iacute;genas e das comunidades tradicionais nas discuss&otilde;es para elabora&ccedil;&atilde;o e aperfei&ccedil;oamento dessa legisla&ccedil;&atilde;o. "Como acontece no Brasil, de forma geral, a legisla&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; conhecida pelos pr&oacute;prios benefici&aacute;rios. Isso &eacute; ainda mais grave com rela&ccedil;&atilde;o aos povos ind&iacute;genas porque s&atilde;o popula&ccedil;&otilde;es de tradi&ccedil;&atilde;o oral, com altos &iacute;ndices de analfabetismo. Eles t&ecirc;m mais dificuldade de compreender um ordenamento jur&iacute;dico complexo e segmentado e de colocar isso em pr&aacute;tica", acredita a advogada. </font></p>     <p><font size="3">De acordo com Claudio Pinheiro, hoje pouco pode ser feito para as comunidades envolvidas. "Se a ­Merck tivesse tido interesse poderia ter estimulado pequenos plantios de jaborandi, fornecendo os insumos, assist&ecirc;ncia e garantindo a compra das folhas", diz. Por&eacute;m, a planta&ccedil;&atilde;o em grande escala torna essa pr&aacute;tica pouco interessante para a empresa. Al&eacute;m disso, o pesquisador da UFMA afirma que a Merck j&aacute; considera substituir a produ&ccedil;&atilde;o de pilocarpina natural pela sint&eacute;tica. "Como consequ&ecirc;ncia, certamente, restar&atilde;o apenas os danos ecol&oacute;gicos irrevers&iacute;veis, com a destrui&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es naturais de <I>Pilocarpus</I> no Maranh&atilde;o e o mau exemplo do uso exaustivo desse recurso vegetal, sua privatiza&ccedil;&atilde;o e finalmente, seu abandono", conclui.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a03img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Do ponto de vista legal, no entanto, Fernanda lembra que, mesmo no caso da produ&ccedil;&atilde;o da pilocarpina sint&eacute;tica, a comunidade teria direito de receber benef&iacute;cios porque foi o seu conhecimento sobre a planta que originou o produto sint&eacute;tico. "O que acontece, na pr&aacute;tica, &eacute; que o conhecimento tradicional n&atilde;o &eacute; valorado da mesma forma que o conhecimento cient&iacute;fico. "No entanto, essa sabedoria tem um valor por si mesma e &eacute; um desperd&iacute;cio que sejam abandonadas as tentativas de acessar esse conhecimento para n&atilde;o repartir os benef&iacute;cios gerados por ele", lamenta Fernanda.</font></p>     <p><font size="3"><b>FONTE DE LUCRO, FONTE DA VIDA</b> Vis&otilde;es diferentes sobre os recursos naturais est&atilde;o na base de conflitos como este. Enquanto a Merck v&ecirc; a biodiversidade como fonte de lucro, para as comunidades tradicionais ela &eacute; fonte da vida. "Considerando que existe um arcabou&ccedil;o de prote&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica, espera&#45;se que esse arcabou&ccedil;o seja considerado um princ&iacute;pio na rela&ccedil;&atilde;o das empresas e do Estado com os povos ind&iacute;genas e com as comunidades tradicionais", afirma Fernanda. "&Aacute;reas de elevada import&acirc;ncia biol&oacute;gica s&atilde;o ocupadas por povos ind&iacute;genas e por comunidades tradicionais. Se os pa&iacute;ses fossem calcular a compensa&ccedil;&atilde;o por servi&ccedil;os ambientais mantidos nessas &aacute;reas conservadas, esses povos teriam a receber. Quem mant&eacute;m floresta em p&eacute; no mundo s&atilde;o as comunidades locais, eles s&atilde;o atores principais desse processo, mas quase nunca s&atilde;o considerados dessa forma em acordos, conven&ccedil;&otilde;es etc", conclui.</font></p>     <p><font size="3">A tend&ecirc;ncia do mercado de recursos gen&eacute;ticos, regulado por patentes e royalties, &eacute; valorar o conhecimento e n&atilde;o tanto o insumo, a biodiversidade. S&atilde;o diversos os exemplos de medicamentos originados a partir do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico brasileiro e boa parte dessas patentes s&atilde;o de empresas estrangeiras, j&aacute; que a informa&ccedil;&atilde;o sobre a biodiversidade brasileira pode ser facilmente encontrada. "Quem precisa de instrumentos apropriados para conhecer e entender o valor do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico s&atilde;o as comunidades locais e os povos ind&iacute;genas. S&atilde;o eles que utilizam de forma sustent&aacute;vel e conservam os recursos naturais, por isso precisam de mais iniciativas de empoderamento, de forma&ccedil;&atilde;o de capacidades", defende a advogada.</font></p>     <p><font size="3">Nesse sentido um Estado mais atuante &eacute; fundamental, seja local ou nacionalmente. "Precisamos de iniciativas de conscientiza&ccedil;&atilde;o do Estado, das universidades e tamb&eacute;m do setor privado, para criar uma atmosfera, n&atilde;o de desconfian&ccedil;a, como percebemos hoje, mas que favore&ccedil;a a prote&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos tradicionais e garanta a reparti&ccedil;&atilde;o justa dos benef&iacute;cios gerados por ele", finaliza Fernanda Kaingang.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>
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