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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/artigos.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><B>Territ&oacute;rios quilombolas em linhas de fronteira: quilombolas do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira</b></font></p>     <p><font size="3">Emmanuel de Almeida Farias J&uacute;nior</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NEGROS DO GUAPOR&Eacute;</b> Os territ&oacute;rios negros do Guapor&eacute;, linha de fronteira entre Brasil e Bol&iacute;via, s&atilde;o constitu&iacute;dos a partir de distintos processos de territorializa&ccedil;&atilde;o, desde o s&eacute;culo XVIII. Tais processos remetem &agrave; denominada "situa&ccedil;&atilde;o colonial" e &agrave; a&ccedil;&atilde;o "bandeirante" nos confins do sert&atilde;o na busca de riquezas: ouro e pedras preciosas.</font></p>     <p><font size="3">Segundo Teixeira, "a posse portuguesa do Vale do Guapor&eacute; foi confirmada com a assinatura do Tratado de Madri, em 1750. Entretanto, as p&aacute;reas de explora&ccedil;&atilde;o aur&iacute;fera j&aacute; vinham sendo trabalhadas desde a d&eacute;cada de 1730 pelos mineiros de Cuiab&aacute; e S&atilde;o Paulo" (1) </font></p>     <p><font size="3">As minas de ouro e diamantes do Mato Grosso e adjac&ecirc;ncias eram mantidas pela for&ccedil;a de trabalho negra escravizada. Rebeldias, fugas, doen&ccedil;as e esgotamento das lavras de ouro constituem condi&ccedil;&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o de quilombos no Guapor&eacute;. </font></p>     <p><font size="3">Entre os quilombos mais renomados do Vale do Guapor&eacute;, est&aacute; o do Piolho, localizado &agrave;s margens do rio Galera. Segundo o Anal de Vila Bela de 1770, a primeira destrui&ccedil;&atilde;o deste quilombo ocorreu em 22 de julho do mesmo ano. Esse quilombo tinha rei e rainha, o rei tinha morrido, a rainha se chamava Thereza, do povo Benguela.</font></p>     <p><font size="3">Os quilombolas que conseguiram fugir voltaram a se reagrupar. Uma nova expedi&ccedil;&atilde;o torna a destruir o quilombo formado pelos sobreviventes e seus descendentes. O <I>Di&aacute;rio da Dilig&ecirc;ncia</I> foi reproduzido por Roquette&#45;Pinto (1917). De acordo com o referido <I>Di&aacute;rio</I>, a fuga de escravos e a forma&ccedil;&atilde;o de quilombos preocupava o governo colonial, marcado pela decad&ecirc;ncia das minas de ouro (2).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os quilombos foram duramente perseguidos pelo governo provincial de Mato Grosso. O aquilombamento do vale do Guapor&eacute; permitiu o espraiamento territorial e a forma&ccedil;&atilde;o de pequenos povoados, com diversificadas unidades residenciais. </font></p>     <p><font size="3">As cr&ocirc;nicas de expedi&ccedil;&otilde;es punitivas relatam os quilombos constitu&iacute;dos por negros e ind&iacute;genas. O contato entre negros e ind&iacute;genas do Vale do Guapor&eacute; possibilitou uma nova fisionomia &eacute;tnica.</font></p>     <p><font size="3">Com o esgotamento das lavras e as doen&ccedil;as, os senhores de escravos fugiram do Guapor&eacute;, abandonando a escravaria &agrave; pr&oacute;pria sorte. Livres, os ex&#45;escravos passaram tamb&eacute;m a ocupar efetivamente o Vale do Guapor&eacute; e a constituir unidades familiares aut&ocirc;nomas.</font></p>     <p><font size="3"><b>A LIBERDADE N&Atilde;O RECONHECE FRONTEIRAS</b> Os quilombos estavam localizados tanto do lado portugu&ecirc;s, quanto do lado castelhano. S&atilde;o in&uacute;meros os esfor&ccedil;os dos administradores coloniais para que os representantes da Coroa de Castela restitu&iacute;ssem os escravos que se encontravam em territ&oacute;rio espanhol. Tais iniciativas administrativas est&atilde;o explicitadas em of&iacute;cio datado de 05 de setembro de 1754.</font></p>     <p><font size="3">Segundo o levantamento de fontes documentais e arquiv&iacute;sticas pude coligir of&iacute;cios trocados entre agentes coloniais da Coroa Portuguesa, e tamb&eacute;m com espanh&oacute;is. Tais of&iacute;cios referem&#45;se aos seguintes anos: 1769, 1773, 1777, 1778, 1781, 1782, 1789, 1791 e 1793. Tal levantamento foi realizado no banco de dados do <I>Projeto Resgate/Centro de Mem&oacute;ria Digital&#45;UNB</I>. Coligi uma dezena de relatos de fugas de escravos para os dom&iacute;nios espanh&oacute;is. </font></p>     <p><font size="3">A fuga de escravos e a forma&ccedil;&atilde;o de quilombolas preocupavam os administradores coloniais de Vila Bela. A fuga para os dom&iacute;nios castelhanos dificultava a recaptura e impedia a realiza&ccedil;&atilde;o de expedi&ccedil;&otilde;es punitivas. Desta forma em 20 de dezembro de 1777, oficiais da C&acirc;mara de Vila Bela &agrave; rainha D. Maria, solicitando que os escravos fugidos para os dom&iacute;nios castelhanos fossem presos e remetidos, ou ent&atilde;o que os propriet&aacute;rios tivessem liberdade e passaporte para persegui&#45;los.</font></p>     <p><font size="3"><b>OS QUILOMBOLAS DO FORTE</b> O avan&ccedil;o da coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa e as iniciativas de militariza&ccedil;&atilde;o da fronteira resultaram na pol&iacute;tica de fortifica&ccedil;&atilde;o do Guapor&eacute;. A ocupa&ccedil;&atilde;o da por&ccedil;&atilde;o mais a oeste no territ&oacute;rio foi conflitiva. Com registros de conflitos armados entre portugueses e espanh&oacute;is. &Iacute;ndios e negros eram utilizados para combater o inimigo. </font></p>     <p><font size="3">Em meados do s&eacute;culo XVIII, o governador Ant&ocirc;nio Rolim de Moura Tavares, instala o Forte de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o, no lado direito do rio Guapor&eacute;. Segundo Souza (3), em 1768, o Forte de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o passa a se chamar Forte de Bragan&ccedil;a e em 1776, j&aacute; se encontrava em ru&iacute;nas.</font></p>     <p><font size="3">Com a necessidade de constru&ccedil;&atilde;o de um novo forte, Luiz d'Albuquerque de Mello Pereira e C&aacute;ceres &eacute; instru&iacute;do a procurar um novo lugar para a fortifica&ccedil;&atilde;o, protegido das intemp&eacute;ries da natureza.</font></p>     <p><font size="3">No dia 20 de junho de 1776, o governador, Luiz d'Albuquerque de Mello Pereira e C&aacute;ceres, assentou a primeira pedra da funda&ccedil;&atilde;o da nova fortaleza, denominada de Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, que ficou pronta em 1783.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os Anais de Vila Bela, coligidos por Amado e Anzai (4), evidenciam a marcante presen&ccedil;a de escravos negros e de ind&iacute;genas, seja nas constru&ccedil;&otilde;es das fortifica&ccedil;&otilde;es, seja nas suas guarni&ccedil;&otilde;es. Os anais referem&#45;se a escravos negros que foram enviados para a constru&ccedil;&atilde;o, como mostra o Anal de Vila Bela de 1776. Vinte dos escravos enviados morreram na viagem pelo rio Amazonas.</font></p>     <p><font size="3">O Anal de 1779, apresentado pelo Vereador Francisco de Bastos Ferreira, narra o seguinte: "chegou, em 13 de novembro do Rio de Janeiro, um soldado drag&atilde;o desta pra&ccedil;a, com seis escravos pedreiros, mandados comprar pela Fazenda Real para as obras do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira" (4 ).</font></p>     <p><font size="3">A movimenta&ccedil;&atilde;o militar, a persegui&ccedil;&atilde;o aos quilombos e o abandono da regi&atilde;o pelos chamados "bandeirantes" devidos &agrave; decad&ecirc;ncia das minas, ocasionaram o espraiamento do dom&iacute;nio negro no Vale do Guapor&eacute;. Pode&#45;se dizer que chegaram mesmo a aquilombar &aacute;reas circunvizinhas das fortifica&ccedil;&otilde;es militares, como com a not&iacute;cia de que nas proximidades do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, havia quilombos e quilombolas, em 1778 foram trazidos a Vila Bela, alguns &iacute;ndios encontrados em um quilombo no distrito do referido forte. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a15img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O poder colonial imp&ocirc;s pol&iacute;ticas de ocupa&ccedil;&atilde;o, trabalho escravo e militar que ocasionou o surgimento de "novas coletividades". C&acirc;ndido Mariano da Silva Rondon (Marechal Rondon), visitou as ru&iacute;nas do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, em 1914. Uma nova excurs&atilde;o ao forte pelo ex&eacute;rcito brasileiro s&oacute; ocorreu em 1930.</font></p>     <p><font size="3">Os militares se estabelecem no Forte Pr&iacute;ncipe da Beira em 1932, ao lado da fortaleza com o mesmo nome, instalando o Contingente Especial de Fronteira de Forte Pr&iacute;ncipe da Beira. Em 1954, mudaria para 7º Pelot&atilde;o de Fronteira, e em 1977, para 3º Pelot&atilde;o Especial de Fronteira, subordinado ao 6º Batalh&atilde;o Especial de Fronteira. Atualmente, encontra&#45;se no forte o 1º Pelot&atilde;o de Fuzileiros de Selva Destacado, sob a jurisdi&ccedil;&atilde;o do 6º Batalh&atilde;o de Infantaria de Selva, vinculado &agrave; 17ª Brigada de Infantaria de Selva, sediada em Porto Velho.</font></p>     <p><font size="3">No entanto, a &aacute;rea j&aacute; estava habitada. As fam&iacute;lias que residiam eram descendentes dos escravos negros e ind&iacute;genas que trabalharam na constru&ccedil;&atilde;o da fortaleza. A ocupa&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea abrangia at&eacute; a antiga Fortaleza de Concei&ccedil;&atilde;o (Forte de Bragan&ccedil;a), onde segundo dizem os quilombolas, "s&oacute; existiam negros".</font></p>     <p><font size="3">Com a implanta&ccedil;&atilde;o das instala&ccedil;&otilde;es militares, tanto as fam&iacute;lias que residiam no lugar do antigo Forte de Bragan&ccedil;a, quanto as que residiam nas proximidades do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, passaram a ser constrangidas e pressionadas a deixarem suas terras tradicionalmente ocupadas. Como parte das instala&ccedil;&otilde;es militares foi trazido gado bovino, que frequentemente destru&iacute;am as planta&ccedil;&otilde;es e as &aacute;reas das chamadas ro&ccedil;as. Com o passar dos anos, as fam&iacute;lias foram deslocadas da &aacute;rea do Forte de Bragan&ccedil;a, conhecido pelos quilombolas ainda como Forte de Concei&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Muitas fam&iacute;lias que residiam na &aacute;rea do antigo Forte de Concei&ccedil;&atilde;o passaram a residir no entorno do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira. E nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas as fam&iacute;lias quilombolas t&ecirc;m sofrido constantes press&otilde;es para que saiam da &aacute;rea pretendida pelos militares, com mais de 20 mil hectares.</font></p>     <p><font size="3">As territorialidades espec&iacute;ficas objetivadas no mapa entrela&ccedil;am situa&ccedil;&otilde;es do presente com fatos hist&oacute;ricos. Sejam as medidas institucionais da coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa, seja o trabalho nos seringais durante as d&eacute;cadas de intensa produ&ccedil;&atilde;o da borracha, tais iniciativas ocasionaram a reorganiza&ccedil;&atilde;o de novas coletividades.</font></p>     <p><font size="3">Como podemos observar em Costa Marques (5) (1908), o per&iacute;odo relacionado &agrave; explora&ccedil;&atilde;o da borracha reorganizou os espa&ccedil;os e as unidades residenciais, movimentando as unidades familiares ao longo do rio Guapor&eacute;, ocasionando no surgimento de novos n&uacute;cleos habitacionais. </font></p>     <p><font size="3">As fam&iacute;lias quilombolas trabalhavam tanto no lado brasileiro, quanto do lado boliviano, tais pr&aacute;ticas e rela&ccedil;&otilde;es remetem diretamente &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es estabelecidas ainda no per&iacute;odo escravocrata colonial, quando o territ&oacute;rio espanhol representava a consolida&ccedil;&atilde;o da ruptura com o sistema escravocrata.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a15img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tem&#45;se registrado o aumento das press&otilde;es e atos de viol&ecirc;ncia contra a Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira. Tais press&otilde;es e atos de viol&ecirc;ncia t&ecirc;m sido empregados pelo Ex&eacute;rcito brasileiro. Tais relatos foram obtidos a partir de depoimentos durante a <b>oficina de mapas</b> com os quilombolas, de entrevistas e de documentos emitidos pela Asqforte.</font></p>     <p><font size="3">Durante a <b>oficina de mapas</b>, os quilombolas procederam &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de croquis com a indica&ccedil;&atilde;o de suas terras tradicionalmente ocupadas. A &aacute;rea pretendida pela Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira abrange a extens&atilde;o de 20.108.8709 hectares. </font></p>     <p><font size="3">Tal reivindica&ccedil;&atilde;o territorial refere&#45;se aos antigos s&iacute;tios e coloca&ccedil;&otilde;es de seringa, &aacute;reas de ro&ccedil;ado, pesca, entre outros s&iacute;tios hist&oacute;ricos. Como o pr&oacute;prio local da antiga Fortaleza de Concei&ccedil;&atilde;o e o Forte Pr&iacute;ncipe da Beira. Ambos, considerados patrim&ocirc;nios da comunidade. Desta forma, foi poss&iacute;vel a confec&ccedil;&atilde;o do <b>mapa situacional</b> referido ao territ&oacute;rio quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nos anos que se seguiram &agrave; instala&ccedil;&atilde;o do aquartelamento do Ex&eacute;rcito e a intrus&atilde;o das terras tradicionalmente ocupadas da Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, podemos destacar, assim, uma s&eacute;rie de atos de viol&ecirc;ncia:</font></p>     <p><font size="3">* Na reuni&atilde;o realizada no dia 13 de outubro de 2012, fomos informados que as unidades familiares t&ecirc;m sido impedidas de praticarem as atividades agr&iacute;colas. Em 2008, os srs. Antonio e Raimundo foram presos por estarem fazendo ro&ccedil;a. Em 2009, a partir de um acordo com a Emater, a Asqforte solicitou um trator para arar a terra, evitando queim&aacute;&#45;la; no entanto o referido trator foi apreendido pelo Ex&eacute;rcito (Reuni&atilde;o realizada na Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira no dia 13 de outubro de 2010).</font></p>     <p><font size="3">* Na reuni&atilde;o realizada no dia 13 de outubro de 2012, fomos informados que a atividade de pesca tem sido exercida sob o r&iacute;gido controle do Ex&eacute;rcito, que institui normas pr&oacute;prias de fiscaliza&ccedil;&atilde;o, inclusive sobre o pescado obtido para consumo. O Ex&eacute;rcito pressiona os pescadores a passarem no Pelot&atilde;o para avisarem que est&atilde;o indo pescar, o que levam, para onde v&atilde;o e quando v&atilde;o voltar. O Ex&eacute;rcito tem proibido o embarque e desembarque utilizando ve&iacute;culos no porto utilizado pelas fam&iacute;lias quilombolas. Em 2006, os militares entraram na casa de um pescador e retiraram o peixe de dentro do freezer, prenderam o pescador e o levaram para o Ibama. Em 2007 aconteceram mais tr&ecirc;s casos semelhantes (Reuni&atilde;o realizada na Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, no dia 13 de outubro de 2010).</font></p>     <p><font size="3">* Os militares passaram a exigir a apresenta&ccedil;&atilde;o de um documento com foto para que as pessoas tivessem acesso &agrave; Escola Estadual de Ensino Fundamental e M&eacute;dio "General Sampaio", inclusive os pais de alunos e professores. A escola foi cercada pelo aquartelamento, assim como a quadra da comunidade. Segundo a Ata da Reuni&atilde;o, realizada em 01 de mar&ccedil;o de 2012, com a comunidade e servidores da Escola Estadual de Ensino Fundamental e M&eacute;dio "General Sampaio": "a comunidade e servidores estaduais que atuam na escola, bem como os alunos, v&ecirc;m sofrendo constantes constrangimentos" (Ata da Reuni&atilde;o com a comunidade e servidores da Escola Estadual de Ensino Fundamental e M&eacute;dio "General Sampaio". Costa Marques. Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, 01 de mar&ccedil;o de 2011).</font></p>     <p><font size="3">No dia 28 de fevereiro de 2011, o professor Carlos, foi retirado da sala de aula por militares armados diante dos estudantes. Segundo o pr&oacute;prio professor Carlos, o mesmo j&aacute; havia se identificado, e n&atilde;o quis se identificar pela segunda vez, se dirigindo &agrave; sala de aula, de onde foi retirado pelos militares. </font></p>     <p><font size="3">Em 27 de mar&ccedil;o de 2008, o sr. Manoel Marculino da Silva foi expulso pelos militares do 1º Pelot&atilde;o de Fuzileiros de Selva Destacado. Em seguida sua casa foi incendiada. Segundo seu Manoel, ele estava organizando um puxir&atilde;o, para tanto, por ser o "dono do trabalho", ele seria o respons&aacute;vel por prover a alimenta&ccedil;&atilde;o, como forma de garantir "o dia", ou seja, o trabalho realizado durante o dia de trabalho. Neste sentido, o sr. Manoel necessitou pescar e ca&ccedil;ar, o suficiente para manter os trabalhadores.</font></p>     <p><font size="3">Um dos argumentos utilizados pelos militares, para o deslocamento compuls&oacute;rio da fam&iacute;lia do sr. Manoel, &eacute; que estavam com ca&ccedil;a ilegal em sua propriedade, segundo informou o pr&oacute;prio sr. Manoel. Contudo, como podemos explicar, tal carne seria utilizada na realiza&ccedil;&atilde;o de um puxir&atilde;o, forma simples de coopera&ccedil;&atilde;o tradicionalmente utilizada para a execu&ccedil;&atilde;o de trabalhos coletivos.</font></p>     <p><font size="3">Por fim, a intrus&atilde;o das terras tradicionalmente ocupadas pelo Ex&eacute;rcito, as press&otilde;es e os atos de viol&ecirc;ncia t&ecirc;m impedido a ocupa&ccedil;&atilde;o plena do territ&oacute;rio quilombola, como a realiza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas agr&iacute;colas, da pesca, o acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e &agrave; sa&uacute;de sem constrangimentos. Tal situa&ccedil;&atilde;o social de conflito ocasionou a judicializa&ccedil;&atilde;o da reivindica&ccedil;&atilde;o territorial dos quilombolas, tal como analisa Santos (6)(2008).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Emmanuel de Almeida Farias J&uacute;nior</b> &eacute; cientista social, doutorando em antropologia social (PPGAS) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e pesquisador do Projeto Novas Cartografias Antropol&oacute;gicas da Amaz&ocirc;nia (PNCAA) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Teixeira, M. A. D.. "Campesinato negro de Santo Ant&ocirc;nio do Guapor&eacute;: identidade e sustentabilidade". Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustent&aacute;vel do Tr&oacute;pico &Uacute;mido). Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Desenvolvimento Sustent&aacute;vel do Tr&oacute;pico &Uacute;mido/ N&uacute;cleo de Altos Estudos Amaz&ocirc;nicos (NAEA) da Universidade Federal do Par&aacute; (UFPA), Bel&eacute;m, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Roquette&#45;Pinto, E. <i>Rond&ocirc;nia</i>. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1917.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Souza, A. F. de. "Fortifica&ccedil;&otilde;es no Brazil". <i>In: Revista Trimestral do Instituto Hist&oacute;rico e Geographico e Etnogr&aacute;fico do Brazil</i>. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885, p. 5&#45;140.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Amado, J.; Anzai, L. C.. <i>Anais de Vila Bela 1734&#45;1789</i>. Cuiab&aacute;: Carlini e Caniato: EdUFMT, 2006.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">5. Costa Marques, M. E.. <i>Regi&atilde;o Occidental de Matto Grosso. Viagem e estudos sobre o Valle do Baixo Guapor&eacute; da cidade de Matto Grosso ao Forte do Pr&iacute;ncipe da Beira</i>. Rio de Janeiro: Typ. e Pap. Hildebrandt, 1908.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Santos, B. de S.. "Bifurca&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a". <i>Folha de S. Paulo</i>, 10 jun. 2008. Opini&atilde;o, p. A3.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>DOCUMENTOS OBTIDOS E CITADOS DURANTE A OFICINA DE MAPAS</b></font></p>     <p><font size="3">Associa&ccedil;&atilde;o Quilombola do Forte (Asqforte). Of&iacute;cio nº 023/Asqforte/2010. Costa Marques, 25 de outubro de 2010. </font></p>     <p><font size="3">Ata da Reuni&atilde;o com a comunidade e servidores da Escola Estadual de Ensino Fundamental e M&eacute;dio "General Sampaio". Costa Marques. Comunidade Quilombola do Forte Pr&iacute;ncipe da Beira, 01 de mar&ccedil;o de 2011. </font></p>     <p><font size="3">Federa&ccedil;&atilde;o das Associa&ccedil;&otilde;es Comunit&aacute;rias e Quilombolas do Vale do Guapor&eacute;&#45; Facqvale. Of&iacute;cio n0 013/Facqvale/2011. Costa Marques, 30 de junho de 2011. </font></p>     <p><font size="3">Minist&eacute;rio da Cultura. Funda&ccedil;&atilde;o Cultural Palmares. Certid&atilde;o de Auto&#45;Reconhecimento. Cadastro Geral n0 003, Registro n0 252, f. 58, 29 de junho de 2005. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Minist&eacute;rio da Defesa. Ex&eacute;rcito Brasileiro. Departamento de Engenharia e Constru&ccedil;&atilde;o. Diretoria de Patrim&ocirc;nio. Of&iacute;cio nº 04 ¨C D Patr&#45;S1. Bras&iacute;lia, 21 de janeiro de 2011. </font></p>     <p><font size="3">Minist&eacute;rio do Planejamento, Or&ccedil;amento e Gest&atilde;o. Secretaria do Patrim&ocirc;nio da Uni&atilde;o. Superintend&ecirc;ncia do Patrim&ocirc;nio da Uni&atilde;o no Estado do Rond&ocirc;nia. Of&iacute;cio n0 201/2010/GAB/SPU/RO. Porto Velho, 23 de abril de 2010. </font></p>     <p><font size="3">Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal. Procuradoria da Rep&uacute;blica no Munic&iacute;pio de Ji&#45;Paran&aacute;&#45; RO. Inqu&eacute;rito Civil P&uacute;blico &#150; 1.31.001.00</font></p>      ]]></body><back>
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