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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/artigos.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><B>Povos ind&iacute;genas na fronteira Brasil&#45;Guiana  e os megaprojetos de integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica</b></font></p>     <p><font size="3">Stephen G. Baines</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> Reflete&#45;se sobre a redefini&ccedil;&atilde;o dos significados da fronteira entre o Brasil e a Guiana para os povos ind&iacute;genas que vivem nela a partir da implanta&ccedil;&atilde;o de iniciativas de integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, sobretudo a Integra&ccedil;&atilde;o da Infraestrutura Regional Sul&#45;Americana (IIRSA), que surgiu em 2000 de uma proposta apresentada em agosto daquele ano em Bras&iacute;lia, durante a reuni&atilde;o de presidentes da Am&eacute;rica do Sul, onde foi discutida a ideia de coordenar o planejamento para a constru&ccedil;&atilde;o de infraestrutura dos doze pa&iacute;ses do continente sul&#45;americano. A fronteira Brasil&#45;Guiana est&aacute; inserida na IIRSA dentro do Eixo do Escudo Guianense, o que abarca os territ&oacute;rios tradicionais de v&aacute;rios povos ind&iacute;genas, incluindo os Wapichana e os Makuxi, com quem realizamos pesquisas desde 2001 (1), que tiveram suas terras divididas entre os dois pa&iacute;ses a partir da defini&ccedil;&atilde;o da fronteira internacional em 1904. Atualmente esses povos vivem nos dois lados da fronteira, transitam entre os dois pa&iacute;ses, muitas pessoas tendo documentos de ambos os pa&iacute;ses, identificando&#45;se como brasileiros e guianenses conforme o pa&iacute;s em que se encontram. A IIRSA visa a promover a integra&ccedil;&atilde;o sul&#45;americana atrav&eacute;s da integra&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, com a moderniza&ccedil;&atilde;o da infraestrutura de transporte, energia e telecomunica&ccedil;&otilde;es, mediante a&ccedil;&otilde;es conjuntas. </font></p>     <p><font size="3">Nas comunidades ind&iacute;genas, em ambos os lados dessa fronteira, h&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o com as consequ&ecirc;ncias da constru&ccedil;&atilde;o da ponte sobre o rio Tacutu, que liga as cidades fronteiri&ccedil;as de Bonfim no Brasil e Lethem no lado guianense da fronteira, e o planejado asfaltamento da estrada que liga Lethem a Georgetown, visando o escoamento de produtos agr&iacute;colas como a soja, e min&eacute;rios, pelo Atl&acirc;ntico, com a planejada amplia&ccedil;&atilde;o do porto de Georgetown para receber embarca&ccedil;&otilde;es de grande porte. Temem medidas governamentais que visam acelerar o crescimento econ&ocirc;mico com aumento da produ&ccedil;&atilde;o de soja e minera&ccedil;&atilde;o que amea&ccedil;am suas terras tradicionais. Com a internacionaliza&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas desenvolvimentistas, as perspectivas dos ind&iacute;genas que vivem nessa fronteira revelam as contradi&ccedil;&otilde;es e as ambiguidades dos discursos governamentais dos respectivos Estados nacionais a respeito de nacionalidade e etnicidade, e a inc&oacute;gnita do futuro trazido pelo IIRSA.</font></p>     <p><font size="3"><b>Projetos de integra&ccedil;&atilde;o regional e as fronteiras nacionais</b> Ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, o governo brasileiro, junto com os governos dos demais pa&iacute;ses da Am&eacute;rica do Sul, tem acionado projetos de integra&ccedil;&atilde;o regional que apoiam a expans&atilde;o capitalista. Na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica essas iniciativas se configuram por meio de projetos como o Tratado de Coopera&ccedil;&atilde;o Amaz&ocirc;nica, assinado pelas Rep&uacute;blicas da Bol&iacute;via, Brasil, Col&ocirc;mbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, em 13 de julho de 1978, que tem como objetivo promover o desenvolvimento dos seus territ&oacute;rios amaz&ocirc;nicos, superado por projetos governamentais mais recentes como o Projeto Calha Norte (PCN), e o Sistema de Vigil&acirc;ncia da Amaz&ocirc;nia (Sivam), e atualmente o Plano de Acelera&ccedil;&atilde;o do Crescimento, lan&ccedil;ado em 28 de janeiro de 2007 pelo governo federal, que engloba um conjunto de pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas. O PAC 2, lan&ccedil;ado em 29 de mar&ccedil;o de 2010 visa &agrave; continua&ccedil;&atilde;o deste Plano.</font></p>     <p><font size="3">O PCN foi criado em 1986 e implantado, desde ent&atilde;o, a partir de um grupo de trabalho interministerial incumbido "com a tarefa de elaborar diretrizes e subs&iacute;dios &agrave; a&ccedil;&atilde;o governamental na 'regi&atilde;o ao norte das calhas dos rios Solim&otilde;es e Amazonas', e visa superar as 'grandes dificuldades impostas pelo meio ambiente ao desenvolvimento', promovendo a 'sua efetiva integra&ccedil;&atilde;o no contexto nacional'" (2) . Para Oliveira, "trata&#45;se da formula&ccedil;&atilde;o de um conjunto coerente de orienta&ccedil;&otilde;es e metas com as quais devem vir a compatibilizar&#45;se todas as iniciativas governamentais voltadas para aquela regi&atilde;o" (2). O Sistema de Vigil&acirc;ncia da Amaz&ocirc;nia (Sivam), concebido pela Secretaria de Assuntos Estrat&eacute;gicos da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, em conjunto com os Minist&eacute;rios da Justi&ccedil;a e Aeron&aacute;utica, foi apresentado pelo governo brasileiro como tendo o prop&oacute;sito de implantar uma rede de coleta e processamento de informa&ccedil;&otilde;es em cinco anos, a partir de julho de 1997, capaz de permitir o controle seguro do tr&aacute;fego a&eacute;reo, o conhecimento do subsolo, o monitoramento do clima e dos recursos h&iacute;dricos, a prote&ccedil;&atilde;o da biodiversidade e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o de queimadas e desmatamentos. </font></p>     <p><font size="3">Oliveira mostra que no PCN, "os interesses militares/estrat&eacute;gicos s&atilde;o apenas uma parte das inten&ccedil;&otilde;es origin&aacute;rias do Conselho de Seguran&ccedil;a Nacional (Saden)" (2) , que incluem "a amplia&ccedil;&atilde;o da infraestrutura vi&aacute;ria; a acelera&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o de energia hidrel&eacute;trica; a interioriza&ccedil;&atilde;o de polos de desenvolvimento econ&ocirc;mico; e a amplia&ccedil;&atilde;o da oferta de recursos sociais b&aacute;sicos", priorizando o potencial mineral como a principal riqueza da regi&atilde;o. Oliveira revela a configura&ccedil;&atilde;o de uma nova pol&iacute;tica indigenista de amplia&ccedil;&atilde;o da infraestrutura da Funai na regi&atilde;o seguindo um modelo falido de a&ccedil;&atilde;o indigenista que visa criar "depend&ecirc;ncias, aliciar e corromper as lideran&ccedil;as ind&iacute;genas, neutralizar os cr&iacute;ticos e dividir os grupos" (1990: 23). Acrescenta que nessa nova pol&iacute;tica indigenista, "o CSN &#91;Conselho de Seguran&ccedil;a Nacional&#93; desenvolveu intenso lobby na Constituinte e a&ccedil;&atilde;o junto &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o Nacional do &Iacute;ndio (Funai) no que concerne ao assunto minera&ccedil;&atilde;o em terras ind&iacute;genas" , com press&otilde;es durante a elabora&ccedil;&atilde;o do texto constitucional para "compatibilizar a delimita&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas ind&iacute;genas com a utiliza&ccedil;&atilde;o de suas riquezas naturais (do solo e subsolo) dentro de projetos de desenvolvimento regional" . Uma campanha, em 1987, contra o Conselho Indigenista Mission&aacute;rio (Cimi), &oacute;rg&atilde;o vinculado &agrave; Confer&ecirc;ncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Igreja Cat&oacute;lica, por meio do jornal O <I>Estado de S. Paulo</I> (1990: 29), fazia parte das estrat&eacute;gias anti&#45;ind&iacute;genas patrocinadas principalmente pelo grupo empresarial Paranapanema, nessa &eacute;poca, em suas tentativas de inserir cl&aacute;usula na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 que permitiria minera&ccedil;&atilde;o em terras ind&iacute;genas com a anu&ecirc;ncia dos povos ind&iacute;genas e aprova&ccedil;&atilde;o do Congresso Nacional. Desde ent&atilde;o, a pol&iacute;tica do governo brasileiro, junto com as grandes empresas mineradoras, tem sido de favorecer a demarca&ccedil;&atilde;o e homologa&ccedil;&atilde;o de algumas terras ind&iacute;genas e, ao mesmo tempo, estimular os povos ind&iacute;genas a assinar acordos e contratos com &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos ou com empresas privadas para pesquisa e lavra de min&eacute;rios.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>O PAC e a IIRSA no Brasil</b> A Integra&ccedil;&atilde;o da Infraestrutura Regional Sul&#45;Americana (IIRSA), iniciativa, sobretudo, do governo brasileiro, surgiu em 2000, visando &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da integra&ccedil;&atilde;o sul&#45;americana atrav&eacute;s da integra&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, com a moderniza&ccedil;&atilde;o da infraestrutura de transporte, energia e telecomunica&ccedil;&otilde;es, mediante a&ccedil;&otilde;es conjuntas, com o objetivo de estimular a integra&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, econ&ocirc;mica e sociocultural da Am&eacute;rica do Sul. &Eacute; uma iniciativa financiada, desde sua cria&ccedil;&atilde;o, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela Corpora&ccedil;&atilde;o Andina de Fomento (CAF) e pelo Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). Al&eacute;m destas ag&ecirc;ncias, a IIRSA tamb&eacute;m recebe financiamentos oriundos do banco governamental brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social (BNDES). No Brasil, o Plano de Acelera&ccedil;&atilde;o do Crescimento (PAC), lan&ccedil;ado em 2007, &eacute; uma esp&eacute;cie de contraparte nacional da IIRSA, da qual surgem press&otilde;es para alterar a legisla&ccedil;&atilde;o ambiental e limitar os direitos de popula&ccedil;&otilde;es localizadas nas &aacute;reas de influ&ecirc;ncia dos projetos. Desde os anos da ditadura militar (1964&#45;1985) o governo brasileiro vem adotando pol&iacute;ticas desenvolvimentistas que incluem a implanta&ccedil;&atilde;o de obras de infraestrutura na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica &#150; rodovias, usinas hidrel&eacute;tricas e minera&ccedil;&atilde;o &#150;, com desrespeito sistem&aacute;tico aos direitos ind&iacute;genas. Esta situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o mudou com a elei&ccedil;&atilde;o do Partido dos Trabalhadores, que vem assumindo a op&ccedil;&atilde;o pelo desenvolvimentismo e a reprimariza&ccedil;&atilde;o da economia brasileira, com o avan&ccedil;o da agropecu&aacute;ria e da minera&ccedil;&atilde;o nas gest&otilde;es do presidente Lula (2003 a 2011), refor&ccedil;ada ainda mais na gest&atilde;o da presidente Dilma Roussef (a partir de 2011). Uma alian&ccedil;a no Congresso entre as bancadas ruralistas e evang&eacute;licas, constitu&iacute;das de parlamentares de diferentes partidos, visa enfraquecer os direitos dos povos ind&iacute;genas e quilombolas assegurados na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215/2000), aprovada pela Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a, na C&acirc;mara dos Deputados, em 21/03/2012, que transfere para o Congresso Nacional a compet&ecirc;ncia para demarcar terras ocupadas tradicionalmente pelos &iacute;ndios, quilombolas e destinadas a unidades de conserva&ccedil;&atilde;o, visa essa finalidade.</font></p>     <p><font size="3"><b>A fronteira Brasil&#45;Guiana e os povos ind&iacute;genas Wapichana e Makuxi</b> A fronteira Brasil&#45;Guiana est&aacute; inserida no Eixo do Escudo Guianense, que abrange os territ&oacute;rios tradicionais de v&aacute;rios povos ind&iacute;genas, como os Wapichana e os Makuxi, com quem realizamos pesquisas dentro da linha de investiga&ccedil;&atilde;o proposta pelo professor Roberto Cardoso de Oliveira (3). Na fronteira Brasil&#45;Guiana, a constru&ccedil;&atilde;o da ponte sobre o Rio Tacutu, inaugurada em setembro de 2009, que liga as cidades g&ecirc;meas fronteiri&ccedil;as de Bonfim e Lethem, faz parte das obras de infraestrutura do Eixo do Escudo Guiano do IIRSA. Os povos ind&iacute;genas dessa regi&atilde;o fronteiri&ccedil;a revelam perspectivas diversas sobre essa ponte e sobre a IIRSA. Depoimentos ind&iacute;genas de pessoas que moram nessa fronteira revelam uma admira&ccedil;&atilde;o por parte de muitos ind&iacute;genas guianenses pelo Brasil como um pa&iacute;s que "deu certo", quando comparado com a situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica cr&iacute;tica em que se encontra a Guiana, e a revolta com o socialismo da forma que as tentativas de efetiv&aacute;&#45;lo se processaram na Guiana. Ao mesmo tempo, revelam uma preocupa&ccedil;&atilde;o quanto &agrave;s injusti&ccedil;as sociais e ao crescimento de viol&ecirc;ncia no Brasil. Nas comunidades ind&iacute;genas, em ambos os lados dessa fronteira, h&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o com as conse­qu&ecirc;ncias da constru&ccedil;&atilde;o da ponte e o planejado asfaltamento da estrada entre Lethem e Georgetown, visando o escoamento de produtos agr&iacute;colas como a soja e min&eacute;rios pelo Atl&acirc;ntico. Preveem que as diretrizes do PAC e da IIRSA resultar&atilde;o em uma r&aacute;pida valoriza&ccedil;&atilde;o das terras e um aumento de press&atilde;o de grandes empresas sobre as terras ind&iacute;genas para a produ&ccedil;&atilde;o de soja e outros produtos agr&iacute;colas, al&eacute;m de atividades de minera&ccedil;&atilde;o que amea&ccedil;am suas terras. Com a internacionaliza&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas desenvolvimentistas, as perspectivas dos ind&iacute;genas que vivem nessa fronteira revelam as contradi&ccedil;&otilde;es e as ambiguidades dos discursos governamentais dos respectivos Estados nacionais quanto aos direitos ind&iacute;genas, e uma incerteza quanto ao futuro trazida pela IIRSA. Desde a inaugura&ccedil;&atilde;o da ponte entre as cidades de Bonfim e Lethem, o controle de com&eacute;rcio entre a Guiana e o Brasil tem aumentado, e muitos ind&iacute;genas temem perder a liberdade de livre tr&acirc;nsito pela fronteira, liberdade que sempre desfrutaram por serem moradores de um territ&oacute;rio que antecede a imposi&ccedil;&atilde;o de fronteiras nacionais. Junto com a inaugura&ccedil;&atilde;o da ponte, o governo guianense implantou uma zona de com&eacute;rcio livre em Lethem que aumentou o com&eacute;rcio da cidade e impulsionou seu crescimento em n&iacute;veis sem precedentes. Os povos ind&iacute;genas dessa regi&atilde;o fronteiri&ccedil;a revelam perspectivas diversas sobre a constru&ccedil;&atilde;o e inaugura&ccedil;&atilde;o dessa ponte e sobre as consequ&ecirc;ncias previs&iacute;veis e imprevis&iacute;veis da IIRSA. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a16img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">No Brasil, o PAC e a IIRSA representam mais um desdobramento de uma longa hist&oacute;ria de expans&atilde;o dos Estados nacionais, atualmente articulada em n&iacute;vel internacional, sobre os territ&oacute;rios ind&iacute;genas. Das perspectivas dos ind&iacute;genas que vivem na fronteira, o que se revelam s&atilde;o as contradi&ccedil;&otilde;es e as ambiguidades dos discursos governamentais dos respectivos Estados nacionais a respeito de nacionalidade e etnicidade, sobretudo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s terras ind&iacute;genas. Apesar de algumas conquistas a n&iacute;vel local para aliviar as condi&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis em que vive a maioria das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas, e de um fortalecimento do protagonismo ind&iacute;gena, as tend&ecirc;ncias atuais dos governos, de impor pol&iacute;ticas neoliberais, apontam para um crescente desafio para as sociedades ind&iacute;genas frente ao agravamento das desigualdades econ&ocirc;micas e sociais. </font></p>     <p><font size="3">As organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas ind&iacute;genas, sobretudo o Conselho Ind&iacute;gena de Roraima (CIR) em Roraima e a Amerindian Peoples Association (APA) no lado guianense da fronteira, est&atilde;o se mobilizando, recorrendo a legisla&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais, como a Conven&ccedil;&atilde;o 169 da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho (ratificada pelo governo brasileiro em 2003) e a Declara&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre os Direitos dos Povos Ind&iacute;genas (2007), para enfrentar os novos desafios trazidos pela implementa&ccedil;&atilde;o da IIRSA em seus territ&oacute;rios. Um caminho para enfrentar esses desafios, trazidos por pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas globalizadas e que est&atilde;o transformando essa fronteira, &eacute; a procura de ensino superior por parte de jovens ind&iacute;genas, visando &agrave; sua profissionaliza&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Os ind&iacute;genas que habitam a Terra Ind&iacute;gena Raposa Serra do Sol, em Roraima, que faz fronteira com a Guiana e a Venezuela, exigem a garantia e prote&ccedil;&atilde;o integral de suas terras e dos recursos naturais, onde invasores, produtores de arroz, at&eacute; o in&iacute;cio de 2009, exploravam indevidamente as terras e os rios. Press&otilde;es por parte de pol&iacute;ticos e empres&aacute;rios de Roraima tentaram reverter a demarca&ccedil;&atilde;o e homologa&ccedil;&atilde;o dessa terra ind&iacute;gena, conclu&iacute;da pelo governo federal em 2005, para que fosse "julgada" novamente a sua legitimidade. O caso foi enviado para o Supremo Tribunal Federal (STF), onde, ap&oacute;s tr&ecirc;s sess&otilde;es, manteve&#45;se a decis&atilde;o favor&aacute;vel &agrave; demarca&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua da Terra Ind&iacute;gena Raposa Serra do Sol, beneficiando os ind&iacute;genas e determinando a sa&iacute;da dos fazendeiros da regi&atilde;o. Em 19 de mar&ccedil;o de 2009, a decis&atilde;o, por dez votos a um dos ministros do STF, derrubou uma a&ccedil;&atilde;o impetrada em 2005 por um senador de Roraima contra a cria&ccedil;&atilde;o dessa terra ind&iacute;gena, de 1.747.484 hectares, determinada pelo presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva no mesmo ano. A sua demarca&ccedil;&atilde;o em &aacute;rea cont&iacute;nua foi ratificada pelo STF com dezenove restri&ccedil;&otilde;es, dezoito propostas por um dos ministros em dezembro de 2008, e uma apresentada pelo presidente em mar&ccedil;o de 2009, que apresentam uma amea&ccedil;a &agrave; demarca&ccedil;&atilde;o de outras terras ind&iacute;genas no Brasil ao contrariar os dispositivos da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988. O objetivo dos pol&iacute;ticos de Roraima foi de tentar desfazer a demarca&ccedil;&atilde;o para fragmentar essa terra ind&iacute;gena e instalar corredores de desenvolvimento econ&ocirc;mico. Em sess&atilde;o do STF em 2009 para julgar a legitimidade da demarca&ccedil;&atilde;o da Terra Ind&iacute;gena Raposa Serra do Sol, uma advogada wapichana do Conselho Ind&iacute;gena de Roraima desempenhou um papel crucial ao defender, junto aos ministros do Supremo Tribunal Federal, as reivindica&ccedil;&otilde;es da maioria dos povos ind&iacute;genas de Roraima para garantir a perman&ecirc;ncia da sua demarca&ccedil;&atilde;o em &aacute;rea cont&iacute;nua. A crescente profissionaliza&ccedil;&atilde;o do quadro das organiza&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas marca uma nova estrat&eacute;gia para efetivar os direitos ind&iacute;genas e enfrentar iniciativas de expans&atilde;o capitalista como a IIRSA. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Stephen G. Baines</b> &eacute; professor associado 3 do Departamento de Antropologia da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) e pesquisador 1A do CNPq. Email:</i> <A HREF="mailto:stephen@unb.br">stephen@unb.br</A>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Baines, S.G. 2006. "Entre dois Estados nacionais: perspectivas ind&iacute;genas a respeito da fronteira entre Guiana e Brasil". <i>Anu&aacute;rio Antropol&oacute;gico 2005</i>, pp 35&#45;49, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  Oliveira, J.P. de, "Seguran&ccedil;a das fronteiras e o novo indigenismo: formas e linhagens do projeto Calha Norte". In: Oliveira, J.P. de (editor). <i>Projeto Calha Norte</i>: militares, &iacute;ndios e fronteiras, Rio de Janeiro: UFRJ; PETI &#150; Museu Nacional (<i>Antropologia e Indigenismo</i>, nº.1), pp 16&#45;33, 1990.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Cardoso de Oliveira, R. "Introdu&ccedil;&atilde;o". In: Cardoso de Oliveira, R.; Baines, S.G. (Orgs.) <i>Nacionalidade e etnicidade em fronteiras</i>. Bras&iacute;lia: Editora Universidade de Bras&iacute;lia, pp 9&#45;20, 2005.    </font></p>      ]]></body><back>
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