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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/noticiasbr.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">E<small>DUCA&Ccedil;&Atilde;O</small></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v65n3/linha.jpg"></P>     <P><font size="4"><b>Cotas de acesso ao ensino superior ajudam a transformar a universidade p&uacute;blica</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Alguma coisa acontece nas universidades brasileiras. H&aacute; quem chame de mau gosto o que v&ecirc;, porque "narciso acha feio o que n&atilde;o &eacute; espelho", diria Caetano Veloso em <I>Sampa</I>. S&atilde;o estudantes oriundos de fam&iacute;lias com renda inferior a um sal&aacute;rio m&iacute;nimo e meio, al&eacute;m de ind&iacute;genas de diferentes etnias, que est&atilde;o se fazendo presentes em salas de aula de cursos concorridos como medicina e engenharias, entre outras. S&atilde;o os cotistas que, desde agosto de 2012, passaram a ser regulamentados pela Lei das Cotas (Lei nº 12.711). Esta lei, que reserva 50% das vagas de cursos superiores para alunos vindos de escolas p&uacute;blicas e autodeclarados negros tamb&eacute;m oriundos de escola p&uacute;blica, &eacute; tema de v&aacute;rios estudos acad&ecirc;micos e movimenta a pauta da grande m&iacute;dia. </font></P>     <p><font size="3">Pr&oacute;s e contras se multiplicam, com argumentos que v&atilde;o desde o fatalista "ser&aacute; o fim da universidade p&uacute;blica de qualidade" at&eacute; o apologista "trata&#45;se de uma nova aboli&ccedil;&atilde;o dos escravos". H&aacute;, ainda, os que veem a Lei de Cotas como mais uma pol&iacute;tica afirmativa para tentar diminuir as desigualdades no pa&iacute;s. Afinal, curso superior &eacute; um caminho indicado para empregos com melhores sal&aacute;rios. Com efeito, dados da pesquisa Estat&iacute;sticas do Cadastro Central de Empresas (Cempre) 2011, divulgada em 24 de maio de 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), apontam que em 2011 quem tinha n&iacute;vel superior recebia, em m&eacute;dia, sal&aacute;rio de R$ 4.135,00 e quem n&atilde;o tinha, R$ 1.294,00. A diferen&ccedil;a salarial entre os trabalhadores brasileiros com e sem n&iacute;vel superior pode chegar a 219%.</font></P>     <p><font size="3">Portanto, o diploma universit&aacute;rio pode ser, de fato, um passaporte para ascens&atilde;o social. N&atilde;o &eacute; de se estranhar que, alheios ao debate sobre a pertin&ecirc;ncia da Lei das Cotas, mais de 7,8 milh&otilde;es candidatos est&atilde;o inscritos para as provas do Exame Nacional do Ensino M&eacute;dio (Enem) em 2013. O Enem &eacute; utilizado como crit&eacute;rio de sele&ccedil;&atilde;o para os estudantes que pretendem concorrer a uma bolsa no Programa Universidade para Todos (ProUni) ou para uma das 500 universidades brasileiras, segundo dados do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC), que j&aacute; usam o resultado do exame como crit&eacute;rio de sele&ccedil;&atilde;o para o ingresso no ensino superior, seja complementando ou seja substituindo o vestibular. E a Lei de Cotas j&aacute; est&aacute; valendo para as institui&ccedil;&otilde;es federais de ensino superior.</font></P>     <p><font size="3">Em contrapartida, mesmo com pouco tempo ainda da ado&ccedil;&atilde;o de algum tipo de cota de acesso, o que j&aacute; se observa &eacute; que tal pol&iacute;tica nas universidades p&uacute;blicas contribui gradualmente, num processo lento, para uma transforma&ccedil;&atilde;o da universidade. E, nessa transforma&ccedil;&atilde;o, o lado mais resistente n&atilde;o &eacute; o aluno cotista que precisar&aacute; fazer um grande esfor&ccedil;o para acompanhar os cursos, se n&atilde;o tiver a necess&aacute;ria base que o ensino m&eacute;dio deveria oferecer. Os docentes tamb&eacute;m precisar&atilde;o aprender a conviver com essas diferen&ccedil;as, que poder&atilde;o contribuir, positivamente, para uma composi&ccedil;&atilde;o mais diversificada do alunado, capaz, assim, de melhor refletir, na universidade, a diversidade social e &eacute;tnica de que se faz a nossa popula&ccedil;&atilde;o. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>PRIVIL&Eacute;GIOS ANTIGOS</b> Um trabalho de Silvia Maria Leite de Almeida, professora adjunta da Universidade Federal da Bahia (UFBA), publicado na revista <I>HISTEDBR</I> On&#45;line, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aponta que muitos dos privil&eacute;gios concedidos em rela&ccedil;&atilde;o ao acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior v&ecirc;m sendo regulamentados desde o Imp&eacute;rio, pelo poder legislativo. Segundo Silvia, ao longo de nossa hist&oacute;ria muitas s&atilde;o as normas que concederam para poucos a possibilidade de se matricularem em cursos superiores sem terem todos os exames exigidos.</font></P>     <p><font size="3">Um dos exemplos mais flagrantes &eacute; a Lei nº 5.465, de 3 de julho de 1968, conhecida como Lei do Boi. Assinada pelo ent&atilde;o presidente da Rep&uacute;blica, Marechal Costa e Silva, essa lei fixava em seu artigo 1º que os estabelecimentos de ensino m&eacute;dio agr&iacute;cola e as escolas superiores de agricultura e veterin&aacute;ria mantidos pela Uni&atilde;o, reservariam preferencialmente, cada ano, para matr&iacute;cula na primeira s&eacute;rie, 50% de suas vagas a candidatos agricultores ou filhos destes, propriet&aacute;rios ou n&atilde;o de terras, que residissem com suas fam&iacute;lias na zona rural. E, mais, nos estabelecimentos de ensino m&eacute;dio mantidos pela Uni&atilde;o, 30% das vagas restantes seriam reservadas, preferencialmente, para os agricultores ou filhos destes, propriet&aacute;rios ou n&atilde;o de terras, que residissem em cidades ou vilas que n&atilde;o possu&iacute;am estabelecimentos de ensino m&eacute;dio. Para sua aplica&ccedil;&atilde;o, bastaria ao candidato apresentar um certificado fornecido pelo Instituto Nacional de Coloniza&ccedil;&atilde;o e Reforma Agr&aacute;ria (Incra), atestando que residia em &aacute;rea rural. </font></P>     <p><font size="3">A Lei do Boi vigorou durante 17 anos e s&oacute; foi revogada em 1985, gra&ccedil;as ao movimento de estudantes ga&uacute;chos que questionaram sua legalidade. E motivos n&atilde;o faltavam. Os benefici&aacute;rios da Lei do Boi foram de fato os filhos da elite rural. Havia tamb&eacute;m muitas distor&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o foram poucos os que, residindo em cidades de m&eacute;dio e grande porte, ingressaram em cursos de agronomia e veterin&aacute;ria, fazendo uso de certificados de resid&ecirc;ncia em latif&uacute;ndios ou casas de campo. Enquanto a Lei do Boi vigorou n&atilde;o se argumentou que a qualidade dos cursos de ci&ecirc;ncias agr&aacute;rias poderia ficar comprometida, nem houve quem defendesse que a desigualdade social no campo seria enfim eliminada. Mesmo porque os pequenos agricultores e seus filhos, naquela &eacute;poca &#150; e a rigor ainda hoje em muitas regi&otilde;es &#150; dedicavam grande parte de seu tempo ao trabalho, para garantir a sobreviv&ecirc;ncia da fam&iacute;lia. Mal frequentavam escolas para alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Ensino superior? Nem em sonhos. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a03img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>UNIVERSIDADE HETEROG&Ecirc;NEA</b> Em 2004 ocorreram os primeiros vestibulares em universidades p&uacute;blicas por meio de um sistema de cotas, que variava de uma institui&ccedil;&atilde;o a outra. As precursoras foram a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), seguidas pela Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e pela Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR).</font></P>     <p><font size="3">Mas antes mesmo de se formarem as primeiras turmas, muitas an&aacute;lises foram e continuam sendo feitas, ora questionando os efeitos da pol&iacute;tica de cotas ora apontando suas grandes possibilidades de inclus&atilde;o social. Em geral esses argumentos, sejam favor&aacute;veis ou n&atilde;o, tendem a discutir universidade como se esta fosse &uacute;nica, uniforme e un&iacute;ssona. Existem grandes diferen&ccedil;as regionais, e dentro de uma mesma institui&ccedil;&atilde;o as diferen&ccedil;as entre cursos podem ser enormes. </font></P>     <p><font size="3">An&aacute;lises que dividem todos os alunos de uma mesma universidade em cotistas e n&atilde;o cotistas, n&atilde;o consideram a diversidade que os n&uacute;meros n&atilde;o revelam. </font></P>     <p><font size="3">Um interessante exemplo &eacute; o estudo feito por F&aacute;bio Waltenberg e M&aacute;rcia Marques de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (Cede&#45;UFF). A partir do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2008, os autores tra&ccedil;am um perfil dos concluintes dos cursos avaliados naquele ano, comparando alunos beneficiados por a&ccedil;&otilde;es afirmativas com os demais alunos. Os dados referem&#45;se a 167.704 concluintes. Estes, em algumas an&aacute;lises, foram agrupados de acordo com o cruzamento de informa&ccedil;&otilde;es acerca das propor&ccedil;&otilde;es de n&atilde;o brancos, egressos de ensino m&eacute;dio p&uacute;blico e baixa escolaridade dos pais nos diferentes cursos, em cursos de baixo (pedagogia), alto (engenharias e ci&ecirc;ncia da computa&ccedil;&atilde;o) e m&eacute;dio prest&iacute;gio social (os demais). Essas categorias foram definidas de acordo com o cruzamento de informa&ccedil;&otilde;es acerca das propor&ccedil;&otilde;es de n&atilde;o brancos, egressos de ensino m&eacute;dio p&uacute;blico e baixa escolaridade dos pais nos diferentes cursos. Entendendo&#45;se como diversidade uma maior representa&ccedil;&atilde;o de grupos desfavorecidos, os autores concluem que as diversas pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas foram de fato bem sucedidas no objetivo de proporcionar maior diversidade nas universidades, embora tal tend&ecirc;ncia seja menos clara em cursos mais prestigiosos. Com rela&ccedil;&atilde;o ao desempenho dos alunos, a nota m&eacute;dia dos concluintes das estaduais e federais que ingressaram por meio de a&ccedil;&otilde;es afirmativas &eacute; cerca de 0,4 pontos em 10 menor com rela&ccedil;&atilde;o aos concluintes que ingressaram pelo m&eacute;todo tradicional, ou seja, pouco significativa.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>O DIREITO DOS DIFERENTES</b> As pol&iacute;ticas de a&ccedil;&atilde;o afirmativa surgiram a partir da d&eacute;cada de 1960, no auge da luta dos negros norte&#45;americanos pelo fim da segrega&ccedil;&atilde;o racial legal, at&eacute; ent&atilde;o em vigor em v&aacute;rias esferas da vida social nos Estados Unidos. A express&atilde;o a&ccedil;&atilde;o afirmativa tem sido atribu&iacute;da a John Kennedy que, em decreto presidencial de 1961,determinou que &oacute;rg&atilde;os do governo dos Estados Unidos deveriam adotar medidas afirmativas no sentido de assegurar o acesso e a perman&ecirc;ncia como empregados de indiv&iacute;duos das diversas ra&ccedil;as, credos e nacionalidades. Depois disso, a express&atilde;o ganhou conte&uacute;do mais preciso e passou a definir as medidas especiais e tempor&aacute;rias que buscam acelerar o processo de igualdade substantiva por parte de grupos considerados vulner&aacute;veis. </font></P>     <p><font size="3">Assim, enquanto a&ccedil;&atilde;o afirmativa, a atual Lei de Cotas, busca reduzir as fortes distor&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o observadas na sociedade brasileira. E, ao contr&aacute;rio da Lei do Boi, que n&atilde;o tinha prazo para sua vig&ecirc;ncia e cuja revoga&ccedil;&atilde;o exigiu  a Lei nº 7.423, de 17 de dezembro de 1985, a Lei das Cotas tem prazo de validade. O artigo 7º prev&ecirc; que "o poder executivo promover&aacute;, no prazo de dez anos, a contar da publica&ccedil;&atilde;o da Lei, a revis&atilde;o do programa especial para o acesso de estudantes pretos, pardos e ind&iacute;genas, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino m&eacute;dio em escolas p&uacute;blicas, &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es de educa&ccedil;&atilde;o superior".</font></P>     <p><font size="3">Em trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Did&aacute;tica e Pr&aacute;ticas de Ensino (XVI Endipe), realizado na Unicamp em 2012, Daniela Frida Drelich Valentim, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), considera que as a&ccedil;&otilde;es afirmativas para os negros nas universidades fazem parte das chamadas pol&iacute;ticas de reconhecimento da diferen&ccedil;a, cujas demandas est&atilde;o ligadas &agrave; representa&ccedil;&atilde;o, &agrave; cultura e &agrave; identidade dos grupos &eacute;tnicos, raciais, sexuais, dentre outros. Segundo ela, as demandas por reconhecimento v&ecirc;m adquirindo maior relev&acirc;ncia na arena pol&iacute;tica desde o fim do s&eacute;culo XX.</font></P>     <p><font size="3">Mas Daniela pondera que essas demandas est&atilde;o ocorrendo em um mundo de desigualdade material acentuada, onde ainda faz muito sentido lutar por uma reparti&ccedil;&atilde;o menos desigual das riquezas sociais. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Leonor Assad</I></font></P>      ]]></body>
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