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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/noticiasbr.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A<small>RQUEOLOGIA INDUSTRIAL</small></font></P>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/linha.jpg"></font></P>     <P><font size="4"><b>F&aacute;bricas contam sua hist&oacute;ria</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O estudo arqueol&oacute;gico em unidades fabris procura obter informa&ccedil;&otilde;es sobre o processo de produ&ccedil;&atilde;o das mercadorias, a vida dos trabalhadores e a integra&ccedil;&atilde;o que as &aacute;reas que est&atilde;o sendo pesquisadas tiveram e tem com o meio ambiente, entre outros. &Eacute; esse olhar para o objeto de pesquisa que define um trabalho como sendo de arqueologia industrial. "Muitas vezes se usa o termo arqueologia para se tratar de uma abordagem hist&oacute;rica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; edifica&ccedil;&atilde;o, visando ao seu tombamento. Por&eacute;m, quando se fala em arqueologia industrial, trata&#45;se de uma abordagem focada no equipamento fabrill e seu entorno, enxergando os elementos a partir da arqueologia", explica o arque&oacute;logo Paulo Bava de Camargo que, atualmente, ministra a disciplina Arqueologia Industrial no curso de gradua&ccedil;&atilde;o em arqueologia da Universidade Federal de Sergipe. </font></P>     <p><font size="3">Para Leandro Duran, arque&oacute;logo da mesma institui&ccedil;&atilde;o, a ideia de uma arqueologia industrial surge, como disciplina, na Inglaterra, depois da Segunda Guerra Mundial, ap&oacute;s a destrui&ccedil;&atilde;o por bombardeios das edifica&ccedil;&otilde;es da &eacute;poca da Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial. "A Inglaterra construiu muito de sua identidade por meio dessa quest&atilde;o da expans&atilde;o da ind&uacute;stria. A arqueologia industrial surge dentro desse processo de identidade urbana, enquanto tema de pesquisa e de reflex&atilde;o", descreve. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a05img01.jpg"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">No Brasil, a industrializa&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a come&ccedil;a somente a partir de meados do s&eacute;culo XX, quando se tem o primeiro grande processo da forma&ccedil;&atilde;o de ind&uacute;strias de base, explica Duran. A industrializa&ccedil;&atilde;o, sendo um processo ainda recente na hist&oacute;ria da humanidade, faz com que haja duas vertentes a respeito da arqueologia industrial: a primeira considera que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel um olhar industrial para s&iacute;tios arqueol&oacute;gicos anteriores ao s&eacute;culo XVII, quando ocorreu a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial. Al&eacute;m disso, para essa vertente, ind&uacute;stria &eacute; um sistema produtivo em larga escala de bens de capital e de bens de consumo dur&aacute;veis, que n&atilde;o leva em considera&ccedil;&atilde;o produ&ccedil;&otilde;es de alimentos, por exemplo, como a mandioca, a cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car ou o caf&eacute;. </font></P>     <p><font size="3">A segunda vertente considera que a perspectiva do olhar industrial precisa ser interpretada a partir das realidades regionais, sendo um conceito male&aacute;vel. "Assim, processos produtivos da Roma Antiga e, no nosso caso, do per&iacute;odo colonial podem ser vistos sob a &oacute;tica da arqueologia industrial, como um engenho ou uma olaria", exemplifica o professor. Para ele, os fatores determinantes para se obter o olhar industrial para o s&iacute;tio arqueol&oacute;gico s&atilde;o a exist&ecirc;ncia de m&atilde;o de obra especializada, de conjunto de equipamentos produtivos espec&iacute;ficos e t&eacute;cnicos e de produ&ccedil;&atilde;o em larga escala.</font></P>     <p><font size="3"><b>UMA IND&Uacute;STRIA NO MAR</b> Na praticamente desabitada Ilha do Bom Abrigo, extremo sul do litoral paulista, Duran deparou&#45;se com uma f&aacute;brica de azeite de baleia: eram apenas peda&ccedil;os de paredes e muros que, aos poucos, foram mostrando sinais das atividades que ali ocorreram. A pesquisa no local foi desenvolvida em seu doutorado, "Arqueologia mar&iacute;tima de um bom abrigo", pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de S&atilde;o Paulo (MAE/USP), conclu&iacute;do em 2008. </font></P>     <p><font size="3">O local produzia &oacute;leo em larga escala usado como combust&iacute;vel para ilumina&ccedil;&atilde;o, da 2ª metade do s&eacute;culo XVIII at&eacute; a 1ª metade do s&eacute;culo XIX. "Tratava&#45;se de uma arma&ccedil;&atilde;o baleeira, que &eacute; uma ind&uacute;stria especializada, voltada para o mercado, por isso eu classifico esse meu trabalho como de arqueologia industrial. A gente precisa entender essa quest&atilde;o da ind&uacute;stria n&atilde;o apenas nos limites f&iacute;sicos da operacionaliza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, do trabalho, mas sim num contexto maior, que significa produ&ccedil;&atilde;o, transporte e consumo", destaca. </font></P>     <p><font size="3">As interven&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas realizadas revelaram o modo de opera&ccedil;&atilde;o dessa estrutura fabril, suas diferentes &aacute;reas de trabalho e as fun&ccedil;&otilde;es de cada uma delas. "Ap&oacute;s v&aacute;rias etapas de campo e escava&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas, consegui elaborar plantas da arma&ccedil;&atilde;o baleeira, pelas quais fica evidente que a localiza&ccedil;&atilde;o das diferentes esta&ccedil;&otilde;es de trabalho foi planejada para funcionar como uma linha de produ&ccedil;&atilde;o. Talvez, aqui, tenhamos uma evid&ecirc;ncia da por&ccedil;&atilde;o genuinamente capitalista daquela sociedade moderna", reflete o arque&oacute;logo. </font></P>     <p><font size="3"><b>QUEBRA&#45;CABE&Ccedil;A COM 30 MIL PE&Ccedil;AS</b> A arqueologia usa pe&ccedil;as e estruturas edificadas para contar hist&oacute;rias ao inv&eacute;s de ilustrar hist&oacute;rias contadas em documentos escritos. Foi assim com as quase 30 mil pe&ccedil;as de lou&ccedil;as resgatadas pela pesquisa realizada em 2003 no s&iacute;tio arqueol&oacute;gico Petybon, no bairro paulistano da Lapa. O local abrigou a F&aacute;brica de Lou&ccedil;as Santa Catharina (1913&#45;1939), a primeira manufatura de lou&ccedil;as brancas implantada no Brasil. "Durante as escava&ccedil;&otilde;es foram resgatadas milhares de pe&ccedil;as inteiras, ajudando a retra&ccedil;ar aspectos em torno da hist&oacute;ria da industrializa&ccedil;&atilde;o e consumo", conta o arque&oacute;logo Paulo Zanettini, respons&aacute;vel pela escava&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">A f&aacute;brica foi inaugurada em 1913, tornando&#45;se parte das <I>Ind&uacute;strias Reunidas F&aacute;bricas Matarazzo</I> em 1927 e funcionando at&eacute; 1937. "O s&iacute;tio tem extrema relev&acirc;ncia n&atilde;o apenas no contexto da arqueologia urbana no Brasil, como tamb&eacute;m por ser exemplar dos prim&oacute;rdios da industrializa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s e da hist&oacute;ria da produ&ccedil;&atilde;o da lou&ccedil;a nacional", salienta o arque&oacute;logo Rafael de Abreu e Souza, que participou da escava&ccedil;&atilde;o e desenvolveu seu mestrado nessa f&aacute;brica. Zanettini completa: "em poucos anos, essa ind&uacute;stria passou a empregar milhares de funcion&aacute;rios; no per&iacute;odo entre guerras chegou at&eacute; a exportar a produ&ccedil;&atilde;o para a Am&eacute;rica do Norte. Isso mostra tamb&eacute;m uma capacidade n&atilde;o s&oacute; de copiar, mas tamb&eacute;m de criar pe&ccedil;as, reunindo o saber do imigrante e o modo de decorar a cer&acirc;mica com motivos relacionados ao cotidiano brasileiro. &Eacute; uma propriedade do saber fazer brasileiro que hoje a gente s&oacute; pode encontrar no registro arqueol&oacute;gico, pois &eacute; rar&iacute;ssimo encontrarmos, mesmo na m&atilde;o de colecionadores, pe&ccedil;as dessa f&aacute;brica". </font></P>     <p><font size="3">Para Rafael, a diversidade de objetos achados na escava&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m p&ocirc;de contar a hist&oacute;ria da fabrica&ccedil;&atilde;o de lou&ccedil;as antes e depois de movimentos higienistas, que se instalaram em S&atilde;o Paulo no final do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. "A utiliza&ccedil;&atilde;o de vidrados e esmaltes e a diminui&ccedil;&atilde;o do uso de pe&ccedil;as n&atilde;o esmaltadas corresponderam ao interesse das pol&iacute;ticas higienistas em mudar h&aacute;bitos considerados nocivos. O come&ccedil;o do s&eacute;culo passado marca a necessidade cada vez maior de produtos na cor branca", descreve.</font></P>     <p><font size="3">As pesquisas sob a &oacute;tica da arqueologia industrial n&atilde;o s&atilde;o realizadas apenas na zona urbana. No entanto, os s&iacute;tios arqueol&oacute;gicos localizados nas cidades s&atilde;o os que desaparecem com maior rapidez, pois s&atilde;o os que mais sofrem com a press&atilde;o econ&ocirc;mica, devido &agrave; din&acirc;mica do capital. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Gl&oacute;ria Tega</I></font></P>      ]]></body>
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