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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/noticias.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">R<small>ASTROS DA REPRESS&Atilde;O</small></font></P>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/linha.jpg"></font></P>     <P><font size="4"><b>Arqueologia investiga vest&iacute;gios materiais da ditadura argentina</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">&Eacute; poss&iacute;vel dizer que na Argentina praticamente toda fam&iacute;lia tem um familiar desparecido ou conhece alguma v&iacute;tima do regime militar. A afirma&ccedil;&atilde;o &eacute; do antrop&oacute;logo Andr&eacute;s Zarankin, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia, da Universidade Federal da Minas Gerais (UFMG) que trabalhou em parceria com Melisa Salerno, do Departamento de Investiga&ccedil;&otilde;es Prehist&oacute;ricas e Arqueol&oacute;gicas, da Universidade de Buenos Aires. Uma comiss&atilde;o institu&iacute;da pelo governo em 1983 contabilizou nove mil casos de pessoas desaparecidas. &Oacute;rg&atilde;os ligados aos direitos humanos, no entanto, falam de mais de 30 mil pessoas sequestradas e que continuam desaparecidas no pa&iacute;s. Por isso, a ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983, &eacute; considerada uma das mais violentas da Am&eacute;rica Latina. </font></P>     <p><font size="3">Parte dessa hist&oacute;ria de repress&atilde;o e abusos contra os direitos humanos tem sido trazida &agrave; tona por meio de estudos arqueol&oacute;gicos. Zarankin coordenou pesquisa, em um dos Centros Clandestinos de Deten&ccedil;&atilde;o (CCDs), lugares para onde eram levados os opositores do regime. "Eram mais de 340 e estima&#45;se que por eles passaram entre 1,5 e 20 mil pessoas, das quais 90% foram assassinadas", explica o pesquisador. Um diferencial dos CCDs &eacute; que eles n&atilde;o existiam institucionalmente. Funcionavam clandestinamente, n&atilde;o possu&iacute;am nenhum tipo de conven&ccedil;&atilde;o, o que ampliava seu poder de repress&atilde;o. "Como eram invis&iacute;veis, eles se convertiam em n&atilde;o&#45;lugares, transformando os que eram levados para l&aacute; em desaparecidos", destaca Zarankin.</font></P>     <p><font size="3"><b>BUSCANDO PROVAS</b> De acordo com a Anistia Internacional, organiza&ccedil;&atilde;o para defesa dos direitos humanos, o desaparecimento encobre a identidade do autor porque se n&atilde;o h&aacute; preso, cad&aacute;ver ou v&iacute;tima, ningu&eacute;m pode ser acusado. Na Argentina, pesquisas arqueol&oacute;gicas possibilitaram encontrar esses lugares, dando a eles uma identidade ao analisar a arquitetura, a organiza&ccedil;&atilde;o e o funcionamento desses espa&ccedil;os e, ainda mais, por meio delas foi poss&iacute;vel gerar provas em processos judiciais e punir militares envolvidos nos crimes da ditadura. De acordo com Melisa, os trabalhos conduzidos pelos arque&oacute;logos argentinos constituem um antecedente importante para o estudo das ditaduras em toda a Am&eacute;rica Latina.</font></P>     <p><font size="3">Nos trabalhos de escava&ccedil;&atilde;o do CCD, em Buenos Aires, conhecido como Club Atl&eacute;tico, foi utilizada uma planta gerada a partir da mem&oacute;ria dos sobreviventes, que mostrou que o espa&ccedil;o era altamente compartimentalizado, com salas de tortura, de interrogat&oacute;rio e de isolamento. O Club Atl&eacute;tico era dividido em um setor superior, ocupado pela burocracia, e outro inferior, onde ficavam alojados os prisioneiros e as salas de tortura, estrategicamente posicionadas no espa&ccedil;o central. De acordo com Zarankin, isso permitia menor circula&ccedil;&atilde;o dos presos e, ao mesmo tempo, que seus gritos fossem ouvidos pelos que estavam nas celas.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A primeira coisa que se fazia quando uma pessoa chegava ao local era retirar sua roupa e lhe dar um n&uacute;mero. "Para o torturador &eacute; muito mais f&aacute;cil lidar com algu&eacute;m sem nome", explica Zarankin. Os presos ficavam a maior parte do tempo vendados, algemados e isolados. Era como se os presos se tornassem parte daquele espa&ccedil;o, "tendo seus corpos transformados e consumidos pela arquitetura da repress&atilde;o, como se as pessoas fossem desaparecendo simbolicamente".</font></P>     <p><font size="3"><b>TROCA DE IDENTIDADE</b> As roupas recuperadas durante a exuma&ccedil;&atilde;o de corpos de pessoas desaparecidas tamb&eacute;m constitu&iacute;ram um importante conjunto de vest&iacute;gios materiais, tanto  para entender as estrat&eacute;gias da repress&atilde;o na desarticula&ccedil;&atilde;o da identidade das v&iacute;timas, quanto para devolver&#45;lhes a identidade. Melisa Salerno explica que o poder repressivo ao retirar as roupas dos prisioneiros, deixando&#45;os nus, objetivava, entre outras raz&otilde;es, negar a condi&ccedil;&atilde;o cultural dos detentos, aproximando&#45;os da animalidade e gerando um sentimento de humilha&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo, a aus&ecirc;ncia de roupas facilitava alguns tipos de tortura. "Em &uacute;ltima an&aacute;lise, o nu procurou garantir o controle sobre corpos das v&iacute;timas evitando que elas usassem suas pr&oacute;prias roupas para cometer suic&iacute;dio", disse.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a08img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Outra pr&aacute;tica comum nos CCDs era trocar a roupas dos ref&eacute;ns. Isso dificultava o reconhecimento de si mesmo e dos outros, alterando identidades e filia&ccedil;&otilde;es. Na maioria dos casos roupas e cal&ccedil;ados eram diferentes dos mencionados pela fam&iacute;lia, em uma estrat&eacute;gia para perpetuar o status dos prisioneiros "desaparecidos". "Nosso trabalho permitiu inferir que corpos enterrados com pouca ou nenhuma roupa s&atilde;o um ind&iacute;cio de passagem das v&iacute;timas pelos centros clandestinos", explica a pesquisadora. Do mesmo modo, muitas vezes os presos recebiam roupas limpas, com a promessa de ser liberados. Por&eacute;m, um destino comum nesses casos era sua execu&ccedil;&atilde;o em enfrentamentos forjados com a pol&iacute;cia.</font></P>     <p><font size="3">O levantamento arqueol&oacute;gico no Club Atl&eacute;tico (cujo pr&eacute;dio foi demolido para constru&ccedil;&atilde;o de uma estrada) permitiu transformar um espa&ccedil;o clandestino, e que poderia ter sido engolido pelas mudan&ccedil;as da cidade, em algo f&iacute;sico. A arqueologia hist&oacute;rica p&ocirc;de devolver &agrave;quele espa&ccedil;o sua condi&ccedil;&atilde;o de lugar de mem&oacute;ria, uma mem&oacute;ria que pode ser tocada, cheirada e experimentada. Uma mem&oacute;ria para n&atilde;o ser esquecida.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></P>      ]]></body>

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