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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>PAULO VANZOLINI</b></font></P>     <p><font size=5><b>P<small>AIX&Atilde;O PELA CI&Ecirc;NCIA E PELA M&Uacute;SICA DEIXOU MARCAS POR ONDE  PASSOU</small></b></font></p>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O seu olhar perspicaz ao identificar padr&otilde;es hist&oacute;ricos numa diversidade antes confusa contribuiu para que a zoologia brasileira deixasse de ser uma mera busca pela descri&ccedil;&atilde;o de novas esp&eacute;cies e para que se come&ccedil;asse a pensar em hip&oacute;teses evolutivas. Ao mesmo tempo, foi o observador do cotidiano com uma sensibilidade human&iacute;stica que comp&ocirc;s cl&aacute;ssicos do samba como <I>Ronda</I>, <I>Volta por cima</I> e <I>Na boca da noite,</I> entre tantos outros. Este foi Paulo Em&iacute;lio Vanzolini, cuja voz calou&#45;se no &uacute;ltimo dia 28 de abril em S&atilde;o Paulo.</font></P>     <p><font size="3">Zo&oacute;logo e compositor, Paulo Vanzolini conciliou suas paix&otilde;es pela m&uacute;sica e pela pesquisa cient&iacute;fica, deixando marcas profundas nas duas &aacute;reas e tendo influenciado m&uacute;sicos e pesquisadores. Sua carreira come&ccedil;ou cedo. Com apenas 14 anos iniciou um est&aacute;gio no Instituto Biol&oacute;gico de S&atilde;o Paulo, onde descobriu a voca&ccedil;&atilde;o para a zoologia. No entanto, ingressou na Faculdade de Medicina da USP, seguindo um conselho de um amigo de seu pai. O que pode parecer um desvio em sua carreira foi na verdade um aprofundamento em sua &aacute;rea: foi na USP que iniciou seus estudos sobre anatomia, histologia, embriologia e fisiologia que o ajudaram muito em suas pesquisas sobre vertebrados.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a21img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Apesar de ser aluno de medicina, Vanzolini passava grande parte de seu tempo no Laborat&oacute;rio de Zoologia da universidade. Tanto que, no quinto ano de medicina, foi nomeado para o Museu de Zoologia. Em 1949, foi para os Estados Unidos, onde obteve o doutorado em zoologia pela Universidade de Harvard e especializou&#45;se em herpetologia (estudo de r&eacute;pteis e anf&iacute;bios). Ao voltar para o Brasil, retomou seu trabalho no Museu de Zoologia. </font></P>     <p><font size="3">Os trabalhos de Vanzolini foram um divisor de &aacute;guas nas pesquisas em zoologia no Brasil e tiveram ampla repercuss&atilde;o internacional. O principal fator inovador &eacute; que tinha como premissa o neodarwinismo que, ao fazer a s&iacute;ntese entre o conhecimento da gen&eacute;tica mendeliana com a teoria evolutiva de Darwin, passou a considerar a popula&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica como a unidade do processo evolutivo.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Partindo dessa premissa, suas pesquisas se concentraram no estudo da variabilidade intrapopulacional e interpopulacional das esp&eacute;cies, levando em considera&ccedil;&atilde;o a distribui&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, a varia&ccedil;&atilde;o ambiental, enfim, a ecologia dos organismos", explica F&aacute;bio de Melo Sene, professor da USP de Ribeir&atilde;o Preto.</font></P>     <p><font size="3"><b>VIDA DE CIENTISTA</b> Outro destaque em suas pesquisas foi o estudo de caracteres de varia&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua, o que exigia grandes amostras de cada popula&ccedil;&atilde;o e complexas an&aacute;lises estat&iacute;sticas dos dados. Para obter as amostras foram necess&aacute;rias extensas excurs&otilde;es de campo pela Am&eacute;rica do Sul, com grande esfor&ccedil;o de coleta na Amaz&ocirc;nia. Suas pesquisas de campo fizeram com que a cole&ccedil;&atilde;o herpetol&oacute;gica do Museu de Zoologia passasse de 1.200 para 230 mil esp&eacute;cimes.</font></P>     <p><font size="3">"Vanzolini tinha fama de pesquisador exigente, cuidadoso, devotado &agrave; ci&ecirc;ncia. Formou uma das cole&ccedil;&otilde;es mais organizadas do mundo e a maior da Am&eacute;rica Latina, al&eacute;m de uma biblioteca associada a ela que possu&iacute;a literalmente todas as obras referentes &agrave; herpetologia neotropical, desde as primeiras, publicadas nos s&eacute;culos XVII e XVIII, at&eacute; as mais modernas e rec&eacute;m&#45;publicadas", conta Ulisses Caramaschi, professor do Departamento de Vertebrados do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). </font></P>     <p><font size="3">Vanzolini foi premiado pela Ordem Nacional do M&eacute;rito Cient&iacute;fico com a classe Gr&atilde;&#45;Cruz por sua contribui&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas, e tamb&eacute;m recebeu um pr&ecirc;mio da Funda&ccedil;&atilde;o Guggenheim, de Nova York. Sua trajet&oacute;ria cient&iacute;fica est&aacute; resumida no livro <I>Evolu&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel de esp&eacute;cie &#45; R&eacute;pteis da Am&eacute;rica do Sul</I>, lan&ccedil;ado em 2010 pela editora Beca. </font></P>     <p><font size="3">"Vanzolini sempre declarou que sua profiss&atilde;o e ganha&#45;p&atilde;o estavam na zoologia. Gostava de dizer que, com um vidro de formol e um microsc&oacute;pio ele ganhou a vida e criou os filhos", conta Caramaschi.</font></P>     <p><font size="3"><b>A TEORIA DOS REF&Uacute;GIOS</b> Uma das mais importantes contribui&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas de Vanzolini surgiu como decorr&ecirc;ncia do estudo de suas numerosas coletas. Os chamados ref&uacute;gios decorrem de flutua&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas ocorridas no per&iacute;odo quatern&aacute;rio. Quando as geleiras avan&ccedil;avam sobre o Hemisf&eacute;rio Norte, num per&iacute;odo glacial, o Hemisf&eacute;rio Sul ficava frio e seco. Quando elas recuavam, num per&iacute;odo interglacial, o Sul ficava quente e &uacute;mido, propiciando a expans&atilde;o das matas e da fauna desse ambiente. J&aacute; no per&iacute;odo glacial, as matas se retra&iacute;am, criando verdadeiras ilhas de vegeta&ccedil;&atilde;o, onde tamb&eacute;m sobreviviam esp&eacute;cies animais &#150; s&oacute; que em popula&ccedil;&otilde;es menores e isoladas das demais. Essas ilhas foram chamadas de ref&uacute;gios. "Neste per&iacute;odo de isolamento, a tend&ecirc;ncia &eacute; a ocorr&ecirc;ncia de diferencia&ccedil;&atilde;o entre as popula&ccedil;&otilde;es e, no per&iacute;odo de fus&atilde;o, poderia ocorrer dessa diferencia&ccedil;&atilde;o ser t&atilde;o grande que os indiv&iacute;duos das diferentes popula&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se cruzavam mais (tornando&#45;se esp&eacute;cies diferentes); ou ent&atilde;o dessa diferencia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ter sido suficiente para criar um isolamento reprodutivo e os indiv&iacute;duos das diferentes popula&ccedil;&otilde;es, ao se intercruzarem, davam origem a uma nova popula&ccedil;&atilde;o com variabilidade muito maior", explica Sene.</font></P>     <p><font size="3"><b>VIDA DUPLA</b> Vanzolini dividia seu tempo entre a pesquisa cient&iacute;fica e a m&uacute;sica. Sua vida dupla come&ccedil;ou j&aacute; na faculdade quando passou a frequentar as rodas bo&ecirc;mias e a compor seus primeiros sambas. Em 1944, come&ccedil;ou a trabalhar no programa de Cacilda Becker, intitulado <I>Consult&oacute;rio Sentimental</I>, na R&aacute;dio Am&eacute;rica. Teve suas can&ccedil;&otilde;es interpretadas por grandes artistas brasileiros, como Jo&atilde;o Gilberto, Chico Buarque e Maria Beth&acirc;nia. Sua vida de compositor e cientista foi tema do document&aacute;rio <I>Um homem de moral</I>, de 2009, do cineasta Ricardo Dias.</font></P>     <p><font size="3">"Vanzolini foi um exemplo curioso de sambista, uma vez que n&atilde;o tocava qualquer instrumento e, como cantor, era sofr&iacute;vel, e mesmo desafinado, em certos momentos", conta Francisco In&aacute;cio Bastos, pesquisador da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz. "Mas ele tinha uma enorme capacidade de transformar observa&ccedil;&otilde;es cotidianas e mesmo temas abstrusos (como no seu famoso samba sobre temas eruditos) em m&uacute;sicas de alta qualidade. Creio n&atilde;o haver qualquer outro m&uacute;sico no Brasil com as caracter&iacute;sticas dele e, at&eacute; onde sei, nenhum outro zo&oacute;logo sambista, em todo o mundo", diz Bastos.</font></P>     <p><font size="3">Apesar de sua paix&atilde;o pela m&uacute;sica, Vanzolini sempre a considerou uma atividade a ser desenvolvida nas horas vagas. No ambiente de trabalho raramente falava em m&uacute;sica. Por&eacute;m, a m&uacute;sica teve indiretamente grande influ&ecirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o e crescimento do acervo das cole&ccedil;&otilde;es e de sua biblioteca. "Era dinheiro extra que entrava de vez em quando. E tudo o que ele chamava de dinheiro de m&uacute;sica era aplicado na compra de exemplares zool&oacute;gicos para as cole&ccedil;&otilde;es e, principalmente, para adquirir livros", diz Caramaschi.</font></P>     <p><font size="3">Unir m&uacute;sica e ci&ecirc;ncia n&atilde;o foi uma tarefa dif&iacute;cil para o zo&oacute;logo. Afinal, ele usava todo seu talento e curiosidade como pesquisador para compor suas can&ccedil;&otilde;es, do mesmo modo que utilizava sua criatividade e sensibilidade musicais em suas pesquisas cient&iacute;ficas. "Minha impress&atilde;o &eacute; de que ambas faziam parte de um cont&iacute;nuo, fruto da sensibilidade e percep&ccedil;&atilde;o de um cientista com uma imensa capacidade de observa&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica, como todo bom zo&oacute;logo, talento que estendeu &agrave; vida social e cultural, ou seja, foi um observador atento e inteligente n&atilde;o apenas do mundo natural, como do cotidiano de S&atilde;o Paulo. Vanzolini foi um homem de a&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea de ci&ecirc;ncia, e isso me parece refletido igualmente na sua m&uacute;sica, que &eacute; frequentemente narrativa e din&acirc;mica", conclui Bastos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Chris Bueno</i></font></P>      ]]></body>
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