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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/prosa.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P ALIGN="CENTER"><font size="3">N<small>EUZA</small> P<small>ARANHOS</small></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>Aqui eu tenho um rio</b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">&Eacute; ali, o terceiro sobradinho, t&aacute; vendo? O port&atilde;o comprido, com as grades curvadas na parte debaixo pra caber o carro.  Isso e a cobertura de eternit, tudo novidade, no meu tempo n&atilde;o tinha. Olhando daqui n&atilde;o parece uma gaiola? Sempre penso nisso quando vejo um sobradinho com essa caixola na frente. Coisa de paulistano, meu!  N&atilde;o &eacute; assim que a gente fala? N&atilde;o &eacute; mais?  Ah, tamb&eacute;m tanto faz, n&eacute;, mano? Mas &eacute; que ali &eacute; minha casa, tenho uma foto pra comprovar.  Essa a&iacute; sou eu atr&aacute;s do port&atilde;o. Uns tr&ecirc;s anos, louca pra sair. A cara zangada &eacute; que eu queria sair. E algu&eacute;m n&atilde;o deixava, l&oacute;gico.  Eu? Eu rio assim mesmo, enviesado.  Metade da boca entorta pra um lado. Mas n&atilde;o me fa&ccedil;a desviar do assunto.</font></P>     <p><font size="3">A casa &eacute; minha porque foi a primeira que eu chamei de casa. N&atilde;o carece tocar a campainha e dizer, nem fica bem. Quero atravessar a rua e olhar de perto. E caso algu&eacute;m aparecer, a&iacute; eu digo. Assim &eacute; mais educado. Depois que perdi o emprego, o amor e o sossego dei pra isso, de andar por a&iacute; reparando no passado. O presente? O presente &eacute; isso mesmo. Ofuturo? O futuro n&atilde;o existe, meu filho. O meu amor?  Esse morava no Mandaqui. Mas da&iacute; &eacute; outra hist&oacute;ria. Vam'atravessar a rua. T&aacute; vendo, t&aacute; vendo? &Eacute; essa minha casa. Que coisa, n&atilde;o me lembro de nada, tamb&eacute;m eu era t&atilde;o crian&ccedil;a. E com esse sujeito buzinando a&iacute; do lado n&atilde;o d&aacute; jeito. N&atilde;o tenho concentra&ccedil;&atilde;o. Buzina curta, buzina longa, buzina curta&#45;e&#45;longa, buzina dos&#45;infernos, buzina de&#45;que&#45;at&eacute;&#45;deus&#45;duvida.  Espia s&oacute;, apareceu um homem na janela.</font></P>     <p><font size="3">A&iacute; vem ele. Ser&aacute; que eu digo, ser&aacute; que eu digo?  "Boa tarde, mo&ccedil;o, o senhor sabia...." Ei, qu&eacute; isso, qu&eacute; isso! Ufa, fazia tempo n&atilde;o corria desse jeito. Ufa, deixa eu tomar f&ocirc;lego. O que deu em voc&ecirc;, garoto, viu assombra&ccedil;&atilde;o? Rev&oacute;lver?  Jura? N&atilde;o, n&atilde;o vi nada. Estava t&atilde;o entretida em dizer a ele. Acertou o da buzina?  N&atilde;o quero olhar. Te aquieta, menino, v&ecirc; s&oacute; onde a gente veio parar. Aqui &eacute; a avenida Marginal, certo? Ent&atilde;o... Aqui eu tenho um rio. Que alegria eu tinha de brincar na terra!  Uma terra vermelha, &uacute;mida. N&atilde;o sei se traziam de outro lugar pra drenar a v&aacute;rzea. Ou era terra nativa que eles tiravam do rio pra corrigir o curso. Ou voc&ecirc; acha que o rio corre assim, reto, por um acaso? Voc&ecirc; acha que Deus trabalha com r&eacute;gua? N&atilde;o, n&atilde;o sou b&iacute;blia, ah, menino, n&atilde;o deixa eu me esquecer do que estava dizendo. N&atilde;o me deixa esquecer, eu gostava tanto de brincar no barro.Quem visse podia pensar que a avenida que estavam abrindo era minha. A&iacute; &eacute; que est&aacute;, a&iacute; &eacute; que est&aacute;. N&atilde;o era a avenida, era o rio.At&eacute; algu&eacute;m me descobrir e arrastar pra casa.Eu tinha &oacute;dio de viver trancada. Ai, que &oacute;dio! Eu n&atilde;o vejo o rio, ceguei pra ele. Olha, olha bem. Ponte, carros, pista, mato... Que &eacute; do rio? Fraco das ideias &eacute; voc&ecirc;. N&atilde;o quero saber seu nome. Por acaso eu disse o meu? Toma, pega a bolsa de uma vez, deixa eu ficar com a foto. Mas j&aacute; vai indo?  Eu n&atilde;o dei o dinheiro? Pra que tanta pressa?  Vam'ali ver meu rio, eu tenho um rio. Da&iacute; quero ver voc&ecirc; tomar de mim, isso eu quero ver!</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size=5><b>Olhos vazados</b></font></P>     <P><font size="3">(trecho inicial)</font></P>     <p><font size="3">Eu sei que seus olhos s&atilde;o vazados. N&atilde;o que os veja, eu sei. E se o pudor deixasse, os representaria com ajuda de uma velha fotografia e um photoshop. Muita coisa mudou desde o seu fim e o meu come&ccedil;o, inclusive essa propriedade de facilmente ver o que apraz. Sinto, apesar do carinho que lhe tenho, eu, que sempre a vi ausente, n&atilde;o quero seus olhos vazados. N&atilde;o &eacute; quest&atilde;o est&eacute;tica, &eacute; pudor. Por favor entenda e saiba tamb&eacute;m: encomendei uma vis&atilde;o. Uma que possa ser vista por olhos vazados. E diz respeito a coisas maravilhosas que n&atilde;o vimos e que nos habitam. Coisas de fechar os olhos e saber em sil&ecirc;ncio.</font></P>     <p><font size="3">Ent&atilde;o ou&ccedil;a: houve um tempo em que as &aacute;rvores erguiam&#45;se em caules pintados de fungos coloridos para dilatarem as copas nos limites entre a neblina e o sol. E um povo cambriano amendoava os olhos no r&eacute;s da mata.</font></P>     <p><font size="3">Haviam herdado trilhas de animais paleoz&oacute;icos e nelas passavam boa parte da vida. Caminhavam muito at&eacute; chegar. O que s&oacute; acontecia quando um lugar era bom, com &aacute;gua e ca&ccedil;a. Ent&atilde;o, incendiavam a mata e na clareira que se abria botavam ro&ccedil;a. E se o dia estava muito quente, dava gosto ver tribos inteiras folgando na &aacute;gua. Que havia muita &aacute;gua, rios, riachos, lagoas alimentados por ferozes tempestades. Era assim o trivial dos Tupis, posso v&ecirc;&#45;los caminhando pela avenida Paulista, ca&ccedil;ando no Pacaembu, entoando cantos mon&oacute;dicos ao redor de fogueiras, nas noites escuras que nunca existiram em Piratininga. Nem hoje, nem h&aacute; cinquenta anos, quando voc&ecirc; cessou de existir e eu rasguei o ventre de minha m&atilde;e. Tupi. Rezo as flautas sagradas que nunca existiram, Luzia. Comunguemos.</font></P>     <p><font size="3">Veja, homens apontando suas flechas no parque Siqueira Campos. E fam&iacute;lias inteiras refrescando&#45;se no c&oacute;rrego Pacaembu. H&aacute; uma tapera na Consola&ccedil;&atilde;o, &agrave; altura da Nestor Pestana, cuja tribo segue pela Serra do Mar para S&atilde;o Vicente, ainda ontem podiam ser vistos em Paranapiacaba. Nela restou um paj&eacute; proscrito, um mesti&ccedil;o. Quase morto de var&iacute;ola, invocou um anhang&aacute; soprando a flauta sagrada. O som desceu pelo vale do Anhangaba&uacute; penetrando a mata. O anhang&aacute; acordou com fome e ouviu o sopro da flauta. Revelava o paradeiro da tribo adormecida no sop&eacute; da serra, para onde anhang&aacute; viajou no lombo da neblina fria. L&aacute; chegando, sorveu as almas, que ficaram encantadas. Ali mesmo, passados uns s&eacute;culos, anhang&aacute; construiu uma oca grande e dura, que cuspia fogo e fuma&ccedil;a colorida. E matava a neblina e os peixes e as nuvens e fazia a alegria da pequena curumim que passava o fim de semana em Santos com a fam&iacute;lia. Anos depois, j&aacute; crescida, ela ouviu o choro dos &iacute;ndios sem alma sob a terra e as sirenes das f&aacute;bricas. Aquilo tinha um apelo t&atilde;o grande que ela precisou ouvir m&uacute;sica. Ent&atilde;o, ligou o r&aacute;dio do carro e se p&ocirc;s a sonhar.</font></P>     <p><font size="3">E assim come&ccedil;ou minha hist&oacute;ria onde a sua parou, Luzia, preciso lhe contar da falta que voc&ecirc; fez e de como carreguei sua aus&ecirc;ncia por todos estes anos.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><B>Neuza Paranhos</B> &eacute; jornalista e tradutora e vive em S&atilde;o Paulo, onde participa de uma horta urbana comunit&aacute;ria e cuida de seu marido, al&eacute;m de muitos c&atilde;es e gatos. Vez por outra, publica contos na m&iacute;dia &#150; entre outros meios, o jornal liter&aacute;rio </I>Rascunho<I> e a vers&atilde;o online de </I>Le Monde Diplomatique<I>. Em 1998 publicou seu primeiro livro de contos, </I>Av. Marginal<I>, pela editora experimental ComArte (ECA/USP).</I></font></P>      ]]></body>
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