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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A emergência na física da matéria condensada e as quebras espontâneas de simetria]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/sessao(ea).jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A emerg&ecirc;ncia na f&iacute;sica  da mat&eacute;ria condensada  e as quebras espont&acirc;neas de simetria</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eduardo Miranda</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b>C</b>onsidere uma garrafa de vinho que repousa de p&eacute; em uma mesa. O fundo da garrafa &eacute; mais alto no meio do que nas bordas e apenas estas est&atilde;o em contato com a superf&iacute;cie da mesa. &Eacute; praticamente imposs&iacute;vel equilibrar uma pequena bola de gude dentro da garrafa no ponto central do seu fundo. Se tentarmos faz&ecirc;-lo, a bola certamente rolar&aacute; para a posi&ccedil;&atilde;o mais baixa das bordas, onde ela finalmente repousar&aacute;. Se formos extremamente cuidadosos em posicionar a bola exatamente no centro, n&atilde;o saberemos prever em que dire&ccedil;&atilde;o ela rolar&aacute; nem onde terminar&aacute;. O formato do fundo &eacute; perfeitamente sim&eacute;trico e n&atilde;o favorece nenhuma dire&ccedil;&atilde;o em particular, todas s&atilde;o equivalentes. No entanto, a bolinha ir&aacute; "escolher" uma dire&ccedil;&atilde;o para rolar entre todas aquelas dispon&iacute;veis (1). Se descrevemos as diversas dire&ccedil;&otilde;es pelos pontos cardeais, sabemos que a posi&ccedil;&atilde;o final da bola de gude pode apontar para o norte ou para o sul, para sudoeste ou nordeste, de fato para qualquer dire&ccedil;&atilde;o. Esse exemplo mostra de maneira quase banal o fen&ocirc;meno que os f&iacute;sicos chamam de "quebra espont&acirc;nea de simetria". A simetria est&aacute; no fato de que todas as posi&ccedil;&otilde;es das bordas que tocam a mesa s&atilde;o equivalentes, n&atilde;o havendo prefer&ecirc;ncia por nenhuma delas em particular. Essa simetria, no entanto, n&atilde;o &eacute; refletida na posi&ccedil;&atilde;o final de equil&iacute;brio da bola de gude, que ir&aacute; sempre estacionar em uma dire&ccedil;&atilde;o muito bem definida, por exemplo noroeste. A simetria da garrafa foi quebrada pela posi&ccedil;&atilde;o final de equil&iacute;brio da bolinha. Embora ilustrada aqui num contexto cotidiano, a quebra espont&acirc;nea de simetria &eacute; um das manifesta&ccedil;&otilde;es mais importantes do comportamento emergente da mat&eacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma propriedade &eacute; chamada de emergente se ela s&oacute; ocorre quando h&aacute; um n&uacute;mero muito grande de part&iacute;culas envolvidas. Aprendemos na escola que a mat&eacute;ria se apresenta em tr&ecirc;s fases distintas: g&aacute;s, l&iacute;quido ou s&oacute;lido. O comportamento da mat&eacute;ria &eacute;, na verdade, muito mais rico do que essa classifica&ccedil;&atilde;o sugere, mas vamos aceitar provisoriamente essa simplifica&ccedil;&atilde;o &uacute;til. Tome a &aacute;gua, por exemplo, que pode se apresentar como l&iacute;quida, como vapor d'&aacute;gua ou como gelo. Podemos nos perguntar em que fase se encontra uma &uacute;nica mol&eacute;cula de &aacute;gua. A resposta correta &eacute; que a pergunta n&atilde;o faz sentido quando formulada a respeito de uma mol&eacute;cula individual. Na verdade, essas tr&ecirc;s fases da mat&eacute;ria s&oacute; ganham algum sentido quando falamos de uma quantidade macrosc&oacute;pica(2) de mol&eacute;culas de &aacute;gua: &eacute; uma propriedade emergente. Apenas nesse caso podemos observar que o vapor d'&aacute;gua ocupa todo o espa&ccedil;o do recipiente que o cont&eacute;m (caracter&iacute;stica de um g&aacute;s), ou que a &aacute;gua "molha" as superf&iacute;cies que ela toca (propriedade dos l&iacute;quidos), ou ainda que o gelo apresenta a rigidez t&iacute;pica de um s&oacute;lido.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A natureza &eacute; pr&oacute;diga na diversidade das propriedades emergentes. Cada uma delas &eacute; caracterizada por um comportamento macrosc&oacute;pico bem definido e &uacute;nico. Listemos algumas delas juntamente com algumas de suas propriedades mais distintivas:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b>1.</b> Os magnetos (como os &iacute;m&atilde;s de geladeira ou a pr&oacute;pria Terra), que apresentam polos magn&eacute;ticos bem definidos (chamados comumente de Norte ou Sul).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>2.</b> Os superfluidos (como o elemento H&eacute;lio quando resfriado a baixas temperaturas), que podem fluir por tubos estreitos sem nenhuma resist&ecirc;ncia (ou seja, t&ecirc;m viscosidade zero) e t&ecirc;m condutividade t&eacute;rmica infinita (s&atilde;o condutores perfeitos de calor).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>3.</b> Os supercondutores (como alguns compostos met&aacute;licos quando resfriados suficientemente), que conduzem corrente el&eacute;trica sem nenhuma perda de energia (em outras palavras, tem resist&ecirc;ncia el&eacute;trica exatamente igual a zero) e expulsam completamente os campos magn&eacute;ticos (o que pode ser usado para "levitar" magnetos).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>4.</b> A pr&oacute;pria mat&eacute;ria s&oacute;lida, cujos &aacute;tomos apresentam uma estrutura peri&oacute;dica que chamamos de cristal (com exce&ccedil;&atilde;o dos vidros, que n&atilde;o t&ecirc;m essa ordem peri&oacute;dica interna).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>5.</b> Os cristais l&iacute;quidos, que est&atilde;o por tr&aacute;s da opera&ccedil;&atilde;o das telas LCD (Liquid Crystal Display) de nossos computadores, televisores e celulares. Os cristais l&iacute;quidos t&ecirc;m a propriedade de fluir como os l&iacute;quidos convencionais, mas, diferentemente destes, as compridas mol&eacute;culas daqueles se orientam em dire&ccedil;&otilde;es preferenciais (quebrando a simetria de orienta&ccedil;&atilde;o espacial). As pr&oacute;prias membranas celulares tamb&eacute;m s&atilde;o exemplos de cristais l&iacute;quidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como quebras espont&acirc;neas de simetria e outras propriedades emergentes s&atilde;o geralmente acompanhadas do aparecimento de propriedades bastante n&atilde;o usuais das subst&acirc;ncias, existe um grande potencial para aplica&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas desses fen&ocirc;menos. A explos&atilde;o da capacidade de armazenamento de dados digitais observada nos &uacute;ltimos 30 anos foi consequ&ecirc;ncia da descoberta de um efeito ligado aos estados dos magnetos j&aacute; mencionados (a chamada magnetorresist&ecirc;ncia gigante). J&aacute; mencionamos tamb&eacute;m as telas LCD. A lista de aplica&ccedil;&otilde;es &eacute; grande e tende a aumentar &agrave; medida que novas descobertas s&atilde;o feitas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A utilidade da forma&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es altamente sim&eacute;tricos n&atilde;o foi desprezada pela natureza na evolu&ccedil;&atilde;o dos seres vivos. A diversidade impressionante das cores das asas iridescentes dos besouros foi o resultado, ao que tudo indica, de grandes press&otilde;es evolutivas ao longo da hist&oacute;ria de sua diferencia&ccedil;&atilde;o. Essas cores s&atilde;o o resultado da reflex&atilde;o da luz incidente por arranjos ordenados das mais diversas maneiras e presentes nas asas desses insetos (3). Esses chamados cristais fot&ocirc;nicos, descobertos e estudados intensamente pelos cientistas nos &uacute;ltimos anos, apareceram espontaneamente na hist&oacute;ria evolutiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nem todo comportamento emergente est&aacute; associado a uma quebra espont&acirc;nea de simetria. Entretanto, cada uma das fases de mat&eacute;ria da lista acima (e muitas outras) est&aacute; associada com uma quebra espont&acirc;nea de simetria. Em alguns casos, descobrir qual simetria foi quebrada representou o passo crucial para o entendimento do fen&ocirc;meno observado. Isso foi especialmente dram&aacute;tico no caso da supercondutividade: sua descoberta experimental ocorreu em 1911, mas a natureza da simetria quebrada e a explica&ccedil;&atilde;o completa do fen&ocirc;meno s&oacute; vieram a ser elucidadas em 1957!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; interessante tentar entender como quebras espont&acirc;neas de simetria ocorrem na pr&aacute;tica. Considere uma subst&acirc;ncia qualquer em sua fase l&iacute;quida a uma certa temperatura e press&atilde;o. Suas mol&eacute;culas n&atilde;o t&ecirc;m nenhum arranjo espacial preferencial e podem ocupar qualquer posi&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o ocupada pelo l&iacute;quido. A aus&ecirc;ncia de posi&ccedil;&otilde;es privilegiadas &eacute; uma simetria do sistema no seu estado l&iacute;quido. Tentando raciocinar por analogia com a bolinha de gude no interior da garrafa de vinho, podemos pensar que a agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica mant&eacute;m a bolinha em constante movimento e ela nunca consegue ficar parada numa posi&ccedil;&atilde;o fixa. &Agrave; medida que abaixamos a temperatura, o l&iacute;quido tornar-se-&aacute; s&oacute;lido. Nesse momento, cada mol&eacute;cula da subst&acirc;ncia ficar&aacute; "congelada" numa posi&ccedil;&atilde;o espacial bem definida e o arranjo de todas as mol&eacute;culas ser&aacute;, na maioria das vezes, um arranjo peri&oacute;dico cristalino. Isso acontece porque (i) um arranjo peri&oacute;dico representa a situa&ccedil;&atilde;o de mais baixo custo energ&eacute;tico entre todas as disposi&ccedil;&otilde;es espaciais poss&iacute;veis e (ii) a agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica n&atilde;o &eacute; suficientemente grande para manter as mol&eacute;culas em movimento aleat&oacute;rio e retir&aacute;-las das posi&ccedil;&otilde;es fixas. Na competi&ccedil;&atilde;o entre a tend&ecirc;ncia de ordenamento peri&oacute;dico, que abaixa a energia do sistema, e a tend&ecirc;ncia &agrave; desordem t&eacute;rmica, a primeira sai vencedora. A simetria inicial foi quebrada, pois nem todas as posi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o agora poss&iacute;veis. Essa quebra espont&acirc;nea de simetria &eacute; acompanhada, como sabemos, de mudan&ccedil;as qualitativas no comportamento da subst&acirc;ncia. Por exemplo, ela deixa de fluir e torna-se r&iacute;gida. No an&aacute;logo da bolinha de gude na garrafa de vinho, quando a agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica &eacute; suprimida, a bolinha rapidamente encontra sua posi&ccedil;&atilde;o de mais baixa energia nalgum ponto da borda. De fato, todas as quebras espont&acirc;neas de simetria da lista de comportamentos emergentes acima ocorre por uma imposi&ccedil;&atilde;o da necessidade de se encontrar uma configura&ccedil;&atilde;o de energia mais baixa numa situa&ccedil;&atilde;o de pouca agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como j&aacute; enfatizado anteriormente, quebras espont&acirc;neas de simetria (e outras propriedades emergentes) s&oacute; ocorrem em um sistema composto por um n&uacute;mero grande de part&iacute;culas ou partes. No caso da solidifica&ccedil;&atilde;o que discutimos, &eacute; preciso um grande n&uacute;mero de mol&eacute;culas para que um sistema possa passar de l&iacute;quido para s&oacute;lido. Se tivermos apenas um n&uacute;mero pequeno de mol&eacute;culas, a agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica sempre terminar&aacute; por "chutar" uma mol&eacute;cula para fora de sua posi&ccedil;&atilde;o fixa e o sistema n&atilde;o ter&aacute; uma estrutura cristalina est&aacute;vel. A quest&atilde;o relevante, do ponto de vista da estabilidade de uma fase com simetria quebrada espontaneamente, &eacute; o tempo necess&aacute;rio para a estrutura ser destru&iacute;da. Se o n&uacute;mero de part&iacute;culas envolvidas &eacute; pequeno, esse tempo &eacute; muito curto. Aprendemos na escola que a mol&eacute;cula de am&ocirc;nia (NH3) tem uma estrutura de uma pir&acirc;mide de base triangular, com o &aacute;tomo de nitrog&ecirc;nio no &aacute;pice e os tr&ecirc;s &aacute;tomos de hidrog&ecirc;nio nos v&eacute;rtices do tri&acirc;ngulo da base. Foi-nos ensinado que essa estrutura &eacute; est&aacute;vel e n&atilde;o varia com o tempo. Essa estrutura apresenta uma simetria quebrada, com os átomos assumindo posições bem definidas no espaço. Na realidade, não é bem assim. Observa-se experimentalmente que o átomo de nitrogênio, na verdade, oscila ao longo do eixo da pirâmide. Se o triângulo formado pelos átomos de hidrogênio estiver num plano horizontal, por exemplo, a pirâmide pode apontar para cima (com o átomo de nitrogênio acima do plano) ou para baixo (com o nitrogênio abaixo do plano). O tempo durante o qual o nitrogênio “permanece” numa das duas posições é da ordem de uns poucos pico-segundos (um pico-segundo é um bilionésimo de segundo) (4). Esse tempo pode parecer muito pequeno mas, para vários processos subatômicos, ele pode ser considerado razoavelmente longo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; medida que o tamanho do sistema aumenta, entretanto, esse tempo tamb&eacute;m aumenta. Idealmente, apenas um sistema infinito mant&eacute;m uma estrutura de simetria quebrada eternamente. Entretanto, na pr&aacute;tica, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio um n&uacute;mero t&atilde;o grande de constituintes b&aacute;sicos para que o tempo de destrui&ccedil;&atilde;o da estrutura ordenada j&aacute; fique maior do que os tempos usuais de observa&ccedil;&atilde;o humana. Em mol&eacute;culas maiores, constitu&iacute;das por um grande n&uacute;mero de &aacute;tomos, estes acabam assumindo posi&ccedil;&otilde;es espaciais bem definidas por tempos macrosc&oacute;picos e, para todos os efeitos pr&aacute;ticos, a simetria pode ser considerada como realmente quebrada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; alguns exemplos importantes em mol&eacute;culas biol&oacute;gicas de que a natureza "preferiu" quebrar certas simetrias. Embora v&aacute;rias mol&eacute;culas da natureza apresentem simetria quiral, isso n&atilde;o &eacute; observado em todas elas. A simetria quiral ou de quiralidade existe quando a mol&eacute;cula e sua imagem refletida num espelho podem ser superpostas uma na outra. A mol&eacute;cula de am&ocirc;nia discutida acima tem simetria quiral. Uma m&atilde;o humana direita tem como imagem especular uma m&atilde;o esquerda e esta n&atilde;o pode ser superposta &agrave; primeira. As m&atilde;os quebram a simetria de quiralidade e por isso s&atilde;o chamadas de quirais, enquanto que a am&ocirc;nia &eacute; uma mol&eacute;cula aquiral. De fato, a origem da palavra quiral &eacute; a palavra grega para m&atilde;o. &Eacute; poss&iacute;vel classificar as mol&eacute;culas quirais, por refer&ecirc;ncias &agrave;s m&atilde;os, como sendo quirais &agrave; direita ou &agrave; esquerda.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como dito, nem toda mol&eacute;cula &eacute; aquiral. A forma natural do a&ccedil;&uacute;car &eacute; quiral, assim como os amino&aacute;cidos, os elementos constituintes das prote&iacute;nas. Se produzirmos artificialmente essas subst&acirc;ncias no laborat&oacute;rio, a partir de seus elementos constituintes, obteremos uma mistura com quantidades iguais de mol&eacute;culas quirais &agrave; esquerda e &agrave; direita. Entretanto, &eacute; interessante que praticamente todos os amino&aacute;cidos naturais t&ecirc;m a mesma quiralidade (s&atilde;o quirais &agrave; esquerda) e o mesmo se aplica aos v&aacute;rios tipos de a&ccedil;&uacute;cares (que s&atilde;o quirais &agrave; direita). A sele&ccedil;&atilde;o natural favoreceu a quebra da simetria de quiralidade. H&aacute; ainda uma certa controv&eacute;rsia sobre se essa quebra espont&acirc;nea de quiralidade observada nos seres vivos foi resultado de puro acaso (seria como a bolinha de gude que &eacute; colocada ligeiramente fora do centro por uma flutua&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica pequena), tendo sido perpetuada no processo de reprodu&ccedil;&atilde;o, ou se foi o resultado da a&ccedil;&atilde;o de algum agente externo. Um dos candidatos a esse agente externo seria a luz das estrelas, que &eacute; parcialmente polarizada e, portanto, poderia produzir mol&eacute;culas com quiralidade. Qualquer que seja o caso, &eacute; certo que o car&aacute;ter quiral das prote&iacute;nas tem um papel relevante em alguns processos biol&oacute;gicos (uma enzima quiral distingue entre dois substratos com quiralidades opostas, mas iguais em todos os outros aspectos).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos ir al&eacute;m e perceber que o pr&oacute;prio c&oacute;digo gen&eacute;tico, base de toda a vida, envolve de maneira crucial uma quebra de simetria. A sequ&ecirc;ncia bem definida de bases nitrogenadas do c&oacute;digo gen&eacute;tico (A, C, T ou G) representa uma quebra em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; situa&ccedil;&atilde;o completamente sim&eacute;trica, em que as quatro letras se distribuem de forma completamente aleat&oacute;ria (como as mol&eacute;culas de um l&iacute;quido ou um g&aacute;s). A simetria quebrada na sequ&ecirc;ncia do DNA cont&eacute;m a informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica da vida. A distribui&ccedil;&atilde;o completamente aleat&oacute;ria das bases n&atilde;o conteria essencialmente nenhuma informa&ccedil;&atilde;o e seria in&uacute;til do ponto de vista evolutivo. De fato, pode-se descrever o aparecimento da vida atrav&eacute;s da sele&ccedil;&atilde;o natural como uma quebra espont&acirc;nea da simetria sequencial do DNA. O fato de que essa quebra levou tanto tempo para se fixar e se reproduzir mostra que ela teve que vencer enormes barreiras de "agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica". Uma vez estabelecida, entretanto, seu tempo de estabilidade tem se mostrado bastante longo. Mas ser&aacute; infinito?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As propriedades emergentes suscitam tamb&eacute;m quest&otilde;es de natureza filos&oacute;fica &#91;ver, por exemplo, (5;6)&#93;. Podem-se notar (pelo menos) duas escolas que diferem na vis&atilde;o do caminho a ser seguido na busca do conhecimento cient&iacute;fico, principalmente na f&iacute;sica. A primeira, chamada de reducionista, privilegia a busca pelos menores elementos que formam o universo conhecido e pelas leis din&acirc;micas que os regem. Usualmente associada &agrave; f&iacute;sica das part&iacute;culas elementares, essa vis&atilde;o tem origem no atomismo filos&oacute;fico. Sua premissa b&aacute;sica &eacute; a suposi&ccedil;&atilde;o de que o universo &eacute; formado por um n&uacute;mero pequeno de "objetos fundamentais" a partir dos quais todo o resto &eacute; formado. No &acirc;mbito da f&iacute;sica atual, essa vis&atilde;o &eacute; consagrada no chamado modelo padr&atilde;o das part&iacute;culas elementares e suas intera&ccedil;&otilde;es. Nele, os objetos fundamentais s&atilde;o os quarks (que formam os pr&oacute;tons e n&ecirc;utrons), os l&eacute;ptons (como os el&eacute;trons e neutrinos) e os b&oacute;sons de "gauge" (como as part&iacute;culas de luz, os f&oacute;tons). Esses objetos b&aacute;sicos interagem entre si atrav&eacute;s de leis que podem ser formuladas de maneira simples. A pesquisa, na vis&atilde;o reducionista, &eacute; sempre direcionada na busca por objetos mais b&aacute;sicos ("mais fundamentais", no jarg&atilde;o) e na formula&ccedil;&atilde;o de suas leis din&acirc;micas. Sua forma atual, o modelo padr&atilde;o, &eacute; extremamente bem sucedida, na medida em que descreve com grande precis&atilde;o praticamente todos os experimentos j&aacute; realizados para test&aacute;-la. Recentemente, a descoberta (a ser ainda confirmada definitivamente) de um dos &uacute;ltimos blocos de constru&ccedil;&atilde;o do modelo padr&atilde;o, o chamado b&oacute;son de Higgs, representou o coroamento desse projeto, que dominou a f&iacute;sica de part&iacute;culas no &uacute;ltimo s&eacute;culo. A fronteira da pesquisa nessa &aacute;rea &eacute; dominada pela esperan&ccedil;a de se chegar a uma descri&ccedil;&atilde;o ainda mais b&aacute;sica, mais fundamental, na qual todas as part&iacute;culas s&atilde;o diferentes manifesta&ccedil;&otilde;es das chamadas supercordas. Essa teoria &eacute; ainda bastante controversa e est&aacute; longe de alcan&ccedil;ar o sucesso do modelo padr&atilde;o, se &eacute; que um dia ainda o far&aacute;. No entanto, n&atilde;o se pode negar o grande avan&ccedil;o do conhecimento representado pela vis&atilde;o reducionista da ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por outro lado, uma outra escola preconiza que, mesmo que conhe&ccedil;amos todas as part&iacute;culas mais b&aacute;sicas que comp&otilde;em o universo e suas leis din&acirc;micas, esse conhecimento pouco ou quase nada nos ajuda no entendimento do comportamento de um conjunto grande desses objetos. Em princ&iacute;pio, por exemplo, o modelo padr&atilde;o cont&eacute;m todas as informa&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para determinar a massa do pr&oacute;ton ou do n&ecirc;utron. Entretanto, estamos longe de conseguirmos realizar esse c&aacute;lculo de maneira precisa. Estamos mais longe ainda de determinarmos, por exemplo, outras propriedades emergentes da f&iacute;sica nuclear, como a energia de forma&ccedil;&atilde;o de n&uacute;cleos at&ocirc;micos mais pesados, formados por muitos n&ecirc;utrons e muitos pr&oacute;tons. Talvez isso nunca se torne poss&iacute;vel, pois esse tipo de c&aacute;lculo pode requerer um poder computacional imposs&iacute;vel de ser implementado no universo conhecido. Isso n&atilde;o quer dizer que o modelo padr&atilde;o esteja errado ou mesmo que seja in&uacute;til. O que a escola das "propriedades emergentes" advoga &eacute; que em cada escala de energia, novos conceitos precisam ser descobertos se quisermos descrever as propriedades da natureza. A f&iacute;sica nuclear n&atilde;o pode ser derivada do modelo padr&atilde;o, ela &eacute; regida por suas pr&oacute;prias leis e estruturas. As propriedades dos s&oacute;lidos, l&iacute;quidos e gases, dos magnetos, dos supercondutores, dos superfluidos e dos cristais l&iacute;quidos, em toda sua diversidade, tamb&eacute;m requerem novas ideias e novos conceitos, t&atilde;o "fundamentais" quanto as part&iacute;culas do modelo padr&atilde;o. A qu&iacute;mica n&atilde;o "est&aacute; contida" na f&iacute;sica, pelo menos n&atilde;o no sentido de que podemos obter as leis da qu&iacute;mica a partir das leis fundamentais da f&iacute;sica. Da mesma forma, a biologia n&atilde;o "est&aacute; contida" na qu&iacute;mica e assim por diante. A cada mudan&ccedil;a de escala, novos conhecimentos profundos s&atilde;o necess&aacute;rios para que possamos compreender as diversas manifesta&ccedil;&otilde;es da natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; importante enfatizar que ningu&eacute;m duvida de que o modelo padr&atilde;o descreva, provavelmente exatamente, as intera&ccedil;&otilde;es das part&iacute;culas elementares, ou de que, em princ&iacute;pio, se possam derivar a partir dele os fen&ocirc;menos da f&iacute;sica nuclear, at&ocirc;mica ou da mat&eacute;ria condensada (s&oacute;lidos e l&iacute;quidos). A express&atilde;o crucial aqui &eacute; "em princ&iacute;pio". Apenas um supercomputador, talvez imposs&iacute;vel de ser constru&iacute;do, seria capaz de fazer essa liga&ccedil;&atilde;o entre as v&aacute;rias escalas. Nossa cren&ccedil;a nessa possibilidade "em princ&iacute;pio", no entanto, repousa na limitada capacidade que temos de fazer algumas liga&ccedil;&otilde;es simples e aproximadas entre os fen&ocirc;menos nas diferentes escalas. H&aacute; tentativas razoavelmente bem sucedidas de um c&aacute;lculo aproximado das massas do pr&oacute;ton e do n&ecirc;utron a partir de primeiros princ&iacute;pios (7). Semelhantemente, podemos calcular de maneira ainda bastante primitiva as propriedades de algumas rea&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas muito simples a partir das intera&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas entre os el&eacute;trons. Geralmente, esses passos t&iacute;midos j&aacute; consomem muitas horas de computa&ccedil;&atilde;o e qualquer coisa um pouco mais complexa est&aacute; fora de cogita&ccedil;&atilde;o. Eles, no entanto, nos d&atilde;o o conforto de saber que a liga&ccedil;&atilde;o pode ser feita. Pelo menos, "em princ&iacute;pio".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vis&atilde;o da ci&ecirc;ncia que advoga a import&acirc;ncia das "propriedades emergentes", em outras palavras, assume que o todo &eacute; muito mais do que a soma de suas partes. O artigo que talvez tenha fundado essa escola, do f&iacute;sico Philip W. Anderson, resumiu e consagrou essa vis&atilde;o no seu t&iacute;tulo: "Mais &eacute; diferente" (8). N&atilde;o &eacute; que o todo n&atilde;o seja equivalente &agrave;s suas partes (e as intera&ccedil;&otilde;es entre elas). Mas o todo apresenta surpresas no seu comportamento que n&atilde;o podem ser encontradas no exame separado de uma ou poucas de suas partes. Um aglomerado de poucos &aacute;tomos de ni&oacute;bio n&atilde;o nos parece ter nada de excepcional. Junte, no entanto, um n&uacute;mero grande deles formando um cristal, abaixe sua temperatura e ele ser&aacute; um supercondutor!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muito ainda est&aacute; por se construir. Estamos longe de entendermos, ou mesmo conhecermos, todas as formas de quebra espont&acirc;nea de simetria e suas propriedades emergentes. Em 1986, foram descobertos compostos que se tornam supercondutores a temperaturas bem mais altas que aqueles conhecidos anteriormente. Essas temperaturas ainda est&atilde;o bem abaixo da temperatura ambiente (as mais altas s&atilde;o em torno de -140o C), mas j&aacute; representaram um enorme salto e a esperan&ccedil;a de se descobrirem supercondutores &agrave; temperatura ambiente continua. Desde 1986, v&aacute;rias classes diferentes de compostos supercondutores de "alta temperatura" foram descobertos e a procura prossegue vigorosamente. Ainda n&atilde;o se sabe o que explica esse comportamento e acredita-se que esses novos supercondutores sejam essencialmente diferentes dos antigos. As teorias mais recentes invocam algum tipo ainda n&atilde;o elucidado de quebra espont&acirc;nea de simetria. S&oacute; o tempo trar&aacute; a resposta definitiva. V&aacute;rios outros compostos, nem sempre com comportamento t&atilde;o surpreendente, mas nem por isso menos interessantes, s&atilde;o estudados todos os dias. Acredita-se que o pr&oacute;prio universo, &agrave; medida que se resfriou desde o "big bang" at&eacute; as temperaturas de hoje, passou por algumas transi&ccedil;&otilde;es de fase antes do seu est&aacute;gio atual. Os pr&oacute;tons e n&ecirc;utrons, que hoje sabemos serem formados de quarks, n&atilde;o existiam na sopa primordial. Nela, as part&iacute;culas formadoras dos pr&oacute;tons e n&ecirc;utrons, os quarks e seus parceiros, os gl&uacute;ons, eram livres para existir como part&iacute;culas individuais. Isso n&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel na atual densidade do universo, mas experimentos em aceleradores atuais, que colidem n&uacute;cleos at&ocirc;micos pesados como os do ouro a alt&iacute;ssimas energias, s&atilde;o capazes de criar, por per&iacute;odos curt&iacute;ssimos de tempo, esse chamado plasma de quarks e gl&uacute;ons (9). No outro lado do espectro de energia, alguns tipos de &aacute;tomos s&atilde;o resfriados a temperaturas baix&iacute;ssimas (da ordem de um mil&eacute;simo de bilion&eacute;simo de grau acima do zero absoluto) e aprisionados em armadilhas magn&eacute;ticas e/ou &oacute;pticas. Nessas condi&ccedil;&otilde;es, algumas das propriedades de l&iacute;quidos e s&oacute;lidos macrosc&oacute;picos, como superfluidez e magnetismo, podem ser criadas e estudadas (10).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conceito de quebra espont&acirc;nea de simetria, que perpassa os v&aacute;rios ramos da f&iacute;sica, serve como ferramenta de fertiliza&ccedil;&atilde;o cruzada do conhecimento. Pode-se estud&aacute;-lo num extremo do espectro e obter percep&ccedil;&otilde;es importantes para o outro. A f&iacute;sica at&ocirc;mica ajuda a f&iacute;sica da mat&eacute;ria condensada. A f&iacute;sica de part&iacute;culas fertiliza a f&iacute;sica nuclear. A teoria das supercordas influencia a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento na pesquisa dos supercondutores de alta temperatura. O que parece certo &eacute; que a vis&atilde;o reducionista, apesar de imprescind&iacute;vel e extremamente bem sucedida, n&atilde;o &eacute; suficiente para abarcar todo o empreendimento da busca cient&iacute;fica. A cada passo, propriedades emergentes e novas quebras espont&acirc;neas de simetria ir&atilde;o nos surpreender.'</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Eduardo Miranda</b> &eacute; f&iacute;sico, professor titular do Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.  &Eacute; claro que nunca conseguimos posicion&aacute;-la exatamente no centro e nem  o fundo da garrafa &eacute; perfeitamente sim&eacute;trico. Esses desvios da situa&ccedil;&atilde;o ideal  determinam, na pr&aacute;tica, a dire&ccedil;&atilde;o "escolhida" pela bolinha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.  A distin&ccedil;&atilde;o entre o que &eacute; uma quantidade "macrosc&oacute;pica" ou "microsc&oacute;pica" &eacute;  arbitr&aacute;ria, mas podemos utilizar como defini&ccedil;&atilde;o &uacute;til de  "macrosc&oacute;pico" um n&uacute;mero da ordem um mol (aproximadamente 1023) de mol&eacute;culas.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Pennisi, E. "Diverse crystals  account for beetle sheen". <i>Science</i>,  v. 341,  n. 6142, p. 120. 2013.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.  &Eacute; importante notar que a oscila&ccedil;&atilde;o do nitrog&ecirc;nio na am&ocirc;nia n&atilde;o &eacute; causada  por agita&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica como nos exemplos anteriores. Nesse caso,  s&atilde;o as leis da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica que causam a instabilidade da estrutura de simetria quebrada.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Castellani, E. "Reductionism,  emergence, and effective field theories". <i>Studies in  history and philosophy of science part B: studies inhistory  and philosophy of modern physics</i>, v. 33, nº 2, p. 251-267. 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Batterman, R. W. "Emergence,  singularities, and symmetry breaking". <i>Foundations  of Physics</i>, v. 41, nº 6,  p. 1031-1050. 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Kronfeld, A. S. "The weight of the  world is quantum chromodynamics". <i>Science</i>, v. 322, nº 5905, p. 1198-1199.  2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Anderson, P. W. "More is different". <i>Science</i>, v. 177, nº 4047, p. 393- 396. 1972.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Braun-Munzinger P.; Stachel, J. "The  quest for the quark-gluon plasma", <i>Nature</i>, v. 448, pp. 302-309. 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Bloch, I.;  Zoller, P. "Ultracold atoms and molecules in optical lattices", In: Levin, K.; Fetter, A. L.;  Stamper-Kurn, D. M. (Eds.). <i>Ultracold  bosonicand  fermionic gases</i>.  Elsevier, v. 5, cap. 5, p. 121-156. 2012</font> ]]></body><back>
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